Páginas

21 outubro, 2012

Capítulo 25


Fiquei embaraçada quando ele tocou minha cintura. Sabia o que significava, mas não era hora. Não tão rápido. Havia muito pouco tempo que nos conhecíamos e por mais que o amasse era um passo sério que não seria dado precipitadamente. Faltava muito para ser dito e sabido. Ele era incrível, todos o amavam, conhecia bem sua vida, mas não o suficiente, não como achava que era o certo. Não era por ele ser vampiro nem nada, mas faltou— me confiança suficiente inclusive em mim. Ele entendeu prontamente o que quis dizer então continuamos nos beijos e abraços. Ele quis ir embora, porém fiz o que pude para impedir: pedi, resmunguei, argumentei. Ele me beijou então sabia que tinha vencido. Amanhã era sábado e novamente passaríamos um bom tempo juntos.
Ficamos até tarde nesse clima maravilhoso de romance até que dormi no chão no peito dele. Era melhor que qualquer outro lugar que já tinha dormido antes.
Tive um sonho maravilhoso. Estava num lugar fascinante: fazia frio, muito frio, mas eu apenas sabia, não sentia; havia muitas flores numa espécie de campo e ao redor muitas montanhas, um lago muito grande. Estava na beira molhando as mãos quando ouvi alguém me chamar. Levantei e meu vestido champanhe tomara que caia com ondulações da cintura para baixo e com busco com um tecido cruzado entre si balançou sobre mim. Meu cabelo estava preso numa cascata de ondas e estava descalça. Quem me chamou tinha uma voz forte, mas macia e aveludada. Parecia que estava declamando meu nome então não resisti e me virei para olhar para o dono daquela voz maravilhosa. Era ele. Vestia uma calça branca solta e uma camisa tipo uma bata até o quadril da cor do meu vestido. Sorria brilhantemente e seus olhos estavam esbranquiçados. O cabelo caia sobre o ombro como eu adorava e tinha um brilho invejável. Sorri em resposta e corri até ele que me esperou sorrindo. Abraçamo— nos e ele me girou. Pôs— me no chão e me beijou delicadamente. Ficamos lá naquele lugar mágico. Lembrava de lá. Era um país diferente, sim, era a Nova Zelândia. A tinha visto num filme e fiquei fascinada. Conversávamos sobre isso e sobre nós, nosso amor. Ele estava deitado sobre um braço com uma perna dobrada e a outra no chão esticada. Com a mão do braço em que estava deitado acariciava meu rosto, pois estava deitada de frente para ele com as pernas encolhidas uma sobre a outra no chão. Sorríamos um para o outro e por vezes nos beijamos, mas meu encanto foi quebrado.
Acordei com minha mãe me chamando. Droga, hoje não tinha aula, porque me chamar tão cedo? Espera! Não era minha mãe.  Era ele. Assustei— me com tudo isso. Ah tá. Ele estava aqui, devia estar horrível. Queria me esconder. Ele havia trazido café. Então devorei tudo correndo. Nossa que fome, também não almocei ontem. Ao contrário do que muitos pensam amor realmente não enche barriga. Do contrário estaria com indigestão.
Quando o Caine disse que nós iríamos passear apressei— me para sairmos logo. Achava que era cedo, mas já passava das onze. Agora me dava conta de que os vizinhos deveriam estar todos de pé e nos veriam juntos então fiz um plano. Sairia antes e ele me seguiria depois até o café. De lá iríamos ao lugar misterioso. Se ele saísse antes e eu depois daria muito na cara. Todos fazem isso. Estava tudo perfeito até sair e dar de cara com a Márcia Guimarães e o filho dela Daniel, os amigos dos meus pais. Fiquei de todas as cores que se é possível ficar parando no branco. O Caine deve ter ficado super confuso, pois eu mesma fiquei. O que eles faziam aqui?
— Entrem, por favor.
Disse dando tempo para que ele se escondesse. Quando entramos de volta o Caine havia sumido de lá.
— Desejam alguma coisa? Água, café?
— Não, só estávamos de passagem.
— Sentem— se.
As almofadas estavam jogadas pelo chão junto com a minha gravata e meu sapato. Juntei tudo depressa e joguei atrás do balcão da cozinha. Eles se entreolharam numa conversa silenciosa que eu esperava que fosse sobre minha desorganização.
— Como vão seus pais?
— Muito bem, obrigada e a família?
— Muito bem, toma o presente.
— Nossa que lindo muito obrigada. Eu adorei de verdade.
Era um colar com pedras pretas que pareciam ônix. Tinha uma grande no meio e outras pequenas na corrente. Muito lindo, de verdade. Abracei— a em agradecimento e dei— lhe um sorriso deslumbrante.
— Que bom que você gostou, mas agora preciso ir. Quer almoçar conosco?
— Oh, agradeço o convite, mas fica para a próxima. Marquei de almoçar com uma amiga da escola, Carly.
— Carly Johnson?
— Sim. Conhecem— se?
— Sim. O Paulo trabalha com o pai dela. São muito amigos. Está muito bom, mas precisamos ir, até mais querida. —  A Carly me devia essa. Ajudei— a com o Andrew ontem mesmo.
— Até mais Charlotte. —  O Daniel me beijou no rosto carinhosa e rapidamente.
— Vamos descer juntos.
— E a chave? – Oh meu Deus e o Caine?
— Tenho outra chave no criado mudo, acho que não faz mal levar essa.
Eles não entenderam nada, mas tudo bem. Descemos e fui conversando com eles sobre coisas legais da cidade e como tinha me divertido até agora.
— A cidade é maravilhosa. As pessoas são muito boas e está dando tudo certo.
— Que bom querida, fico feliz por você.
— Obrigada Márcia. É bom saber que tenho amigos numa cidade nova.
— Com certeza tem amor. Você é uma menina de ouro. Conte conosco sempre que precisar.
— Isso mesmo Charlotte, estaremos aqui. Eu também, não esqueça.
— Obrigada Daniel. Fico feliz em saber disso. E por favor, me desculpem a bagunça. Ontem cheguei muito mal da escola e fui jogando tudo pelo caminho. Não esperava receber visitas hoje, não que não sejam bem vindos.
— Nós é que nos desculpamos por termos aparecido de repente, sem avisar, mas você está bem mesmo?
— Sim foi só um mal estar. Não se preocupem e apareçam quando quiserem.
— Tudo bem. Até mais.
— Até mais.
Ufa! Quase não consigo disfarçar meu nervosismo. Ainda bem que despistei os dois. O pobre Caine ficaria trancado por pouco. Corri para o café e logo depois ele chegou interrogativo perguntando sobre o Daniel. Ficou com ciúmes então tive que fazê— lo esquecer, pois não agüentaria outra discussão boba como a de antes de ontem.
Pegamos o ônibus e mais que de repente ele se virou para mim e se escondeu no meu pescoço. Tinha visto um amigo no ônibus e precisava se disfarçar. Não precisávamos de um escândalo a essa altura. Fingi um tropeção para que o amigo dele desviasse sua atenção enquanto o Caine saia. Ele foi muito gentil e me segurou, então desci e encontrei o Caine no ponto parado.
— Não precisa agradecer, vamos estou muito curiosa.
— Irá se surpreender.
Caminhamos um pouco e entramos numa rua meio deserta. Havia um galpão enorme no fim da rua então me dei conta do que se tratava: era a casa dele! Pulei no seu pescoço e comecei a gritar. Ele se assustou e me segurou para que não caísse.
— Ah Caine obrigada. Queria tanto conhecer sua casa! Nunca tive coragem de pedir, mas ainda bem que me trouxe aqui. É super fantástico.
— Como você sabe que é minha casa? Poderia ser qualquer lugar da cidade.
— Mas esse lugar é a sua cara.
— Grande, feio e sujo?
— Claro que não! Pode ser grande e sujo, às vezes, mas feio nunca!
— Charlotte! Não sou sujo.
— Era da primeira vez que te vi. As meninas te chamaram de trapinho quando contei a elas sobre você.
— Não costumo andar sujo por aí, onde você me viu e como sabe se era eu mesmo?
— Agora sei mais que nunca. Vi— te de costas, cabelo preso com um pedaço de tecido, camisa azul escuro gasta e uma calça preta rasgada. Andava como um lorde, mas se vestia como um mendigo desculpa a palavra. Estava entrando numa loja.
— Tudo bem. Lembro desse dia. A Felicity trabalha nessa loja. A garota que você viu comigo no café. Foi a primeira vez que estive lá. Precisa comprar uma roupa barata, pois só tinha pouco mais de £100.
— Só um minuto. Você tinha sido transformado, estava sem nada e tinha £100?
— É que não era meu. Uns garotos invadiram o galpão e deixaram a carteira cair. Não iria voltar e devolver depois de ter batido neles.
— E por que bateu?
— Porque eles queriam me bater primeiro. No outro dia voltaram acompanhados e atiraram em mim.
— O que? E como você ficou... deixa pra lá. Do mesmo jeito que naquele dia lá em casa, não foi?
— Sim.
— E onde foi o tiro que mal te pergunte?
— No ombro, entre a clavícula e a escápula.
— Posso ver?
— Não ficou marca.
— Por favor.
— Vamos entrar? Lá te mostro ou quer que tire a roupa no meio da rua?
— Não, tudo bem. – Fomos entrando e fiquei fascinada com o lugar. – E o que você fez com eles?
— Disse que se não fossem embora os mataria.
— Caine isso não se faz. Eles devem ter ficado muito assustados. – Não aguentei segurar o riso. Só de pensar no meu Caine, tão romântico, tão lindo assustando adolescentes... Era hilário, cara.
— E não fiz só isso. Peguei toda a grana deles. Não seria justo que eles invadissem minha casa, atirassem em mim e saíssem ilesos.
— Quanto você conseguiu?
— Umas £400 e somando com o dia anterior umas £500.
— Muito bem meu amor. Só não faz de novo tá.
— Tudo bem, não pretendia antes e nem pretendo agora. Vem quero te mostrar a casa.
Nós subimos e entramos numa salinha que parecia um escritório. Havia arquivos, uma mesa, uma cadeira quebrada e um colchonete.
— Meu quarto e minha cama.
— Muito legal.
— Nem tanto, mas gosto daqui.
Descemos e ele me mostrou o resto. Havia latas e pneus arrumadinhos num canto e o banheiro era pequeno, mas estava limpinho. Tudo estava na verdade.
— Porque as janelas estão pintadas?
— Por que logo quando cheguei não conseguia enxergar no sol. Agora está muito melhor, como antes da mudança.
— Tão rápido assim?
— Sim. Aquela mulher falou que isso seria uma... diferença tipo algo a mais que nos outros, como sentir necessidade de me alimentar mais frequentemente e... andar com humanos.
— O que? Quer dizer que os vampiros não “andam” com humanos?
— Não sei o que ela quis dizer, não faço ideia do que aconteceu fora que ela me paralisou. Fiquei enfeitiçado e sei que não foi algo normal. Uma vez estava com a Felicity e tive uma visão da Verônica com um homem discutindo. Meus olhos ficaram brancos e a Felicity se assustou e começou a fazer perguntas. Olhei para ela e comecei a dizer pausadamente que não era nada e que estava tudo bem até que ela esqueceu o que havia visto.
— Como esqueceu? Assim de repente?
— Sim, apenas assim.
— Nossa Caine, então aquela idiota deve ter razão quando diz que há diferenças em você. Não conheço outros vampiros, mas você a conheceu e pareceu que poderia fazer coisas parecidas com as que ela faz.
— E isso não é muito bom, pois se ela tem uma legião atrás dela e veio pessoalmente me procurar quer dizer que valho muito.
— Não gosto que você pareça algo que está à venda.
— Muito menos eu. Agora vamos acabar com esse assunto. Já falamos demais sobre essa mulher.
— Só mais uma pergunta.
— O que?
— O que você sentia pela Verônica realmente?
— Porque a pergunta?
— Por nada, curiosidade, mas responde. – Olhei implorativa de forma que ele não seria capaz de se negar a responder.
— Tudo bem. Achava que era amor. Atração física, encantamento, novidade sei lá.
— E o amor?
— Hoje sei que não era.
— Como?
— Conheci você e agora sei o que é amar. – ele me beijou carinhosamente na testa e me abraçou.
— Mas vocês... saiam muito. –Não quis realmente saber se eles saiam. Queria saber se eles...saiam.
— Se eu entendi bem o sentido da sua pergunta não. Não “saímos” nenhuma vez em todo o tempo de namoro.
— Por quê?
— Por que ela sempre se esquivava.
— Hum...
— Você quer mesmo falar sobre isso?
— Não. —  Respondi prontamente. Ele era meu agora e ninguém o tiraria de mim nunca mais.
— Preciso te dizer uma coisa: quando estava dormindo ontem saí da cama para um banho. Estava muito quente. Quando toquei minha marca tive outra visão, dessa vez de algo que não aconteceu.
— O que?
— Estava aqui e brigava com a Verônica. Expulsava— a e estávamos irados um com o outro.
— Nossa que horror. Será que é de algo que virá?
— Espero que não.
— Mas você queria tanto saber a verdade.
— Se esse for o preço para tal prefiro não pagar.
Ele me abraçou e subimos. Ficamos deitados no colchonete, eu sobre ele para ficar mais confortável. Estávamos muito bem em meio a beijos e conversas sem noção.
— Sonhei conosco.
— Como foi?
— Lindo. Estávamos num lugar que eu acho que era a Nova Zelândia. Era lindo e você estava maravilhoso.
— Obrigado.
De repente um barulho que eu não ouvi o despertou do nosso pequeno transe.
— O que houve?
— Xii. Tem alguém lá embaixo. Fica aqui e não sai de maneira nenhuma me ouviu. Vou olhar o que ou quem é. Não sai daqui, por favor, me obedece.
— Tudo bem vai logo.
Ele vestiu a camisa, saiu fechando a porta atrás de si e desceu silenciosamente a escada. Grudei meu ouvido num lugar quebrado no vidro do lado do arquivo de modo que fiquei praticamente toda escondida. Ouvia muito mal, mas tentaria até a morte saber o que estava acontecendo lá embaixo.
— Quem está aí?
— Será que não se lembra mais de mim querido?
Cabelo comprido e avermelhado, olhos verdes, salto alto fino, vestido branco sem mangas e apertado, sensual, olhar mortal. Mas será possível que essas mulheres brotavam do chão aqui? De onde elas todas vinham, cara?
— Nem posso acreditar que você teve a coragem de aparecer aqui. Onde esteve todo esse tempo em que precisei de explicações? Você sumiu! Onde foi quando “morri”? Embora! Porque não ficou para explicar minha morte aos meus pais? Porque não me amava. Por favor, vai embora, antes que minha educação seja esquecida.
— Calma querido. Onde está todo o seu amor por mim?
— Morreu junto comigo naquele dia infernal. O que aconteceu comigo? O que você me fez? No que me transformou?
— Você sabe muito bem no que se transformou. –Cara ela falou como se estivesse cuspindo veneno. Eles não citaram nomes, mas pelo visto a mulher lá embaixo era a famosa Verônica.

Nana&Karol 

12 outubro, 2012

Capítulo 24


Saí de lá muito triste com a atitude dela, nunca imaginei que ela pudesse me tratar daquele jeito. A única coisa que me deixou feliz foi o ciúme dela. Cheguei em casa cabisbaixo e juro que se aquela mulher aparecesse a expulsaria da pior forma possível. Subi e peguei uma roupa, tomei um banho e enquanto isso pensava no que aconteceu. Estava muito feliz por ela ter me desobedecido e ido falar com minha mãe. Com a ajuda dela seria muito mais fácil suportar tudo isso principalmente se a Charlie desistisse de mim e essa ideia me pareceu insuportável. Vesti uma calça folgada e me deitei no colchonete.
Fiquei pensando se ia a casa dela ou não amanhã. Na verdade estava sem coragem de vê— la acabar com tudo. Pela manhã já não aguentava mais pensar nisso então decidi limpar o galpão que já estava muito sujo. Arrumei o arquivo com minhas roupas, lavei o banheiro e ajeitei as “janelas”. O sol já não me fazia mal, mas o escuro era mais confortável. Varri o galpão bem lentamente e quando me dei conta já era tarde. Teria que enfrentá— la alguma hora então seria melhor que fosse logo.
Arrumei— me e fui até a casa dela. Minha mãe estava lá, falou rapidamente comigo, pois precisava ir embora por causa do meu pai e nos deixou sozinhos para o embate. Estava exagerando, mas era assim que me sentia.
— Senta aqui. – Andei até ela como quem anda para a forca. – Tudo bem com você?
— Sim e com você?
— Tudo. Alguma novidade?
— Não e você?
— Não também.
A partir daí ela começou a falar de como estava errada e deveria ter me apoiado e me pediu perdão. Se meu coração estava contraído de pavor do que poderia acontecer aqui agora estava expandido de tal forma que mal cabia no meu peito. Não era minha vontade perguntar, mas precisava deixá— la livre para escolher então pedi que escolhesse de que lado ficar. Não vou dizer que esperava o contrário, ninguém nunca espera, mas quase pulei de alegria quando ela disse que me escolhia. Abraçou— me como uma criança que procura abrigo nos pais quando se machuca, e fiz o máximo para corresponder. Fiz carinho no seu cabelo e beijei sua cabeça por muito tempo, mas não aguentava ficar ao seu lado sem beijá— la. Levantei sua cabeça e ela ainda estava chorando. Vi que ela estava sofrendo tanto ou mais que eu. Já havia sentido se não amor – e acredito que não era – algo bem parecido pela Verônica então já imaginava como fosse. A Charlie não; era a primeira vez que se apaixonava e se já era difícil para mim imagina para ela. Inclinei— me sobre ela e ficamos deitados nos beijando. Não sei o que ela tentou fazer, mas conseguiu nos derrubar do sofá. Ficamos no chão rindo, ela deitada sobre mim e nos beijando entre os risos. Sentei de modo que ela ficasse sentada sobre suas pernas entre as minhas abertas. Não seria muito bom se ela continuasse sobre mim.
De repente ela parou e me perguntou se eu tinha ouvido uma música. Já a tinha ouvido. Alguém que não me lembro me deu um cd com várias músicas misturadas e entre elas estava essa. Disse que seria a nossa música e sussurrei um trecho para ela que gostou da ideia. Sua expressão estava tão fantástica, tão fascinante que a beijei novamente puxando— a para mais perto. Havia um ano mais ou menos que não ficava tão próximo de uma garota assim. Meu namoro com a Verônica era muito estranho. Apesar de termos ficado tanto tempo juntos e ela ser mais velha nunca me permitiu ir mais além. Ela nunca nem me apresentou a sua família! Sempre que as coisas começavam a passar do ponto ela fugia de mim. Agora a Charlie, quem eu tanto amo, tão próxima... Não sei se hoje conseguiria ir embora.
Ela ainda estava de farda e de repente puxou a gravata. Um botão abriu e vi seu ombro à mostra. Já havia visto antes, mas nunca me pareceu tão tentador. Ela passou a mão pelo meu cabelo e me arrepiei. Beijei seu pescoço e pus a mão na sua cintura sob a camisa. Ela se afastou e me olhou confusa e um pouco assustada.
— Caine!
— Desculpa Charlie, é que...
— Tudo bem, não precisa explicar, eu entendi, só não...
— Ok. Passei dos limites, desculpa. – Foi um verdadeiro balde de água fria, mas entendi que tinha ido além do que ela imaginou. A atitude dela me lembrou a Verônica.
— Não fica chateado?
— Claro que não meu amor. Não quero forçar nada. Eu que não deveria ter ido tão longe antes de você permitir.
— Eu te amo sabia?
— É, acho que você já disse isso.
Ela me bateu e me abraçou. Ficamos lá entre beijos e risadas sobre coisas meio sem noção e não vimos a hora passar. Quando me dei conta já passava da meia noite. A Charlie estava sonolenta, mas nunca daria o braço a torcer. Ficaria acordada para sempre se pudesse ao contrário de mim que daria tudo por uma noite de sono.
— Meu amor preciso ir.
— Já, está cedo.
— Cedo para amanhã? Conheço essa história. Você vai me pedir para ficar, me olhar como uma criança abandonada e não vou ter como negar.
— Se você já conhece a história porque não fica de uma vez.
Nem ela conseguiu segurar o riso com isso. Estávamos abraçados no chão, no tapete e quando tentei me levantar ela segurou meu braço firme.
— Por favor, fica só hoje. Estava com saudades de você. Sei que foi apenas um dia, mas em pensar que poderia te perder de alguma forma e por culpa minha quase morri. Falei com sua mãe e com as meninas. Elas me mostraram delicadamente o quanto fui idiota e não quero continuar sendo.
— Você não foi nem está sendo idiota. Eu te amo Charlotte e isso não vai mudar seja lá o que faça. Se hoje você tivesse dito que nunca mais queria me ver sairia por aquela porta e nunca mais apareceria. Deixaria você viver sua vida e não te atrapalharia, mas só Deus sabe como conseguiria fazer isso. Se não consegui me controlar foi por culpa minha e não sua. Não se sinta idiota nem nada assim.
— Ajudaria se você ficasse.
— Quantas vezes você vai conseguir o que quer comigo?
— Quantas você permitir.
— Então serão todas as vezes.
Beijei— a apaixonadamente. Novamente ela tinha me vencido. Só fiquei porque amanhã era sábado e planejava levá— la para passear. Teríamos que dar um jeito de eu sair sem que ninguém me visse. Para mim não seria difícil, mas a Charlie se entrega quando faz algo errado. Fica nervosa e embaraçada como ela ficou quando trouxe minha mãe aqui. Era só rezar para que ela não encontrasse ninguém nos corredores do prédio amanhã.
Continuamos assim até que ela dormiu nos meus braços. Até que conseguiu segurar muito. Já passava da uma da manhã então peguei— a no colo e a coloquei na cama. Amanhã ela daria um jeito na roupa. Com certeza não gostaria que a trocasse então a cobri e fiquei lá olhando— a dormir. Parecia um anjinho deitado numa nuvem. Seu cabelo caia sobre o pescoço numa onda e seu braço estava sob o travesseiro como se estivesse querendo dizer “É meu e ninguém tem o direito de tocar”. Dormia serena, respirava tranquilamente. Foi a melhor visão que já tive dela até então. Minha estranha perfeita agora era tão familiar que fazia parte de mim. Sem me fosse tirada seria tirada minha alma, pois a reencontrei na Charlie. Amava— a mais que tudo em minha vida, mais que a mim mesmo. De hoje em diante a protegeria com minha vida e a amaria com mais intensidade que qualquer uma já foi amada no mundo.
Decidi tomar uma ducha rápida. Ela não acordaria mesmo. Saí do lado dela, prendi o cabelo, fui para o banheiro. Quando comecei a me molhar com água fria passei a mão pelo pescoço e toquei a marca. Senti como se estivesse voando e me vi discutindo com alguém na minha casa. Estava escuro, mas num lance de luz vi um rosto que, infelizmente, me era familiar: Verônica Malkavian. Falávamos alto e eu gritava e a expulsava de lá. Ela vestia branco como raramente o fazia. De repente voltei a mim e me vi no banheiro da Charlie. Foi rápido e assustador. Não consegui entender o que aconteceu. Saí do banho, me enxuguei e voltei para o lado dela na cama. Queria ficar com a Charlie, mas tomei cuidado para não acordá— la. Só precisa ficar próximo a alguém que me desse segurança e encontrava isso nela. Foi uma situação que esperava que não acontecesse.

***

Pela manhã fui à cozinha. Já era tarde e não a acordei antes por causa da hora que ela foi dormir. Fiz café e peguei cereal e biscoitos. Era a única coisa que tinha ali. Como ela conseguia viver sem comer? Coloquei numa bandeja e levei ao quarto. Ela estava virada para a parede. Sentei na beirada da cama e falei ao seu ouvido.
— Charlie, meu amor, a escola.
— Hoje é domingo mãe.
— Hoje é sábado. – Ela levantou a mão como se estivesse pedindo um tempo e acabou tocando meu peito. Abriu os olhos e levantou— se assustada.
— O que... – Olhou— me surpresa.
— O que passou pela sua cabeça? – Ela passou a mão pelo cabelo numa atitude cansada.
— Que a minha mãe estivesse me acordando para a escola.
— Já é a segunda vez que me compara com sua mãe. Estou com medo de estar parecendo muito feminino. Fiz café para você.
— Que maravilha estou morrendo de fome e você não parece nada com minha mãe posse te garantir isso. – Ela me olhou de uma forma diferente do habitual, mais madura.
— Você dormiu feito uma pedra.
— A culpa é sua.
Pus a bandeja na cama e ela começou a devorar tudo.
— Minha?
— Sim, você que me deixou acordada.
— Foi você que me pediu para ficar.
— Quis dizer que com você do meu lado fica quase impossível pensar em algo que não seja você, muito menos em dormir.
Sorrimos juntos nos olhando maliciosamente então quando ela acabou peguei a bandeja e levei de volta para a cozinha. Voltei e ela estava deitada de novo.
— Nunca imaginei que fosse tão preguiçosa.
— A preguiça é uma virtude.
— Quem te disse isso?
— Ninguém, aprendi na prática.
— Precisa se trocar, hoje é sábado quero te levar para um lugar.
— Onde?
— Surpresa. Você saberá quando chegar lá.
— Então vou tomar banho. Ou você quer ir primeiro?
— Não pode ir te espero.
Ela se levantou com o cabelo todo assanhado, olhou— me travessa e correu para o banheiro quando lhe lancei um olhar aguçado. Tirei a camisa e quando ela saiu fui tomar banho. Quando saí ela estava vestida numa calça jeans com tênis All Star azul e uma camisa verde. Secava o cabelo.
— Estou com pressa, se troca rápido.
— Por quê?
— Além de estar ansiosa para ir nesse tal lugar quero aproveitar que ainda é cedo para que os vizinhos não nos vejam.
— Quanto pra você é cedo? Porque já são quase 11h30.
— O que? E porque você não me disse logo? Precisamos ir rápido.
Ela largou o secador, pegou minha camisa e jogou em cima de mim. Vesti— me o mais rápido que pude.
— E agora?
— Vou olhar.
— Deixe que eu olho. Não tem ninguém.
— E se alguém nos vir.
— Agora você se preocupa com isso.
— Cala a boca. – Ela falou rindo. —  Vou sair e te espero no café.
— Ok. —  Ela abriu a porta devagar e ficou branca quando saiu.
— Bom dia Charlotte. Ia tocar a campanhia nesse minuto.
— Bom dia, Sra. Guimarães que bom te ver. Daniel como vai?
Que droga! Era tudo que não poderia ter acontecido. Quem visita as pessoas sem avisar?
— Tudo bem, estava de saída?
— Na verdade sim.
— Não tem problema querida, é só um minutinho, só viemos te trazer esse presente.
— Entrem, por favor. —  Saí em disparada para o quarto enquanto ela os trazia para dentro.
— Desejam alguma coisa? Água, café?
— Não, só estávamos de passagem.
— Sentem— se.
— Como vão seus pais?
— Muito bem, obrigada e a família?
— Muito bem, toma o presente.
— Nossa que lindo muito obrigada. Eu adorei de verdade.
— Que bom que você gostou, mas agora preciso ir. Quer almoçar conosco?
— Oh, agradeço o convite, mas fica para a próxima. Marquei de almoçar com uma amiga da escola, Carly.
— Carly Johnson?
— Sim. Conhecem— se?
— Sim. O Paulo trabalha com o pai dela. São muito amigos. Está muito bom, mas precisamos ir, até mais querida.
— Até mais Charlotte. —  O que foi aquilo? Ele a beijou? Quem é esse cara afinal?
— Vamos descer juntos.
— E a chave? – Nem acreditei que ficaria preso aqui.
— Tenho outra chave no criado mudo, acho que não faz mal levar essa. – ela falou mais alto para que eu pudesse ouvir. Esperei uns 10 minutos e saí atrás dela no café. Ela estava aflita roendo as unhas.
— Oh, meu amor me perdoa, achou a chave?
— E como eu teria chegado até aqui? Quem eram aquelas pessoas e porque aquele cara te beijou?
— A Márcia e o Paulo são amigos da minha mãe e o Daniel é filho deles. E ele me deu um beijo no rosto o que tem demais? E outra como você sabe disso, estava espiando?
— Não! Não tenho culpa de ter ouvido, não controlo meus ouvidos e tem demais que eu não gostei dele ter se aproximado de você.
— Caine, as pessoas vão continuar se aproximando de mim e não é porque estamos juntas que vou impedi— las de fazer isso. Você não corre nenhum risco te garanto.
— Tudo bem, desculpa é que a situação me deixou louco. Quem imaginaria visitas a essa hora? – Acabamos rindo da situação, ela me beijou rapidamente e me abraçou para que fossemos logo. Pegamos o ônibus que parava mais próximo ao galpão.
— Nunca peguei esse ônibus.
— E nem deve fazê— lo sozinha, quero dizer, sem mim.
— Por quê?
— Porque leva a uma área um pouco perigosa.
— E o que vamos fazer lá?
Nem consegui responder, o ônibus parou e vi alguém muito familiar subindo: meu amigo Marcus. Sabia que corria o risco de encontrar pessoas conhecidas, mas não esperava que fosse tão rápido. Ele vestia uma calça jeans clara com uma camisa cinza e um casaco preto. Virei a cabeça para Charlie e enterrei meu rosto no seu pescoço.
— O que está acontecendo?
— O meu melhor amigo acabou de subir para o ônibus.
— O que? E agora?
— Coloca o seu cabelo na minha frente. E finge me beijar.
Ela puxou seu cabelo para o lado para que pudesse me esconder. Beijou— me de verdade, mas discretamente e ficamos assim até o nosso ponto.
— Nosso ponto é o próximo, como iremos fazer para que ele não nos veja?
— Fica atento. – Ela se levantou e quando estava chegando próximo a ele fingiu tropeçar para que ele a segurasse.
— Cuidado garota, você pode se machucar sério.
— Muito obrigada, nem sei como te agradecer.
— Não precisa só toma cuidado da próxima vez.
— Tudo bem, tchau. —  A essa altura já a esperava do lado de fora.
— Tudo bem?
— Sim.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer, vamos estou muito curiosa.
— Irá se surpreender.

Nana&Karol

Capítulo 23


Assim que ele entrou ela desmaiou. Ele ficou irado comigo por tê— la dito tudo, mas no final entenderia que tinha sido o certo. Quando ela acordou eles conversaram emocionadamente e me chamaram. Ficou tudo bem entre nós e quando ela teve que ir ele me beijou apaixonadamente. Estava agradecido, eu sabia, por tudo ter corrido bem. O beijo foi mais espetacular que nunca. Ele se superava a cada olhar, a cada toque, a cada sorriso. Ele começou a falar de algo que não me agradou. No dia anterior uma vampira foi à casa dele e o propôs um tipo de sociedade. Não disse como nem contra quem, mas tinha informações importantes sobre a mudança dele e isso o seduziu. Era uma parte valiosa da parte dele sobre a qual ele não tinha controle por não se lembrar. Claro que sabia disso tudo, mas não foi isso que me incomodou. Foi o fato de ela ter usado ele e ele ter se deixado levar. Ele bebeu do sangue dela. Que nojo! Não do sangue em si, pois já tinha visto o Caine se alimentar e não foi tão ruim (depois). O nojo era dela. Não a conhecia e não fazia ideia de como ela era, mas não ia com a cara daquela mulher. E quando Caine começou a falar dela e sobre ter ficado saciado com o sangue dela mais do que com o dos caras quase gritei mandando ele ir embora. Será que ele não via que estava me maltratando dizendo aquilo. Cara que ódio! Ele precisava de apoio, mas eu também precisava e não encontraríamos isso hoje. Mandei— o ir e quando fechei a porta comecei a chorar de raiva. Raiva por não poder fazer nada por ele. Nada para que ele não tivesse se entregado a ela. Ele não fez nenhum pacto nem acordo, mas o que aconteceu já foi o bastante. Enquanto ele falava senti que tudo isso mexeu com ele e não agüentei. Vê— lo falando daquela forma me deixou morta de ciúme. Não sabia o que fazer então liguei para as meninas.
— O que ele fez?
— Isso que eu disse. Alimentou— se dela.
— E de onde veio essa mulher?
— Não sei, nem ele sabe. Ela apareceu propondo sociedade e como amostra do poder dela deixou ele beber e ele ficou mais que saciado com um poucquinho de sangue.
— E porque você está tão louca?
— Glória! Ele estava com outra.
— E o que você queria? Que ele se alimentasse de você? Antes dela.
— Anne não é bem assim.
— Claro que é Char. Ele precisava comer. Há quanto tempo estava sem se alimentar.
— Uma semana mais ou menos.
— O que? Nem para um vampiro isso é comum.
— Não sei não.
— Olha. Tenha a santa paciência. Se ele tivesse intenção de te trair ou algo assim não teria falado nada. A maior prova de que ele te ama foi ele ter dito tudo.
— Será que ele falou tudo?
— Presta atenção. Não procura cabelo em ovo. Ele é sincero e te ama. Acha que falaríamos alguma mentira?
— Não.
— Então. Espera até amanhã e fala com ele. Pede desculpa pelo seu ataquezinho de ciúmes e fica do lado dele. Ele te ama e nós também e não deixaríamos ninguém te fazer mal.
— Obrigada meninas. Amo vocês. Agora preciso dormir.
— Tchau. –Falaram um uníssono e desligamos.
Pensei mais um pouco sobre como estava errada. Elas tinham razão. Não deveria ter deixado meu ciúme afastar— nos. Amanhã rezaria para ele aparecer e pediria desculpas. Fiquei deitada na banheira cheia de água morna por uma hora mais ou menos. Era minha terapia. Tomei um bom banho, vesti uma roupa confortável e fui dormir bem mais calma. Acordei com o despertador gritando no meu ouvido. Vesti— me apressada e comi uma fruta. Desci correndo e encontrei a Carly aflita lá embaixo.
— Foi ao médico?
— O que?
— Você foi ao médico, não passou mal ontem?
— Ah sim. Fui à enfermaria da escola e lá me examinaram. Ela disse que eu estava com TPM.
— Tem certeza?
— Sim. Nem sei como não já me acostumei.
— Tudo bem.
— Chegaram meninas. Até depois.
— Até mãe.
— Até Sra. Johnson.
Entramos apressadas nos abraçamos e fomos para nossas aulas. No almoço ela estava ensandecida por causa do emo que estuda na sala dela. Eles se falaram e estava pintando um clima.
— Você não imagina Charlotte como ele é educado e me trata bem. Ele falou que meus olhos eram lindos. Lindos são os dele. Que cor é aquela? E ele disse que minha voz é doce e agradável. Ele é tão fofo!
— Tenho uma amiga no Brasil que acha que todo mundo é fofo. Seu nome é Julie. Falando em nomes qual o nome dele?
— Andrew. Andrew Crawford.
— Belo nome. Ele já cortou o cabelo?
— Não. Claro que não. O cabelo dele é lindo. – Nunca diria ao Caine para cortar o cabelo.
— Não deixe. — Nesse momento o Andrew passou pela nossa mesa e parou para falar com ela.
— Olá Carly tudo bem?
— Olá Andrew, sim e você?
— Melhor agora. — Ele me olhou interrogativo e eu mesmo me apresentei estendendo a mão.
— Charlotte Camarillo.
— Prazer, Andrew Crawford. – Falamos o nome dele juntos. Ele se espantou um pouco então esclareci.
— É que a Carly estava falando de você. – Ela quase enfartou. Olhou— me quase me matando com uma onda de raios que saiam de seu olhar furioso.
— Espero que bem. – Ele a olhou e ela desviou seu olhar irado de mim para olhá— lo desconfiada.
— Bem, muito bem. Não imagina o quanto. Disse até que você é fofo.
— Sério? Não imaginava que seria assim. Posso te convidar para sair Carly? Assim você tira a prova sobre essa questão de fofo. Prometo tentar não quebrar essa imagem se ela for positiva. – Ela estava boquiaberta. Nem conseguia falar. Respondeu quase sem voz.
— É claro. Sobre sair e sobre tirar a prova.
— Tudo bem. Te pego as sete então?
— Pode ser. Até lá.
— Até. Tchau Charlotte.
Ele se afastou e foi sentar— se com uns amigos. Cara, ele era muito lindo. Aqueles olhos quase transparentes eram demais. Nunca tinha visto igual e não era lente. Não usava maquiagem como desconfiei da primeira vez que ela falou sobre ele, ao contrário. Parecia bem másculo, alto. Andava como se estivesse desfilando e ao mesmo tempo pronto para uma briga. A Carly se deu muito bem. Lembrando ela...
— Você é louca?
— O que? Estava tentando te ajudar e acho que deu certo.
— Quase morri de vergonha. Agora tenho que sair com ele.
— Até parece que será um grande sacrifício.
— Obrigada Charlotte.
Ela me abraçou e ficou lá especulando sobre o encontro. Na saída ela me mostrou Andrew e vi— o entrando no carro dele. Era um Mercedes Classe GL cobre escuro muito lindo.
— Carly você está podendo muito. Veja só o carro dele.
— Não me importo com o carro só com ele.
— Pois não se importe não, saia a pé e pegue uma gripe ou pior: uma chuva.
— Não seria o contrário?
— Não. Gripe você cura e uma maquiagem borrada e cabelo desfeito fica para sempre na memória.
Ela riu tanto que teve que encostar— se à parede para se acalmar. Lembrei muito da Glória falando assim. A mãe dela chegou e ela já foi logo contando. Já ia saindo quando alguém me chamou. Era a Lorenna.
— Quase não te pego.
— Desculpa não ter ido falar com você, mas estou um pouco mal.
— Algum problema querida? O Caine te fez algo?
— Na verdade não, mas senti como se tivesse sido.
— Conta melhor, não entendi bem.
Contei a história por alto e ela me ouviu atentamente. Pensou por uns instantes antes de falar.
— Charlie veja bem. O Caine está num mundo novo agora. Está tentando se adaptar a tudo isso e essa mulher apareceu para tocar em duas coisas que no momento eram muito importantes para ele: lembrar da mudança e fome. Tenta entender e aceitar. Ele não te traiu nem nada assim. Seu ciúme foi sem razão, desculpa falar.
— Minhas amigas me disseram o mesmo.
— Que amigas?
— Tenho três amigas no Brasil e são minhas confidentes. Elas sabem sobre o Caine e eles até já se falaram. – E diante do olhar assustado dela emendei. – Não se preocupe. Confio nelas mais que em mim mesma às vezes como ontem. Elas não falarão nada.
Sua expressão se suavizou e ela me aconselhou mais.
— Nunca tinha visto o Caine falar de alguém como ele fala de você. Seus olhos brilham e ele se emociona. Nem daquela bruxa ele falava assim.
— Lorenna você pode me falar mais sobre o relacionamento deles?
— Sim, mas não comenta com ele ok.
— Tudo bem.
— Eles se conheceram numa festa. Ela é mais velha que ele dois anos. O namoro deles era diferente. Saiam mais pela noite, não conversavam muito, ela não falava da família e a única vez que ele entrou na casa dela foi na noite do acidente. Ela era muito bonita e sedutora e acho que usou o Caine, não sei para que, mas usou. Nunca gostei dela e sempre deixe claro para ele. O Caine até ficava mal com isso. Nunca a destratei nem nada, mas para mim era insuportável ficar perto dela. A Verônica o afastou dos amigos, da família e por pouco não conseguiu afastá— lo dos estudos. Vejo que com você é diferente. Admirei— te pela sua força no momento em que veio falar comigo, mas achei que era tudo mentira então...
— Tudo bem. Nunca pensei que ela tivesse feito tudo isso.
— Fez mais. Ele ia comemorar conosco a entrada na faculdade. Não era para ter ido a essa maldita festa, mas ela o convenceu.
— Que mulher horrível.
— Pois é Charlie, por isso estou te aconselhando a não jogar tudo para cima. Se realmente achasse que ele tinha errado diria e seria a primeira a dizer pra pular fora, mas não. Foi um momento de fraqueza e não foi nada que fizesse mal a vocês.
— Tudo bem. Vou falar com ele e me desculpar.
— Posso te levar para casa? Falo com ele um instantinho e vou embora. Além do mais disse ao Rich que iria corrigir umas provas para entregar à coordenação e não demoraria.
— Ok. Vamos?
— Sim.
Fomos para casa e quando subimos ela se sentou. Fiz um chá para nós e ficamos conversando sobre coisas amenas.
— Quando ele era pequeno o Rich queria que cortasse o cabelo. Ele devia ter uns 10 anos e disse que não. Foi a primeira vez que brigaram. Claro que defendi o Caine porque sempre adorei o cabelo dele. Ele sempre cortava para ficar desse tamanho e usava muito preso. Dizia para ele soltar que ficava melhor se não seria melhor cortar então ele atendia.
— Eu peguei o elástico dele e ele não prendeu mais desde então. Amo o cabelo dele e fiz de propósito com o elástico.
— O Rich o ama muito. Estou louca para contar a ele. Nunca escondi nada do meu marido e só estou fazendo porque é um caso extremo.
— A senhora o ama tanto assim?
— Só não mais que ao Caine, pois amor de mãe é maior que todos que existem, mas sim. Depois do Caine é a pessoa que mais amo no mundo. Não sei como teria sido se não estivesse ao lado dele.
Continuamos assim por mais alguns minutos até a campainha tocar. Meu coração saltou e começou a pulsar tão forte que pensei que fosse sair do meu peito. Pedi que ela abrisse e assim foi feito. Eles se abraçaram e se beijaram.
— Oi mãe tudo bem em casa?
— Sim, estamos bem, mas não posso demorar. Disse que ficaria um pouco mais na escola corrigindo provas. Só passei para dar um abraço e um beijo.
— Tudo bem. Cuidado na volta. Eu te amo muito.
— Também te amo meu querido. Agora já vou. Até mais. Tchau Charlie.
— Tchau Lorenna.
Estava sentada no braço do sofá com os pés em cima e deitada sobre minhas coxas quando me despedi. Ela saiu depois de beijá— lo e ele fechou a porta. Depois virou— se devagar e me olhou procurando algum sinal de raiva ou ciúme. Certamente só encontrou um pedido de desculpas. Remorso.
— Senta aqui. – Ele veio cabisbaixo. – Tudo bem com você?
— Sim e com você?
— Tudo. Alguma novidade?
— Não e você?
— Não também. – Nossa. Esse tipo de conversa é de quem não tem o que falar e eu tinha muito que falar então comecei logo. – Caine me perdoa. Sei que fui imatura e que deveria ter te apoiado, mas fiquei com muito ciúme e não me controlei. É que a ideia de te ver com outra mesmo que não estivesse fazendo nada demais me deixou cega. Queria que você me perdoasse, por favor.
— Só quero dizer que entendo que você estava com ciúmes. Também ficaria se estivesse na sua situação e não te condeno. Deixei que você pensasse para que analisasse bem a situação. Eu te amo e sabe disso. Nunca ninguém vai nos separar por qualquer motivo que seja a não ser que seja você. Está livre para escolher o que fazer e como agir.
— Escolho você. E você?
— Precisa mesmo responder?
Saí do meu lugar e abracei— o como nunca tinha feito. Ele passou seus braços ao meu redor e me senti acolhida, amada, perdoada. Ele beijou minha cabeça e ficamos abraçados por muito tempo. Chorei um pouco, mas não dissemos nada. Estava aninhada em seus braços e o apertava a ponto de sufocá— lo. Estava triste, mas aliviada. Ele acariciava meu cabelo o tempo todo e brincava com umas mexas. Por mim ficaria ali por toda eternidade. Nem sei descrever o que se passava dentro de mim, só sei que era muito bom.
Depois de muito tempo ele levantou minha cabeça. Ainda chorava só que mais calmamente. Ele repetiu o que fiz naquele dia: beijou minha testa, meus olhos molhados, a ponta do meu nariz e minha boca. Foi tranqüilo. Ele se inclinou sobre mim e nos deitamos no sofá. Tomei cuidado para não segurar o cabelo dele. Não queria que aquele episódio se repetisse. Ele era muito pesado, mas aliviou o peso pondo um braço escorando seu corpo no sofá e outro abaixo de mim, nas minhas costas assim eu podia respirar. Tentei passar o braço para cima e me desequilibrei, logo o empurrei sem querer e caí no tapete sobre ele. Rimos entre beijos, mas não nos desgrudamos. Ele agora com as mãos livre passou os dedos entre meus cabelos e segurou levemente minha cabeça. Fiz o mesmo com ele. Ele se sentou de repente, mas cuidadoso sem me largar. Estava sentada agora sobre minhas pernas entre as dele que estavam abertas. Ouvi uma música tocando. Era um pouco antiga, mas muito linda. A ouvi pela primeira vez no Brasil quando um amigo estava escutando na sala de aula. Pedi o fone emprestado e estava tocando ela. Era Your Guardian Angel de The Red Jumpsuit Apparatus. Parei de beijá— lo um minuto.
— Está ouvindo? —  Ele abriu os olhos e para variar estavam brancos.
— O que?
— A música.
— Nossa música?
— Não sabia que tínhamos uma música.
— “Nunca deixarei você cair, eu estarei de pé com você eternamente. Eu estarei lá por você do começo ao fim de tudo”. Você é meu verdadeiro amor..
Ele me beijou. Ainda não sabia como ele conseguia enxergar com os olhos brancos. Para mim era algo surreal. Abracei— o forte de novo e ele me puxou para mais perto. Ficamos lá no chão nos beijando ao som da nossa música.

Nana&Karol