Nem pude acreditar no que estava vendo. A Verônica! Esperei
tanto por explicações e ela me aparece justo quando estava começando a aprender
a viver sozinho. O que será que passou pela cabeça dela? Será que achou que eu
a perdoaria e ficaria tudo bem? A minha vontade era de estraçalhá— la e de
queimar cada parte do seu corpo. Estúpida, víbora. De onde tinha vindo toda
aquela raiva?
–Não venha me dizer que você não soube se virar muito bem.
Até outra já colocou no meu lugar. – Meu sangue congelou e ferveu diversas
vezes sob minha pele â medida que ela falava. Como tinha coragem de mencionar
quem quer que fosse que eu amasse? Será que não se dava conta do perigo que
corria?
— Não abre sua boca para falar de mim nem de ninguém que
faça parte da minha vida.
— Também faço parte da sua vida quer queira quer não. Você
está assim hoje por minha causa e isso nunca poderá mudar.
— Quer dizer que você assume?
— Hoje sim. Você está quase no tempo de aumentar seus
poderes. Só precisei escavar o terreno. Será mais poderoso que muitos e
ficaremos juntos para sempre.
— Se tivesse que passar a eternidade ao seu lado me
degolaria antes.
— Não me trata assim. Mostrei— te um mundo novo, uma vida
nova e agora você cospe em tudo isso. O que aconteceu com você Caine?
— Aconteceu o que já deveria ter acontecido: abri os olhos
para enxergar quem você realmente é. Uma bruxa, uma sanguinária e interesseira.
Minhas visões agora fazem sentido.
— Já? Desde quando começou?
— Não importa. Nada que se refira a mim te importa agora.
— É claro que sim. Se você está nessas condições hoje é por
minha causa. Eu disse a ele que não importaria o tempo. Você é impetuoso,
corajoso e além de tudo poderoso. Suportaria bem e se adaptaria facilmente.
— Não sei a quem se refere, mas se fui tudo isso foi por
minha causa. Não poderia conviver comigo mesmo se tivesse agido diferente.
— Claro que não. Você sempre foi o garotinho da mamãe
protegido do mundo e até de você mesmo. Nunca se deixou viver nem se libertar.
— Já te mandei embora. O que veio fazer aqui?
— Te buscar.
— Para que?
— Para seguir comigo. Quando tudo começar você será...
— De novo essa história? Quando o que começar?
— Quando a disputa pelos mais poderosos começar. Já estão
quase todos selecionados e você é o mais precioso do meu clã. Todos são fortes
ou inteligentes, mas você é tudo isso e ainda tem visões.
— Não faço parte desse seu clã. E o que as visões têm a
ver?
— Será mesmo que você não enxerga? Com um poder desses
poderíamos antecipar muitas coisas.
— Não sabia que seria essa a intenção dela. Usar— me como
um oráculo.
— De quem diabos está falando?
— Daquela mulher que esteve aqui atrás de mim. Parecia com
você.
— A Brianna Comte esteve aqui? Aquela vaca usurpadora!
— Quem é Brianna Comte?
— É uma mulher sem escrúpulos e sem moral.
— De que você está falando? Escrúpulos e moral? Nem sabe o
que é isso. Nunca os usou na vida.
— Não me trata assim, já te falei.
— Vai embora, vai. Nunca mais aparece. Não vou servir a
ninguém, muito menos a você sua falsa, mentirosa, traiçoeira. Some da minha
vida.
— Vai se arrepender de ter me tratado assim Caine Ventrue.
Não conhece o poder da minha vingança.
— Acha que me importo com algo que venha de você Verônica?
– A segurei pelo pescoço e apertei até que ela realmente ficou amedrontada. – É
a última vez que te aviso Verônica Malkavian: some daqui e não passa nem perto
da minha família nem de mim. Nunca mais quero ver sua cara na minha frente. Vai
embora agora.
Disse a última frase gritando e a soltei. Ela me olhou
fulminante de raiva e deu as costas. Saiu pisando tão forte que pensei que seu
salto fosse quebrar. Fechou a porta com tanta força que fez tudo estrondar e
uma parte do reboco da parede cair.
A pressão que ela exerceu sobre mim foi tão grande que não
agüentei. Foi algo sobre— humano, mais que o vampirismo e mais que tudo que já
me aconteceu. Subi desolado e quando olhei a Charlie tão indefesa, tão curiosa
ali agachada perto do vidro chorei. Ela levantou correndo e me abraçou com toda
sua força. Retribui da mesma forma e quase tirei seu fôlego.
— Ela é...
— A Verônica. Eu sei. –Solucei ainda mais. – Calma meu amor
ficará tudo bem. O dia foi intenso, mas tudo acabará. Fica tranqüilo.
— Eu te amo tanto Charlie.
— Também te amo Caine. Senta aqui vem. – Sentamos no
colchonete e fiquei abraçado a ela.
— Ela não tinha o direito de aparecer aqui. Ela não tinha o
direito de te mencionar. Nenhuma das duas.
— Isso não importa.
— Claro que importa. Se elas falaram é porque sabem o que
sentimos um pelo outro. Não sei se serei capaz de te proteger quando elas
começarem essa briga estúpida por mim. Você ouviu o que ela disse? Fui
selecionado. Que droga! Não sou um objeto. Não vou servir a nenhuma delas.
— Não precisa servir a ninguém. Podemos... ir embora daqui.
— Não adiantaria. Elas realmente me querem e não vão
desistir tão facilmente. Você está correndo risco comigo e isso é a única coisa
que me importa. Não me preocupo comigo. Estou morto para o mundo e não farei
falta a ninguém, mas você tem uma vida e não tenho o direito de colocá— la em
risco.
— Se acalma Caine. Vai dar tudo certo.
— Será que você está realmente entendendo a gravidade da
situação?
— Claro que estou Caine. Não sou uma criança indefesa como
você pensa. Só que estou tentando te acalmar. Não vai adiantar todo esse
desespero. Precisa pensar na situação friamente.
Agora ela tinha me surpreendido. Falou como um comandante
numa guerra. Estava sendo estúpido e ela logo viu isso. Charlie virou de costas
e ficou com os braços cruzados olhando para baixo pela janela. Abracei— a pelas
costas, mas ela continuou na mesma posição.
— Sei que estou descontrolado, mas é que não consigo nem
imaginar a hipótese de te ver nas mãos daquelas duas cobras. Será a primeira
que elas procurarão para tentar me coagir e não estou disposto a te perder para
ninguém, muito menos para elas.
— Não irá me perder para ninguém. Daremos um jeito.— Ela me abraçou e ficamos assim por alguns
minutos.
— Precisamos ir. Tenho que te deixar em casa e voltar para
cá. De hoje em diante nos veremos mais rapidamente e de preferência longe da
sua casa. Não quero te entregar nas mãos delas.
— Isso não, por favor. Não é justo que elas interfiram assim
em nossas vidas.
— Não cabe a nós decidir.
— E quanto a eu conseguir tudo o que quiser de você? – Ela
falou entre um meio sorriso e passando a mão pelo meu peito até laçar meu
pescoço e ficar bem próxima a mim.
— Tudo que depender de mim, mas como já disse não está ao
meu alcance.
— Droga! – Ela me largou e fez uma cara de raiva. – Se
antes já era complicado te ver imagina agora. Tenho vontade de matá— las. Que
droga Caine.
Ela choramingou e derramou uma lágrima, mas prontamente a
enxugou com rudeza. Abracei— a com força e falei ao seu ouvido.
— Será por algum tempo. Só enquanto resolvo isso com mais
calma. Tem paciência, por favor.
— Só por você.
— Precisamos ir enquanto é cedo. Você também precisa comer
algo. Está desde ontem sem comer direito. Vamos.
— Você passou seis dias sem comer.
— Não vou nem te responder.
Olhei— a irônico e ela sorriu. Peguei— a pelas pernas e a
pus no ombro. Ela deu um gritinho e se segurou. Desci a escada enquanto ela
falava sobre como iríamos nos ver.
— Você pode me buscar na escola.
— Não.
— Me apanhar no café depois da aula.
— Não.
— Caramba Caine e onde será?
— Num lugar aberto o qual você não freqüente
costumeiramente.
— Se elas tiverem de aparecer será em qualquer lugar.
— Mas se prevenir é sempre bom.
— Nossa que horror. Nem eu estou tão temerosa assim.
— Mas deveria estar.
— Tá, me põe de volta no chão. – A pus de volta no pé da
escada. – Quero ir para casa. Já que terei que ficar sozinha não vou mais adiar
a separação.
— Já pensou em ser atriz? Tipo, filmes de drama, guerras.
Faria muito sucesso em Hollywood.
— Cala a boca Caine.
Ela me bateu e a beijei. Levei— a para casa sempre olhando
para os lados para me certificar de não estar sendo seguido. Quando chegamos
subi, mas não entrei.
— Não vai nem entrar?
— Não. Quanto menos tempo ficarmos juntos será melhor.
Preciso ir. Eu te amo muito.
— Também te amo.
Beijamo— nos e fui para casa. Estava preocupado com ela,
mas seria pior ficarmos juntos. Elas iriam onde eu estivesse e se eu estivesse
com a Charlie ela também estaria em risco. Como disse não me importava comigo,
apenas com ela e com meus pais no momento. Falaria com minha mãe. Não
poderíamos nos ver mais com freqüência para a segurança dela. Cheguei em casa rapidamente. Se algo tivesse de
acontecer que fosse aqui longe de tudo e das pessoas que amo. Seria melhor.
Fiquei alerta a qualquer barulho, qualquer coisa que denunciasse a aproximação
de alguém. Estava deitado no meu colchonete com o braço atrás da cabeça quando
senti meu coração apertado. Era como se o ar tivesse sido retirado de mim.
Fiquei gelado e instintivamente toquei a marca. Tive outra daquela sensação de
estar voando para algum lugar. Vi a Charlie em casa na frente da TV. Alguém
tocou a campainha e ela abriu sem olhar quem era. Não Charlie, não deveria agir
assim. Não foi isso que combinamos. Uma mulher entrou e a acuou. Ela estava
impetuosa, corajosa e isso irritou a mulher. Falaram, gritaram então a mulher
se aproximou. Acabou. Tudo foi embora. Esforcei— me para ver mais, mas fora
minha visão que estava muito mais clara, meus olhos aguçados e provavelmente
brancos não vi mais nada. Desci correndo e fui à casa da Charlie o mais rápido
que pude. Procurei ruas que adiantassem meu caminho e em menos de dez minutos
estava lá. Subi correndo e encontrei a porta aberta. Logo a vi deitada no chão
estendida de bruços. Seu pescoço tinha marcas avermelhadas que logo ficariam
roxas. Senti sua respiração e chegando mais perto ouvi sua pulsação. Estava
fraca. Liguei para a ambulância. Meus olhos. Corri ao banheiro e olhei. Estavam
brancos ainda então fiz um esforço tentando pensar no azul comum e quando abri
estavam normais. Voltei correndo para a sala e fiquei conversando com ela.
— Calma meu amor tudo ficará bem. Estou aqui e você tinha
razão: não podemos nos separar. Ficarei com você até quando puder. Eu te amo,
te amo mais que tudo.
Estava assim quando a ambulância chegou. Perguntaram o que
tinha acontecido, mas não sabia responder. Disse que a encontrei no chão quando
cheguei. Enquanto a arrumavam fiquei pensando como iria até o hospital. Um
morto acompanhando um doente, impossível. Pensei na minha mãe e liguei para o
celular dela.
— Alô?
— Alô, quem fala?
— Mãe. Preciso de você.
— Oh... Janete? O que houve?
— A Charlie. Ela não está bem.
— O que? O que houve com ela?
— Ela está mal, mãe. Preciso que a acompanhe ao hospital,
você sabe que não posso.
— Claro querida, não se preocupe te ajudo com a Amanda.
Estarei aí logo, logo. Fica calma ficará tudo bem.
Sabia que disfarçava, pois meu pai deveria estar perto.
Fizeram os primeiros socorros lá no apartamento e isso deu tempo para que minha
mãe chegasse. Ela entrou correndo e me abraçou.
— O que houve querido? – A puxei para um canto sem tirar os
olhos da Charlie. Estava sem saber o que fazer desesperado.
— A Verônica apareceu no galpão e a Charlie estava lá, mas
elas não se viram. Expulsei— a e ela disse que me queria e que não desistiria.
Ela sabia da Charlie mãe. Tive uma visão dela aqui e corri o máximo que pude
para evitar, mas ela já havia ido embora quando cheguei. Foi por minha causa
que aquela víbora a atacou. O que faço mãe?
— Calma Caine ela ficará bem.
Derramei uma lágrima de desespero e ela afagou meu cabelo
como quando criança.
— Preciso de alguém para acompanhá— la para preencher os
documentos.
— Eu vou. Espera um minuto, vou pegar a bolsa dela. Não se
preocupa querido cuidarei da Charlie o melhor que puder.
Levaram— na e minha mãe foi com eles. Fiquei lá em estado
de desespero e ira contra a Verônica. Ah! quando pusesse as mãos naquela
peçonhenta a mataria da pior forma possível. Ela não podia voltar de forma
catastrófica à minha vida e achar que tem o direito de mudar tudo. Estava sem
agüentar de ansiedade, andava de um lado para o outro, passava as mãos pelo
cabelo, olhava as fotos dela sorrindo e não agüentava. De repente o telefone
tocou. Atendi entre lágrimas.
— Mãe?
— Caine? Pode vir. Ela acordou e está bem.
— Me deixa ouvir a voz dela, por favor.
— Ela não pode falar agora.
— O que houve de errado?
— Ela precisa descansar a voz.
— Só preciso ouvir um sussurro, só isso.
— Não demora falando se não ela vai querer falar. Só um
instante.
— Charlie? Me perdoa meu amor. Eu te amo tanto. Você está
bem?
— Sim Caine, vem para cá, por favor. Preciso de você.
Nana&Karol