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12 outubro, 2012

Capítulo 23


Assim que ele entrou ela desmaiou. Ele ficou irado comigo por tê— la dito tudo, mas no final entenderia que tinha sido o certo. Quando ela acordou eles conversaram emocionadamente e me chamaram. Ficou tudo bem entre nós e quando ela teve que ir ele me beijou apaixonadamente. Estava agradecido, eu sabia, por tudo ter corrido bem. O beijo foi mais espetacular que nunca. Ele se superava a cada olhar, a cada toque, a cada sorriso. Ele começou a falar de algo que não me agradou. No dia anterior uma vampira foi à casa dele e o propôs um tipo de sociedade. Não disse como nem contra quem, mas tinha informações importantes sobre a mudança dele e isso o seduziu. Era uma parte valiosa da parte dele sobre a qual ele não tinha controle por não se lembrar. Claro que sabia disso tudo, mas não foi isso que me incomodou. Foi o fato de ela ter usado ele e ele ter se deixado levar. Ele bebeu do sangue dela. Que nojo! Não do sangue em si, pois já tinha visto o Caine se alimentar e não foi tão ruim (depois). O nojo era dela. Não a conhecia e não fazia ideia de como ela era, mas não ia com a cara daquela mulher. E quando Caine começou a falar dela e sobre ter ficado saciado com o sangue dela mais do que com o dos caras quase gritei mandando ele ir embora. Será que ele não via que estava me maltratando dizendo aquilo. Cara que ódio! Ele precisava de apoio, mas eu também precisava e não encontraríamos isso hoje. Mandei— o ir e quando fechei a porta comecei a chorar de raiva. Raiva por não poder fazer nada por ele. Nada para que ele não tivesse se entregado a ela. Ele não fez nenhum pacto nem acordo, mas o que aconteceu já foi o bastante. Enquanto ele falava senti que tudo isso mexeu com ele e não agüentei. Vê— lo falando daquela forma me deixou morta de ciúme. Não sabia o que fazer então liguei para as meninas.
— O que ele fez?
— Isso que eu disse. Alimentou— se dela.
— E de onde veio essa mulher?
— Não sei, nem ele sabe. Ela apareceu propondo sociedade e como amostra do poder dela deixou ele beber e ele ficou mais que saciado com um poucquinho de sangue.
— E porque você está tão louca?
— Glória! Ele estava com outra.
— E o que você queria? Que ele se alimentasse de você? Antes dela.
— Anne não é bem assim.
— Claro que é Char. Ele precisava comer. Há quanto tempo estava sem se alimentar.
— Uma semana mais ou menos.
— O que? Nem para um vampiro isso é comum.
— Não sei não.
— Olha. Tenha a santa paciência. Se ele tivesse intenção de te trair ou algo assim não teria falado nada. A maior prova de que ele te ama foi ele ter dito tudo.
— Será que ele falou tudo?
— Presta atenção. Não procura cabelo em ovo. Ele é sincero e te ama. Acha que falaríamos alguma mentira?
— Não.
— Então. Espera até amanhã e fala com ele. Pede desculpa pelo seu ataquezinho de ciúmes e fica do lado dele. Ele te ama e nós também e não deixaríamos ninguém te fazer mal.
— Obrigada meninas. Amo vocês. Agora preciso dormir.
— Tchau. –Falaram um uníssono e desligamos.
Pensei mais um pouco sobre como estava errada. Elas tinham razão. Não deveria ter deixado meu ciúme afastar— nos. Amanhã rezaria para ele aparecer e pediria desculpas. Fiquei deitada na banheira cheia de água morna por uma hora mais ou menos. Era minha terapia. Tomei um bom banho, vesti uma roupa confortável e fui dormir bem mais calma. Acordei com o despertador gritando no meu ouvido. Vesti— me apressada e comi uma fruta. Desci correndo e encontrei a Carly aflita lá embaixo.
— Foi ao médico?
— O que?
— Você foi ao médico, não passou mal ontem?
— Ah sim. Fui à enfermaria da escola e lá me examinaram. Ela disse que eu estava com TPM.
— Tem certeza?
— Sim. Nem sei como não já me acostumei.
— Tudo bem.
— Chegaram meninas. Até depois.
— Até mãe.
— Até Sra. Johnson.
Entramos apressadas nos abraçamos e fomos para nossas aulas. No almoço ela estava ensandecida por causa do emo que estuda na sala dela. Eles se falaram e estava pintando um clima.
— Você não imagina Charlotte como ele é educado e me trata bem. Ele falou que meus olhos eram lindos. Lindos são os dele. Que cor é aquela? E ele disse que minha voz é doce e agradável. Ele é tão fofo!
— Tenho uma amiga no Brasil que acha que todo mundo é fofo. Seu nome é Julie. Falando em nomes qual o nome dele?
— Andrew. Andrew Crawford.
— Belo nome. Ele já cortou o cabelo?
— Não. Claro que não. O cabelo dele é lindo. – Nunca diria ao Caine para cortar o cabelo.
— Não deixe. — Nesse momento o Andrew passou pela nossa mesa e parou para falar com ela.
— Olá Carly tudo bem?
— Olá Andrew, sim e você?
— Melhor agora. — Ele me olhou interrogativo e eu mesmo me apresentei estendendo a mão.
— Charlotte Camarillo.
— Prazer, Andrew Crawford. – Falamos o nome dele juntos. Ele se espantou um pouco então esclareci.
— É que a Carly estava falando de você. – Ela quase enfartou. Olhou— me quase me matando com uma onda de raios que saiam de seu olhar furioso.
— Espero que bem. – Ele a olhou e ela desviou seu olhar irado de mim para olhá— lo desconfiada.
— Bem, muito bem. Não imagina o quanto. Disse até que você é fofo.
— Sério? Não imaginava que seria assim. Posso te convidar para sair Carly? Assim você tira a prova sobre essa questão de fofo. Prometo tentar não quebrar essa imagem se ela for positiva. – Ela estava boquiaberta. Nem conseguia falar. Respondeu quase sem voz.
— É claro. Sobre sair e sobre tirar a prova.
— Tudo bem. Te pego as sete então?
— Pode ser. Até lá.
— Até. Tchau Charlotte.
Ele se afastou e foi sentar— se com uns amigos. Cara, ele era muito lindo. Aqueles olhos quase transparentes eram demais. Nunca tinha visto igual e não era lente. Não usava maquiagem como desconfiei da primeira vez que ela falou sobre ele, ao contrário. Parecia bem másculo, alto. Andava como se estivesse desfilando e ao mesmo tempo pronto para uma briga. A Carly se deu muito bem. Lembrando ela...
— Você é louca?
— O que? Estava tentando te ajudar e acho que deu certo.
— Quase morri de vergonha. Agora tenho que sair com ele.
— Até parece que será um grande sacrifício.
— Obrigada Charlotte.
Ela me abraçou e ficou lá especulando sobre o encontro. Na saída ela me mostrou Andrew e vi— o entrando no carro dele. Era um Mercedes Classe GL cobre escuro muito lindo.
— Carly você está podendo muito. Veja só o carro dele.
— Não me importo com o carro só com ele.
— Pois não se importe não, saia a pé e pegue uma gripe ou pior: uma chuva.
— Não seria o contrário?
— Não. Gripe você cura e uma maquiagem borrada e cabelo desfeito fica para sempre na memória.
Ela riu tanto que teve que encostar— se à parede para se acalmar. Lembrei muito da Glória falando assim. A mãe dela chegou e ela já foi logo contando. Já ia saindo quando alguém me chamou. Era a Lorenna.
— Quase não te pego.
— Desculpa não ter ido falar com você, mas estou um pouco mal.
— Algum problema querida? O Caine te fez algo?
— Na verdade não, mas senti como se tivesse sido.
— Conta melhor, não entendi bem.
Contei a história por alto e ela me ouviu atentamente. Pensou por uns instantes antes de falar.
— Charlie veja bem. O Caine está num mundo novo agora. Está tentando se adaptar a tudo isso e essa mulher apareceu para tocar em duas coisas que no momento eram muito importantes para ele: lembrar da mudança e fome. Tenta entender e aceitar. Ele não te traiu nem nada assim. Seu ciúme foi sem razão, desculpa falar.
— Minhas amigas me disseram o mesmo.
— Que amigas?
— Tenho três amigas no Brasil e são minhas confidentes. Elas sabem sobre o Caine e eles até já se falaram. – E diante do olhar assustado dela emendei. – Não se preocupe. Confio nelas mais que em mim mesma às vezes como ontem. Elas não falarão nada.
Sua expressão se suavizou e ela me aconselhou mais.
— Nunca tinha visto o Caine falar de alguém como ele fala de você. Seus olhos brilham e ele se emociona. Nem daquela bruxa ele falava assim.
— Lorenna você pode me falar mais sobre o relacionamento deles?
— Sim, mas não comenta com ele ok.
— Tudo bem.
— Eles se conheceram numa festa. Ela é mais velha que ele dois anos. O namoro deles era diferente. Saiam mais pela noite, não conversavam muito, ela não falava da família e a única vez que ele entrou na casa dela foi na noite do acidente. Ela era muito bonita e sedutora e acho que usou o Caine, não sei para que, mas usou. Nunca gostei dela e sempre deixe claro para ele. O Caine até ficava mal com isso. Nunca a destratei nem nada, mas para mim era insuportável ficar perto dela. A Verônica o afastou dos amigos, da família e por pouco não conseguiu afastá— lo dos estudos. Vejo que com você é diferente. Admirei— te pela sua força no momento em que veio falar comigo, mas achei que era tudo mentira então...
— Tudo bem. Nunca pensei que ela tivesse feito tudo isso.
— Fez mais. Ele ia comemorar conosco a entrada na faculdade. Não era para ter ido a essa maldita festa, mas ela o convenceu.
— Que mulher horrível.
— Pois é Charlie, por isso estou te aconselhando a não jogar tudo para cima. Se realmente achasse que ele tinha errado diria e seria a primeira a dizer pra pular fora, mas não. Foi um momento de fraqueza e não foi nada que fizesse mal a vocês.
— Tudo bem. Vou falar com ele e me desculpar.
— Posso te levar para casa? Falo com ele um instantinho e vou embora. Além do mais disse ao Rich que iria corrigir umas provas para entregar à coordenação e não demoraria.
— Ok. Vamos?
— Sim.
Fomos para casa e quando subimos ela se sentou. Fiz um chá para nós e ficamos conversando sobre coisas amenas.
— Quando ele era pequeno o Rich queria que cortasse o cabelo. Ele devia ter uns 10 anos e disse que não. Foi a primeira vez que brigaram. Claro que defendi o Caine porque sempre adorei o cabelo dele. Ele sempre cortava para ficar desse tamanho e usava muito preso. Dizia para ele soltar que ficava melhor se não seria melhor cortar então ele atendia.
— Eu peguei o elástico dele e ele não prendeu mais desde então. Amo o cabelo dele e fiz de propósito com o elástico.
— O Rich o ama muito. Estou louca para contar a ele. Nunca escondi nada do meu marido e só estou fazendo porque é um caso extremo.
— A senhora o ama tanto assim?
— Só não mais que ao Caine, pois amor de mãe é maior que todos que existem, mas sim. Depois do Caine é a pessoa que mais amo no mundo. Não sei como teria sido se não estivesse ao lado dele.
Continuamos assim por mais alguns minutos até a campainha tocar. Meu coração saltou e começou a pulsar tão forte que pensei que fosse sair do meu peito. Pedi que ela abrisse e assim foi feito. Eles se abraçaram e se beijaram.
— Oi mãe tudo bem em casa?
— Sim, estamos bem, mas não posso demorar. Disse que ficaria um pouco mais na escola corrigindo provas. Só passei para dar um abraço e um beijo.
— Tudo bem. Cuidado na volta. Eu te amo muito.
— Também te amo meu querido. Agora já vou. Até mais. Tchau Charlie.
— Tchau Lorenna.
Estava sentada no braço do sofá com os pés em cima e deitada sobre minhas coxas quando me despedi. Ela saiu depois de beijá— lo e ele fechou a porta. Depois virou— se devagar e me olhou procurando algum sinal de raiva ou ciúme. Certamente só encontrou um pedido de desculpas. Remorso.
— Senta aqui. – Ele veio cabisbaixo. – Tudo bem com você?
— Sim e com você?
— Tudo. Alguma novidade?
— Não e você?
— Não também. – Nossa. Esse tipo de conversa é de quem não tem o que falar e eu tinha muito que falar então comecei logo. – Caine me perdoa. Sei que fui imatura e que deveria ter te apoiado, mas fiquei com muito ciúme e não me controlei. É que a ideia de te ver com outra mesmo que não estivesse fazendo nada demais me deixou cega. Queria que você me perdoasse, por favor.
— Só quero dizer que entendo que você estava com ciúmes. Também ficaria se estivesse na sua situação e não te condeno. Deixei que você pensasse para que analisasse bem a situação. Eu te amo e sabe disso. Nunca ninguém vai nos separar por qualquer motivo que seja a não ser que seja você. Está livre para escolher o que fazer e como agir.
— Escolho você. E você?
— Precisa mesmo responder?
Saí do meu lugar e abracei— o como nunca tinha feito. Ele passou seus braços ao meu redor e me senti acolhida, amada, perdoada. Ele beijou minha cabeça e ficamos abraçados por muito tempo. Chorei um pouco, mas não dissemos nada. Estava aninhada em seus braços e o apertava a ponto de sufocá— lo. Estava triste, mas aliviada. Ele acariciava meu cabelo o tempo todo e brincava com umas mexas. Por mim ficaria ali por toda eternidade. Nem sei descrever o que se passava dentro de mim, só sei que era muito bom.
Depois de muito tempo ele levantou minha cabeça. Ainda chorava só que mais calmamente. Ele repetiu o que fiz naquele dia: beijou minha testa, meus olhos molhados, a ponta do meu nariz e minha boca. Foi tranqüilo. Ele se inclinou sobre mim e nos deitamos no sofá. Tomei cuidado para não segurar o cabelo dele. Não queria que aquele episódio se repetisse. Ele era muito pesado, mas aliviou o peso pondo um braço escorando seu corpo no sofá e outro abaixo de mim, nas minhas costas assim eu podia respirar. Tentei passar o braço para cima e me desequilibrei, logo o empurrei sem querer e caí no tapete sobre ele. Rimos entre beijos, mas não nos desgrudamos. Ele agora com as mãos livre passou os dedos entre meus cabelos e segurou levemente minha cabeça. Fiz o mesmo com ele. Ele se sentou de repente, mas cuidadoso sem me largar. Estava sentada agora sobre minhas pernas entre as dele que estavam abertas. Ouvi uma música tocando. Era um pouco antiga, mas muito linda. A ouvi pela primeira vez no Brasil quando um amigo estava escutando na sala de aula. Pedi o fone emprestado e estava tocando ela. Era Your Guardian Angel de The Red Jumpsuit Apparatus. Parei de beijá— lo um minuto.
— Está ouvindo? —  Ele abriu os olhos e para variar estavam brancos.
— O que?
— A música.
— Nossa música?
— Não sabia que tínhamos uma música.
— “Nunca deixarei você cair, eu estarei de pé com você eternamente. Eu estarei lá por você do começo ao fim de tudo”. Você é meu verdadeiro amor..
Ele me beijou. Ainda não sabia como ele conseguia enxergar com os olhos brancos. Para mim era algo surreal. Abracei— o forte de novo e ele me puxou para mais perto. Ficamos lá no chão nos beijando ao som da nossa música.

Nana&Karol 

Capítulo 22


Jurava que ela estava começando a agir como devia e me mandando embora. Cada vez que estava com ela o meu único problema era ir embora. Ela me puxou e me beijou. A cada beijo sabia que ela me amava e por isso a amava mais ainda. Era triste ter que deixá— la lá sozinha e ir para minha vida sem graça. Quem colocava cor nos meus dias e me dava forças para seguir era ela agora. Sem Charlie ficava triste e sem ânimo para nada. Levantei— a do chão num abraço e a levei para o sofá. Recostei— me com ela sobre mim e ficamos nos beijando por um bom tempo.
— Nunca imaginei que pudesse amar tanto alguém.
Disse— lhe ao ouvido ao pé que ela me beijou mais vorazmente. O efeito que minhas palavras tinham sobre ela era muito bom. Ficamos assim até o momento em que ela segurando meu cabelo escorreu o braço do sofá o puxou meu cabelo sem querer. Minha cabeça foi puxada para trás e arfei como se tivesse sendo acuado. Nem eu entendi bem o aconteceu. Meus olhos ficaram brancos, mas não pelo puxão e sim pelo beijo. Ela me deixava assim. Só não entendi bem minhas presas. Estavam expostas e não conseguia controlar, assim como os olhos. Percebi no rosto dela receio e fiquei temeroso que ela estivesse com medo de mim. Desculpei— me até quando pude ter a certeza de que ela não tinha ficado receosa. Falamos sobre quanto tempo estávamos sozinhos. Pouco tempo para ambos e isso me deixou enciumado. Não queria pensar que ela tinha tido outros namorados antes de mim. Não é machismo é que ela era tão perfeita que ninguém, nem mesmo eu era digno dela. Ela pediu para que eu sorrisse em troca de me desculpar. Minhas presas estavam expostas então fiquei com vergonha. Baixei os olhos ainda esperando que ela desistisse, mas ela levantou minha cabeça pondo a mão delicadamente no meu queixo. Abri os olhos quando ela os beijou. Estava maravilhada. Até parece que é uma visão muito agradável. Devia estar achando muito legal como acharia um filme de ficção científica. Falamos sobre as possibilidades de minhas presas surgirem e não chegamos à conclusão nenhuma então nos beijamos novamente. Mais que de repente ela parou e me mandou abrir a boca. Achei muito estranho. O que ela pretendia com aquilo tudo? Abri já que a ansiedade dela era tanta. Ela queria ver minhas presas voltando ao lugar. Na verdade nem senti diferença. Ela disse que elas contraíram. Senti— me ridículo diante daquela situação. Parecia uma experiência sendo visualizada, só faltava as anotações e o jaleco, mas entendi seus argumentos. Ela queria me entender e eu também então deixei para lá. Na saída ela tocou num assunto que me feriu. Perguntou se poderia falar com minha mãe. Disse— lhe veementemente que não e esperei que ela tivesse compreendido. Só eu sei o que foi ver a dor nos olhos na minha mãe aquele dia e nunca mais iria querer ver aquilo de novo. Logo ela e meu pai superariam e todos ficariam bem. Para que remexer numa ferida fechada? Não havia necessidade. Fui para casa pensando nisso e em outro problema que pensando friamente era mais grave. Estava pondo a Charlie em perigo ficando tanto tempo sem me alimentar. Precisava achar uma solução. Estava pensando nisso quando fui surpreendido com a porta do galpão aberta. Fiquei em alerta e entrei cuidadosamente olhando para todos os lados. Vi uma figura se aproximar se remexendo num rebolado sério e ao mesmo tempo sensual.
— Quem é você?
— Quem é você?
— O que faz aqui. Esta é minha casa e você entrou sem ser convidada. O que quer aqui.
Quase não consegui responder. A mulher era muito linda. Muito sensual. Usava uma calça preta colada com uma bota de cano longo até o joelho e salto finíssimo assim como o cordão que a amarrava. Sua blusa era folgada vinho com mangas compridas e cordões no punho, mas ficava justa destacando sua cintura fina e seus seios grandes por causa de um espartilho preto que ela usava. Seu cabelo era ondulado e castanho avermelhado e lhe caia até o colo. Seus olhos delineados de preto eram cintilantes na pouca luz e me pareceram perigosos e ameaçadores apesar de tentadores. Sua boca era esculpida assim como a de Charlie e estava com um batom vermelho cádmio. Seu corpo todo era perfeito e ela deveria ter no mínimo 1,75 de altura sem o salto. Veio caminhando perigosamente como a Verônica da primeira vez que nos vimos.
— Desculpe— me pela inconveniência, mas nós vampiros não precisamos de autorização para entrar.
— Mas educação é sempre válida.
— Chega desse papo. Sei que você é um novato e que está sem se alimentar a muito tempo. É muito talentoso. Expõe— se à luz solar, convive com seres humanos – quando ela disse isso meu coração gelou. Charlie. – e sente fome muito mais rápido que os vampiros comuns.
Senti— me acuado. Ela sabia mais de mim que eu mesmo. Como ela sabia daquilo?
— Como você sabe disso?
— Tenho informantes. Sei de tudo ouço tudo, vejo todas as coisas e estou em todos os lugares. É uma honra para você me receber. Não deveria me tratar dessa forma. Nenhum dos meus súditos me trata assim.
— Acontece que não sou seu súdito nem pretendo.
— Não mesmo? Nem sabe o que está em jogo.
— Barganhar minha liberdade é o suficiente para não aceitar.
— Não estou barganhando nada. Digo o que quero e faço com que você aceite.
— Não, obrigado não estou interessado.
— Nem se soubesse que posso te fornecer informações sobre sua transformação?
Como ela sabia o que eu queria? Quem seria essa mulher ardilosa? Fiquei tentado a ouvi— la, mas não cederia.
— Nem assim.
— Mentira. Posso te adiantar que a Verônica Malkavian – e cuspiu no chão—  tem tudo a ver com isso.
— Fala logo.
— Não é bem assim. Preciso de garantias.
— Que garantias?
— De que posso contar com você.
— Contar com o que?
Ela se aproximou de mim e passou para as minhas costas chegando bem próximo ao meu ouvido e segurando meu cabelo para um lado tão delicadamente que quase não senti. Estava paralisado com as atitudes dela, mas essa quietude não era de mim. Sabia que ela estava fazendo algo. Pelo menos achava.
— Com a garantia de que quando tudo começar você ficará ao meu lado.
— Tudo o que? Do que está falando.
— De coisas demais para uma só visita. Pense bem em mim e não se esqueça das minhas palavras. Tenho certeza de que não será difícil. Por hoje dou— lhe apenas uma prévia do que te aguarda.
Ela estava encostada a minhas costas quando senti um cheiro de sangue. Era inebriante mais que todos os outros cheiros que havia sentido. Nem quando me alimentei. Era insuportável ficar ali. Senti minha visão nublar e aguçar no mesmo momento. Provavelmente meus olhos estariam brancos e minhas presas a mostra. Ela passou a mão para frente na direção da minha boca. Segurei descontroladamente seu pulso e suguei por alguns instantes. Ela retirou— o depois e o pôs na boca. Logo não havia ferimento lá.
— Pense bem no que te aguarda.
E foi embora sem mais explicações. O sangue que suguei seria equivalente à quantidade de sangue doada para transfusões. Não era o suficiente para matar, nem ao menos fazer mal, mas me saciou de uma forma que senti que poderia passar mais um mês sem me alimentar. Nos humanos quanto mais eu bebia mais ficava sedento. Tanto que suguei os dois a ponto de ficarem totalmente sem sangue e com ela foi o contrário. Quanto mais sugava mais ficava satisfeito. Seria diferente beber sangue de vampiro ou ela em especial faria isso.
Lembrei da palavra. Especial. Verônica sempre a pronunciava e agora essa mulher me aparece me dizendo que era diferente. Não queria que isso se prolongasse. Quando consegui me mexer subi e me deitei. Passei a noite toda pensando no que aconteceu e entrei pelo dia. Esqueci de tudo que não fosse aquilo. Aquela mulher deslumbrante havia mexido comigo de uma forma diferente. Como a Verônica havia feito. Foi mais carnal que emocional. Ela me pareceu a tentação em pessoa e com certeza estava querendo parecer assim pelo jeito como agia e falava. Suas palavras escorriam de seus lábios como uma melodia. Seu olhar prendia suas vítimas, pois considero que a olha como uma vítima. Tentei escapar à imagem dela e me senti desconfortável com isso. Comecei a esquecer dela e percebi que tinha algo a fazer. Queria me lembrar, mas não conseguia. Passei a mão pelo cabelo e percebi que estava solto. Fazia calor onde estaria meu elástico? Levantei e procurei pela mesa, no chão desci e fui ao banheiro. Quando me olhei no espelho e vi meus olhos foi como um estalo na minha cabeça. Charlie. Precisava vê— la. Meus olhos ficaram preocupados e irados, mas não sentia raiva. Achei estranho. Peguei uma roupa, tomei um banho e corri para a casa dela. Subi rápido, pois sabia que estava atrasado. Precisava contar o que tinha acontecido. Baixei os olhos para procurar a campainha, mas não cheguei a tocá— la. Alguém abriu a porta e logo vi onde estavam meus olhos irados. Estavam na minha mãe. O que ela fazia ali? O que a Charlie fez? Disse para ficar quieta. Ela não podia fazer isso. Minha mãe. Ela já saberia? Diante de mim todos os sentimentos possíveis passaram pelos seus olhos de raiva a amor.
Ela desmaiou e antes que tocasse o chão segurei— a e a levantei ao colo.
— O que você fez Charlotte. Disse— lhe para não procurá— la.
— Desculpa só quis te ajudar.
— Mas não o fez. Nem à minha mãe. O que ela sabe.
— Eu... eu...
— O que ela sabe? O que você contou?
— Contei...tudo.
Nesse momento de discussão enquanto segurava minha mãe que já estava no sofá ela acordou. Abriu os olhos lentamente em meio ao nosso silêncio. Estava pálida e procurou ar. Olhou em volta e seus olhos pararam no meu rosto. Lágrimas escorreram aos pulos pelo seu rosto.
— Caine.
Ela me abraçou com força agarrada ao meu pescoço. Parecia que ia quebrar meu pescoço com tanta força. Ela chorava copiosamente e molhou minha roupa num instante. Ela segurou meu cabelo (porque todos faziam isso?), se afastou, apalpou meu rosto, meus olhos, minha boca, meus ombros, meu peito, minhas mãos e chorando me abraçou de novo.
— Como isso aconteceu? O que houve? Porque não apareceu?
— Mãe entende que seria difícil. Até tentei, mas você desmaiou e acabei sabendo da minha morte.
— Eu sabia que não estava louca. Vi— te me chamar, gritar por mim. O Rich disse que deveria me conformar, mas sentia que estava errado.
— Mãe não sou a mesma pessoa de antes. Estou diferente do que já fui um dia. Não sobrou mais nada de mim.
— Então é verdade? Tudo é verdade?
— Sim. Não sei se você sabe tudo, mas o que sabe é verdade.
— Então você é um...vampiro é isso?
— Sim. agora eu sou isso.
— Não isso. Esse. Meu filho você nunca deixará de ser meu Caine seja como estiver. Nunca.
— Mãe você não entende. Não sou mais nem... humano. Sou um animal.
— Não! Quem te disse isso. Se ela te aceitou porque não eu? Sou sua mãe e não importa o que seja ou faça sempre te amarei e te aceitarei. Eu te amo.
Quando ela falou na Charlie lembrei que ela deveria estar ali em algum lugar, mas não estava.
— Mãe, você não entende.
— Claro que entendo. Se você tem que beber sangue para sobreviver agora isso não importa. O que importa é ter você vivo ao meu lado.
— Tudo bem mãe. Desculpa por não ter aparecido antes, mas achei que te mataria de susto.
— Morrer quase morri quando a polícia chegou na minha casa dizendo que você não havia sobrevivido a um acidente. Tive que reconhecer seu corpo não foi fácil suportar. E quando aquela víbora apareceu na minha casa dizendo que sentia muito quase a matei. Eu disse que você não deveria ter ido. Aquela mulher nunca me desceu na garganta. Depois se mudou com a desculpa de que não suportaria. Que falsa. Crápula mentirosa. Quase a matei naquele dia.
— Sei que o que vou dizer parece loucura, mas não me lembro de nada do dia do jantar ate aquele dia em que me viu na janela. Nem me lembro do jantar. Lembro de estar indo, mas não de ter chegado nem nada assim. Acordei numa cabana numa reserva e sai ensandecido. Fui para casa e quando soube de tudo saí andando e foi aí que me alimentei a primeira vez. Foi horrível ,mãe. Estava com fome, mas nunca imaginaria que fosse aquele tipo de sede.
Comecei a chorar com a lembrança e minha mãe também. Foi até engraçado ver o olhar dela. Parecia como “Oh meu amor calma, você caiu, mas vai passar”. Ela me abraçou e senti segurança novamente. Quando me acalmei continuei.
— Encontrei um galpão e fiquei lá. Na verdade estou morando lá. Quando conheci a Charlie estava com uma garota. Uma amiga que conheci depois da mudança. Ela é muito legal. A Charlie é muito especial. Eu a amo muito. Foi algo repentino e apaixonante. Não é nada do que foi com a Verônica, nem parecido. Com ela era mais físico e com a Charlie é emocional. Sinto que não consigo passar um dia sem vê— la, sem tocá— la. É demais. É tudo.
— Oh meu filho nunca te vi assim nem com aquela monstra. Essa garota me pareceu louca, mas agora vejo que era coragem. Se ela passou por cima de um desejo seu para me procurar deve ser muito forte. Você é tão persuasivo!
— Mãe! Ela deve estar escutando, não revele meus segredos. Charlie vem cá.
Nós rimos e ela apareceu do quarto. Estava com as mãos para trás cabeça baixa e sem a farda. Vestia um vestido comum rosa e estava mais deslumbrante que nunca. Nessa hora percebi que nem aquela mulher de ontem seria capaz de vencer a Charlie em qualquer coisa que fosse muito menos em beleza e no meu amor.
— Não estava ouvindo. Não tudo.
Todos riram com ela sem graça. Estava tão linda, parecia uma criança que tinha aprontado. Nessa hora minha mãe levantou e a olhou profundamente.
— Charlie. Preciso me desculpar por ter desconfiado de você. Sei que não deveria, mas nunca poderia imaginar que o que falava era verdade.
— Eu sei bem. Sabia que não seria fácil te convencer a vir aqui. Sei que não é fácil saber que seu filho “morto” está vivo. Nem sei como aceitou vir à minha casa Sra. Ventrue.
— Me chame de Lorenna afinal sou sua sogra.
Nesse momento nos olhamos e tive vontade de beijá— la. Seus olhos derramavam sinceridade quando gritavam seu amor por mim e eu agradecia a Deus por ser correspondido.
— Posso te dar um abraço?
— É claro. —  Charlie foi pega de supetão. Ela tomou um susto, mas abraçou minha mãe carinhosamente.
— Obrigada por ter me trazido de volta um sentido para viver.
— Agora temos o mesmo bom motivo para viver.
Elas sorriram e um celular tocou. Era da minha mãe. Ela abriu a bolsa e pegou— o olhando o visor.
— É o Rich. Desde o acidente ele me liga sempre que me atraso. Hoje ele demorou muito a ligar.
— Mas não fala nada. Pelo menos por enquanto.
— Alô Rich. Não, não, estou bem. É que passei num café para comprar uma sobremesa para o jantar e a fila está grande. Não vou demorar mais. Já, já serei atendida. Em meia hora chego em casa. Também te amo e não se preocupe meu amor. Chego logo. Até mais.
— Que saudade de ouvir a voz dele.
— Você pode ouvir tanto assim?
— Agora sim.
— Não é de todo ruim. – Todos riram.
— Como viram preciso ir. E ainda tenho que comprar uma sobremesa.
— Aqui perto tem um café belíssimo e as sobremesas são uma delícia. Fica a umas três quadras seguindo a rua direto à esquerda.
— Obrigada Charlie. Meu filho quando nos vemos de novo?
— Quando você quiser contanto que papai não descubra. Não quero contar por agora. Sua reação foi ótima, mas não sei como será a dele.
— Tudo bem querido, como você quiser. Agora preciso ir. Amanhã falo com a Charlie e digo se dará para nos vermos.
— Ok. Até amanhã então. Eu te amo mãe e obrigado por tudo.
— De nada meu filho. Eu que agradeço a Deus por você ter ficado vivo.
— Obrigada Charlie por tudo.
— De nada Sra... Lorenna.
Minha mãe nos abraçou e se foi apressada. Estava muito melhor do que quando a vi pela ultima vez. Estava se recuperando bem e agora seria tudo diferente. Quando a Charlie fechou a porta estava perto do sofá. Quando ela se virou imediatamente cheguei perto dela e a puxei pela cintura para um beijo que esperava desde que vi minha mãe de volta a si e me aceitando. Foi melhor que todos os outros. Estava agradecido e mais apaixonado pela pessoa que ela era. Não era apenas a doce, meiga e linda Charlie. Era uma outra Charlie forte, determinada e corajosa por trás daquela. Beijei— a com amor levantando— a do chão. Após alguns minutos paramos e a puxei para o sofá.
— Te disse para não ir.
— Caine não começa. Você viu que tudo se resolveu e que foi melhor por que...
Calei— a com um beijo.
— Obrigada Charlie. Não sei o que faria sem você. Agora preciso contar algo que aconteceu ontem a noite. Foi estranho demais. Vim por isso.
— Só por isso?
— Não. Quando me olhei no espelho vi raiva e preocupação que não eram minhas. Lembrei de você e senti que precisava vir aqui, mas isso vem depois.
— E o que vem antes?
— Quando cheguei em casa estava aberto. Uma mulher estava lá dentro. Era linda demais e muito sedutora e me propôs ficar ao lado dela quando tudo começasse. Não sei a que tudo ela se referia, mas disse que sabia muita coisa sobre minha transformação inclusive que a Verônica tinha muito a ver com isso.
— Linda e sedutora?
— Charlie! Falei tantas coisas importantes e você só escutou isso que foi o que menos importou?
— Tem certeza?
— Tenho.
— Mesmo? – Ela me olhou muito desconfiada. Não conseguia mentir para ela. Teria que contar tudo.
— Não sei.
— Continua.
— Fiquei paralisado com ela perto de mim, mas senti que não era de mim também. Ela cortou o pulso e pôs na minha boca. – Ela me olhou enraivada e enojada. Parecia que ia me fuzilar com os olhos. – Por favor, Charlie tente entender. Estou a uma semana sem me alimentar o que você queria que eu fizesse vendo sangue escorrendo na minha frente. Foi mais forte que eu.
— Você poderia ter ao menos resistido.
— E você acha que eu não tentei? Claro que sim, mas é como disse, foi mais forte que eu. Bebi muito pouco, mas me saciou de uma forma que aqueles dois não fizeram com todo o sangue do corpo deles.
— Será que é porque foram homens?
— Claro que não, não tem nada a ver. Ela é uma vampira e isso deve ter influenciado.
— Eu sei que você precisava comer, mas não me conformo. Não gosto da ideia de uma vampira linda ao seu lado.
— Você está enciumada e isso está tirando seu foco. O que importa é o fato dela saber muito a meu respeito. Mais que nós.
— Parece que todos sabem mais a seu respeito que eu não é?
— Claro que não. O que sei você sabe.
— Nem tanto. Você nunca me contou sobre a Verônica.
— Ela não importa mais para mim.
— Claro que importa. Ele tem tudo a ver com sua mudança.
— Falo no sentido emocional.
— Caine, por favor, não fala mais nada. Preciso ficar sozinha. Volta amanhã tudo bem?
— Tudo bem. Agora pensa direito no que você fez. Preciso de você. Não me deixa agora depois de tudo que passamos. Não iria conseguir sozinho.
— Claro que não vou te abandonar. Só preciso pensar um pouco. Nesse estado não vou poder te ajudar e não quero te prejudicar o que seria muito pior. Por favor, amanhã.
— Tudo bem.
Fui para casa muito triste com ela. Não queria perdê— la. Se ela tinha ficado assim sem saber de tudo imagine se tivesse contado tudo que senti com aquela mulher ali.

Nana&Karol

Capítulo 21


Claro que desliguei antes que elas falassem mais algo comprometedor, basta aquilo da traição. Coitado do Caine achou que eu estava o expulsando. Na verdade estava tentando me livrar das garotas. Elas que me perdoem, mas já tenho tão pouco tempo para vê— lo que preciso aproveitar ao máximo.
— Às vezes você é tão ingênuo Caine.
Levantei e caminhei na direção dele que estava bestificado. Segurei no cabelo dele lentamente enrolando— o na minha mão. Ele estava boquiaberto e me olhando tentadoramente. Beijei— o com amor e ele correspondeu da mesma forma. Pôs uma mão no meu cabelo e outra na cintura e me levantou me levando para o sofá. Sentou— se comigo no colo e se inclinou para trás quase se deitando. Ainda estávamos nos beijando e continuamos assim por um bom tempo. Era muito bom se sentir amada daquela forma porque ele expressava seu amor constantemente falando coisas doces e românticas ao meu ouvido entre os beijos.
— Eu te amo.
— Eu também te amo.
E outras coisas como “você é a pessoa mais importante da minha vida”, “nunca imaginei que pudesse amar tanto alguém” e “não iremos nos separar nunca mais”.
Estava louca com todas essas declarações. Nunca as tinha ouvido de quem quer que fosse. Pelo menos não nessa situação ou de alguém que significasse tanto (nem algo perto disso) para mim. Sem querer meu braço escorregou do encosto e acabei puxando o cabelo dele. Sua cabeça inclinou— se para trás e ele fez algo estranho: abriu os olhos e a boca. Seus olhos estavam brancos quase totalmente e seus caninos apareceram quando ele emitiu um som parecido com um arfar de um animal tipo um grande gato com raiva.
Assustei— me um pouco e me afastei ligeiramente soltando seu cabelo. Ele imediatamente voltou a cabeça para o mesmo lugar de antes e seus olhos voltaram ao azul que tanto amava.
— Me desculpe. Não fiz por mal.
— Não tem problema. – Baixei os olhos, mas os voltei para ele de novo.
— Você ficou com medo.
— Não – falei prontamente – só um pouco... assustada.
— Me perdoe, por favor foi sem querer, não queria ter te assustado.
— Não há problema já falei. É que isso nunca me aconteceu antes.
— Nem comigo. Na verdade você é a primeira garota que beijo depois da transformação.
— E quanto tempo faz isso mesmo?
— Não muito, um mês mais ou menos.
— Muito tempo. – Ele riu com minha piada sarcástica e ciumenta.
— Garanto que você não está sem alguém há mais tempo. Você é perfeita.
— Você tem razão quanto ao namoro. Terminei há pouco com meu ex.
— Ele deveria ser um idiota.
— E era realmente.
— Garante que não ficou chateada com minha reação nem nada parecido?
— Só se você sorrir para mim.
— O que?
— Quero ver seus dentes.
— Charlie...
— Por favor!
— O que você me pede que eu não faça?
Ele baixou os olhos e sorriu. Peguei no seu queixo e levantei. Ele estava de olhos fechados, com receio de me encarar. Seu sorriso estava deslumbrante: dentes corretíssimos e brancos com dois caninos salientes e pontiagudos. A muitos assustaria, mas a mim me pareceu mais uma visão celeste. Provavelmente os anjos não têm presas, mas se tivessem teriam o rosto dele.
Beijei seus olhos e ele os abriu.
— O que achou? Muito assustador?
— Não, definitivamente. Como suas presas crescem?
— Não sei bem é irregular. Não as senti crescerem durante as alimentações, mas vi a marca no homem naquele dia que você me viu. Estava muito transtornado para pensar em dentes e normalmente eles nunca apareceram. Não é algo que possa controlar por enquanto como os olhos. Não sei por que eles apareceram agora.
— Será que foi por minha causa?
— Claro que não. Se fosse assim teria sido em todas as vezes que nos beijamos e não foram poucas. Só foi hoje quando você puxou meu cabelo. Posso ter sentido como algum tipo de ameaça. É a única explicação.
— Então pareço uma ameaça?
— Não imagina o quanto...
Ele me puxou para mais perto e nos beijamos. Senti seus dentes afiados sobre minha língua e aos poucos eles foram se contraindo.
— Abre a boca rápido.
— O que?
— Rápido.
Ele abriu a boca e ainda deu tempo de ver os dentes dele voltando ao lugar. Era muito interessante.
— Você sentiu isso?
— O que?
— Seus dentes. Eles se contraíram foi muito legal.
— Charlie não sou um boneco de testes.
— Desculpa meu amor é que estamos tentando saber como as coisas funcionam com você. Nada melhor que observar. – Abracei— o carinhosamente e muito apertado. – Só estou querendo te ajudar.
— Obrigado. Amo— te por isso também. Quando todos me odiariam ou me taxariam você me ajuda.
— Então. Sei outra forma de te ajudar.
— Sério? Qual?
— Estudando as transformações na sua respiração.
— Como?
— Quanto tempo você consegue me beijar sem expirar?
— Não faço ideia. Só testando.
Beijamo— nos novamente e ficamos assim por algum tempo antes dele ir embora.
— Sério? Tem certeza?
— Claro. Lembra o que te falei? Preciso ir.
— Não me importo com o que os outros vão dizer.
— Mas me importo por você.
Levei— o até a porta e lembrei algo que poderia ser importante.
— Caine.
— O que?
— Posso falar com sua mãe?
— Falar o que?
— Sobre você.
— Não acho que seria uma boa ideia. Acho que ela ainda não superou muito bem.
— Mas ela não precisa superar nada. Ela é sua mãe e você está vivo. Acha certo que ela ainda chore sua não morte?
— Charlie não é bem assim. Não sou mais um humano, é como se tivesse morrido.
— Mas ela não acharia isso se soubesse que você não morreu naquele acidente.
— Por favor, não insiste. Ela deve estar começando a superar agora, não queira mexer numa ferida que está cicatrizando.
— Essa ferida nem deveria ter sido aberta.
— Tudo bem. Olha preciso ir. Não faz nada, apenas deixa como está. Meus pais ficarão bem em breve e eu continuarei vivendo do jeito que der.
— Tudo bem. Até amanhã.
— Até amanhã.
Despedimo— nos com um beijo, mas nem pensar que isso ficaria assim. Amanhã falaria com Lorenna. Ela me acharia uma louca, mas o filho dela estava vivo e fosse em que condições fossem ela o aceitaria com certeza. Arrumei umas coisas para o dia seguinte. Entre elas estava a foto de nós dois juntos. Seria bastante útil como prova. Dormi pensando em como faria essa loucura. Como diria a uma mãe que o filho amado dela não havia morrido e sim se tornado um ser sobre— humano?
Como sempre a Carly foi me buscar e chegamos até cedo à escola. Estava muito ansiosa para falar com a Sra. Ventrue e nada me impediria.
— Carly, preciso ir à secretaria ver umas coisas de pagamento.
— Ok. Vai lá nos vemos na aula.
— Tudo bem.
Não queria mentir para a Carly, mas precisava falar com Lorenna. Saí do prédio onde ficava minha sala e fui ao anexo onde ela dava aulas ao infantil. Encontrei— a sentada na sala corrigindo tarefas e não havia quase ninguém na sala, exceto três crianças que saíram quando entrei.
— Sra. Ventrue posso falar com a senhora.
— Claro. Estou lembrando de você. Veio aqui com a Sra. McAvoy nas férias não foi?
— Sim. A senhora tem uma boa memória.
— Obrigada, mas o que a trás aqui?
— Queria falar sobre seu filho, sei que deve ser doloroso tocar no assunto, mas é muito importante.
— O que você sabe sobre meu filho. Nem morava aqui quando tudo aconteceu.
— Sei mais do que a senhora pensa.
— Então fale.
— Vai parecer loucura e possivelmente não acreditará em mim. Ele nem queria que eu viesse, mas achei melhor...
— O que você disse? A que está se referindo? Quem te disse para não vir?
Droga! Falei demais. Não era para ser assim. Fiquei muito nervosa e desatei a falar. O Caine iria me trucidar.
— Só um momento preciso organizar minhas idéias. –Ela aguardou com um olhar ansioso. Respirei fundo e continuei mais tranquilamente. – Calma, Charlie. Sra. Ventrue naquela noite em que o Caine saiu para a casa da Verônica aconteceu algo que não estava nos planos.
— Claro que aconteceu. Meu filho morreu e isso com certeza não estava nos planos. Agora como você sabe disso tudo, quem é você garota?
— Calma Sra. Ventrue. Deixe— me continuar. Não foi o acidente que não estava nos planos. Aquele acidente não aconteceu. Pelo menos não com ele dentro do carro.
A essa altura ela estava chorando, querendo me matar e sem conseguir falar. Ele disse que seria assim, mas seria melhor que ela sofresse agora e ficasse bem depois.
— Eu...reconheci...o corpo dele.
— Tem certeza disso?
— Eram os objetos dele.
— Mas era o corpo dele?
— Eu não sei. —  A cada minuto ela ficava mais confusa e chorava mais.
— Sei que deve me achar louca, mas precisava vir aqui. Estava num café quando vi alguém que me prendeu a atenção. Aqueles olhos eram inesquecíveis. Os seus olhos.
Ela pôs a mão no rosto e desatou a soluçar. Não conseguia se controlar então tive que falar mais alto que o choro copioso dela.
— Saí dali atrás dele que parecia estar com raiva. O segui até um bar e vi que ele saiu de lá arrastando um homem que havia brigado lá dentro. O que vou dizer agora parece assustador. Quero que a senhora escute e tente interpretar com naturalidade. Vai parecer mentira, mas não é. É a pura verdade. Ele arrastou o cara e eles brigaram. E ele mordeu o homem.
Ela levantou a vista surpresa. Ainda chorava, mas aqueles olhos azuis que tanto conhecia de outro lugar denotavam choque, descrença.
— Ele não apenas mordeu. Ele... sugou o sangue dele.
Ela se levantou furiosa. Olhou— me como se eu tivesse cuspido no rosto dela ou pior, na memória do seu filho.
— Sai daqui. Agora! Sua louca. Como você tem coragem de chegar até mim e dizer uma barbaridade dessas. Meu filho morreu. Você não tem o direito de manchar a honra dele. Como parei para te ouvir? Sai daqui agora.
Ela pronunciou cada palavra como se estivesse cuspindo fogo, veneno. Senti— me tão incapaz e idiota naquele momento que não conseguia dizer nada. Não iria desistir, mas por agora precisava sair dali antes que me jogasse no chão e começasse a chorar.
Saí calada e fui para o banheiro chorar. A última coisa que vi foi seus olhos manchados de ira. Pareceram— me tão perigosos tão avassaladores que me intimidou. Não assisti a primeira aula. Chorei durante todo o tempo e quando consegui me recuperar fui para a segunda. Assisti e tentei prestar atenção a todas as aulas, mas me pareceu muito complicado compreender tudo que era dito. No almoço a Carly perguntou o que tinha acontecido, disfarcei disse que estava doente e ela não perguntou mais. Nas aulas seguintes pensei em como falaria com a Lorenna novamente. No fim da aula iria até ela e mostraria a foto de nós dois. Queria ver se ela não pararia para me ouvir. Graças a Deus que o Caine só me veria pela noite porque não estava em condições de encará— lo de jeito nenhum. Quando o sinal bateu procurei a Carly e me despedi dela. Disse que precisava ir que não estava bem. Ela me disse para procurar um médico e prometi que o faria o mais rápido possível. Corri em direção ao anexo e encontrei a Lorenna saindo com livros na mão. Ela foi em direção ao carro e quando cheguei estava esbaforida.
— Você novamente. Não se cansa de me atormentar com essa historia. Já me magoei o suficiente, vai embora antes que transforme isso num caso de coordenação.
Enquanto ela falava punha a mão na bolsa em busca da foto. Quando ela acabou de falar estava me olhando interrogativa como “Você está esperando o que para ir embora e não voltar mais sua insana?”. Quando li o olhar dela olhei— a como se dissesse “Nada. Só queria te mostrar isso.” No meio dessa conversa silenciosa levantei a foto para que ela pudesse vê— la. Seu queixo caiu e ela ficou de todas as cores que se podia ficar parando no verde. Encostou— se ao carro.
— Que brincadeira sem graça é essa? O que você pretende com isso tudo?
— Que você me escute.
Entramos no carro dela e quando nos acomodamos comecei a falar novamente sem parar.
— O que falei não tem nada de insano. Achei que estava louca naquele dia e passei o resto das férias em casa me martirizando e achando que a culpa era minha. Na verdade a culpa não foi de nenhum dos dois. Ele foi transformado nisso sem querer. Sem nem ao menos ter sido explicado de nada. Naquele dia que a senhora o viu ele nem sabia o que era. Ele soube que morreu da mesma forma que a senhora: de supetão. Imagina o que sentiu quando se viu morto para todos e sem explicações. Foi difícil para ele também. Ele te ama e me disse para não vir aqui, mas não poderia deixar que a senhora sofresse inutilmente. O Caine não morreu. Ele me salvou de um assalto e foi assim que nos aproximamos.
Ela estava com o olhar vago, as lágrimas escorriam numa cadeia que aumentava sem parar. Não soluçava nem se mexia, olhava para a janela e até pensei que ela fosse paralisar.
— Como você sabe disso tudo?
— Acabei de falar. Conheci o Caine. Ele me contou parte da história e decidi contra a vontade dele vir aqui.
— Prove. Prove tudo isso.
— Te mostrei a foto.
— Uma foto não prova nada. Pode ser montagem. Se não pode provar nada sai do meu carro e vai embora. Nunca mais se aproxime de mim e nunca mais toque no nome do meu filho. Se você desobedecer a essas regras chamo a polícia e você volta para o seu país expulsa daqui para nunca mais voltar me entendeu sua louca?
— Acontece que posso provar Sra. Ventrue. Posso provar agora se a senhora quiser.
Ela me olhou descrente. A ira que vi mais cedo escorria junto com as lágrimas a ponto de ferir.
— Como?
— Ele vai para minha casa hoje. Se a senhora quiser me acompanhar poderá vê— lo com seus próprios olhos.
— E se isso tudo for uma armação? E se você quiser me fazer algo?
— Sra. Ventrue entendo sua dor e sua confusão, mas não sou nenhuma marginal. Qual o interesse em te fazer algo? Tenho vários professores poderia fazer algo a eles. Não estou querendo te fazer mal. Quando a senhora o ver entenderá que só quis seu bem.
— Onde você mora?
Quase gritei de alegria. Abri um sorriso diante da expressão dura dela e dei meu endereço. Fomos até lá e a levei para o meu apartamento. Ela entrou olhando todos os detalhes como minha mãe fez quando levei o idiota do Pietro lá em casa a primeira vez. Todas as mães são iguais, independente de onde morem. Elas querem estar no controle da situação sempre. Convidei— a sentar.
— A senhora precisa de algo, uma água, café, qualquer coisa?
— Uma água, por favor, e nada mais que isso.
Cada palavra que ela proferia me feria profundamente. Parecia rasgar minha pele. Ela estava com ódio de mim e nem sei por que ela tinha decidido vir. Talvez um resquício de esperança ainda sobrasse nela. Trouxe a água e um lenço. Ela bebeu e ficou calada olhando a janela. Onde estava ele? Esperava que ele viesse logo. Ele sempre chegava cedo. Sabia quando eu saia da escola. Será que não voltaria? Será que ele ficou com raiva de ter falado sobre a mãe dele. Por favor, Caine, por favor, aparece. Preciso que você venha mais que nunca.
Após uma meia hora mais ou menos ela se levantou. Fiquei surpresa. Só esperava que ela não fosse embora.
— Vou embora. Você está me enrolando. Desiste garota, essa mentira não vai te levar a lugar nenhum. Não espere que te de uma recompensa por nada que você tenha dito. Você me magoou profundamente e isso não sairá da minha memória facilmente. Lembre bem o que eu disse: nunca mais se aproxime de mim nem para dar bom dia, nem se você me ver precisando de ajuda. Some da minha vida ou vou fazer da sua um verdadeiro inferno.
Não tinha nem ação. Como da outra vez só tive vontade de chorar, de correr e me esconder debaixo da cama. Nessa hora estava sentada nas cadeiras do balcão da cozinha e ela no sofá. Já de pé para sair ela caminhou até a porta e a abriu. Nossa, cara, juro que quase desmaiei. Quando ela abriu a porta o Caine estava de cabeça baixa para tocar a campainha. Ele levantou os olhos e ambos se viram. Não precisava nem ver a expressão dela para saber o que transmitia, era só olhar a dele. Seus olhos estavam pasmos, agudos, surpresos, temerosos, sem foco, tristes e dolorosos. Certamente os dela estariam assim com um acréscimo de alegria.

Nana&Karol