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02 novembro, 2012

Capítulo 27


O Caine estava arrasado, mas não tinha o direito de me tratar como uma idiota. É claro que eu sabia da dimensão do problema, mas ele estava tão transtornado que não entendeu que só quis amenizar a situação. Também estava com medo daquelas mulheres apesar de estar com muita raiva delas. Aquela nojenta da Verônica me deixou muito, muito irritada. Como ele ficou tanto tempo com ela? Quem ela pensava que era para chegar na casa do MEU namorado e achar que tinha o direito de interferir na vida dele? Ela me irritou de verdade. Se a visse na minha frente de novo a bateria tanto! Só por ter dado em cima dele e tê— lo ameaçado daquele jeito.
Estava nesse pensamento virada contra ele enraivada quando ele me abraçou pelas costas. O pior era ter quer controlar nossos encontros. Ia morrer de saudade do Caine. Não tinha nada de interessante para fazer aqui fora a escola. Nada era interessando quando ele estava longe nem mesmo Londres. Fomos para casa num clima meio tenso. Ele por causa da ameaça a nós—  principalmente por ela ter me citado—  e eu por estar com medo de ficar sem ele, por ele e por mim. Se ficássemos juntos seria melhor. Protegeríamo— nos e não ficaríamos preocupados com o que estaria acontecendo com o outro. Pena que ele não concordava comigo.
— Não vai nem entrar?
— Não. Quanto menos tempo ficarmos juntos será melhor. Preciso ir. Eu te amo muito.
— Também te amo.
Ele se foi e me deixou não por escolha, mas por imposição. Fui ao quarto, tomei um banho, penteei o meu cabelo assanhado que estava úmido quando saí pela manhã, vesti uma roupa confortável e fui comer algo. Fiz macarrão com um tempero melhor que da última vez. Não tinha nada para fazer mesmo e não precisava dormir cedo. Comi vendo TV. Passava um programa de humor, então aumentei o volume e enquanto lavava o que sujei dei boas risadas. Voltei para o sofá e quando me sentei a campainha tocou. Era ele? Levantei empolgada achando que ele tinha mudado de ideia e ficaria comigo de novo, mas quando abri a porta minha cara caiu no chão.
— Sim, em que posso ajudar? – Tentei disfarçar, mas me saí horrível.
— Sumindo das nossas vidas.
— Não estou entendendo. De quem está falando?
— Você sabe bem de quem estou falando. – Fingiria até a morte. O Caine me mandaria agir assim, por precaução.
— Não, não sei. Quem é você?
— Sou a namorada do Caine e você sabe muito bem disso. Vai dizer que já esqueceu que me viu a pouco na casa dele.
— Não saí de casa hoje.
Ela apertou os olhos, irada e entrou no meu apartamento fechando a porta. Veio caminhando na minha direção enquanto eu recuava.
— Não se faça de idiota. Sabe bem que o Caine passou a noite aqui com você – e falou “você” como se fosse cuspir no meu rosto — , vocês foram para a casa dele e enquanto você se escondia como uma ratazana covarde nós conversamos.
— Cala sua boca e sai da minha casa sua cobra. Você não tem o direito e interferir nas nossas vidas.
Droga! Falei demais. Ela também me tirou do sério. Se fosse a Glorinha já tinha partido para cima dela com certeza.
— Oh, agora sabe quem sou e de quem estou falando, sua sonsa.
— Não fala assim comigo! Como é que você vem à minha casa e entra sem ser convidada para me destratar? Não tem noção das coisas, não garota? Não se mete na minha vida nem na do Caine ou...
— Ou o que? – Ela se aproximou de mim me enfrentando. O que eu disse mesmo que faria quando a visse? Fiquei sem palavras para responder à altura.
— Sai da minha casa sua louca. Já disse para sumir. Não cansa de ser enxotada? O Caine não te quer – e falei bem devagar me deliciando com cada sílaba — , ele mesmo disse isso ou você já esqueceu? – Falei no mesmo tom irônico que ela usou quando me fez essa pergunta – Ele te expulsou de lá, da vida dele e sabe por quê? Porque só eu caibo na vida dele a partir de agora. Não tem espaço para você mesmo tendo feito o que fez. Ele não te ama, nunca amou e nem te quer agora.
Cara ela estava me olhando com uma cara de fúria que não sei como tive coragem de falar tudo isso. Estava a ponto de sufocar com essas palavras na garganta, precisa jogar tudo na cara dela. Infelizmente ela não chorou e saiu correndo como era a minha intenção, fez justamente o contrário. Veio na minha direção batendo o salto no chão com muita força e levantou a mão na altura do meu pescoço. Tentei driblar a mão dela, mas a Verônica foi mais rápida. Pôs a mão no meu pescoço e apertou com força. Fiquei sem fôlego e tossi até quando meu ar se esgotou de vez. Meus olhos lacrimejaram enquanto ela se deliciava com cena,
— Vamos ver se quando você estiver fora do meu caminho o Caine não corre de volta para mim. Ele deve ter se encantado com a brasileirinha bronzeada. Tudo que é novidade é bom, mas enjoa. E antes que você o faça enjoar eu cuido de você. Será um favor para ele. Depois ficará grato a mim.
Ela falava com cara de nojo me olhando e apertava cada vez com mais força. De repente ela me largou. Caí no chão com toda força de bruços e fiquei lá escutando coisas vagas, sem ar e quase desmaiando. Não tinha forças nem para abrir os olhos.
— Droga! O que ele faz aqui?
Ela saiu correndo pela porta e em menos de três minutos o Caine entrou correndo pela porta. Ele segurou meu rosto e tocou meu pescoço. Doeu. Chegou perto de mim, levantou e pegou o telefone.
— Alô, preciso de uma ambulância urgente. Acho que foi estrangulamento. Sim, respira, mas com dificuldade...
Sério que eu ainda respirava? Ele passou todas as informações pelo telefone e o meu endereço. Depois correu acho que na direção do quarto e voltou.
— Calma meu amor tudo ficará bem. Estou aqui e você tinha razão: não podemos nos separar. Ficarei com você até quando puder. Eu te amo te amo mais que tudo.
Estava mais tranqüila por tê— lo ao meu lado e por ela ter ido embora. Pedi a Deus intimamente para nunca nos separar. Alguns minutos depois chegaram várias pessoas. Mexeram em mim cuidadosamente, me puseram numa maca com um balão de oxigênio e fizeram alguns exames clínicos. O Caine explicou que quando chegou me encontrou no chão e ligou para alguém. Algum tempo depois a mãe dele chegou e me desceram para uma ambulância. Ela estava comigo.
— Calma querida ficará tudo bem.
Fiz todo o esforço que pude e consegui falar.
— Caine...
— O Caine não está aqui, mas logo chegará. Nós te amamos e cuidaremos de você.
Ela falava muitas palavras carinhosas comigo e me acalmava, mas eu queria o Caine. Chegamos bem rápido ao hospital e lá fizeram exames e falaram muito. Era mais confortável para mim ficar com os olhos fechados, mas sempre tive bastante noção de sons e não era difícil saber o que se passava ao meu redor mesmo sem enxergar. Depois de muito ir e vir de médicos e enfermeiros constataram que eu ficaria sem poder falar por algumas horas só para que minhas cordas vocais voltassem ao normal. Estava inflamado; deve ter sido por causa da tosse enquanto ela apertava. A Lorenna entrou no quarto quando foi autorizado.
— Você não pode falar. Precisa descansar suas cordas vocais para não prejudicar sua voz. Vou fazer umas perguntas e você responde balançando a cabeça ok?
Acenei positivamente.
— Está sentindo dor em algum lugar?
Acenei negativamente.
— Precisa de algo?
Novamente acenei negativamente.
— Quer que eu ligue para o Caine agora?
Acenei positivamente tão enfática que ela sorriu.
— Tudo bem querida já imaginava nem sei por que perguntei. Vou ligar agora mesmo. Ele deve estar totalmente aflito.
Ela pegou o celular e discou o numero que devia ser o da minha casa.
— Caine? Pode vir. Ela acordou e está bem... Ela não pode falar agora... Ela precisa descansar a voz... Não demora falando se não ela vai querer falar. Só um instante.
— Charlie? Me perdoa meu amor. Eu te amo tanto. Você está bem?
— Sim Caine, vem para cá, por favor. Preciso de você. —  Ele desligou o telefone.
— Charlie! Você não pode falar.
Olhei para ela desculpando— me e ela entendeu.
— Ele desligou?
Acenei positivamente. Ela desligou. O hospital ficava a uns dez minutos de distância da minha casa, mas em uns seis minutos ele chegou. Entrou no quarto e me olhou desesperado. Chorei e estendi a mão na direção dele. Ele veio rapidamente na minha direção segurou minha mão e me puxou levemente para um forte abraço. Não sentia dor nem nada do tipo, mas só de alívio chorei emocionadamente. Ele me abraçava cada vez mais forte e sussurrava ao meu ouvido.
— Por favor, me perdoa. Foi tudo culpa minha. Não deveria ter te deixado sozinha. – O larguei e fiz que não com a cabeça franzindo o cenho como se estivesse dizendo que a culpa não foi dele que me abraçou novamente. – Você é tudo para mim, minha vida, minha alma, meu ar. Se algo de grave tivesse acontecido eu morreria. Isso não vai ficar assim. Vou atrás dela e ela vai se arrepender de ter ido ao seu encontro, de ter voltado e interferido em nossas vidas.
Como ele sabia que tinha sido ela. Poderia ter sido um assalto. E como ele chegou tão rápido. Não tinha parado para pensar nisso até agora. Olhei— o confusa e interrogativa. Ele me olhou com um sorriso.
— Eu te vi. Vi vocês brigando e ela se aproximar de você e senti que não por um bom motivo então corri até sua casa e te achei no chão. Infelizmente ela já havia ido embora, mas não vai conseguir se esconder por muito tempo. Vou caçá— la até o inferno e fazer ela se arrepender de ter chegado perto de você.
Olhei— o assustada e fiz que não com a cabeça. Não era para ele se vingar. Não era para ele se arriscar. Precisava falar, mas quando tentei minha garganta ardeu me lembrando que era preciso repousar. Segurei firme o braço e a camisa dele, olhei no fundo dos seus olhos e acenei negativamente. Ele me olhou por uns instantes, mas desviou o olhar e me abraçou. Sabia que ele não me obedeceria e fiquei irritada com isso. Não retribui o abraço e ele me olhou novamente. Olhei para ele com um rosto chateado.
— Sei que você não quer isso, mas precisa ser assim. Se eu não for atrás dela ela virá atrás de nós. De você novamente então é melhor acabar com isso.
Olhei para a janela irritada. Depois a desobediente era eu. Que droga! Será que ele não percebia que estava zelando pelas nossas vidas, pela nossa união. Sabia óbvio, que ela viria atrás de nós, mas por enquanto não. Ela sabia que ele estava irritado com ela e não se arriscaria tanto sabendo de todo o potencial dele. Já havia feito muita bobagem até aqui e não faria mais uma por capricho. Então não havia tanta pressa para ele sair com tanta euforia trás dela e guiado pelo sentimento de vingança. Isso nunca dava certo.
— Tudo bem. Espero você melhorar para conversarmos sobre o que vamos fazer.
— Também acho que será melhor assim. Guiado pelo ódio e impulsividade você não vai conseguir nada além de se matar e eu não agüentaria isso novamente. Nós te ganhamos, eu de volta, e não queremos te perder para ela. Realmente quer dar esse gostinho à Verônica?
— Claro que não. Vocês têm razão.
— Sempre temos razão.
Ela se aproximou e nos abraçamos sorrindo. Ela afagou nossas cabeças me deu um beijo no rosto e um na testa dele.
— Preciso sair um minuto para ligar para o Richard. Ele deve estar preocupado. Saí dizendo que a filha de uma amiga estava mal e precisava de ajuda. Com licença.
Quando ela saiu ele me abraçou de novo forte e me beijou delicadamente no pescoço. Fiz cara de “deve estar horrível” ao pé que ele respondeu.
— Não está tão ruim. Terá que usar cachecol por uns dias, mas aqui isso não será problema. Ficará ainda mais linda.
Sorri para ele e me aproximei para um beijo. Ele me olhou duvidoso e respondi com um olhar tipo “não posso falar. Só falar.” Então ele me abraçou forte e me beijou apaixonadamente e ansiosamente entre sussurros de “eu te amo”. Quando nos acalmamos ele se sentou ao meu lado com uma perna em cima da maca e fiquei encostada ao seu peio descansando.
— Queridos, preciso ir agora, está tarde. Amanhã volto para te visitar Charlie. Se precisarem de algo me liguem. Pode me acompanhar Caine?
— Claro. – Ele me olhou como se pedisse licença e seguiu— a.
Ela me beijou no rosto e se foram. Pouco depois ele voltou e ficamos lá: ele falava e eu ouvia e sempre que a enfermeira estava chegando ele se levantava rapidamente e se sentava na poltrona ao lado da cama. Quando ela saia ele voltava.
— O que quer saber?
Apontei para ele e fiz um gesto que demonstrava algo pequeno. Queria saber da infância dele.
— Quer saber sobre mim quando eu era criança?
Acenei positivamente.
— Bom, eu sempre fui uma criança tranqüila. – Olhou— me irônico e riu. – dei muito trabalho à minha mãe. Já fugi de casa por brincadeira, já matei um peixinho. Uma vez derrubei a cinza da lareira no tapete novo dela. Minha mãe quase teve um infarto. Fiquei um mês sem TV. Foi um martírio para mim. Era viciado em vídeo game até os doze anos. Depois achei algo mais divertido para fazer: comecei a namorar e esqueci o vídeo game.
Bati levemente nele que gargalhou. Sorri também e fiz sinal para que continuasse.
— Não tenho muito que falar. Sempre tive muitos amigos, era bom aluno naturalmente, as pessoas gostavam de mim de verdade. Pena que perdi tudo isso agora.
Olhei— o e ele estava com um ar vago, reticente então cutuquei sua barriga e apontei para mim. Ele me olhou declarativo e me beijou.
— Realmente você é mais importante que tudo isso que citei.
Ficamos assim até que dormi. Acordei pela manhã com a enfermeira ao meu lado olhando uma ficha.
— Está tudo bem com você? Precisa de algo?
Respondi com a cabeça sim para a primeira pergunta e não para a segunda.
— Já pode falar agora meu bem. Só não exagere. Vá começando devagar. Vai doer um pouquinho, mas é normal em alguns minutos passará.
— Ainda bem. Não agüentava mais essa situação. Nunca fui boa em mímica. Sabe onde está meu acompanhante?
— Saiu quando entrei. Disse que voltava logo.
— Obrigada.
Ela sorriu e saiu. Realmente senti certa ardência na garganta e fiquei calada esperando que ele voltasse. Logo, logo ele apareceu trazendo uma florzinha na mão.
— Bom dia, dorminhoca.
— Bom dia meu amor.
— Já pode falar mesmo ou está burlando as regras?
— Estou oficialmente liberada.
— Para você. Eu te amo.
— Obrigada. Também te amo.
— Já comeu.
— Não, vai comer agora. – A enfermeira entrou na mesma hora com uma bandeja com suco, café e uma papinha com um jeito bem estranho. – É para você não engolir nada que machuque sua garganta.
— Tudo bem. – Comi tudo e a papinha estava muito boa. Era aveia com mel e alguma outra coisa que não identifiquei. Quando acabei o Caine me olhava surpreso.
— Sua cozinha é bem desfavorecida para alguém que come tanto.
— Você só me vê comendo quando estou faminta. Não como tanto assim normalmente.
— Vou fingir que acredito. Mas, deixamos algo para hoje lembra?
— Sim, mas não queria.
— O que aconteceu ontem?
— Ela tocou a campainha e como pensei que era você abri logo.
— Te disse para se cuidar.
— Tudo bem já entendi que deveria ter obedecido, mas posso continuar? – Ele me olhou sério. – Ela foi entrando e fingi que não sabia quem ela era. Ela sabia que estava na sua casa ontem. Ela sabia coisa demais e começou a me humilhar. Temos de convir que ninguém ficaria calado ouvindo desaforo então disse para ela sumir que você não a queria. Ela me ameaçou e me esganou. Depois xingou e disse que não deveria estar lá e saiu. Um segundo depois você chegou e já sabe o resto.
— Não deveria tê— la enfrentado.
— Eu sei, mas...
— Charlie não estamos falando de uma ex— namorada ciumenta. Não apenas isso. Ela é uma vampira poderosa e não há páreo entre vocês. Nem entre eu e ela.
— Sei disso, mas não pensei na possibilidade dela querer me matar.
— Te alertei tanto...
— Olha, não preciso de mais sermões. Senti na pele que deveria ter sido mais cautelosa, mas não fui. Passou e agora vou me precaver mais está bem?
— Tudo bem. Não quero te chatear, só quero cuidar de você. Não quero que passe por nada disso de novo.
— Tudo bem e eu só não quero que brigue comigo. Ela iria adorar isso.
— E isso será que a agradaria?
Ele se aproximou com um olhar apertado e perigoso e me beijou como ontem, mas mais rapidamente se afastando e me deixando com ar de “O que? Não terminei.”.
— Com certeza ela não acharia legal. – Rimos. – Preciso ligar para casa para contar que fui atropelada.
— Tudo bem. Ele me deu o telefone e comecei a pensar em alguma desculpa para dar.

Nana&Karol

21 outubro, 2012

Capítulo 26


Nem pude acreditar no que estava vendo. A Verônica! Esperei tanto por explicações e ela me aparece justo quando estava começando a aprender a viver sozinho. O que será que passou pela cabeça dela? Será que achou que eu a perdoaria e ficaria tudo bem? A minha vontade era de estraçalhá— la e de queimar cada parte do seu corpo. Estúpida, víbora. De onde tinha vindo toda aquela raiva?
–Não venha me dizer que você não soube se virar muito bem. Até outra já colocou no meu lugar. – Meu sangue congelou e ferveu diversas vezes sob minha pele â medida que ela falava. Como tinha coragem de mencionar quem quer que fosse que eu amasse? Será que não se dava conta do perigo que corria?
— Não abre sua boca para falar de mim nem de ninguém que faça parte da minha vida.
— Também faço parte da sua vida quer queira quer não. Você está assim hoje por minha causa e isso nunca poderá mudar.
— Quer dizer que você assume?
— Hoje sim. Você está quase no tempo de aumentar seus poderes. Só precisei escavar o terreno. Será mais poderoso que muitos e ficaremos juntos para sempre.
— Se tivesse que passar a eternidade ao seu lado me degolaria antes.
— Não me trata assim. Mostrei— te um mundo novo, uma vida nova e agora você cospe em tudo isso. O que aconteceu com você Caine?
— Aconteceu o que já deveria ter acontecido: abri os olhos para enxergar quem você realmente é. Uma bruxa, uma sanguinária e interesseira. Minhas visões agora fazem sentido.
— Já? Desde quando começou?
— Não importa. Nada que se refira a mim te importa agora.
— É claro que sim. Se você está nessas condições hoje é por minha causa. Eu disse a ele que não importaria o tempo. Você é impetuoso, corajoso e além de tudo poderoso. Suportaria bem e se adaptaria facilmente.
— Não sei a quem se refere, mas se fui tudo isso foi por minha causa. Não poderia conviver comigo mesmo se tivesse agido diferente.
— Claro que não. Você sempre foi o garotinho da mamãe protegido do mundo e até de você mesmo. Nunca se deixou viver nem se libertar.
— Já te mandei embora. O que veio fazer aqui?
— Te buscar.
— Para que?
— Para seguir comigo. Quando tudo começar você será...
— De novo essa história? Quando o que começar?
— Quando a disputa pelos mais poderosos começar. Já estão quase todos selecionados e você é o mais precioso do meu clã. Todos são fortes ou inteligentes, mas você é tudo isso e ainda tem visões.
— Não faço parte desse seu clã. E o que as visões têm a ver?
— Será mesmo que você não enxerga? Com um poder desses poderíamos antecipar muitas coisas.
— Não sabia que seria essa a intenção dela. Usar— me como um oráculo.
— De quem diabos está falando?
— Daquela mulher que esteve aqui atrás de mim. Parecia com você.
— A Brianna Comte esteve aqui? Aquela vaca usurpadora!
— Quem é Brianna Comte?
— É uma mulher sem escrúpulos e sem moral.
— De que você está falando? Escrúpulos e moral? Nem sabe o que é isso. Nunca os usou na vida.
— Não me trata assim, já te falei.
— Vai embora, vai. Nunca mais aparece. Não vou servir a ninguém, muito menos a você sua falsa, mentirosa, traiçoeira. Some da minha vida.
— Vai se arrepender de ter me tratado assim Caine Ventrue. Não conhece o poder da minha vingança.
— Acha que me importo com algo que venha de você Verônica? – A segurei pelo pescoço e apertei até que ela realmente ficou amedrontada. – É a última vez que te aviso Verônica Malkavian: some daqui e não passa nem perto da minha família nem de mim. Nunca mais quero ver sua cara na minha frente. Vai embora agora.
Disse a última frase gritando e a soltei. Ela me olhou fulminante de raiva e deu as costas. Saiu pisando tão forte que pensei que seu salto fosse quebrar. Fechou a porta com tanta força que fez tudo estrondar e uma parte do reboco da parede cair.
A pressão que ela exerceu sobre mim foi tão grande que não agüentei. Foi algo sobre— humano, mais que o vampirismo e mais que tudo que já me aconteceu. Subi desolado e quando olhei a Charlie tão indefesa, tão curiosa ali agachada perto do vidro chorei. Ela levantou correndo e me abraçou com toda sua força. Retribui da mesma forma e quase tirei seu fôlego.
— Ela é...
— A Verônica. Eu sei. –Solucei ainda mais. – Calma meu amor ficará tudo bem. O dia foi intenso, mas tudo acabará. Fica tranqüilo.
— Eu te amo tanto Charlie.
— Também te amo Caine. Senta aqui vem. – Sentamos no colchonete e fiquei abraçado a ela.
— Ela não tinha o direito de aparecer aqui. Ela não tinha o direito de te mencionar. Nenhuma das duas.
— Isso não importa.
— Claro que importa. Se elas falaram é porque sabem o que sentimos um pelo outro. Não sei se serei capaz de te proteger quando elas começarem essa briga estúpida por mim. Você ouviu o que ela disse? Fui selecionado. Que droga! Não sou um objeto. Não vou servir a nenhuma delas.
— Não precisa servir a ninguém. Podemos... ir embora daqui.
— Não adiantaria. Elas realmente me querem e não vão desistir tão facilmente. Você está correndo risco comigo e isso é a única coisa que me importa. Não me preocupo comigo. Estou morto para o mundo e não farei falta a ninguém, mas você tem uma vida e não tenho o direito de colocá— la em risco.
— Se acalma Caine. Vai dar tudo certo.
— Será que você está realmente entendendo a gravidade da situação?
— Claro que estou Caine. Não sou uma criança indefesa como você pensa. Só que estou tentando te acalmar. Não vai adiantar todo esse desespero. Precisa pensar na situação friamente.
Agora ela tinha me surpreendido. Falou como um comandante numa guerra. Estava sendo estúpido e ela logo viu isso. Charlie virou de costas e ficou com os braços cruzados olhando para baixo pela janela. Abracei— a pelas costas, mas ela continuou na mesma posição.
— Sei que estou descontrolado, mas é que não consigo nem imaginar a hipótese de te ver nas mãos daquelas duas cobras. Será a primeira que elas procurarão para tentar me coagir e não estou disposto a te perder para ninguém, muito menos para elas.
— Não irá me perder para ninguém. Daremos um jeito.—  Ela me abraçou e ficamos assim por alguns minutos.
— Precisamos ir. Tenho que te deixar em casa e voltar para cá. De hoje em diante nos veremos mais rapidamente e de preferência longe da sua casa. Não quero te entregar nas mãos delas.
— Isso não, por favor. Não é justo que elas interfiram assim em nossas vidas.
— Não cabe a nós decidir.
— E quanto a eu conseguir tudo o que quiser de você? – Ela falou entre um meio sorriso e passando a mão pelo meu peito até laçar meu pescoço e ficar bem próxima a mim.
— Tudo que depender de mim, mas como já disse não está ao meu alcance.
— Droga! – Ela me largou e fez uma cara de raiva. – Se antes já era complicado te ver imagina agora. Tenho vontade de matá— las. Que droga Caine.
Ela choramingou e derramou uma lágrima, mas prontamente a enxugou com rudeza. Abracei— a com força e falei ao seu ouvido.
— Será por algum tempo. Só enquanto resolvo isso com mais calma. Tem paciência, por favor.
— Só por você.
— Precisamos ir enquanto é cedo. Você também precisa comer algo. Está desde ontem sem comer direito. Vamos.
— Você passou seis dias sem comer.
— Não vou nem te responder.
Olhei— a irônico e ela sorriu. Peguei— a pelas pernas e a pus no ombro. Ela deu um gritinho e se segurou. Desci a escada enquanto ela falava sobre como iríamos nos ver.
— Você pode me buscar na escola.
— Não.
— Me apanhar no café depois da aula.
— Não.
— Caramba Caine e onde será?
— Num lugar aberto o qual você não freqüente costumeiramente.
— Se elas tiverem de aparecer será em qualquer lugar.
— Mas se prevenir é sempre bom.
— Nossa que horror. Nem eu estou tão temerosa assim.
— Mas deveria estar.
— Tá, me põe de volta no chão. – A pus de volta no pé da escada. – Quero ir para casa. Já que terei que ficar sozinha não vou mais adiar a separação.
— Já pensou em ser atriz? Tipo, filmes de drama, guerras. Faria muito sucesso em Hollywood.
— Cala a boca Caine.
Ela me bateu e a beijei. Levei— a para casa sempre olhando para os lados para me certificar de não estar sendo seguido. Quando chegamos subi, mas não entrei.
— Não vai nem entrar?
— Não. Quanto menos tempo ficarmos juntos será melhor. Preciso ir. Eu te amo muito.
— Também te amo.
Beijamo— nos e fui para casa. Estava preocupado com ela, mas seria pior ficarmos juntos. Elas iriam onde eu estivesse e se eu estivesse com a Charlie ela também estaria em risco. Como disse não me importava comigo, apenas com ela e com meus pais no momento. Falaria com minha mãe. Não poderíamos nos ver mais com freqüência para a segurança dela. Cheguei  em casa rapidamente. Se algo tivesse de acontecer que fosse aqui longe de tudo e das pessoas que amo. Seria melhor. Fiquei alerta a qualquer barulho, qualquer coisa que denunciasse a aproximação de alguém. Estava deitado no meu colchonete com o braço atrás da cabeça quando senti meu coração apertado. Era como se o ar tivesse sido retirado de mim. Fiquei gelado e instintivamente toquei a marca. Tive outra daquela sensação de estar voando para algum lugar. Vi a Charlie em casa na frente da TV. Alguém tocou a campainha e ela abriu sem olhar quem era. Não Charlie, não deveria agir assim. Não foi isso que combinamos. Uma mulher entrou e a acuou. Ela estava impetuosa, corajosa e isso irritou a mulher. Falaram, gritaram então a mulher se aproximou. Acabou. Tudo foi embora. Esforcei— me para ver mais, mas fora minha visão que estava muito mais clara, meus olhos aguçados e provavelmente brancos não vi mais nada. Desci correndo e fui à casa da Charlie o mais rápido que pude. Procurei ruas que adiantassem meu caminho e em menos de dez minutos estava lá. Subi correndo e encontrei a porta aberta. Logo a vi deitada no chão estendida de bruços. Seu pescoço tinha marcas avermelhadas que logo ficariam roxas. Senti sua respiração e chegando mais perto ouvi sua pulsação. Estava fraca. Liguei para a ambulância. Meus olhos. Corri ao banheiro e olhei. Estavam brancos ainda então fiz um esforço tentando pensar no azul comum e quando abri estavam normais. Voltei correndo para a sala e fiquei conversando com ela.
— Calma meu amor tudo ficará bem. Estou aqui e você tinha razão: não podemos nos separar. Ficarei com você até quando puder. Eu te amo, te amo mais que tudo.
Estava assim quando a ambulância chegou. Perguntaram o que tinha acontecido, mas não sabia responder. Disse que a encontrei no chão quando cheguei. Enquanto a arrumavam fiquei pensando como iria até o hospital. Um morto acompanhando um doente, impossível. Pensei na minha mãe e liguei para o celular dela.
— Alô?
— Alô, quem fala?
— Mãe. Preciso de você.
— Oh... Janete? O que houve?
— A Charlie. Ela não está bem.
— O que? O que houve com ela?
— Ela está mal, mãe. Preciso que a acompanhe ao hospital, você sabe que não posso.
— Claro querida, não se preocupe te ajudo com a Amanda. Estarei aí logo, logo. Fica calma ficará tudo bem.
Sabia que disfarçava, pois meu pai deveria estar perto. Fizeram os primeiros socorros lá no apartamento e isso deu tempo para que minha mãe chegasse. Ela entrou correndo e me abraçou.
— O que houve querido? – A puxei para um canto sem tirar os olhos da Charlie. Estava sem saber o que fazer desesperado.
— A Verônica apareceu no galpão e a Charlie estava lá, mas elas não se viram. Expulsei— a e ela disse que me queria e que não desistiria. Ela sabia da Charlie mãe. Tive uma visão dela aqui e corri o máximo que pude para evitar, mas ela já havia ido embora quando cheguei. Foi por minha causa que aquela víbora a atacou. O que faço mãe?
— Calma Caine ela ficará bem.
Derramei uma lágrima de desespero e ela afagou meu cabelo como quando criança.
— Preciso de alguém para acompanhá— la para preencher os documentos.
— Eu vou. Espera um minuto, vou pegar a bolsa dela. Não se preocupa querido cuidarei da Charlie o melhor que puder.
Levaram— na e minha mãe foi com eles. Fiquei lá em estado de desespero e ira contra a Verônica. Ah! quando pusesse as mãos naquela peçonhenta a mataria da pior forma possível. Ela não podia voltar de forma catastrófica à minha vida e achar que tem o direito de mudar tudo. Estava sem agüentar de ansiedade, andava de um lado para o outro, passava as mãos pelo cabelo, olhava as fotos dela sorrindo e não agüentava. De repente o telefone tocou. Atendi entre lágrimas.
— Mãe?
— Caine? Pode vir. Ela acordou e está bem.
— Me deixa ouvir a voz dela, por favor.
— Ela não pode falar agora.
— O que houve de errado?
— Ela precisa descansar a voz.
— Só preciso ouvir um sussurro, só isso.
— Não demora falando se não ela vai querer falar. Só um instante.
— Charlie? Me perdoa meu amor. Eu te amo tanto. Você está bem?
— Sim Caine, vem para cá, por favor. Preciso de você.

Nana&Karol 

Capítulo 25


Fiquei embaraçada quando ele tocou minha cintura. Sabia o que significava, mas não era hora. Não tão rápido. Havia muito pouco tempo que nos conhecíamos e por mais que o amasse era um passo sério que não seria dado precipitadamente. Faltava muito para ser dito e sabido. Ele era incrível, todos o amavam, conhecia bem sua vida, mas não o suficiente, não como achava que era o certo. Não era por ele ser vampiro nem nada, mas faltou— me confiança suficiente inclusive em mim. Ele entendeu prontamente o que quis dizer então continuamos nos beijos e abraços. Ele quis ir embora, porém fiz o que pude para impedir: pedi, resmunguei, argumentei. Ele me beijou então sabia que tinha vencido. Amanhã era sábado e novamente passaríamos um bom tempo juntos.
Ficamos até tarde nesse clima maravilhoso de romance até que dormi no chão no peito dele. Era melhor que qualquer outro lugar que já tinha dormido antes.
Tive um sonho maravilhoso. Estava num lugar fascinante: fazia frio, muito frio, mas eu apenas sabia, não sentia; havia muitas flores numa espécie de campo e ao redor muitas montanhas, um lago muito grande. Estava na beira molhando as mãos quando ouvi alguém me chamar. Levantei e meu vestido champanhe tomara que caia com ondulações da cintura para baixo e com busco com um tecido cruzado entre si balançou sobre mim. Meu cabelo estava preso numa cascata de ondas e estava descalça. Quem me chamou tinha uma voz forte, mas macia e aveludada. Parecia que estava declamando meu nome então não resisti e me virei para olhar para o dono daquela voz maravilhosa. Era ele. Vestia uma calça branca solta e uma camisa tipo uma bata até o quadril da cor do meu vestido. Sorria brilhantemente e seus olhos estavam esbranquiçados. O cabelo caia sobre o ombro como eu adorava e tinha um brilho invejável. Sorri em resposta e corri até ele que me esperou sorrindo. Abraçamo— nos e ele me girou. Pôs— me no chão e me beijou delicadamente. Ficamos lá naquele lugar mágico. Lembrava de lá. Era um país diferente, sim, era a Nova Zelândia. A tinha visto num filme e fiquei fascinada. Conversávamos sobre isso e sobre nós, nosso amor. Ele estava deitado sobre um braço com uma perna dobrada e a outra no chão esticada. Com a mão do braço em que estava deitado acariciava meu rosto, pois estava deitada de frente para ele com as pernas encolhidas uma sobre a outra no chão. Sorríamos um para o outro e por vezes nos beijamos, mas meu encanto foi quebrado.
Acordei com minha mãe me chamando. Droga, hoje não tinha aula, porque me chamar tão cedo? Espera! Não era minha mãe.  Era ele. Assustei— me com tudo isso. Ah tá. Ele estava aqui, devia estar horrível. Queria me esconder. Ele havia trazido café. Então devorei tudo correndo. Nossa que fome, também não almocei ontem. Ao contrário do que muitos pensam amor realmente não enche barriga. Do contrário estaria com indigestão.
Quando o Caine disse que nós iríamos passear apressei— me para sairmos logo. Achava que era cedo, mas já passava das onze. Agora me dava conta de que os vizinhos deveriam estar todos de pé e nos veriam juntos então fiz um plano. Sairia antes e ele me seguiria depois até o café. De lá iríamos ao lugar misterioso. Se ele saísse antes e eu depois daria muito na cara. Todos fazem isso. Estava tudo perfeito até sair e dar de cara com a Márcia Guimarães e o filho dela Daniel, os amigos dos meus pais. Fiquei de todas as cores que se é possível ficar parando no branco. O Caine deve ter ficado super confuso, pois eu mesma fiquei. O que eles faziam aqui?
— Entrem, por favor.
Disse dando tempo para que ele se escondesse. Quando entramos de volta o Caine havia sumido de lá.
— Desejam alguma coisa? Água, café?
— Não, só estávamos de passagem.
— Sentem— se.
As almofadas estavam jogadas pelo chão junto com a minha gravata e meu sapato. Juntei tudo depressa e joguei atrás do balcão da cozinha. Eles se entreolharam numa conversa silenciosa que eu esperava que fosse sobre minha desorganização.
— Como vão seus pais?
— Muito bem, obrigada e a família?
— Muito bem, toma o presente.
— Nossa que lindo muito obrigada. Eu adorei de verdade.
Era um colar com pedras pretas que pareciam ônix. Tinha uma grande no meio e outras pequenas na corrente. Muito lindo, de verdade. Abracei— a em agradecimento e dei— lhe um sorriso deslumbrante.
— Que bom que você gostou, mas agora preciso ir. Quer almoçar conosco?
— Oh, agradeço o convite, mas fica para a próxima. Marquei de almoçar com uma amiga da escola, Carly.
— Carly Johnson?
— Sim. Conhecem— se?
— Sim. O Paulo trabalha com o pai dela. São muito amigos. Está muito bom, mas precisamos ir, até mais querida. —  A Carly me devia essa. Ajudei— a com o Andrew ontem mesmo.
— Até mais Charlotte. —  O Daniel me beijou no rosto carinhosa e rapidamente.
— Vamos descer juntos.
— E a chave? – Oh meu Deus e o Caine?
— Tenho outra chave no criado mudo, acho que não faz mal levar essa.
Eles não entenderam nada, mas tudo bem. Descemos e fui conversando com eles sobre coisas legais da cidade e como tinha me divertido até agora.
— A cidade é maravilhosa. As pessoas são muito boas e está dando tudo certo.
— Que bom querida, fico feliz por você.
— Obrigada Márcia. É bom saber que tenho amigos numa cidade nova.
— Com certeza tem amor. Você é uma menina de ouro. Conte conosco sempre que precisar.
— Isso mesmo Charlotte, estaremos aqui. Eu também, não esqueça.
— Obrigada Daniel. Fico feliz em saber disso. E por favor, me desculpem a bagunça. Ontem cheguei muito mal da escola e fui jogando tudo pelo caminho. Não esperava receber visitas hoje, não que não sejam bem vindos.
— Nós é que nos desculpamos por termos aparecido de repente, sem avisar, mas você está bem mesmo?
— Sim foi só um mal estar. Não se preocupem e apareçam quando quiserem.
— Tudo bem. Até mais.
— Até mais.
Ufa! Quase não consigo disfarçar meu nervosismo. Ainda bem que despistei os dois. O pobre Caine ficaria trancado por pouco. Corri para o café e logo depois ele chegou interrogativo perguntando sobre o Daniel. Ficou com ciúmes então tive que fazê— lo esquecer, pois não agüentaria outra discussão boba como a de antes de ontem.
Pegamos o ônibus e mais que de repente ele se virou para mim e se escondeu no meu pescoço. Tinha visto um amigo no ônibus e precisava se disfarçar. Não precisávamos de um escândalo a essa altura. Fingi um tropeção para que o amigo dele desviasse sua atenção enquanto o Caine saia. Ele foi muito gentil e me segurou, então desci e encontrei o Caine no ponto parado.
— Não precisa agradecer, vamos estou muito curiosa.
— Irá se surpreender.
Caminhamos um pouco e entramos numa rua meio deserta. Havia um galpão enorme no fim da rua então me dei conta do que se tratava: era a casa dele! Pulei no seu pescoço e comecei a gritar. Ele se assustou e me segurou para que não caísse.
— Ah Caine obrigada. Queria tanto conhecer sua casa! Nunca tive coragem de pedir, mas ainda bem que me trouxe aqui. É super fantástico.
— Como você sabe que é minha casa? Poderia ser qualquer lugar da cidade.
— Mas esse lugar é a sua cara.
— Grande, feio e sujo?
— Claro que não! Pode ser grande e sujo, às vezes, mas feio nunca!
— Charlotte! Não sou sujo.
— Era da primeira vez que te vi. As meninas te chamaram de trapinho quando contei a elas sobre você.
— Não costumo andar sujo por aí, onde você me viu e como sabe se era eu mesmo?
— Agora sei mais que nunca. Vi— te de costas, cabelo preso com um pedaço de tecido, camisa azul escuro gasta e uma calça preta rasgada. Andava como um lorde, mas se vestia como um mendigo desculpa a palavra. Estava entrando numa loja.
— Tudo bem. Lembro desse dia. A Felicity trabalha nessa loja. A garota que você viu comigo no café. Foi a primeira vez que estive lá. Precisa comprar uma roupa barata, pois só tinha pouco mais de £100.
— Só um minuto. Você tinha sido transformado, estava sem nada e tinha £100?
— É que não era meu. Uns garotos invadiram o galpão e deixaram a carteira cair. Não iria voltar e devolver depois de ter batido neles.
— E por que bateu?
— Porque eles queriam me bater primeiro. No outro dia voltaram acompanhados e atiraram em mim.
— O que? E como você ficou... deixa pra lá. Do mesmo jeito que naquele dia lá em casa, não foi?
— Sim.
— E onde foi o tiro que mal te pergunte?
— No ombro, entre a clavícula e a escápula.
— Posso ver?
— Não ficou marca.
— Por favor.
— Vamos entrar? Lá te mostro ou quer que tire a roupa no meio da rua?
— Não, tudo bem. – Fomos entrando e fiquei fascinada com o lugar. – E o que você fez com eles?
— Disse que se não fossem embora os mataria.
— Caine isso não se faz. Eles devem ter ficado muito assustados. – Não aguentei segurar o riso. Só de pensar no meu Caine, tão romântico, tão lindo assustando adolescentes... Era hilário, cara.
— E não fiz só isso. Peguei toda a grana deles. Não seria justo que eles invadissem minha casa, atirassem em mim e saíssem ilesos.
— Quanto você conseguiu?
— Umas £400 e somando com o dia anterior umas £500.
— Muito bem meu amor. Só não faz de novo tá.
— Tudo bem, não pretendia antes e nem pretendo agora. Vem quero te mostrar a casa.
Nós subimos e entramos numa salinha que parecia um escritório. Havia arquivos, uma mesa, uma cadeira quebrada e um colchonete.
— Meu quarto e minha cama.
— Muito legal.
— Nem tanto, mas gosto daqui.
Descemos e ele me mostrou o resto. Havia latas e pneus arrumadinhos num canto e o banheiro era pequeno, mas estava limpinho. Tudo estava na verdade.
— Porque as janelas estão pintadas?
— Por que logo quando cheguei não conseguia enxergar no sol. Agora está muito melhor, como antes da mudança.
— Tão rápido assim?
— Sim. Aquela mulher falou que isso seria uma... diferença tipo algo a mais que nos outros, como sentir necessidade de me alimentar mais frequentemente e... andar com humanos.
— O que? Quer dizer que os vampiros não “andam” com humanos?
— Não sei o que ela quis dizer, não faço ideia do que aconteceu fora que ela me paralisou. Fiquei enfeitiçado e sei que não foi algo normal. Uma vez estava com a Felicity e tive uma visão da Verônica com um homem discutindo. Meus olhos ficaram brancos e a Felicity se assustou e começou a fazer perguntas. Olhei para ela e comecei a dizer pausadamente que não era nada e que estava tudo bem até que ela esqueceu o que havia visto.
— Como esqueceu? Assim de repente?
— Sim, apenas assim.
— Nossa Caine, então aquela idiota deve ter razão quando diz que há diferenças em você. Não conheço outros vampiros, mas você a conheceu e pareceu que poderia fazer coisas parecidas com as que ela faz.
— E isso não é muito bom, pois se ela tem uma legião atrás dela e veio pessoalmente me procurar quer dizer que valho muito.
— Não gosto que você pareça algo que está à venda.
— Muito menos eu. Agora vamos acabar com esse assunto. Já falamos demais sobre essa mulher.
— Só mais uma pergunta.
— O que?
— O que você sentia pela Verônica realmente?
— Porque a pergunta?
— Por nada, curiosidade, mas responde. – Olhei implorativa de forma que ele não seria capaz de se negar a responder.
— Tudo bem. Achava que era amor. Atração física, encantamento, novidade sei lá.
— E o amor?
— Hoje sei que não era.
— Como?
— Conheci você e agora sei o que é amar. – ele me beijou carinhosamente na testa e me abraçou.
— Mas vocês... saiam muito. –Não quis realmente saber se eles saiam. Queria saber se eles...saiam.
— Se eu entendi bem o sentido da sua pergunta não. Não “saímos” nenhuma vez em todo o tempo de namoro.
— Por quê?
— Por que ela sempre se esquivava.
— Hum...
— Você quer mesmo falar sobre isso?
— Não. —  Respondi prontamente. Ele era meu agora e ninguém o tiraria de mim nunca mais.
— Preciso te dizer uma coisa: quando estava dormindo ontem saí da cama para um banho. Estava muito quente. Quando toquei minha marca tive outra visão, dessa vez de algo que não aconteceu.
— O que?
— Estava aqui e brigava com a Verônica. Expulsava— a e estávamos irados um com o outro.
— Nossa que horror. Será que é de algo que virá?
— Espero que não.
— Mas você queria tanto saber a verdade.
— Se esse for o preço para tal prefiro não pagar.
Ele me abraçou e subimos. Ficamos deitados no colchonete, eu sobre ele para ficar mais confortável. Estávamos muito bem em meio a beijos e conversas sem noção.
— Sonhei conosco.
— Como foi?
— Lindo. Estávamos num lugar que eu acho que era a Nova Zelândia. Era lindo e você estava maravilhoso.
— Obrigado.
De repente um barulho que eu não ouvi o despertou do nosso pequeno transe.
— O que houve?
— Xii. Tem alguém lá embaixo. Fica aqui e não sai de maneira nenhuma me ouviu. Vou olhar o que ou quem é. Não sai daqui, por favor, me obedece.
— Tudo bem vai logo.
Ele vestiu a camisa, saiu fechando a porta atrás de si e desceu silenciosamente a escada. Grudei meu ouvido num lugar quebrado no vidro do lado do arquivo de modo que fiquei praticamente toda escondida. Ouvia muito mal, mas tentaria até a morte saber o que estava acontecendo lá embaixo.
— Quem está aí?
— Será que não se lembra mais de mim querido?
Cabelo comprido e avermelhado, olhos verdes, salto alto fino, vestido branco sem mangas e apertado, sensual, olhar mortal. Mas será possível que essas mulheres brotavam do chão aqui? De onde elas todas vinham, cara?
— Nem posso acreditar que você teve a coragem de aparecer aqui. Onde esteve todo esse tempo em que precisei de explicações? Você sumiu! Onde foi quando “morri”? Embora! Porque não ficou para explicar minha morte aos meus pais? Porque não me amava. Por favor, vai embora, antes que minha educação seja esquecida.
— Calma querido. Onde está todo o seu amor por mim?
— Morreu junto comigo naquele dia infernal. O que aconteceu comigo? O que você me fez? No que me transformou?
— Você sabe muito bem no que se transformou. –Cara ela falou como se estivesse cuspindo veneno. Eles não citaram nomes, mas pelo visto a mulher lá embaixo era a famosa Verônica.

Nana&Karol 

12 outubro, 2012

Capítulo 24


Saí de lá muito triste com a atitude dela, nunca imaginei que ela pudesse me tratar daquele jeito. A única coisa que me deixou feliz foi o ciúme dela. Cheguei em casa cabisbaixo e juro que se aquela mulher aparecesse a expulsaria da pior forma possível. Subi e peguei uma roupa, tomei um banho e enquanto isso pensava no que aconteceu. Estava muito feliz por ela ter me desobedecido e ido falar com minha mãe. Com a ajuda dela seria muito mais fácil suportar tudo isso principalmente se a Charlie desistisse de mim e essa ideia me pareceu insuportável. Vesti uma calça folgada e me deitei no colchonete.
Fiquei pensando se ia a casa dela ou não amanhã. Na verdade estava sem coragem de vê— la acabar com tudo. Pela manhã já não aguentava mais pensar nisso então decidi limpar o galpão que já estava muito sujo. Arrumei o arquivo com minhas roupas, lavei o banheiro e ajeitei as “janelas”. O sol já não me fazia mal, mas o escuro era mais confortável. Varri o galpão bem lentamente e quando me dei conta já era tarde. Teria que enfrentá— la alguma hora então seria melhor que fosse logo.
Arrumei— me e fui até a casa dela. Minha mãe estava lá, falou rapidamente comigo, pois precisava ir embora por causa do meu pai e nos deixou sozinhos para o embate. Estava exagerando, mas era assim que me sentia.
— Senta aqui. – Andei até ela como quem anda para a forca. – Tudo bem com você?
— Sim e com você?
— Tudo. Alguma novidade?
— Não e você?
— Não também.
A partir daí ela começou a falar de como estava errada e deveria ter me apoiado e me pediu perdão. Se meu coração estava contraído de pavor do que poderia acontecer aqui agora estava expandido de tal forma que mal cabia no meu peito. Não era minha vontade perguntar, mas precisava deixá— la livre para escolher então pedi que escolhesse de que lado ficar. Não vou dizer que esperava o contrário, ninguém nunca espera, mas quase pulei de alegria quando ela disse que me escolhia. Abraçou— me como uma criança que procura abrigo nos pais quando se machuca, e fiz o máximo para corresponder. Fiz carinho no seu cabelo e beijei sua cabeça por muito tempo, mas não aguentava ficar ao seu lado sem beijá— la. Levantei sua cabeça e ela ainda estava chorando. Vi que ela estava sofrendo tanto ou mais que eu. Já havia sentido se não amor – e acredito que não era – algo bem parecido pela Verônica então já imaginava como fosse. A Charlie não; era a primeira vez que se apaixonava e se já era difícil para mim imagina para ela. Inclinei— me sobre ela e ficamos deitados nos beijando. Não sei o que ela tentou fazer, mas conseguiu nos derrubar do sofá. Ficamos no chão rindo, ela deitada sobre mim e nos beijando entre os risos. Sentei de modo que ela ficasse sentada sobre suas pernas entre as minhas abertas. Não seria muito bom se ela continuasse sobre mim.
De repente ela parou e me perguntou se eu tinha ouvido uma música. Já a tinha ouvido. Alguém que não me lembro me deu um cd com várias músicas misturadas e entre elas estava essa. Disse que seria a nossa música e sussurrei um trecho para ela que gostou da ideia. Sua expressão estava tão fantástica, tão fascinante que a beijei novamente puxando— a para mais perto. Havia um ano mais ou menos que não ficava tão próximo de uma garota assim. Meu namoro com a Verônica era muito estranho. Apesar de termos ficado tanto tempo juntos e ela ser mais velha nunca me permitiu ir mais além. Ela nunca nem me apresentou a sua família! Sempre que as coisas começavam a passar do ponto ela fugia de mim. Agora a Charlie, quem eu tanto amo, tão próxima... Não sei se hoje conseguiria ir embora.
Ela ainda estava de farda e de repente puxou a gravata. Um botão abriu e vi seu ombro à mostra. Já havia visto antes, mas nunca me pareceu tão tentador. Ela passou a mão pelo meu cabelo e me arrepiei. Beijei seu pescoço e pus a mão na sua cintura sob a camisa. Ela se afastou e me olhou confusa e um pouco assustada.
— Caine!
— Desculpa Charlie, é que...
— Tudo bem, não precisa explicar, eu entendi, só não...
— Ok. Passei dos limites, desculpa. – Foi um verdadeiro balde de água fria, mas entendi que tinha ido além do que ela imaginou. A atitude dela me lembrou a Verônica.
— Não fica chateado?
— Claro que não meu amor. Não quero forçar nada. Eu que não deveria ter ido tão longe antes de você permitir.
— Eu te amo sabia?
— É, acho que você já disse isso.
Ela me bateu e me abraçou. Ficamos lá entre beijos e risadas sobre coisas meio sem noção e não vimos a hora passar. Quando me dei conta já passava da meia noite. A Charlie estava sonolenta, mas nunca daria o braço a torcer. Ficaria acordada para sempre se pudesse ao contrário de mim que daria tudo por uma noite de sono.
— Meu amor preciso ir.
— Já, está cedo.
— Cedo para amanhã? Conheço essa história. Você vai me pedir para ficar, me olhar como uma criança abandonada e não vou ter como negar.
— Se você já conhece a história porque não fica de uma vez.
Nem ela conseguiu segurar o riso com isso. Estávamos abraçados no chão, no tapete e quando tentei me levantar ela segurou meu braço firme.
— Por favor, fica só hoje. Estava com saudades de você. Sei que foi apenas um dia, mas em pensar que poderia te perder de alguma forma e por culpa minha quase morri. Falei com sua mãe e com as meninas. Elas me mostraram delicadamente o quanto fui idiota e não quero continuar sendo.
— Você não foi nem está sendo idiota. Eu te amo Charlotte e isso não vai mudar seja lá o que faça. Se hoje você tivesse dito que nunca mais queria me ver sairia por aquela porta e nunca mais apareceria. Deixaria você viver sua vida e não te atrapalharia, mas só Deus sabe como conseguiria fazer isso. Se não consegui me controlar foi por culpa minha e não sua. Não se sinta idiota nem nada assim.
— Ajudaria se você ficasse.
— Quantas vezes você vai conseguir o que quer comigo?
— Quantas você permitir.
— Então serão todas as vezes.
Beijei— a apaixonadamente. Novamente ela tinha me vencido. Só fiquei porque amanhã era sábado e planejava levá— la para passear. Teríamos que dar um jeito de eu sair sem que ninguém me visse. Para mim não seria difícil, mas a Charlie se entrega quando faz algo errado. Fica nervosa e embaraçada como ela ficou quando trouxe minha mãe aqui. Era só rezar para que ela não encontrasse ninguém nos corredores do prédio amanhã.
Continuamos assim até que ela dormiu nos meus braços. Até que conseguiu segurar muito. Já passava da uma da manhã então peguei— a no colo e a coloquei na cama. Amanhã ela daria um jeito na roupa. Com certeza não gostaria que a trocasse então a cobri e fiquei lá olhando— a dormir. Parecia um anjinho deitado numa nuvem. Seu cabelo caia sobre o pescoço numa onda e seu braço estava sob o travesseiro como se estivesse querendo dizer “É meu e ninguém tem o direito de tocar”. Dormia serena, respirava tranquilamente. Foi a melhor visão que já tive dela até então. Minha estranha perfeita agora era tão familiar que fazia parte de mim. Sem me fosse tirada seria tirada minha alma, pois a reencontrei na Charlie. Amava— a mais que tudo em minha vida, mais que a mim mesmo. De hoje em diante a protegeria com minha vida e a amaria com mais intensidade que qualquer uma já foi amada no mundo.
Decidi tomar uma ducha rápida. Ela não acordaria mesmo. Saí do lado dela, prendi o cabelo, fui para o banheiro. Quando comecei a me molhar com água fria passei a mão pelo pescoço e toquei a marca. Senti como se estivesse voando e me vi discutindo com alguém na minha casa. Estava escuro, mas num lance de luz vi um rosto que, infelizmente, me era familiar: Verônica Malkavian. Falávamos alto e eu gritava e a expulsava de lá. Ela vestia branco como raramente o fazia. De repente voltei a mim e me vi no banheiro da Charlie. Foi rápido e assustador. Não consegui entender o que aconteceu. Saí do banho, me enxuguei e voltei para o lado dela na cama. Queria ficar com a Charlie, mas tomei cuidado para não acordá— la. Só precisa ficar próximo a alguém que me desse segurança e encontrava isso nela. Foi uma situação que esperava que não acontecesse.

***

Pela manhã fui à cozinha. Já era tarde e não a acordei antes por causa da hora que ela foi dormir. Fiz café e peguei cereal e biscoitos. Era a única coisa que tinha ali. Como ela conseguia viver sem comer? Coloquei numa bandeja e levei ao quarto. Ela estava virada para a parede. Sentei na beirada da cama e falei ao seu ouvido.
— Charlie, meu amor, a escola.
— Hoje é domingo mãe.
— Hoje é sábado. – Ela levantou a mão como se estivesse pedindo um tempo e acabou tocando meu peito. Abriu os olhos e levantou— se assustada.
— O que... – Olhou— me surpresa.
— O que passou pela sua cabeça? – Ela passou a mão pelo cabelo numa atitude cansada.
— Que a minha mãe estivesse me acordando para a escola.
— Já é a segunda vez que me compara com sua mãe. Estou com medo de estar parecendo muito feminino. Fiz café para você.
— Que maravilha estou morrendo de fome e você não parece nada com minha mãe posse te garantir isso. – Ela me olhou de uma forma diferente do habitual, mais madura.
— Você dormiu feito uma pedra.
— A culpa é sua.
Pus a bandeja na cama e ela começou a devorar tudo.
— Minha?
— Sim, você que me deixou acordada.
— Foi você que me pediu para ficar.
— Quis dizer que com você do meu lado fica quase impossível pensar em algo que não seja você, muito menos em dormir.
Sorrimos juntos nos olhando maliciosamente então quando ela acabou peguei a bandeja e levei de volta para a cozinha. Voltei e ela estava deitada de novo.
— Nunca imaginei que fosse tão preguiçosa.
— A preguiça é uma virtude.
— Quem te disse isso?
— Ninguém, aprendi na prática.
— Precisa se trocar, hoje é sábado quero te levar para um lugar.
— Onde?
— Surpresa. Você saberá quando chegar lá.
— Então vou tomar banho. Ou você quer ir primeiro?
— Não pode ir te espero.
Ela se levantou com o cabelo todo assanhado, olhou— me travessa e correu para o banheiro quando lhe lancei um olhar aguçado. Tirei a camisa e quando ela saiu fui tomar banho. Quando saí ela estava vestida numa calça jeans com tênis All Star azul e uma camisa verde. Secava o cabelo.
— Estou com pressa, se troca rápido.
— Por quê?
— Além de estar ansiosa para ir nesse tal lugar quero aproveitar que ainda é cedo para que os vizinhos não nos vejam.
— Quanto pra você é cedo? Porque já são quase 11h30.
— O que? E porque você não me disse logo? Precisamos ir rápido.
Ela largou o secador, pegou minha camisa e jogou em cima de mim. Vesti— me o mais rápido que pude.
— E agora?
— Vou olhar.
— Deixe que eu olho. Não tem ninguém.
— E se alguém nos vir.
— Agora você se preocupa com isso.
— Cala a boca. – Ela falou rindo. —  Vou sair e te espero no café.
— Ok. —  Ela abriu a porta devagar e ficou branca quando saiu.
— Bom dia Charlotte. Ia tocar a campanhia nesse minuto.
— Bom dia, Sra. Guimarães que bom te ver. Daniel como vai?
Que droga! Era tudo que não poderia ter acontecido. Quem visita as pessoas sem avisar?
— Tudo bem, estava de saída?
— Na verdade sim.
— Não tem problema querida, é só um minutinho, só viemos te trazer esse presente.
— Entrem, por favor. —  Saí em disparada para o quarto enquanto ela os trazia para dentro.
— Desejam alguma coisa? Água, café?
— Não, só estávamos de passagem.
— Sentem— se.
— Como vão seus pais?
— Muito bem, obrigada e a família?
— Muito bem, toma o presente.
— Nossa que lindo muito obrigada. Eu adorei de verdade.
— Que bom que você gostou, mas agora preciso ir. Quer almoçar conosco?
— Oh, agradeço o convite, mas fica para a próxima. Marquei de almoçar com uma amiga da escola, Carly.
— Carly Johnson?
— Sim. Conhecem— se?
— Sim. O Paulo trabalha com o pai dela. São muito amigos. Está muito bom, mas precisamos ir, até mais querida.
— Até mais Charlotte. —  O que foi aquilo? Ele a beijou? Quem é esse cara afinal?
— Vamos descer juntos.
— E a chave? – Nem acreditei que ficaria preso aqui.
— Tenho outra chave no criado mudo, acho que não faz mal levar essa. – ela falou mais alto para que eu pudesse ouvir. Esperei uns 10 minutos e saí atrás dela no café. Ela estava aflita roendo as unhas.
— Oh, meu amor me perdoa, achou a chave?
— E como eu teria chegado até aqui? Quem eram aquelas pessoas e porque aquele cara te beijou?
— A Márcia e o Paulo são amigos da minha mãe e o Daniel é filho deles. E ele me deu um beijo no rosto o que tem demais? E outra como você sabe disso, estava espiando?
— Não! Não tenho culpa de ter ouvido, não controlo meus ouvidos e tem demais que eu não gostei dele ter se aproximado de você.
— Caine, as pessoas vão continuar se aproximando de mim e não é porque estamos juntas que vou impedi— las de fazer isso. Você não corre nenhum risco te garanto.
— Tudo bem, desculpa é que a situação me deixou louco. Quem imaginaria visitas a essa hora? – Acabamos rindo da situação, ela me beijou rapidamente e me abraçou para que fossemos logo. Pegamos o ônibus que parava mais próximo ao galpão.
— Nunca peguei esse ônibus.
— E nem deve fazê— lo sozinha, quero dizer, sem mim.
— Por quê?
— Porque leva a uma área um pouco perigosa.
— E o que vamos fazer lá?
Nem consegui responder, o ônibus parou e vi alguém muito familiar subindo: meu amigo Marcus. Sabia que corria o risco de encontrar pessoas conhecidas, mas não esperava que fosse tão rápido. Ele vestia uma calça jeans clara com uma camisa cinza e um casaco preto. Virei a cabeça para Charlie e enterrei meu rosto no seu pescoço.
— O que está acontecendo?
— O meu melhor amigo acabou de subir para o ônibus.
— O que? E agora?
— Coloca o seu cabelo na minha frente. E finge me beijar.
Ela puxou seu cabelo para o lado para que pudesse me esconder. Beijou— me de verdade, mas discretamente e ficamos assim até o nosso ponto.
— Nosso ponto é o próximo, como iremos fazer para que ele não nos veja?
— Fica atento. – Ela se levantou e quando estava chegando próximo a ele fingiu tropeçar para que ele a segurasse.
— Cuidado garota, você pode se machucar sério.
— Muito obrigada, nem sei como te agradecer.
— Não precisa só toma cuidado da próxima vez.
— Tudo bem, tchau. —  A essa altura já a esperava do lado de fora.
— Tudo bem?
— Sim.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer, vamos estou muito curiosa.
— Irá se surpreender.

Nana&Karol