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02 novembro, 2012

Capítulo 30


Contei a ela sobre as visões e ela ficou eufórica como eu. A cara dela quando comecei dizendo que tinha trazido minhas coisas foi de “Nossa sério que grande novidade essa, conta outra”. Foi engraçado. Tivemos uma grande ideia: testar aquilo de fazer o outro esquecer, como fiz com a Felicity, para que eu pudesse me alimentar gradativamente das pessoas e fazê— las esquecer. Todos ficariam bem no final. Deu certo nos treinos, mas não sei se me sairia tão bem na prática, por isso depois das compras que fizemos para o apartamento eu fui me alimentar.
Cheguei a uma boate clandestina, onde ficavam pessoas não muito agradáveis para não dizer marginais e prostitutas de baixo escalão. O meu maior risco seria morrer, mas como não era possível seria fácil. Entrei, sentei no balcão e pedi uma dose de whisky. O barman me olhou como se eu fosse um lixo e me serviu rudemente. Era um cara alto, careca, corpulento, usava uma camiseta branca sem mangas, uma calça jeans e tinha piercings e alargadores pelas orelhas fora a tatuagem em forma de dragão que tinha nas costas subindo pela cabeça e que ia até só ele sabe onde. Olhei o lugar e vi as prostitutas me observando e se alisando vulgarmente. Uma que devia ter uns vinte e cinco anos mais ou menos, olhos castanhos, olhar vulgar, cansado e malicioso, cabelo castanho longo e solto com uma franja avermelhada, bota preta até o joelho, vestia blusa decotada, apertada e curta com desenho de uma rosa que evidenciava seus fartos seios e cintura fina; usava ainda saia curtíssima preta de couro e tinha brincos e tatuagens. Pensei que seria perfeita: ficaria envolvida e era jovem, se recuperaria rapidamente. Ela se aproximou caminhando sensualmente e me olhando desafiadora.
— Está sozinho não é?
— Sim. O que você sugere para mudar isso?
— Sugiro a mim.
— Boa sugestão.
— Quer beber?
— Não, você quer?
— Sim.
— Whisky?
— Perfeito. – Ela virou a dose de uma só vez, mas não se alterou.
— E agora?
— Podemos fazer o que você quiser.
— Vamos sair daqui.
Saímos e fomos para os fundos da boate que dava para uma rua de oficinas. Estava deserto. Na verdade para qualquer outra pessoa seria perigoso estar aqui.
— Você tem grana gato? – Puxei uma nota do bolso e dei a ela que começou a beijar meu pescoço.
— Que marca é essa?
— Um pequeno acidente.
Puxei— a para mais perto para sentir sua pulsação e o cheiro do seu sangue. Meu olfato estava ficando mais apurado com o tempo. Fora o forte cheiro de gasolina, urina e sujeira em geral do lugar havia o dela: perfume adocicado barato, cigarro, bebida e de outros homens. Seu sangue cheirava a álcool, mas das outras vezes foram assim então não seria novidade. Como seria um sangue puro como o da Cha...
Nem terminei o pensamento. Já era difícil o bastante ter que deixá— la lá vulnerável e agora pensar que eu a poria em risco me fez agir mais rapidamente com a mulher.
— Qual o seu nome?
— Angelique.
— Então Angelique vamos direto ao ponto.
— Como você quiser querido.
Puxei— a para mim pela cintura e ela começou a alisar meu peito. Peguei— a pelo cabelo e virei sua cabeça para o lado beijando e mordiscando seu pescoço até que senti minhas presas aparecerem. Finalmente, achei que nunca sentiria nada. Talvez fosse algo que precisasse controlar também. Mordi— a o mais delicadamente que pude e ela reclamou. Comecei a sugar seu sangue enquanto ela me beijava no pescoço. Vi toda essa noite: ela saiu com vários caras, alguns a bateram, outros a trouxeram para esse mesmo lugar.
Vi também o que parecia sua casa. Era um quarto e sala. Havia umas toalhinhas penduradas, uma divisória, uma cama de casal e fotos dela com outra garota parecida com ela. Vi isso através dos seus olhos. Era como se estivesse no corpo dela. A Angelique foi entrando e observando tudo isso. Estava cansada, deprimida e chorava. Olhou a foto e foi para a cama. Ela ficou leve nos meus braços, foi cedendo até que percebi que era hora de parar. Apertei os dois furos que fiz para estancar o sangue e limpei o local com o dorso da mão. Não mordi na veia, pois poderia matá— la. Escolhi um lugar menos perigoso. Ela parou de me beijar e me olhou confusa.
— Seus olhos...
Olhei no fundo dos olhos turvos dela e a encarei. Ela me olhou fixamente nesse momento e permaneceu assim.
— Angelique, o que está vendo? —  Ela me olhou confusa e tonta.
— O que?
— O que você vê em mim?
— Olhos... brancos, sangue.
— Não querida. Você está tonta e iludida. Está cansada, precisa de sossego não é verdade?
— Sim. Você pode me ajudar?
— Sim posso. O que quer que eu faça?
— Liga para minha casa... preciso dormir.
Ela cedia cada vez mais e já não se segurava nas próprias pernas. Estava com seu peso todo apoiado nos meus braços.
— Tenho um número... na blusa... liga para minha irmã. Por favor?
— Claro que sim!
Senti— me comovido com ela. Estava desfalecendo. Nessa situação (ou com uma pessoa normal) era praticamente impossível ouvir sua voz.
Peguei rapidamente o número e a apoiei contra meu peito. Liguei e uma garota atendeu.
— Você conhece Angelique?
— Sim, é minha irmã o que aconteceu?
— Ela precisa de ajuda. Está numa boate...
— Sei qual é. O que houve?
— Está fraca, precisa descansar.
— Você é cliente?
— Sim e não.
— Tudo bem. Vou passar para pegá— la. Não precisa se preocupar.
— Vou ficar com ela até você chegar.
— Tudo bem. É só um minuto.
Segurei— a nos braços e esperei lá até que a irmã dela chegou. Era a garota da foto que ela olhou e eram ainda mais parecidas pessoalmente. Ela estava num táxi e saiu pedindo que ele esperasse.
— Muito obrigada. Nem sei como agradecer.
— Não precisa só cuida dela.
— Muito obrigada.
— Já disse que não precisa. Vai. Ela está precisando de atenção.
A pus no táxi e a irmã dela me deu um abraço de agradecimento. Foram embora e esperei sinceramente que ficasse tudo bem. Segui para casa muito triste. Ela me ajudou e não pude fazer nada por ela. Derramei algumas lágrimas pelo caminho. Quando cheguei era mais ou menos onze e meia e a Charlie estava me esperando. Quando a vi lá, inocente, pura, amorosa e tão companheira pensei na Angelique e em tudo que ela não teve ou perdeu. Foi doloroso vê— la naquele estado. A Charlie correu para me abraçar. Fomos andando abraçados até o sofá e, deitado no colo dela, a Charlie afagava meu cabelo.
— Deu algo errado?
— Mais ou menos.
— Ele morreu?
— Não era ele era uma garota.
— A sim. – Ela ficou desapontada, mas tentou disfarçar e quase conseguiu, mas conhecia seu olhar e o que se passava por trás dele.
— Ela era jovem, mas estava muito fraca. Trabalhou muito hoje.
— O que ela faz?
— Charlie!
— Tudo bem já entendi. Mas o que aconteceu?
— Ela desfaleceu e foi mais fácil fazê— la esquecer. Pediu que eu a ajudasse então liguei para a irmã dela que a buscou na boate.
— Ficou tudo bem porque está tão triste?
— Porque ela me alimentou e não pude fazer nada por ela que precisava tanto.
— Não é bem assim. Você fez o que pôde ela ficará bem.
— Eu vi a casa dela quando a mordi, era bonita, mas ela não combinava muito bem com o cenário: estava triste, deprimida.
— Não podemos resolver todos os problemas de todas as pessoas. A irmã cuidara dela e ficará tudo bem.
Levantei do colo dela e a beijei na testa carinhosamente. Ela me abraçou e a pus no colo como uma pequena criança. Ficamos trocando carinhos até tarde quando ela finalmente dormiu. Levantei— a e a pus na cama carinhosamente. Estava sentado na cama encostado a cabeceira e ela de lado virada para mim encostada em minha barriga. Fazia frio então a cobri com outro lençol e fui tomar um banho. Ela podia não ter percebido, mas estava com cheiro da Angelique. Lembraria dela o suficiente, não era preciso ter o seu cheiro em mim. Como já era de praxe toquei minha marca e tive outra visão. Ficava cada vez mais fácil obtê— las.
Eu estava preso pelas mãos e pés na parede lateral direita do galpão e estava desesperado: gritava muito e sentia uma forte dor de cabeça, o que era estranho, pois ultimamente não sentia dores tão facilmente. A Verônica se aproximava de mim lenta e gradualmente com um alfanje na mão. Vestia um macacão de couro preto com decote bem delineado na frente, usava um bota que ia até a panturrilha e um salto médio quadrado diferente do que ela normalmente usava. Ela me olhava com certo desprezo enquanto fazia ameaças que não conseguia compreender bem. Ela me apontava o alfanje e continuava falando, nesse momento a Brianna chegou, seu olhar era vigoroso e ameaçador me lembrava um lobo pronto para a caça, ela vestia uma calça também de couro, uma blusa branca de mangas e um espartilho vermelho por cima. Elas começaram a discutir e nesse momento a minha visão acabou, não pude ver mais nada. Tentei por várias vezes, mas nada mais me veio. Voltei para a cama e fiquei pensando na visão enquanto via a Charlie dormir.

***

Nossos dias já haviam virado rotina: despedíamo— nos pela manhã e ela ia para a escola. Chegava de tarde e cozinhávamos juntos para ela que comia e fazia as lições. Depois víamos TV, jogávamos algo e namorávamos no sofá. Ela dormia e quase todas – não, todas – as noites dormíamos juntos, quero dizer: ela dormia abraçada a mim e eu ficava acordado vendo— a dormir. Era muito bom viver essa vida de “casados” apesar de continuarmos só como namorados, sem nada a mais. Tê— la ao meu lado já era suficiente para me fazer feliz no momento.
Estava chegando o feriado e como não havia sinais de perseguição da Verônica começamos a planejar o que faríamos para nos divertir e tentar esquecê— la. Planejamos uma pequena viagem para Blackpool. Havia um parque fantástico lá que eu adorava quando era criança. A Charlie ficou louca quando contei então pediu que a levasse. Decidimos que esse seria nossa comemoração – ou parte dela.
— Não vejo a hora de voltar logo.
— Nem eu. Estou ansioso para o feriado.
— Para o feriado ou para o seu aniversário?
— Para ambos.
— Mas hoje é quinta— feira. Teremos quatro dias e meio para comemorar.  Deixe— me ir agora assim o tempo passa mais rápido.
Beijamo— nos e ela se foi. Enquanto a Charlie estava na escola achei melhor dar uma arrumada na sua casa, afinal ela não se preocupava muito com isso. Comecei pela sala onde as almofadas estavam espalhadas pelo tapete. Depois fui para a cozinha onde as coisas estavam piores. Ela havia deixado a louça do café da manhã suja na pia, dizendo que limparia quando voltasse da escola. Como sabia que estaria cansada para isso resolvi fazer em seu lugar afinal não tinha nada que fazer.
Arrumei o seu quarto e o banheiro, pena que isso não durou muito tempo. Quando terminei ainda não havia chegado nem perto da hora em que a Charlie saia da escola. Sentei— me no sofá e comecei a assistir alguns programas que passavam na TV. A campainha tocou achei estranho, pois em todo esse tempo ela não tinha recebido visita. Não podia abrir se fosse um vizinho ou algum conhecido, pois achariam estranho me encontrar lá. Olhei pelo olho mágico e vi alguém que desejava ver a algum tempo. A Charlie me pediu diversas vezes que eu não fizesse nada, mas era impossível vê— la tão perto e ficar imóvel. Ela acabou com minha vida e o pior, mexeu com a única pessoa no mundo que não lhe era permitida, logo ela pagaria um preço à altura do dano que causou.
— Ora, ora veja quem me deu o ar da graça.
— Não seja irônico meu querido eu sei que você não está muito alegre comigo. Mas também sei que você queria muito me ver.
Sua voz me irritava de tal forma que não aguentei: levantei— a pelo pescoço e a empurrei contra a parede ficando bem próximo a ela e falando o mais irônico que consegui.
— Meu amor, como você adivinhou? Estava louco para conversar com você. Queria reforçar um recado: já te disse uma vez e esperava não ter que repetir, mas infelizmente minha querida você me desobedeceu então terei que fazer algo a respeito.
Joguei— a no chão e ela começou a rir. Minha ira cresceu mais ainda com essa atitude então a levantei puxando pelo cabelo e a pus de frente para meu rosto ao pé que ela continuava rindo.
— Do que está rindo?
— Da sua infantilidade.
— Sério? E como você caracteriza sua atitude?
— Como sábia. Agora que eu já sei a sua motivação vou usá— la contra você.
Ela bateu seu antebraço com força no meu braço desviando— se das minhas mãos e pulou sobre o sofá. Seus olhos estavam brancos e suas presas expostas num sorriso muito perigoso. Ela rosnou e franziu o cenho antes de pular sobre mim e me jogar no chão. Agiu tão rapidamente que não tive como reagir: ela cravou suas unhas nos meus deltoides e rasgou minha pele até os meus pulsos. Chiei de dor e senti minha visão mais clara o que significava que os meus olhos estavam brancos. Mordi o lábio e senti gosto de sangue: minhas presas estavam expostas. Ela arranhou meu peito rasgando minha camisa e arrancando minha pele. Nunca imaginei que ela fosse tão forte. Para terminar cravou os dentes no meu pescoço e sugou me fazendo ficar tonto, fraco e finalmente inconsciente.

Nana&Karol

Capítulo 29


Falei com minha mãe que ficou histérica comigo. Disse que viria até aqui para me buscar, que eu não ficaria hospitalizada aqui sozinha e tudo mais. Acalmei— a e fiz o Caine se passar por médico para convencê— la de que estava tudo bem. Ela se convenceu afinal a lábia dele era ótima. Ele era irresistível em todos os sentidos. Liguei para as meninas e falamos mais sobre o assunto só que na íntegra. Tive alta e já em casa fiquei com o Caine rodeada de amor e cuidados. Conversamos sobre as visões dele e ele conseguiu ver até a parte em que estava no quarto da Verônica. Cara quando ele disse que perdeu a visão porque ela foi para cima dele quase enlouqueci. Na verdade ele não disse, mas eu sabia. Ele deve ter olhado para ela em vez de se concentrar no fato em si e perdeu o foco. Droga. O sangue me subiu à cabeça e tive vontade de bater nele, mas me contive. Já havíamos brigado antes e não tinha sido nada bom.
Pela manhã fui para a escola e lá foi tudo como sempre: legal, divertido e por um momento até esqueci que tinha certos problemas e o Caine como solução de todos eles. Prestei bastante atenção às aulas e no final falei com a Lorenna.
— Como está se sentindo querida?
— Bem. Não tive problemas. Preciso contar uma novidade. O Caine teve uma visão nova, dessa vez provocada.
— Não entendi.
— Ele fez algum esforço para se lembrar e quando tocou a marca da mordida no pescoço conseguiu se ver num jantar com várias pessoas e depois discutindo com a Verônica. Ela estava seduzindo ele quando o Caine perdeu a visão. Tenho certeza que estava focando nela ao invés da situação.
— Mas já foi alguma coisa. Não se prenda a esse mero detalhe. Quero que diga ao Caine que esses dias não poderei vê— lo, pois não tenho mais o que inventar para o Rich. Preciso dar um tempo.
— Tudo bem eu digo. Estou indo para a parada do ônibus ele já deve estar me esperando. Se me atrasar é capaz dele vir aqui. Tchau.
— Tchau querida, mande um beijo para ele.
— Pode deixar.
Encontrei— o eufórico no ponto. Quando me viu veio rápido na minha direção e me deu um abraço forte e um beijo. Fiquei tonta com a surpresa.
— Tenho novidades.
— Conta.
— Em casa, vamos.
— Ah Caine diz logo.
— Não seja precipitada.
Pegamos o ônibus e ele fez suspense sobre o que era quase me matando de ansiedade. Só falou quando chegamos em casa. Ele entrou na minha frente e fechou a porta quando passei. Mandou que sentasse e ficou andando e se mexendo sem parar.
— Trouxe minhas coisas para cá.
— Que bom! Que novidade legal. – Coitado, não quis desapontá— lo, mas era só isso? Para que tanta euforia se ele já estava aqui?
— Não é só isso. – Parecia ter lido minha mente. Quase ri com a expressão dele. —  Consegui outra visão. Sei o que aconteceu agora.
Gritei subindo no sofá e pulei em cima dele. Ele me segurou no ar e me rodou várias vezes. Quando me pôs no chão comecei a pular eufórica e a perguntar descontroladamente o que houve. Isso sim era uma boa novidade.
— Estava no banho e fiz o de sempre: pus a mão na marca e me concentrei. Depois vi o jantar e como se pudesse adiantar a visão fui parar no quarto. Ela arranhou o próprio pescoço, me mordeu e me fez beber seu sangue acidentalmente. Precisa haver troca de sangue para a mudança.
— Mas isso não garante que tenha que ser assim. Ela pode ser apenas uma louca masoquista e nojenta vampira.
— Mas não foi só isso. O homem que falei que estava na mesa é pai dela e ele a perguntou se havia ocorrido troca de sangue. Ela estava nervosa, confusa e quando disse que sim ele quase explodiu de raiva. Se ela houvesse apenas me mordido não haveria problema. Senti um formigamento, um incômodo, mas dor e queimação só depois da troca de sangue. Esse é o segredo. E fora que eu fiz a Felicity esquecer meus olhos. Só preciso treinar essa parte de esquecer para me alimentar sem machucar as pessoas.
— Que bom Caine. Podemos treinar comigo. Você diz algo e tenta me fazer esquecer. Podemos começar com exercícios simples e depois com coisas mais complicadas e traumáticas.
— O que você entende por traumático?
— Não sei. Como você exemplificaria?
— Isso? – E me deu um beijo de uns cinco minutos de tirar o fôlego. Quando parou eu estava ofegante.
— Isso não é traumático. É prazeroso.
— Preciso ser mais criativo nessa parte.
Sorrimos e ele me puxou com um braço só para mais perto como um dançarino de tango: postura indefectível, olhar sensual e firmeza. Beijou— me apaixonada e euforicamente e ficamos lá na nossa comemoração particular.
Algum tempo depois começamos a praticar a parte do esquecimento. Ele me disse que não me queria, que eu não era a pessoa certa e que queria terminar, depois olhou no fundo dos meus olhos e disse calmamente:
— Charlie, não foi isso que você entendeu. Não quis dizer isso, não precisa ser assim. Vamos ficar juntos tudo bem?
Senti— me muito estranha. Era como se estivesse voando através das palavras dele e tudo parecia como se estivesse com eco. Sua voz parecia grave, forte, exigente e seus olhos me pareceram tirânicos. Ficou tudo vago, distante e de repente nem sabia mais sobre o que falávamos.
— Tudo bem?
— Tudo bem o que?
— Ficaremos juntos.
— Sim eu sei. Porque está falando isso agora? Podemos começar a testar o esquecimento?
Ele me levantou e me girou me beijando.
— Já testamos. Disse que não te queria mais e que iríamos terminar depois disse que era mentira e que não era isso que queria dizer.
— Então funcionou bem, pois não lembro essa parte. Só até a hora que estávamos planejando o teste.
— Agora vou falar algo e você me responde até quando consegui. Tudo bem?
— Sim.
Sem mais nem menos ele me empurrou e começou a gritar comigo.
— Vou embora daqui. Não te suporto mais.
— Tá dá pra ser mais realista? Assim não vai funcionar.
— E porque você acha que não estou sendo realista?
— Estamos no meio do teste.
— Não estamos testando nada. Estou falando a verdade. Você me sufoca. Enche— me a paciência.
— Tudo bem está pegando pesado.
— Essa é minha intenção. – Estava começando a ficar muito real. Ele não desviava os olhos nem um segundo dos meus e nem eu dos dele. Mas eu não desviava porque seus olhos pareciam ter certo magnetismo que prendia meu olhar. Era impossível desviar por mais que estivesse vendo ele me ridicularizar. Estava a ponto de gritar com ele. Parecia real de verdade e agonizante.
— Não, não é sua intenção. – Ele se aproximou e me olhou com asco.
— Você é muito prepotente. É só mais uma garota comum com quem saí. Nada, além disso.
Sabia que estava fingindo, mas essa certeza foi sendo substituída gradativamente por dúvida depois desconfiança e logo certeza de que ele falava sério. Ele continuou gritando comigo e eu estava piamente crente de que não valia nada para ele. Por vezes alguns flashes tentavam me dizer que era algo além daquilo, mas não entendia o que. Sabe quando você precisa lembrar algo, mas não sabe o que é e isso fica martelando sua cabeça como se dissesse “Lembre, lembre!”? Era assim que me sentia além da agonia crescente e espécie de sufocamento. Levei a mão à garganta e massageei em meio à minha confusão. Estava realmente convencida de que ele não me suportava quando ele me olhou mais profundamente e disse:
— Eu te amo. Preciso de você e nada disso foi verdade. Foi algo além da realidade. —  Também tinha essa impressão, mas porque motivo isso precisava ser feito? – Estamos bem e ficaremos assim, juntos, felizes. Amamo— nos e ninguém interferirá.
Senti algo estranho. A sensação de que precisava lembrar algo sumiu assim como tudo que estava na minha cabeça. Voltei ao ponto inicial. Ainda me perguntava por que diabos ele não começava logo esse bendito teste.
— O que aconteceu?
— Você está me enrolando. Porque não começa logo esse teste.
Ele me girou de novo e riu.
— Você fica me girando e não diz nada. O que houve?
— Falei coisas mais traumáticas tipo “Você é apenas mais uma”, “Acha que conseguiria me prender por muito tempo?” e outras e pelo seu olhar funcionou. Estava revoltada e quase chorando. Desculpa foi necessário.
Senti como se algo estivesse pesado dentro de mim, como me sentia quando era pequena e minha mãe brigava comigo por eu ter arrancado as flores dela ou quebrado um de seus caros e lindos arranjos. Sentia— me assim também quando ficava de castigo ou quando perdia algo. Senti mais ou menos assim quando o Pietro me traiu e descobri. Ainda estava me recuperando e respirava com incômodo.
— Por que me sinto assim?
— Deve ter sido por causa do que falei. Não foi agradável.
— Mas não me lembro de nada. Nada mesmo.
— Essa era a intenção. Nunca diria tudo aquilo se você tivesse que ficar se lembrando depois, pois nada foi verdade.
— Tudo bem só não faz de novo. Estou me sentindo mal, triste. Não sei bem porque, mas estou.
— Não se preocupe. Não vou mais me testar com você.
Ele me abraçou forte e a sensação de tristeza passou um pouco. Estava mais reconfortada com seus braços ao meu redor e isso me fez ter a certeza de que tudo ficaria bem novamente.
Pouco depois jantei. Ele havia feito uma comida estranha, mas ficou legal. O gosto estava bom e nem perguntei o que era para não quebrar o encanto.
— Precisamos fazer compras.
— Sério?
— Sim. Há quanto tempo não compra comida?
— Só comprei uma vez desde que cheguei.
— Está explicado porque sua cozinha está vazia. Se quiser podemos ir agora.
— Não será perigoso?
— Será perigoso sair a qualquer hora. Não podemos evitar então...
— Vamos.
Saímos e fomos ao mercado que fui da oura vez. Era por volta das sete quando chegamos. Pegamos um carrinho de compras e ele me arrastou junto com o carrinho, pois estava em pé na parte traseira como uma criança entusiasmada.
— O que você quer?
— Comida instantânea, biscoitos, sucos, coisas assim.
— Nada disso. Precisa comer direito, se estiver com preguiça cozinho para você.
Olhei— o cautelosamente e senti pena dele. Sua comida era horrenda, mas só pela disposição dele de me ajudar faria um esforçozinho alguns dias por semana. E depois sempre poderia comer fora.
— Tudo bem. Pega macarrão.
— E produtos de limpeza?
— Calma Caine, estamos na comida ainda. Pega leite, esses temperos aí parecem legais. Quem sabe sua comida fica com um gosto diferente.
— Quer dizer que minha comida é ruim?
— Não. Quero dizer que não tem gosto de nada que eu conheça.
Rimos muito e fomos pegando várias coisas. Na sessão de limpeza pegamos produtos que nem precisávamos muito, mas eram legais e cheirosos então ele, que tinha mania de limpeza, foi pegando as coisas com a desculpa de que “Poderemos precisar para limpar isso ou aquilo”. Fomos para o caixa, paguei as compras e pegamos um táxi. Chegamos em casa por volta das nove e meia então arrumamos tudo. Lá pelas dez eu estava saindo do banho quando ele chegou ao quarto e falou encabulado.
— Charlie queria sua opinião para algo.
— O que?
— Acha que devo sair para me alimentar hoje?
— Está com fome?
— Sim, mas...
— Vai. Não será bom passar tanto tempo sem se alimentar. Quanto mais tempo maior a quantidade que precisará então será mais perigoso para a pessoa.
— Você tem razão. Não queria precisar disso tudo. Desculpe.
— Não precisa se desculpar. Desde sempre soube quem você era e nem por isso deixei de gostar de você. Não te condeno nem te julgo e a partir do momento que fizer isso pode ir embora. Não te mereço mais.
— Obrigado. Eu que não mereço alguém como você. Nunca pensei que me apaixonaria tanto por alguém que não conhecia.
— Mas me conhece.
— Hoje sim, mas não naquele dia em que entrou no café. Apaixonei— me por você no momento em que te vi e será assim por todo o sempre.
Beijamo— nos e nos abraçamos forte então ele saiu para se alimentar. Só esperava que tudo desse certo. Seria desastroso se não saísse como o planejado.

Nana&Karol

Capítulo 28


Não a deixei falar mais nada. Saí correndo e fui ao hospital o mais rápido que pude. Cheguei e a vi lá deitada. Ela chorou despedaçando meu coração. Abracei— a com amor e me desculpei. Como sempre bondosa e altruísta acenou negativamente insinuando que não precisa me desculpar. Quando prometi ir atrás da Verônica ela insistiu veemente que não. Deixei para resolvermos quando ela pudesse falar.
— Queridos, preciso ir agora, está tarde. Amanhã volto para te visitar Charlie. Se precisarem de algo me liguem. Pode me acompanhar Caine?
— Claro. – Logo que saímos do quarto ela começou a falar.
— Caine, acho que é melhor você ficar com isso. – Ela me ofereceu um pequeno bolo de dinheiro.
— Não posso aceitar mãe.
— Aí tem umas £300 vai dar para você passar um bom tempo.
— Não posso viver de mesada.
— E se você estivesse em casa ia viver de que?
— Mãe...
— Caine toma meu celular e se precisar me liga no outro número. Vou mandar algumas roupas suas que ficaram em casa para o galpão. Não quero mais discussões sobre esse assunto, até mais.
Quando minha mãe foi embora e fiquei lá com ela, entre carinhos, beijos, abraços e atenções das quais ela precisava. Pela manhã antes dela acordar saí e comprei uma flor para ela. Quando voltei estava acordada e podia falar. Discutimos sobre a Verônica, mas ficou tudo bem. Agora ela teria que explicar à mãe o que aconteceu.
— Mãe, preciso contar uma coisa. Sofri um pequeno acidente... Não mãe não quebrei nada. Estava atravessando a rua em frente a um parque e não vi uma bicicleta. O garoto bateu em mim, mas nem cai, apenas bati num poste... Sim, estou no hospital em observação e saio ainda hoje... Para que mãe? Não vou pagar esse mico. – Escutei um grito de “Agora!” – Doutor ela quer falar com você. – E sussurrando tapando o fone – Fala alguma coisa. Fala logo se não ela vem até aqui. Rápido Caine. – Peguei o telefone desnorteado. Não sabia o que dizer.
— Alô? Sim Sra. Camarillo ela está bem. Meu nome? Dr. John Simpson. Ela sofreu algumas escoriações no braço esquerdo na altura do deltóide, nas pernas perto do joelho e no pescoço. Disse que bateu no poste quando caiu. Está bem, alguns curativos um analgésico se por acaso ela sentir dor e tudo voltará ao normal. De nada Sra. Camarillo ao seu dispor. Ela quer falar com você.
— Está satisfeita mãe? Estou indo para casa... Sim vou comprar o remédio e ficar em casa descansando. Amanhã estarei nova em folha e irei para a escola normalmente. Não quero perder aula por causa de um arranhãozinho bobo... Também te amo mãe e se precisar de algo ligo tudo bem? Até mais. Nossa ela ficou louca. Disse que se não a deixasse falar com o medico responsável ela viria aqui ou mandaria os Guimarães virem me ver que loucura!
— Tem noção de que menti para sua mãe?
— Se saiu muito bem por sinal.
— Charlotte!
— O que preferia? Que eu contasse que sua ex— namorada vampira quase me esganou?
— Claro que não.
— Então relaxa. Vou contar às meninas. A elas posso falar a verdade.
— Tudo bem.
Sabia que ela estava louca para contar a elas. Só não falou antes porque não podia falar. Ligou falou com uma de cada vez, cruzaram a linha e ela pôs no viva voz.
— Alô meninas?
— Sim, estamos aqui.
— Falem em inglês. Estou ligando do hospital.
— O que?
— O que houve?
— A ex— namorada do Caine me atacou. Quase me esganou.
— O que? De onde ela surgiu? Das trevas?
— Pode— se dizer que sim.
— Caine?
— Sim. De onde ela veio?
— Apareceu na minha casa dizendo que queria voltar e que eu tinha sido selecionado para ficar ao lado do clã dela.
— O que? Que louca.
— Por que justo você foi selecionado?
— Segundo ela por causa das minhas visões.
— Visões?
— Sim. Tenho algumas visões de passado e futuro e descobri ontem que de presente também.
— Foi isso que nos salvou.
— Como são essas visões?
— As tenho de repente, mas principalmente quando toco a marca da mordida que me transformou. São flashes claros e bem reais de coisas que aconteceram, vão acontecer ou estão ocorrendo no momento. A Verônica quer usar esse dom numa disputa com outro clã liderado por uma vampira qual o nome dela mesmo?
— Brianna Comte.
— Isso. Brianna Comte.
— Nossa parece nome de guerra.
— Como assim?
— Nada esquece.
— Sim, elas disputam algo e querem me usar como oráculo. Não vou servir de bola de cristal para ninguém.
— Isso mesmo Caine, manda as duas para...
— Bom gente. Precisamos ir não é mesmo Glorinha?
— É gente, desculpa. E você precisa descansar Char. Depois nos falamos.
— Até mais Caine.
— Até Julie, até Anne.
— Até. Beijos Char.
Desligaram e logo em seguida o médico de verdade entrou.
—  Bom Srtª. Camarillo analisei seus exames, mas não houve nada de grave. Queria conversar sobre o que aconteceu. Como tudo ocorreu?
— O Caine me deixou em casa e foi embora. Jantei e estava vendo TV quando a campainha tocou. Abri e um homem entrou querendo assaltar minha casa. Disse que sabia que eu era estrangeira pelo sotaque e que estrangeiros não são bem— vindos. Disse que não daria nada então ele me agarrou pelo pescoço. Caí no chão e comecei a tossir e gritar então ele saiu correndo do apartamento assustado eu acho.
— Quando estava perto de casa vi que não estava com minha chave. Voltei para procurar e a porta estava aberta. Entrei e a vi no chão.
— Você quer dar queixa, precisa que chame a polícia aqui?
— Não! Não precisa. Meus pais ficariam loucos no Brasil. Não é preciso. Qualquer coisa entro em contato com a polícia.
— Tudo bem. Você está de alta. Esse remédio é para dor de garganta. É um spray e vai adormecer sua garganta caso sinta ardência ou dor.
— Obrigada.
— Cuide— se.
— Estou pronta para ir. Vamos?
— Vai vestida assim? – Ela se olhou e sorriu encabulada. Estava com um camisolão de hospital.
— Preciso me trocar não é?
— Sim, seria melhor. Te espero no corredor.
— Tudo bem.
Alguns minutos depois ela saiu vestida com a roupa que estava ontem: uma calça folgada e uma blusa de mangas leve. Peguei meu casaco e vesti nela.
— Está melhor. Sentia— me melhor em sair com o camisolão.
Rimos e saímos andando. Chamei um táxi e fomos para o apartamento dela. Ela pediu que eu esperasse, foi ao quarto e se trocou. Esperei sentado no sofá e quando ela voltou trouxe um lençol se sentou ao meu lado com as pernas em cima do assento e se encolheu em meu peito nos enrolando com o lençol e segurando minha camisa. Começou a derramar algumas lágrimas.
— Você está bem?
— Sim só estou assustada. Amanhã tenho aula, mas não queria me separar de você.
—  Eu sei que será difícil se acostumar, mas ficará tudo bem. Não vou te deixar. Você irá com a Carly para a escola como sempre e te pegarei na parada do ônibus. Não é bom que saia muito.
— Não pretendo. Se você ficar aqui comigo não terei porque sair.
— Tudo bem. Ficarei, mas temos que nos cuidar para que ninguém me veja. Não será bom você manter um homem na sua casa.
— Não será bom para quem?
Ela riu maliciosamente e me beijou. Ficamos assim por algum tempo e conversamos sobre coisas amenas, nada que envolvesse a Verônica ou a Brianna. A mãe dela ligou novamente.
— Estou bem mamãe. Também te amo e sei que só quer meu bem, mas não precisa tanto desespero, falou com o Dr. Stuart e... O que? Sim claro Dr. Simpson, e está tudo bem... Sim já comprei o remédio. Estou deitada na cama... Sim, estou bem para ir ao colégio não se preocupe. Até mais. Manda um beijo para o papai. Ok. Tchau.
— Tudo bem?
— Sim. Ei, quando teremos um feriado?
— Em breve. Terá a sexta— feira Santa e a segunda de Páscoa.
— Então terei quatro dias de folga?
— Teoricamente sim.
— Por que teoricamente?
— Acha que te deixarei ter folga justo no dia do meu aniversário?
— O que? Quando?
— Na sexta— feira.
— Porque não me disse antes?
— Não havia necessidade. Disse agora, pois estou pensando na minha comemoração.
— Sério? E como você pretende comemorar?
— Prefere que eu diga ou que eu mostre?
— Fica ao seu critério.
Puxei— a para mais perto e a beijei que respondeu da mesma forma apaixonada. Beijávamo— nos cada vez mais e mais apaixonadamente. Agi faminto quase devorando seus lábios. Ela parou de repente.
— Há quanto tempo você não se alimenta?
— O que? – Não era um assunto muito agradável naquele momento.
— Há quanto tempo?
— Não sei, uns quatro eu acho.
— Não está na hora?
— Sim, mas não sei onde arranjar alimento.
— O que faremos?
— O que eu farei? Não sei, só não quero que se preocupe com isso.
— Como não me preocupar?
— Só deixe para lá.
— Tive uma ideia.
— Lá vem você com suas idéias.
— Sério escuta. Você precisa matar para se alimentar?
— Não sei nunca testei. As vezes que bebi foi todo o sangue então não sei se se eu deixar sangue as pessoas ficarão vivas.
— Quer tentar...
— Não! Que ideia é essa?
— Espera, não terminei. Não ia dizer para você me morder. Ia dizer para você tentar ver algo da sua mudança. Concentre— se, talvez funcione. Se fosse algo tão variável assim e independente da sua vontade aquela nojenta não quereria te recrutar.
— Você tem razão deve ser algo que possa controlar com prática.
— Então tenta.
Toquei a marca e não aconteceu nada então comecei a me esforçar para me lembrar do que fiz depois que saí de casa. Minhas lembranças me levavam para uma rua e só. Não passava daí.
— Não dá, não lembro.
— Calma Caine. Foco!
Toquei a marca de novo e fiquei tentando me lembrar, me esforçando. Não vinha nada, não lembrava nada até que quando estava para desistir vi flashes de um jantar, com várias pessoas ao redor da mesa em um brinde. Tirei a mão e perdi a visão.
— Eu vi! Havia uma mesa com várias pessoas. Reconheci a Verônica e vi um homem aparentemente jovem à cabeceira da mesa puxando um brinde. Todos me olhavam. Foi muito real.
— Com certeza. Seus olhos estão brancos. Quer tentar de novo?
— Sim claro.
Pus a mão no pescoço e fiz mais força focando no que tinha acabado de ver. Tudo passava como um filme mudo e meio rápido, mas as coisas eram bem claras, não havia margem para dúvidas. Vi a mim e a Verônica subindo uma escadaria e indo para um lugar... um quarto. Era o quarto que havia visto antes nos outros flashes, todo vermelho. Discuti com a Verônica e ela se aproximou envolvente. Beijamo— nos e acabamos na cama com ela de lingerie sobre mim. Droga! Perdi a visão.
— Perdi de novo.
— O que você viu. – Estava sem jeito de contar. – Conta Caine seja lá o que foi.
— Nós estávamos num quarto discutindo. O quarto que vi das outras vezes. Ela veio para cima de mim...
— E te mordeu?
— Isso ainda não.
— Mas você disse que não...
— Não até aquela noite. Não sei o que houve naquele dia. Nem sabia que as coisas tinham chegado até aquele ponto.
— Tá, não quero falar sobre isso. O que mais importante que isso você viu?
— Nada.
— Para onde estava olhando?
O que? Como ela sabia? Mulheres são terríveis quando querem ser. Fiquei desconcertado, mas tentei esconder minha vergonha.
— Para lugar nenhum.
— Mentira. Precisa ver sua cara. Estava olhando para ela.
— Charlie para.
— Tudo bem não vou brigar com você por causa dela dessa vez. Ela já se meteu demais onde não devia.
— Também acho.
— Você não tem que achar nada.
— Como você quiser.
Abracei— a e ela ainda estava irritada. Falei ao seu ouvido.
— Só acho o que você quiser.
Ela riu e ficamos lá tentando ver mais alguma coisa, mas nada. Ela foi dormir tarde apesar dos meus apelos. Pela manhã deu trabalho para levantar como eu já dei muitas vezes à minha mãe.
— Charlie acorda. A escola.
— Só mais um pouco Caine que saco.
— Não, acorda. Você disse isso há dez minutos. Vamos, anda.
— Que chateação. – Ela se levantou com raiva e bateu a porta do banheiro quando entrou. Fui para a porta do banheiro e falei mais alto para que ela pudesse ouvir.
— Você sabe que precisa ir.
— Sei, mas estou com sono.
— A culpa é sua. Te disse para ir dormir, mas preferiu ficar conversando.
— Tá Caine. A culpa é minha. – Ela falou meio irônica, meio chateada.
— Seu café está pronto.
— Não estou com fome.
— Sabe que precisa comer. Não queimei tudo para agora ter que jogar fora. Vai ter que comer.
Ela saiu do banheiro ainda irritada e quando chegou à cozinha começou a rir descontroladamente. Está certo que queimei o pão e o café parecia horrível, mas não precisava humilhar. Fiz cara de decepção fingida e ela ficou pesarosa.
— Desculpa Caine, mas não pude controlar.
— Tudo bem, quer se desculpar?
— Sim.
— Come então.
— Quero me desculpar, não me auto— flagelar.
Rimos juntos, mas ela acabou comendo o máximo que aquele horror permitiu. Beijamo— nos e ela se foi com a Carly. Passei o dia sem fazer nada de um lado para o outro, vendo TV, fazendo algo para comer para quando ela voltasse e decidi tentar mais algo sobre as visões. Fui tomar um banho e quando toquei a marca dessa vez foi mais fácil. Vi o jantar e tentei focar no quarto. Foi como um filme que é adiantado por capítulos. De repente nos vi no quarto. Beijávamo— nos e ela estava me seduzindo. Beijava meu pescoço faminta e quando menos esperei senti algo incômodo, dolorido. Ela me fez beijar seu pescoço e senti gosto de sangue: ela havia cortado sua nuca e quando senti o sangue na minha boca as coisas pioraram. A mordida queimava muito e no auge da dor e da minha loucura o homem da cabeceira da mesa entrou brigando com ela que tinha se vestido muito rapidamente, mesmo para uma vampira. Foquei nos lábios deles como pude para tentar ler o que eles diziam. Era uma discussão... Sobre algo ser cedo... Ele perguntou se houve troca de sangue. Era isso! Precisava haver troca de sangue para a mudança. Tirei a mão do pescoço e dei um grito de alegria. Contive— me na mesma hora. Saí do banho, me vesti e fiquei consternado. Estava eufórico, louco para contar a ela o que descobri afinal a ideia foi sua. Faltava quase duas horas para ela sair e não agüentava ficar preso entre aquelas paredes. Decidi que precisava de roupas, logo fui para casa buscá— las. Quando arrumei tudo fui para a parada de ônibus esperá— la.

Nana&Karol