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12 outubro, 2012

Capítulo 21


Claro que desliguei antes que elas falassem mais algo comprometedor, basta aquilo da traição. Coitado do Caine achou que eu estava o expulsando. Na verdade estava tentando me livrar das garotas. Elas que me perdoem, mas já tenho tão pouco tempo para vê— lo que preciso aproveitar ao máximo.
— Às vezes você é tão ingênuo Caine.
Levantei e caminhei na direção dele que estava bestificado. Segurei no cabelo dele lentamente enrolando— o na minha mão. Ele estava boquiaberto e me olhando tentadoramente. Beijei— o com amor e ele correspondeu da mesma forma. Pôs uma mão no meu cabelo e outra na cintura e me levantou me levando para o sofá. Sentou— se comigo no colo e se inclinou para trás quase se deitando. Ainda estávamos nos beijando e continuamos assim por um bom tempo. Era muito bom se sentir amada daquela forma porque ele expressava seu amor constantemente falando coisas doces e românticas ao meu ouvido entre os beijos.
— Eu te amo.
— Eu também te amo.
E outras coisas como “você é a pessoa mais importante da minha vida”, “nunca imaginei que pudesse amar tanto alguém” e “não iremos nos separar nunca mais”.
Estava louca com todas essas declarações. Nunca as tinha ouvido de quem quer que fosse. Pelo menos não nessa situação ou de alguém que significasse tanto (nem algo perto disso) para mim. Sem querer meu braço escorregou do encosto e acabei puxando o cabelo dele. Sua cabeça inclinou— se para trás e ele fez algo estranho: abriu os olhos e a boca. Seus olhos estavam brancos quase totalmente e seus caninos apareceram quando ele emitiu um som parecido com um arfar de um animal tipo um grande gato com raiva.
Assustei— me um pouco e me afastei ligeiramente soltando seu cabelo. Ele imediatamente voltou a cabeça para o mesmo lugar de antes e seus olhos voltaram ao azul que tanto amava.
— Me desculpe. Não fiz por mal.
— Não tem problema. – Baixei os olhos, mas os voltei para ele de novo.
— Você ficou com medo.
— Não – falei prontamente – só um pouco... assustada.
— Me perdoe, por favor foi sem querer, não queria ter te assustado.
— Não há problema já falei. É que isso nunca me aconteceu antes.
— Nem comigo. Na verdade você é a primeira garota que beijo depois da transformação.
— E quanto tempo faz isso mesmo?
— Não muito, um mês mais ou menos.
— Muito tempo. – Ele riu com minha piada sarcástica e ciumenta.
— Garanto que você não está sem alguém há mais tempo. Você é perfeita.
— Você tem razão quanto ao namoro. Terminei há pouco com meu ex.
— Ele deveria ser um idiota.
— E era realmente.
— Garante que não ficou chateada com minha reação nem nada parecido?
— Só se você sorrir para mim.
— O que?
— Quero ver seus dentes.
— Charlie...
— Por favor!
— O que você me pede que eu não faça?
Ele baixou os olhos e sorriu. Peguei no seu queixo e levantei. Ele estava de olhos fechados, com receio de me encarar. Seu sorriso estava deslumbrante: dentes corretíssimos e brancos com dois caninos salientes e pontiagudos. A muitos assustaria, mas a mim me pareceu mais uma visão celeste. Provavelmente os anjos não têm presas, mas se tivessem teriam o rosto dele.
Beijei seus olhos e ele os abriu.
— O que achou? Muito assustador?
— Não, definitivamente. Como suas presas crescem?
— Não sei bem é irregular. Não as senti crescerem durante as alimentações, mas vi a marca no homem naquele dia que você me viu. Estava muito transtornado para pensar em dentes e normalmente eles nunca apareceram. Não é algo que possa controlar por enquanto como os olhos. Não sei por que eles apareceram agora.
— Será que foi por minha causa?
— Claro que não. Se fosse assim teria sido em todas as vezes que nos beijamos e não foram poucas. Só foi hoje quando você puxou meu cabelo. Posso ter sentido como algum tipo de ameaça. É a única explicação.
— Então pareço uma ameaça?
— Não imagina o quanto...
Ele me puxou para mais perto e nos beijamos. Senti seus dentes afiados sobre minha língua e aos poucos eles foram se contraindo.
— Abre a boca rápido.
— O que?
— Rápido.
Ele abriu a boca e ainda deu tempo de ver os dentes dele voltando ao lugar. Era muito interessante.
— Você sentiu isso?
— O que?
— Seus dentes. Eles se contraíram foi muito legal.
— Charlie não sou um boneco de testes.
— Desculpa meu amor é que estamos tentando saber como as coisas funcionam com você. Nada melhor que observar. – Abracei— o carinhosamente e muito apertado. – Só estou querendo te ajudar.
— Obrigado. Amo— te por isso também. Quando todos me odiariam ou me taxariam você me ajuda.
— Então. Sei outra forma de te ajudar.
— Sério? Qual?
— Estudando as transformações na sua respiração.
— Como?
— Quanto tempo você consegue me beijar sem expirar?
— Não faço ideia. Só testando.
Beijamo— nos novamente e ficamos assim por algum tempo antes dele ir embora.
— Sério? Tem certeza?
— Claro. Lembra o que te falei? Preciso ir.
— Não me importo com o que os outros vão dizer.
— Mas me importo por você.
Levei— o até a porta e lembrei algo que poderia ser importante.
— Caine.
— O que?
— Posso falar com sua mãe?
— Falar o que?
— Sobre você.
— Não acho que seria uma boa ideia. Acho que ela ainda não superou muito bem.
— Mas ela não precisa superar nada. Ela é sua mãe e você está vivo. Acha certo que ela ainda chore sua não morte?
— Charlie não é bem assim. Não sou mais um humano, é como se tivesse morrido.
— Mas ela não acharia isso se soubesse que você não morreu naquele acidente.
— Por favor, não insiste. Ela deve estar começando a superar agora, não queira mexer numa ferida que está cicatrizando.
— Essa ferida nem deveria ter sido aberta.
— Tudo bem. Olha preciso ir. Não faz nada, apenas deixa como está. Meus pais ficarão bem em breve e eu continuarei vivendo do jeito que der.
— Tudo bem. Até amanhã.
— Até amanhã.
Despedimo— nos com um beijo, mas nem pensar que isso ficaria assim. Amanhã falaria com Lorenna. Ela me acharia uma louca, mas o filho dela estava vivo e fosse em que condições fossem ela o aceitaria com certeza. Arrumei umas coisas para o dia seguinte. Entre elas estava a foto de nós dois juntos. Seria bastante útil como prova. Dormi pensando em como faria essa loucura. Como diria a uma mãe que o filho amado dela não havia morrido e sim se tornado um ser sobre— humano?
Como sempre a Carly foi me buscar e chegamos até cedo à escola. Estava muito ansiosa para falar com a Sra. Ventrue e nada me impediria.
— Carly, preciso ir à secretaria ver umas coisas de pagamento.
— Ok. Vai lá nos vemos na aula.
— Tudo bem.
Não queria mentir para a Carly, mas precisava falar com Lorenna. Saí do prédio onde ficava minha sala e fui ao anexo onde ela dava aulas ao infantil. Encontrei— a sentada na sala corrigindo tarefas e não havia quase ninguém na sala, exceto três crianças que saíram quando entrei.
— Sra. Ventrue posso falar com a senhora.
— Claro. Estou lembrando de você. Veio aqui com a Sra. McAvoy nas férias não foi?
— Sim. A senhora tem uma boa memória.
— Obrigada, mas o que a trás aqui?
— Queria falar sobre seu filho, sei que deve ser doloroso tocar no assunto, mas é muito importante.
— O que você sabe sobre meu filho. Nem morava aqui quando tudo aconteceu.
— Sei mais do que a senhora pensa.
— Então fale.
— Vai parecer loucura e possivelmente não acreditará em mim. Ele nem queria que eu viesse, mas achei melhor...
— O que você disse? A que está se referindo? Quem te disse para não vir?
Droga! Falei demais. Não era para ser assim. Fiquei muito nervosa e desatei a falar. O Caine iria me trucidar.
— Só um momento preciso organizar minhas idéias. –Ela aguardou com um olhar ansioso. Respirei fundo e continuei mais tranquilamente. – Calma, Charlie. Sra. Ventrue naquela noite em que o Caine saiu para a casa da Verônica aconteceu algo que não estava nos planos.
— Claro que aconteceu. Meu filho morreu e isso com certeza não estava nos planos. Agora como você sabe disso tudo, quem é você garota?
— Calma Sra. Ventrue. Deixe— me continuar. Não foi o acidente que não estava nos planos. Aquele acidente não aconteceu. Pelo menos não com ele dentro do carro.
A essa altura ela estava chorando, querendo me matar e sem conseguir falar. Ele disse que seria assim, mas seria melhor que ela sofresse agora e ficasse bem depois.
— Eu...reconheci...o corpo dele.
— Tem certeza disso?
— Eram os objetos dele.
— Mas era o corpo dele?
— Eu não sei. —  A cada minuto ela ficava mais confusa e chorava mais.
— Sei que deve me achar louca, mas precisava vir aqui. Estava num café quando vi alguém que me prendeu a atenção. Aqueles olhos eram inesquecíveis. Os seus olhos.
Ela pôs a mão no rosto e desatou a soluçar. Não conseguia se controlar então tive que falar mais alto que o choro copioso dela.
— Saí dali atrás dele que parecia estar com raiva. O segui até um bar e vi que ele saiu de lá arrastando um homem que havia brigado lá dentro. O que vou dizer agora parece assustador. Quero que a senhora escute e tente interpretar com naturalidade. Vai parecer mentira, mas não é. É a pura verdade. Ele arrastou o cara e eles brigaram. E ele mordeu o homem.
Ela levantou a vista surpresa. Ainda chorava, mas aqueles olhos azuis que tanto conhecia de outro lugar denotavam choque, descrença.
— Ele não apenas mordeu. Ele... sugou o sangue dele.
Ela se levantou furiosa. Olhou— me como se eu tivesse cuspido no rosto dela ou pior, na memória do seu filho.
— Sai daqui. Agora! Sua louca. Como você tem coragem de chegar até mim e dizer uma barbaridade dessas. Meu filho morreu. Você não tem o direito de manchar a honra dele. Como parei para te ouvir? Sai daqui agora.
Ela pronunciou cada palavra como se estivesse cuspindo fogo, veneno. Senti— me tão incapaz e idiota naquele momento que não conseguia dizer nada. Não iria desistir, mas por agora precisava sair dali antes que me jogasse no chão e começasse a chorar.
Saí calada e fui para o banheiro chorar. A última coisa que vi foi seus olhos manchados de ira. Pareceram— me tão perigosos tão avassaladores que me intimidou. Não assisti a primeira aula. Chorei durante todo o tempo e quando consegui me recuperar fui para a segunda. Assisti e tentei prestar atenção a todas as aulas, mas me pareceu muito complicado compreender tudo que era dito. No almoço a Carly perguntou o que tinha acontecido, disfarcei disse que estava doente e ela não perguntou mais. Nas aulas seguintes pensei em como falaria com a Lorenna novamente. No fim da aula iria até ela e mostraria a foto de nós dois. Queria ver se ela não pararia para me ouvir. Graças a Deus que o Caine só me veria pela noite porque não estava em condições de encará— lo de jeito nenhum. Quando o sinal bateu procurei a Carly e me despedi dela. Disse que precisava ir que não estava bem. Ela me disse para procurar um médico e prometi que o faria o mais rápido possível. Corri em direção ao anexo e encontrei a Lorenna saindo com livros na mão. Ela foi em direção ao carro e quando cheguei estava esbaforida.
— Você novamente. Não se cansa de me atormentar com essa historia. Já me magoei o suficiente, vai embora antes que transforme isso num caso de coordenação.
Enquanto ela falava punha a mão na bolsa em busca da foto. Quando ela acabou de falar estava me olhando interrogativa como “Você está esperando o que para ir embora e não voltar mais sua insana?”. Quando li o olhar dela olhei— a como se dissesse “Nada. Só queria te mostrar isso.” No meio dessa conversa silenciosa levantei a foto para que ela pudesse vê— la. Seu queixo caiu e ela ficou de todas as cores que se podia ficar parando no verde. Encostou— se ao carro.
— Que brincadeira sem graça é essa? O que você pretende com isso tudo?
— Que você me escute.
Entramos no carro dela e quando nos acomodamos comecei a falar novamente sem parar.
— O que falei não tem nada de insano. Achei que estava louca naquele dia e passei o resto das férias em casa me martirizando e achando que a culpa era minha. Na verdade a culpa não foi de nenhum dos dois. Ele foi transformado nisso sem querer. Sem nem ao menos ter sido explicado de nada. Naquele dia que a senhora o viu ele nem sabia o que era. Ele soube que morreu da mesma forma que a senhora: de supetão. Imagina o que sentiu quando se viu morto para todos e sem explicações. Foi difícil para ele também. Ele te ama e me disse para não vir aqui, mas não poderia deixar que a senhora sofresse inutilmente. O Caine não morreu. Ele me salvou de um assalto e foi assim que nos aproximamos.
Ela estava com o olhar vago, as lágrimas escorriam numa cadeia que aumentava sem parar. Não soluçava nem se mexia, olhava para a janela e até pensei que ela fosse paralisar.
— Como você sabe disso tudo?
— Acabei de falar. Conheci o Caine. Ele me contou parte da história e decidi contra a vontade dele vir aqui.
— Prove. Prove tudo isso.
— Te mostrei a foto.
— Uma foto não prova nada. Pode ser montagem. Se não pode provar nada sai do meu carro e vai embora. Nunca mais se aproxime de mim e nunca mais toque no nome do meu filho. Se você desobedecer a essas regras chamo a polícia e você volta para o seu país expulsa daqui para nunca mais voltar me entendeu sua louca?
— Acontece que posso provar Sra. Ventrue. Posso provar agora se a senhora quiser.
Ela me olhou descrente. A ira que vi mais cedo escorria junto com as lágrimas a ponto de ferir.
— Como?
— Ele vai para minha casa hoje. Se a senhora quiser me acompanhar poderá vê— lo com seus próprios olhos.
— E se isso tudo for uma armação? E se você quiser me fazer algo?
— Sra. Ventrue entendo sua dor e sua confusão, mas não sou nenhuma marginal. Qual o interesse em te fazer algo? Tenho vários professores poderia fazer algo a eles. Não estou querendo te fazer mal. Quando a senhora o ver entenderá que só quis seu bem.
— Onde você mora?
Quase gritei de alegria. Abri um sorriso diante da expressão dura dela e dei meu endereço. Fomos até lá e a levei para o meu apartamento. Ela entrou olhando todos os detalhes como minha mãe fez quando levei o idiota do Pietro lá em casa a primeira vez. Todas as mães são iguais, independente de onde morem. Elas querem estar no controle da situação sempre. Convidei— a sentar.
— A senhora precisa de algo, uma água, café, qualquer coisa?
— Uma água, por favor, e nada mais que isso.
Cada palavra que ela proferia me feria profundamente. Parecia rasgar minha pele. Ela estava com ódio de mim e nem sei por que ela tinha decidido vir. Talvez um resquício de esperança ainda sobrasse nela. Trouxe a água e um lenço. Ela bebeu e ficou calada olhando a janela. Onde estava ele? Esperava que ele viesse logo. Ele sempre chegava cedo. Sabia quando eu saia da escola. Será que não voltaria? Será que ele ficou com raiva de ter falado sobre a mãe dele. Por favor, Caine, por favor, aparece. Preciso que você venha mais que nunca.
Após uma meia hora mais ou menos ela se levantou. Fiquei surpresa. Só esperava que ela não fosse embora.
— Vou embora. Você está me enrolando. Desiste garota, essa mentira não vai te levar a lugar nenhum. Não espere que te de uma recompensa por nada que você tenha dito. Você me magoou profundamente e isso não sairá da minha memória facilmente. Lembre bem o que eu disse: nunca mais se aproxime de mim nem para dar bom dia, nem se você me ver precisando de ajuda. Some da minha vida ou vou fazer da sua um verdadeiro inferno.
Não tinha nem ação. Como da outra vez só tive vontade de chorar, de correr e me esconder debaixo da cama. Nessa hora estava sentada nas cadeiras do balcão da cozinha e ela no sofá. Já de pé para sair ela caminhou até a porta e a abriu. Nossa, cara, juro que quase desmaiei. Quando ela abriu a porta o Caine estava de cabeça baixa para tocar a campainha. Ele levantou os olhos e ambos se viram. Não precisava nem ver a expressão dela para saber o que transmitia, era só olhar a dele. Seus olhos estavam pasmos, agudos, surpresos, temerosos, sem foco, tristes e dolorosos. Certamente os dela estariam assim com um acréscimo de alegria.

Nana&Karol

29 setembro, 2012

Capítulo 20


Saí de lá e caminhei vagarosamente para casa pensando em tudo que me aconteceu. Encontrei alguém a quem amar e que me correspondia, felizmente. Charlie era perfeita em todos os sentidos: com tudo de estranho que ela podia pensar e de todas as formas que poderia me repudiar escolheu me amar. Jovem, bela e com um futuro brilhante pela frente escolheu amar um cara que está condenado a uma vida incerta e cheia de amarras. Precisava fazê-la feliz caso ela quisesse continuar comigo e a cada minuto que pensava que havia a possibilidade dela me negar sentia uma dor lacerante. Precisava de Charlie como nunca precisei de ninguém, nem dos meus pais. Ela me fazia respirar, era a causa da minha alegria e sua ausência me fazia enlouquecer. Cheguei em casa. Parecia que havia séculos que estivera ali. Subi peguei uma roupa e tomei um bom banho. Voltei e deitei no meu colchonete. Fiquei pensando em todos os traços dela: olhos azuis esverdeados tão fascinantes, verdadeiros e ingênuos. Olhar doce, meigo, infantil, mas sagaz. Formas delicadas e curvas sutis. Mãos macias e delicadas. Cabelo comprido e sedoso. Havia alguém mais perfeita que a minha estranha agora conhecida?
Quando confundi o nome de Felicity com Charlie senti algo diferente. Calma, ânsia, não sei. Sentimentos antagônicos, mas que se encaixavam dentro de mim quando estava com Charlie. Pensando em Felicity, precisava encontrá— la, falar com ela e me desculpar pelo tempo que fiquei sem vê— la. Amanhã cedo iria à loja encontrá— la. Esperei deitado e pensando em Charlie e em toda a nossa conversa, nos beijos e nos sentimentos que nos transmitimos essa tarde.
 Pela manhã por volta das nove fui à loja e Felicity estava lá. Vestia um vestido laranja com o avental e um tênis All Star preto com estrelas brancas e vermelhas.
— Oi Felicity. –Estava encabulado por aparecer depois de tanto tempo.
— Oi. Pensei que nunca mais te veria novamente. –Ela falou normalmente, como da primeira vez que nos vimos, mas percebi um pouco de surpresa e ansiedade na sua voz.
— Pois é, mas não podia sumir depois daquela noite. Foi tudo muito estranho e queria te explicar o que aconteceu.
— Você não precisa se desculpar nem dar explicações.
— Mas te devo no mínimo um pedido de desculpa.
— Tudo bem. Aceito as desculpas, mas não é preciso mais que isso.
— Por favor, deixe— me falar.
— Tudo bem. Você vai me dizer que estava confuso por algo e que encontrou em mim uma pessoa legal com quem sair e conversar, mas percebeu que estava indo longe e decidiu parar onde estava.
Fiquei assustado com a capacidade dela de ser tão realista e direta.
— Seria mais ou menos isso. Naquele dia no café encontrei alguém muito especial para mim. Não era nada planejado, nem esperado. Precisava falar com ela, mas não tinha o direito de te tratar mal.
— Você não me tratou mal em momento algum Caine. Está se martirizando por algo sem razão. Só não quero que pense que sou fácil. Saí com você aquele dia porque te achei legal, mas não faço isso costumeiramente.
— Entendo completamente. Nunca pensaria nada diferente disso ao seu respeito.
— Melhor assim. Então amigos? – E estendeu a mão em minha direção. Apertei a mão dela carinhosamente.
— Amigos.
Dei— lhe um abraço e um beijo no rosto com respeito.
— Até qualquer dia por aí.
— Até.
Sai de lá bem mais aliviado. Agora sabia que não havia feito mal à Felicity. Uma vez pensei que o nome dela poderia não ser apenas coincidência, que poderia encontrar minha felicidade com ela. Agora sei que não. Minha felicidade morava num apartamento numa ruazinha tranquila perto daquele café e se chamava Charlie. Pensando nela passeei por alguns lugares bonitos. Passei pelo Green Park e decidi levá— la lá. Seria legal namorar debaixo daquelas árvores. Sentei num daqueles bancos e fiquei sentindo os cheiros. Árvores, terra, pequenos animais... sangue. Parei por aí. Lembrei— me que fazia dias que não me alimentava. Seis para ser mais preciso. Não sabia como iria me alimentar a partir de agora. E não podia por a Charlie em perigo ficando tanto tempo sem me alimentar perto dela. Pensei em como poderia conseguir sangue sem matar pessoas e não cheguei a nenhuma conclusão. Fiquei muito preocupado com isso. Estava chegando a ora de buscar a Charlie. Sai caminhando devagar até a escola ficava longe, mas já que não me cansava decidi caminhar para ter mais tempo para pensar. Estava com uma calça azul, camisa preta com detalhes em vermelho e segurando o casaco da Charlie. Quando cheguei ao ponto vesti o casaco e fiquei esperando até que ela chegasse. Meia hora depois mais ou menos ela apontou na esquina. Meu coração disparou. Esperei que ela se aproximasse e falasse. Parecia um pouco surpresa, mas fora isso não havia nada diferente só que a cada dia ela ficava mais bela. Aproximou— se de forma que ficássemos virados na mesma direção com ela na minha frente. Falamos como se estivesse seguindo— a então a raptei para o parque do qual tinha vindo. Sentamos debaixo de uma árvore e nos beijamos demoradamente. O beijo dela estava ainda melhor que ontem e me fez sonhar. Quando conseguimos parar beijei o pescoço dela e o cheiro do sangue invadiu minhas narinas me fazendo respirar devagar e mais controladamente. Fechei os olhos e tentei afastar isso da minha cabeça.
— O que aconteceu?
— Nada. Estou bem.
— Não, você fechou os olhos e está parecendo que sentiu algum cheiro ruim.
— Não, pelo contrário o cheiro é bom. Bom a ponto de ser perigoso. – Abri os olhos e quando ela me fitou vi em seu rosto preocupação e receio.
— Ontem você me disse que seus olhos ficavam brancos por três motivos. Visões, desejo e... sede. Qual dos três motivos os fez clarearem agora?
Passei um tempo calado com vergonha de admitir o que estava me atormentando. Finalmente tive coragem de falar. Ela precisava saber o que encontraria em mim. Seria difícil para ambos, mas não podia enganá— la.
— Sede.
Ela ficou triste e me olhou com dó. Parecia que ela estava vendo uma criança chorando na frente dela pela cara que ela fez.
— Sinto muito. Não sei o que fazer para te ajudar. Há algo?
— Não. Nem eu sei o que fazer. Não quero matar mais ninguém, mas estou há seis dias sem me alimentar. Nem deveria te dizer esse tipo de coisa. Você não precisa saber mais nada sobre um lado monstro e...
— Cala a boca Caine. Escuta: você não é um monstro é uma pessoa comum com hábitos alimentares diferentes. Não precisa se sentir culpado por algo que não fez. Não é culpa sua essa mudança.
— Eu sei, mas não queria que você soubesse sobre isso.
— Seria pior mentir. Se aceite como você é. Não há nada que possamos fazer para mudar isso.
— Mas ainda assim preciso comer e não sei como.
— Precisávamos encontrar outro vampiro. Assim você teria com quem conversar e trocar...
— Nem pense nisso. É loucura total. Não sabemos como os outros se comportam. Eu nunca seria capaz de matar ninguém, nem um animal e, no entanto eu suguei o sangue de dois homens maiores que eu até a morte. Fique cego, agi guiado por instintos da primeira vez e por ódio na segunda. E se os outros vampiros forem piores que eu, mais incontroláveis. Seria suicídio para você e possivelmente para mim.
— Tudo bem, não quis falar besteira, só pensei numa forma de te ajudar.
— Ok, mas só de me entender e estar comigo já me ajuda mais que o necessário. Vamos aproveitar nosso tempo juntos sem falar nessas coisas. Preocupo— me depois em como vou comer.
Passei as costas da mão pelo seu rosto e segurei seu cabelo como ela fez comigo, mas mais delicadamente. Puxei— a para mim e a dei um beijo. Ela correspondeu apaixonadamente e depois ficou abraçada a mim com força como uma criança com medo do escuro.
— Não estou reclamando, ao contrario, mas porque você está me abraçando com tanta força?
— Estou com frio. E com fome também. Podemos ir para casa agora?
— Claro que sim. Pegue seu casaco de volta.
— E você?
— Não sinto frio, nem cansaço e nem esse seu tipo de fome. Se sentisse frio já teria morrido com a água da minha casa.
— Oh claro. Mas onde você mora agora que saiu de casa.
Ela pegou o casaco e fomos andando até o ponto de ônibus.
— Encontrei um galpão. Uma antiga oficina e moro lá agora.
— Tem onde dormir?
— Se estiver perguntando de cama, não. Não durmo também. Tenho um colchonete. Gosto de ficar deitado.
— Que legal. Quando era criança e brigava com meus pais fugia de casa e ficava no quintal. Ligava para minhas amigas e acampávamos nos fundos.
— Você não tem muito censo de aventura. Quando eu era criança uma vez fugi de casa de verdade e fui para casa de um amigo. De lá saímos e fomos para a casa da avó dele eu acho e ficamos lá por dois dias. A polícia foi que me levou para casa. Minha mãe quase me matou nesse dia e falou que se fugisse de novo ela me prenderia com correntes no meu quarto e nunca mais me soltaria. Ela é um pouco exagerada.
Ela riu muito com essa historia. Minha mãe nesse dia estava descabelada, chorando e com os olhos vermelhos. Da mesma forma que a encontrei quando voltei para casa quando acordei na cabana.
Pegamos o ônibus e fomos para a casa dela. Subimos separados e quando entramos Charlie me puxou pela camisa e me beijou. Quando segurei a cabeça dela ela se abaixou e me largou rindo. Abri os olhos e fiquei sem ação com a mão no ar enquanto ela ria. Ela se afastou e foi para a cozinha.
— Você é muito apressado. Mal entramos e foi logo me beijando.
— Mas foi você que me beijou. – fui caminhando e sentei— me num dos bancos do balcão da cozinha.
— Sabia que é feio pôr a culpa nas damas.
— Ah entendi. Assumo a culpa, mas só se for realmente minha.
Ela estava próxima do balcão abaixada pegando alguma coisa embaixo no armário. Quando falei isso ela se levantou e virou para mim encostando— se ao balcão.
— Não entendi.
Levantei e fui ao encontro dela. Peguei— a no braço e a levei para a porta. Coloquei— a no chão e a beijei. Encostamo— nos na porta e continuei a beijando por alguns instantes.
— Agora a culpa foi minha.
— Tudo bem. Você me assustou. Posso comer agora?
— Sim pode. Vai comer o que?
— Sei lá. Macarrão instantâneo.
— Eca.
— Não gosta?
— Não mais.
— Sobre a sua alimentação. Estive pensando...
— Não pense. Já falei que eu me preocupo com isso. Não é preciso que você perca tempo com esse assunto.
— Não quer nem saber o que pensei?
— Não. Quero que você coma e vá estudar.
— Você está brincando não é?
— Absolutamente.
— Que horror. Nem minha mãe falava assim comigo.
Aproximei— me dela devagar e a olhando insinuativamente. Parei bem próximo ao seu rosto com as mãos para trás.
— Pareço com a sua mãe mesmo? – Ela me olhou boquiaberta com cara de criança que quer algo que com certeza será negado.
— Não. Não parece. —  Ela falou e me beijou no rosto.
Ela comeu o macarrão que a mim parecia enjoativo. Depois a fiz estudar. Ela fez a lição de casa e a ajudei no que ela tinha dúvida. Não eram muitas, a Charlie era muito inteligente e seu inglês era maravilhoso. Parecia que havia nascido aqui. Ficamos conversando abraçados por um bom tempo sobre coisas banais: gostos, sonhos, medos.
— Como disse sempre quis sair do Brasil. Pensei em ir à Paris, mas acabei optando por Londres.
— Já fui ao Rio.
— Sua mãe comentou quando nos encontramos.
— Eu passei mal com o calor. Fui para o hospital. Saímos daqui no inverno e chegamos num calor escaldante.
— Isso acontece muito. Sempre gostei mais de frio, mas nunca tinha saído do país.
— Queria cursar medicina. Genética como meu pai. Trabalharia com ele.
— Eu quero fazer geologia. Gosto muito.
— Que bom. Seríamos um belo par de profissionais.
— Podemos ser. Você ainda pode estudar.
— Poderia se não tivesse “morrido”. Foi muito triste ver a notícia da minha morte no jornal, ver minha mãe desmaiar quando me olhou e meu pai dizer que eu nunca mais voltaria porque estava morto. – A Charlie me abraçou forte nessa hora.
— Sinto tanto. Queria que sua vida voltasse ao normal.
— Um dia talvez. Voltando ao assunto como são suas amigas?
— São demais. A Glorinha é a mais louca. Tipo ela fica com vários caras e fala tudo que vem à cabeça. A Julie é a mais romântica e meiga, tudo e todos para ela é muito fofo. Ela te acha muito fofo também.
— Sério? Não me acho fofo.
— Eu acho. – E me beijou rapidamente. —  Bom, a Anne é a mais explosiva. Ela é a mais durona e reclama dos ataques de fofura da Julie.
— Parecem ser muito legais mesmo. Adoraria conhecê— las.
— Tive uma ideia.
— Qual?
— Espera um pouco.
Ela se levantou correndo do sofá onde estávamos e pegou o telefone. Discou um numero bem grande e sentou— se no sofá de novo.
— Alô Glória? Oi. Adivinha quem está comigo. É isso mesmo – Ouvi um grito de onde estava. – Espera um pouco. Vou pôr no viva— voz. Liga para as garotas.
— Não acredito que ele está aí. Sério?
— Claro que sim. Que ver? Fala alguma coisa Caine?
— Falar o que? – Estava ficando com medo disso tudo já.
— De quem é essa voz?
— É do namorado da Charlie, Anne.
— O que? E vocês nem me avisam não é? Qual o seu nome mesmo? Shane?
— Sobre o que elas estão falando Charlie?
— Perguntaram seu nome. Garotas vamos exercitar o inglês não é. Ele não fala português.
 — Oh tudo bem. Esqueci desse detalhe. Como vai Caine. Meu nome é Glória. Meu inglês não é muito bom porque faltei muitas aulas, mas dá para entender algo.
— Dá para entender muito bem. Prazer em conhecê— la Glória. Falta uma. A Julie.
— Não falta mais. Tudo bem Caine?
— Tudo e com vocês? – Elas responderam um uníssono.
— Tudo ótimo.
— É verdade que seus olhos mudam de cor?
— Anne que pergunta. Não dava para ser mais discreta não.
— Qual é Julie. É só uma pergunta boba.
— Tudo bem. É verdade sim. Às vezes ficam brancos.
— Que legal. Sempre quis conhecer um... londrino.
— Então vem para cá. Tem vários deles aqui. – Todas riram.
— Bom eu ainda estou na conversa. Poderiam falar comigo também?
— Char você é sem graça. Prefiro o Caine.
— Qual é Glória, tá dando em cima do namorado da Char?
— Claro que não Julie, que ideia. Nunca faria isso, se tivesse de fazer teria feito antes com algum que tivesse perto de mim e, no entanto quem fez isso foi aquela idiota.
— Vamos mudar de assunto não é? Vamos falar de outra coisa como, por exemplo, fotos.
— Não entendi.
— Eu queria muito ver o Caine. Será que ele sai numa foto.
— Nunca fiz o teste, mas gostaria de tentar. Charlie?
— Tudo bem vamos tentar. Será divertido.
Ela correu no quarto e pegou uma câmera. Sentou no sofá ao meu lado e tirou uma foto de nós dois juntos. Depois passou para o computador e mandou para as meninas. Enquanto isso fiquei falando com elas sobre biótipo masculino daqui. Não era um assunto que me agradava, mas agradava a elas e como é a primeira impressão que fica decidi deixá— las feliz sobre o meu país.
— Já enviei a foto. – Charlie me olhou e a puxei para dar— lhe um beijo.
— O que foi isso? Um beijo?
— Não um espirro.
— Tá bom Caine, acredito. Deixa pra lá. Nossa Caine como você é lindo! Adorei seu cabelo.
— Obrigada Anne.
— Nossa que meigo. Seus olhos são totalmente lindos. Agradeça a sua mãe.
— Comentei com elas sobre como vocês se pareciam.
— Tudo bem.
— Bom garotas, precisamos desligar. Caine precisa ir agora e a minha conta de telefone vai explodir.
— Nossa que mão de vaca.
— Sem falar que ela quase expulsou o Caine não é?
— Não é isso. È que já falei a vocês sobre o porquê disso.
— Tudo bem. Então até mais Char, te amo e até logo Caine, foi um prazer. Fui.
— Tchau Julie. — Falamos juntos.
— Vou embora Também querida. Até mais Caine.
— Até mais Anne.
— E eu também. Fui galera.
Quando ela desligou levantei— me do sofá e ela me olhou interrogativa. Achei estranho.
— O que foi?
— Onde você está indo?
— Embora. Não foi o que você disse?
— Às vezes você é tão ingênuo Caine.

Nana&Karol

Capítulo 19


Quando ele saiu do banheiro eu estava sentada no chão com os joelhos encostados no peito. Havia acabado de falar sobre a transformação. Caine não queria tocar no assunto e tivemos uma pequena discussão onde pusemos em questão até o amor que sentíamos um pelo outro. Tinha certeza do que sentia e sabia, dentro do meu coração, que era recíproco. Comecei a chorar e ele me abraçou de modo que me senti tão protegida quanto se estivesse com meus pais ou com as meninas.
Com os braços dele ao meu redor senti que nada de ruim poderia me acontecer, que aquele era o lugar no qual me sentiria mais amada. Era como se uma corrente elétrica estivesse nos envolvendo e nos unindo para sempre.
Não queria me afastar dele nunca mais, mas ele precisava se vestir e foi essa desculpa que nos afastou. Fiquei muito, muito sem graça quando ele me lembrou que estava só de toalha. Para mim não fazia diferença como ele estava vestido; daquele jeito era até melhor, mas tinha que sair afinal por maior que fosse a tentação não estava preparada para vê— lo se trocar.
Sentei no sofá e tentei pôr meus pensamentos em ordem. Estava completamente apaixonada por um vampiro britânico muito lindo e perfeito que, aliás, estava se trocando no meu quarto e que há poucos instantes tinha se declarado para mim. Era demais para um só dia, mas estava lidando com tudo até que bem.
Ele saiu do quarto sem camisa e pude observar melhor o seu dorso: braços, peito e abdome definidos, mas não exageradamente. Rosto com formas angelicais apesar da expressão forte e decidida. Adorei seu cabelo. Caras com cabelo comprido sempre me encantaram apesar de nunca ter namorado um.
Caine veio na minha direção. Tinha que acalmar meus pensamentos, então decidi trocar de roupa também. Ele me elogiou dizendo que adorava minha farda, mas confusa como estava comigo nada do que ele dissesse me faria continuar ali. Fui para o quarto, prendi meu cabelo com o elástico dele, tirei a roupa, dobrei tomei uma ducha rápida e procurei uma roupa qualquer. Queria ver se ele me acharia bonita vestida daquele jeito: uma calça moletom e uma blusinha rosa claro.
Saí, ele estava sentado no sofá e me olhou como se eu estivesse vestida para uma grande ocasião. Pensei comigo mesma como seria possível alguém ser como ele. Estava horrível, mas mesmo assim Caine me achava deslumbrante. Ele falou sobre como os brasileiros são tratados pelos ingleses quando citou que precisava sair cedo. Sempre me disseram que as brasileiras principalmente são discriminadas na Europa. Sempre são vistas como mulheres fáceis de conquistar e interesseiras, o que deixa claro que eles nos veem como prostitutas. Apesar de ter sido bem tratada, Caine me advertiu que nunca desse margem para que os vizinhos falassem, para não manchar minha reputação. Além de viver sozinha ficar recebendo um cara que dorme aqui ou sai muito tarde não seria uma boa. Além do mais tem meus pais. Não queria que eles pensassem que vim para cá me divertir nem fazer besteira. Vim estudar e me formar. O Caine ter aparecido foi um acidente—  muito bom, diga— se de passagem, mas um acidente. Nunca deixaria nem ele nem ninguém pensar que sou qualquer uma.
Ele me puxou e sentei encostada ao seu peito. Pediu que falasse de mim então citei meus pais, a Carly a as meninas contando que elas sabiam sobre ele. Ele se alterou com isso, levantou— se e reclamou. Disse que havia confiado em mim e que eu não podia ter contado a ninguém. Deixei bem claro que ele não me confiou segredo nenhum, que vê— lo lá mordendo aquele cara até morrer foi algo fora do planejado e que isso deixaria qualquer um louco, então precisava desabafar. Ele acabou concordando e me pediu desculpas. Estava apaixonada não idiota. Só um pouco, mas não o suficiente para ele me convencer de algo que não fiz. Ele falou dele, da aprovação na faculdade, do carro que ganhou pela aprovação, do amigo e da ex— namorada, tudo isso rapidamente. Perguntou onde estava a camisa dele e, fingindo que não sabia onde estava, chamei— o para procurar comigo. Juro que não estava com segundas intenções, apenas queria retardar a partida dele. Procuramos e quando não dava mais para fingir “achei” a camisa atrás da cabeceira da cama. Disse que não era bom que ele saísse com aquela camisa rasgada e suja de sangue e ofereci uma jaqueta do time da escola do Brasil. Depois de fazer uma brincadeirinha sobre casacos femininos ele aceitou. Levei— o até a porta, para o meu desprazer, combinamos de nos ver no dia seguinte e quando pensei que ele iria embora, Caine me beijou de surpresa. Enrolei minha mão naquele cabelo que tanto gostava e beijei— o com amor. Foi demais. Já havia namorado e beijado muitos caras, mas até hoje nunca havia sentido aquilo. Foi emocionante, como se eu precisasse daquilo para sobreviver. Senti algo quase rasgar minha pele. Era meu coração que estava batendo tão acelerado e com tanta força que pensei que fosse parar por trabalho excessivo. Entramos nos beijando e ele fechou a porta atrás de si. Caímos no sofá e continuamos nos beijando, agora mais calma e estabilizadamente. Tenho certeza que tanto quanto eu ele não queria parar. Quando ele parou estava ofegante. Não sabia que vampiros ofegavam.
— O que aconteceu foi...
— Magnífico?
— Mais que isso. Foi estupendo.
Mal tinha palavras para descrever o que estava sentindo. Os olhos deles estavam brancos e não sei por que me emocionei com aquilo. Não cheguei a chorar, mas fiquei surpresa. Ele estava boquiaberto. Sua expressão era muito bela: íris esbranquiçada cor de gelo deixando a pupila destacada, olhar profundo direto nos meus olhos, boca entreaberta como se estivesse buscando ar discretamente, cabelo liso, meio molhado e solto emoldurando um rosto de traços sutis e expressão, no momento, surpresa.
Dedilhei o que mais parecia uma pintura a fim de conhecer e explorar cada detalhe daquela face que a partir de agora estaria voltada mais para mim do que para qualquer coisa—  eu esperava. Falei nos olhos bancos e ele me respondeu com algo que me deixou mais ainda emocionada.
— Além de sede e das visões, desejo.
Não suportei aquilo. Segurei meu coração e me aproximei. Afastei o cabelo do rosto, beijei lenta e gradualmente sua testa, olhos que se fecharam sob o toque dos meus lábios e boca. Ele estava surpreso com tudo aquilo tanto quanto eu. Era para ter sido uma despedida agradável e cordial e, no entanto não resistimos à proximidade. Beijamo— nos e soltei o meu cabelo favorito passando os braços em volta do pescoço dele. Ele me segurou pela cintura fazendo daquele momento algo mágico. Quando conseguimos nos separar ele disse que precisava ir. Era tudo que eu menos queria no momento. Por mim nunca mais nos separaríamos, mas claro que isso não seria possível. Só me restava tentar retardar essa partida. Olhei— o mais conformada do que realmente estava e corri pulando nos seus braços. Ele me segurou com uma facilidade tão grande que não pensei ser possível. Claro que não era gorda, mas pular de surpresa em alguém nem sempre é bom. Caine me carregou, ainda me beijando, até a porta, me pousou no chão, disse tchau e fechou a porta na minha cara. Fiquei pasma. Depois de tudo aquilo ele fazer isso me surpreendeu de forma ruim. Estava ainda pasma quando ele abiu a porta de novo, para o meu alívio.
— Eu te amo mais que tudo nesse mundo. – Ele sorriu derramando amor sobre mim.
— Eu também te amo. Para sempre.
Ele piscou para mim e saiu. Piscadas são meu ponto fraco e ele acertou na mosca. Quando fechei a porta sentei no chão encostada a ela. Sorri como uma idiota e pensei que no Brasil ligaria imediatamente para as meninas. Liguei para minha mãe, falei sobre como ia a escola e sobre a Carly, falei o básico com ela, o que podia falar ou seja tudo que não envolvesse o Caine e ela ficou feliz por eu estar bem. Acabada a conversa liguei para as meninas que cruzaram a linha. Ficamos todas juntas na mesma conversa e desabafei tudo que tinha me acontecido.
— Ahhhhhhh, eu nem consigo acreditar. Vocês se encontram de novo?
— Sim e foi muito assustador.
— Assustador como?
— Eu ia ser assaltada e...
— O que? Você ia ser assaltada?
— Ia sim, mas foi tão rápido que mal me lembrava.
— E como foi isso?
— Foi estranho, Glória. Saí da escola e fui comer num café aonde sempre vou. Fica perto daqui de casa então vim a pé. Um homem sujo e feio me abordou e pediu dinheiro. Eu disse que não tinha então foi quando o Caine apareceu.
— Uau! O nome dele é Caine, é?
— É sim, Caine Ventrue.
— Nossa que nome poderoso amiga.
— Deixe eu continuar. Ele abordou o cara, e bateu muito nele, só que o ladrão estava armado com um punhal e enfiou na barriga do Caine.
— Oh meu Deus, e você levou ele para o hospital?
— Não.
— Você é louca? A Julie está certa. E se ele morresse com uma infecção.
— Suas loucas. Ele é um vampiro esqueceram?
— Ah sim, você tem razão Anne. E como ele se recuperou? Foi super rápido como nos filmes? Ele sente dor?
— Sim, foi super rápido e ele sente dor sim.
— Oh que fofo.
— Ah meu Deus você acha fofo até um cara sentir dor Julie.
— Qual o problema? Não sabia que vampiros sentiam dor.
— Você nem sabia que eles existiam.
— Tudo bem Julie e Anne posso continuar?
— Claro que sim. Conta como foi que aconteceu tudo.
— Ele disse que precisava de muita água então trouxe ele para o apartamento.
— Era pra beber? Sempre soube que água faz bem, mas não a esse ponto.
— Não era pra beber. Era pra tomar banho.
— Não acredito! Ele tomou banho na sua casa? Eu nunca perderia essa chance. Nossa Char! O que você fez?
— Calma Glória. Não aconteceu nada. Quero dizer. Deixe— me falar está bem? Ele entrou e ajudei— o a tirar a camisa. Ia sair, mas ele pediu que ficasse na porta do banheiro para ouvir minha voz.
— Que romântico!
— Ficamos conversando sobre coisinhas até que toquei no assunto da transformação. Ele saiu enrolado numa toalha e disse que não queria falar no assunto.
— E você fez o que em relação à toalha?
— Nada, deixei— a onde estava. Era para fazer o que?
— Levar de volta ao banheiro.
— Sim, mas ele ficaria... esquece. Cala a boca Glorinha. –Todas rimos em uníssono. Quando conseguimos parar continuei. – Nos declaramos um para o outro e tivemos uma pequena discussão sobre como era difícil e sobre o nosso amor.
— Já chegou a amor. Charlotte nunca pensei que se apaixonaria tão rápido.
— Pois é Glória, nem eu. Conversamos mais sobre nós. Nossas vidas. Ele tinha uma namorada chamada Verônica que provavelmente foi quem o transformou, mas ele não se lembra do dia em que mudou. Morava com os pais, aliás, a mãe dele é aquela professora que comentei com vocês lembra? A que perdeu o filho num acidente de carro.
— E ele tem irmãos? Por favor, me apresenta.
— Não Anne, pensei o mesmo, mas o Caine não tem irmãos, é filho único. O filho que ela perdeu é o próprio Caine.
 — Nossa que dor. Ele vivo, sem poder aparecer e ela sofrendo a dor da morte dele. Que coisa triste.
— Também pensei assim. Ele me abraçou quando chorei. Estava triste, cansada de toda essa confusão. Sei que nunca choro na frente de garotos, mas não tive escolha. Senti— me tão protegida, segura. Ah eu o amo!
— Nossa que lindo! –Dessa vez todas falaram juntas.
— E não teve nem um beijinho? Nada?
— Teve sim.
— Eu sabia!
— E não foi um beijinho. Foi algo inacreditável. Fui levá— lo na porta, então ele se encostou com o pé no portal. Combinamos de ele me buscar na escola amanhã. Quando pensei que ele ia embora e que minha tarde já tinha sido perfeita ele me puxou e me deu um beijo daqueles. Fiquei sem ar. Entramos e ficamos nos beijando no sofá. Quando ele conseguiu pensar em algo saiu e disse que precisava ir.
— Por quê?
— Por que as pessoas falam mal de brasileiros aqui, aquilo que meus pais me advertiram antes da viagem. Disse que não queria que eu ficasse mal falada pelos vizinhos. Seria ruim para minha estada aqui e que teríamos que a partir de agora coordenar nossos encontros.
— Que legal ele pensar assim não é. Geralmente os caras não estão nem aí se falam ou não.
— Foi uma luta para ele sair daqui. Nenhum dos dois queria. Ele fez uma coisa que quase me fez chorar.
— O que? Falou algo idiota?
— Não. Pulei nele e ele me levou até a porta. Depois fechou a porta e saiu bem rápido.
— Nossa que horror!
— Mas ele reabriu a porta e eu comecei a rir. Depois ele disse que me amava mais que tudo do mundo. Quase tive um ataque do coração e agora estou ligando para vocês para contar.
— Nossa Char que aventura. Muito legal. Quem me dera viver algo ao menos parecido com isso.
— Pois é Glória é emocionante, mas muito difícil. Estou sozinha num país estranho e completamente apaixonada por um vampiro. Nunca ninguém imaginaria isso.
— Sei bem, mas fale da escola.
— Conheci uma garota legal. A Carly. Ela vem me buscar todos os dias para a escola.
— Só não a ponha no nosso lugar. Não iríamos gostar nem um pouco.
— Claro que não, estão loucas? Vocês sempre serão minhas melhores amigas e as pessoas em quem mais confio independente de outras amizades o do Caine ou de qualquer pessoa.
— Viram que o Caine já faz parte da lista de pessoas importantes.
— Claro que faz.
— Sim, mas o que quero dizer é que vocês são uma parte da minha vida que não mudará.
Continuamos conversando mais e por vezes falando do Caine. Elas me perguntaram mais detalhes físicos e dei todos que conhecia. Elas quase morreram quando falei dos músculos e principalmente dos olhos. Era algo que não se descrevia tão facilmente, seria preciso imaginação. Logo depois fui dormir. O dia foi cansativo e precisava acordar cedo.
Para variar acordei atrasada e comi algo rápido, na ida para a escola, pois não faria a Carly se atrasar também por minha culpa. Chegamos à escola e tentei me concentrar ao máximo nas aulas. Meu parceiro de química atrapalhava um pouco minha atenção sendo lindo daquele jeito. Mas tudo bem. Conversei com a Carly sobre a escola, as aulas, as pessoas e esperava ansiosa pelo fim das aulas. No almoço observamos as pessoas. Os professores eram na maioria jovens. O nosso professor de matemática era muito lindo. Moreno claro, olhos castanhos, mas que no sol ficavam cor de mel. Um rosto familiar, com traços abrasileirados. Comentei com a Carly e resolvemos perguntar a ele se tinha descendência latina.
— Oi Sr. Adams gostaríamos de fazer uma pergunta, só por curiosidade seria possível? – A Carly tinha um jeito incrível com as palavras. Fazia ser impossível alguém se recusar a respondê— la.
— Claro que sim garotas, o que foi?
— Professor percebemos que o senhor tem alguns traços latinizados e gostaríamos de saber se o senhor tem descendência americana.
— Oh sim. Observadoras vocês. Minha mãe é mexicana e o meu pai britânico.
— Nunca imaginaríamos. Mas, desculpa a pergunta, é que sou brasileira e sei como é a questão do preconceito. Se estiver sendo indiscreta tudo bem não precisa responder, é que fiquei bastante curiosa.
— Imagina. Meus pais se amam muito. Ela trabalhava aqui quando jovem como babá, faxineira fazendo pequenos trabalhos. Começou a trabalhar na casa dos meus avós e se apaixonou pelo meu pai. Foi correspondida e houve sim preconceito, mas não por parte do meu pai e sim dos meus avós. Eles não admitiam que o filho mais velho deles se casasse com uma latina. Mas eles lutaram contra todos e continuam juntos e felizes até hoje.
— E o senhor tem irmãos?
— Sim tenho uma irmã gêmea, se chama Margareth.
— E o senhor fala espanhol.
— Por supuesto. Minha mãe sempre quis que soubéssemos sobre nossas origens e acho isso muito importante. Mais alguma pergunta meninas?
— Não obrigada pelo tempo e desculpa a inconveniência.
— Tudo bem.
Saímos e voltamos para a nossa mesa.
— Nunca imaginei que ele seria latino.
— Quase isso Carly. Bem que desconfiei. Ele é mais moreno que a maioria e não parecia descender de negros. Latino na certa por causa dos olhos também que não pareciam orientais.
— Você entende mesmo de diversidade cultural.
Rimos e ficamos comentando sobre as pessoas mais um pouco até a hora de estudar. Quando o dia terminou não estava nem lembrada do Caine.
— Charlotte quer uma carona para casa?
— Não obrigada vou comer fora hoje. Vou de ônibus mesmo. Até amanhã.
— Até amanhã.
Quando cheguei ao ponto vi algo familiar. Era o Caine. Estava com uma calça azul e o meu casaco. Logo me dei conta de que havia insistido pelo encontro. Tentei disfarçar o meu esquecimento e olhei para o lado. Aproximei— me como quem não queria nada e ele nem se moveu. Fiquei lá parada de costas para ele e na direção que o ônibus vinha uns segundos tentando encontrar algo para dizer e falei a primeira besteira que veio à minha mente na hora do desespero.
— Você está me seguindo?
— Foi você que veio ao meu encontro.
— Pego ônibus aqui todos os dias a essa hora.
— Esse é o tipo de informação que eu gostaria de saber. E por sinal sempre pego ônibus aqui também.
— Mentira. Nunca te vi antes. Desde quando você pega ônibus aqui?
— Desde que comecei a te seguir.
— Sério? E quando foi isso?
— Provavelmente no seu segundo dia de aula.
— Ah então faz pouco tempo. E conseguiu algo?
— Sim. Agora sei onde você mora. Vou te seqüestrar.
— Estou morrendo de medo. Vou gritar. Socorro! —  E falei socorro tão baixo que só ele pode ouvir. Caine sorriu malicioso com minha brincadeira.
— Nossa! Assim todos vão te ouvir. Corro o risco de ser preso. Acho melhor agir antes que a polícia chegue.
Ele me puxou pela mão e saiu me levando pelas ruas até outro ponto de ônibus. Entramos em um e fomos parar num parque maravilhoso: o Green Park, um dos oito parques reais. Era cheio de árvores enormes, sem lagos ou estátuas como os outros, mas lindo da mesma forma ou até mais. Fomos andando em silencio até um lugar abaixo de uma árvore aleatória debaixo da qual nos sentamos no chão. Ele sentou— se encostado à árvore com os tornozelos cruzadas e eu sentei— me com as pernas para o outro lado cruzadas da mesma forma, afinal estava de saia. Encostei— me a ele de modo que meu ombro ficasse no seu peito e minhas costas no seu braço que me circundava e segurava na minha cintura.
— Gostou?
— Adorei. Se todas as vezes que você me raptar me trouxer a um lugar como esse quero ser raptada todos os dias.
— Não se preocupe, não faltará oportunidade.
Ele falou isso ao meu ouvido com os olhos fechados e depois me beijou na testa e depois nos lábios calmamente. Senti como se fosse voar por entre as árvores naquele momento. A cada beijo o amava mais e sentia que era correspondida. Não queria sair de perto dele jamais.

Nana&Karol