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22 setembro, 2012

Capítulo 18


O tempo que ele passou com ela foi apenas o tempo que demorei a chegar mais perto. Puxei— o pela nuca e joguei— o no chão e soquei seu rosto várias vezes. Ela estava lá, parada e muito assustada. Eu me distraí por um segundo olhando para ela e senti uma coisa pontiaguda furando o meu estomago. O cara enfiou um punhal no meu abdome até o umbigo, me empurrou e correu. Senti uma dor muito grande, mas menor que a do tiro. Ela estava aterrorizada e começou a falar um monte de coisa sem nexo, tipo: “Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus”. “Suas vísceras estão expostas! Eu vou desmaiar”.
Tentei acalmá— la e pedi pra que ela me ajudasse. Eu não estava tão mal assim, na verdade eu estaria bem em minutos, mas tive que apressá— la para poder entrar no apartamento dela. Eu não estava com segundas intenções, mas queria ter certeza de que ela ficaria bem. Ela me ajudou a subir e eu disse que precisava tomar banho. Só não queria que ela visse meu corpo se reconstituindo poderia ser traumatizante. Ela me levou ao quarto, me ajudou a tirar a camisa e quando ela perguntou se eu não queria ajuda para tirar o resto quem ficou atônito fui eu. Não atônito na verdade, mas surpreso pela iniciativa dela. Falei uma das minhas bobagens (teria que parar com isso algum dia) e ela se irritou. Já ia sair do quarto quando a puxei pelo braço e pedi que ficasse. A proximidade me fez quase abraçá— la e beijá— la, mas me contive. Ela já estava assustada, se eu seguisse em frente ela me expulsaria e não teria mais a chance de estar ao lado dela por tanto tempo. Pedi que ela ficasse na porta do banheiro para poder ouvir sua voz. Começamos a falar sobre besteiras e ela falou na minha mãe. Deveria saber que isso aconteceria algum dia. Ela estudava na escola onde cresci e onde minha mãe lecionava. Um dia ela descobriria algo a mais ao meu respeito. Tentei cortar o assunto, mas ela foi mais direta do que o que eu jamais esperei.
— Me desculpe, eu nunca imaginei que a situação fosse essa. Eu só quero entender. Você entende também o que é se apaixonar por alguém que você não conhece e descobrir que esse alguém é totalmente diferente de você no momento?
— É claro que eu entendo. Estou na mesma situação.
Ela me olhou muito assustada, depois confusa e logo feliz. Depois voltou à face original.
— Você não deveria dizer isso em vão. Nunca disse isso a ninguém, nunca me apaixonei por cara nenhum, e quando isso acontece, ele é um vampiro londrino.
— Você não deveria desconfiar tanto dos meus sentimentos.
— Desculpa, mas é que é tudo muito novo para mim. Nunca pensei que fosse me apaixonar tão rápido e ainda mais por um vampiro. Você também precisa entender que até quatro dias atrás eu era mais uma garota comum com uma vida comum. Agora você entrou nela muito intensamente e isso está me enlouquecendo.
— Entendo perfeitamente. Eu sei o que você está passando porque eu passei pelas mesmas coisas. Vi meus pais chorando a minha morte, as pessoas que eu conhecia me abandonarem, minha vida mudar. Matei pessoas e não me orgulho disso. Fiz para me alimentar. Sério, isso é demais para aguentar.
— E aquela garota que te acompanhava no café?
— Felicity? Ela é uma amiga. Uma pessoa legal que apareceu na hora errada na minha vida.
— E eu apareci numa hora errada também?
— Não, absolutamente. Você apareceu em ótima hora. Pode parecer loucura, mas eu precisava de você. De alguém que me entendesse. Você reagiu tão bem a isso tudo.
— Não tão bem. Quando te vi... se alimentando, quase morri. Senti uma dor tão profunda que quase me esmagou.
— Eu sei. Senti a mesma coisa quando fiz a primeira vez.
— E aquela não foi a primeira?
— Não. Foi a segunda.
— Uau. As lendas falam dessas coisas tão brutalmente. Nunca imaginei que fosse assim.
— Pra falar a verdade nem eu.
— Como você se transformou?
— Eu não lembro. É um risco... uma falha... na minha memória.
Nesse momento senti algo estranho. Passei a mão pelo cabelo e pela nuca. Charlie perguntou o que estava havendo, fechei os olhos e sentei na cama. Ela sentou— se ao meu lado preocupada. Vi uma mesa posta muito formalmente e várias pessoas ao redor. Um homem falava e ouvi— o felicitar algo... Esforcei— me mais para lembrar outras coisas. Tinha certeza que se tratava de algo relacionado à minha transformação. Ele dizia...que estava feliz com retorno da amizade das famílias. Quais famílias? Esforcei— me mais e ouvi o resto. O reencontro das famílias Malkavian e Ventrue. Depois daí não vi mais nada. Ouvi só a voz de Charlie me chamando aflita.
— Caine, acorda. Por favor. Acorda.
— O que aconteceu?
— Eu que te pergunto o que houve? Seus olhos estão brancos. Isso é normal?
— Sim, ficam assim quando isso acontece.
— O que acontece?
— Tive uma visão. Outra. Acho que se trata da minha transformação. Quando falo sobre isso ou toco na marca da mordida lembro coisas, eventos falhos, confusos. Vi um homem felicitando por reencontrar minha família. Mas ele só conhecia a mim dos Ventrue. Já havia visto esse homem outra vez falando com a Verônica. Brigando na verdade.
— Quem é Verônica?
— Minha namorada, ou melhor, ex— namorada.
— Não sabia que você tinha namorada.
— Tinha. E tenho certeza que ela está ligada à minha mudança só não sei como.
— E você não a procurou para saber?
— Claro que sim, mas ela se mudou.
— Que idiota.
— Isso mesmo. Mas o fato é que não me lembro e tenho que conviver com isso sem explicações, auxílio, nada. Tenho que conviver comigo mesmo sozinho.
— Não mais. Estou aqui para te ajudar, você já sabe que pode contar comigo.
— Eu não quero te envolver nisso.
— Não adianta mais, você avisou muito tarde. Estou completamente envolvida.
— Por favor, Charlie. Não suporto a ideia de saber que você está em perigo, principalmente se eu significar esse perigo.
— Se você significasse perigo para mim teria me atacado naquela rua escura ou teria me deixado em perigo hoje cedo. Você fez o contrário: salvou— me, então não pense em continuar sozinho sabendo que pode confiar em mim.
— E porque você chorou antes, quando te pedi pra ficar.
— Nada é só que você se machucou por minha causa, não queria parecer mal agradecida, ou que estaria fazendo algo por obrigação. Gosto de você. Muito. Estar ao seu lado não é obrigação, é prazer.
Ela derramou mais lágrimas então não me contive. Abracei— a fortemente e ela retribuiu. Foi a sensação mais maravilhosa do mundo. Mais que olhar seus doces e meigos olhos, mais que vislumbrar sua beleza, mais que um simples toque. Foi magnânimo. Se pudesse ficaria ali por toda a eternidade. Ela se aninhou nos meus braços e senti que podia protegê— la. Ela continuou chorando. Precisava desabafar. Foi tudo muito inesperado e rápido. Necessitava de apoio tanto quanto eu e senti que poderíamos nos apoiar mutuamente daqui para frente.
— Está se sentindo melhor?
— Sim, obrigada. Você deve me achar uma idiota por causa disso.
— Não por isso. Mas preciso me vestir. Não esqueça que estou só de toalha.
Ela ficou encabulada e vermelha, olhou pra mim como se estivesse se desculpando.
— Desculpa, não havia nem percebido. Vou sair pra você se trocar e te espero lá no sofá.
Ela sorriu e saiu do quarto me deixando sozinho. Procurei a minha roupa, mas acabei achando somente a calça. Vesti-me rapidamente e fui ao encontro dela, que estava sentada no sofá.
— Agora eu é que vou me trocar. Essa farda é horrenda.
— Eu gosto dela principalmente em você.
— Tudo bem, você tem mau gosto.
— Não se menospreze tanto. Eu te escolhi essa é a maior prova do meu bom gosto.
Ela sorriu e baixou os olhos. Depois levantou a vista ainda sorrindo e correu para o quarto. Uns dez minutos depois ela apareceu vestindo uma calça moletom bege com uma blusa rosa claro, cabelo preso em um coque com o meu elástico e com um chinelo. Estava deslumbrante como sempre.
— Esse elástico é meu.
— Eu sei assim você tem uma desculpa pra voltar.
— Adoraria, mas preciso te dizer uma coisa. Eu sei que é besteira, mas os brasileiros não são muito bem vistos por aqui.
— Até agora fui muito bem tratada por todos.
— Mas nem todas as pessoas são tão cordiais. Só toquei no assunto porque temos que acertar os horários em que vamos nos ver. Eu não quero sair daqui muito tarde para os seus vizinhos não ficarem falando.
— Tudo bem, mas não quero falar disso agora.
Ela se aproximou do sofá onde eu estava e a puxei para sentar comigo. Estava com uma perna em cima do sofá e a outra no chão e ela se sentou encostada no meu peito.
— Me fale da sua vida antes daqui.
— Não tenho muito que falar. Morava com os meus pais, tenho três melhores amigas que ficaram no Brasil, que inclusive sabem sobre você.
— Sabem o que sobre mim? –Olhei— a assustado e ela correspondeu o meu olhar da mesma forma.
— Tudo o que sabia até o domingo.
— Você não devia ter feito isso. –Fiquei nervoso, levantei— me e olhei de um lado para o outro. Ela ficou lá sentada desculpando— se novamente.
— Nem eu sei bem o que sou. Como você pode contar a alguém sobre mim?
— Eu não fiz por mal. E elas sabem guardar segredo e ninguém acreditaria nelas.
— Mas não se trata disso. Trata— se de eu ter confiado em você.
— Mas você não confiou nada a mim. Eu te vi por acidente.
Ela tinha razão. Eu é que me deixei ver, ela não me devia nada muito menos fidelidade.
— Procura entender: eu vejo um cara mordendo outro até a morte como você acha que eu fiquei. Precisava contar a alguém e elas são mais seguras para se contar um segredo do que um padre.
— Eu que peço desculpa. Passei tanto tempo me escondendo que a ideia de mais alguém saber sobre minha situação me assustou. Se você confia nelas eu confio também. – Pedi sua mão e a puxei para um abraço. Depois abaixei e falei no seu ouvido.
— Você não terminou de falar.
— Senta aqui. Vou te contar tudo. –Sentamos do mesmo jeito de antes. – Tinha um namorado que me traiu com uma garota nova da antiga escola. Nunca mais falei com ele. Aqui conheci a Carly que é ruiva tem olhos, é meio gordinha, usa um óculos muito divertido, nos tornamos amigas desde então. Meus pais são muito divertidos e gostam muito de viajar, apesar de trabalharem muito. Antes de vir pra cá fomos passar as férias em Búzios com minhas amigas. Eu sempre tive o sonho de vir pra cá e quando os contei da minha ideia eles aceitaram numa boa. As meninas ficaram um pouco tristes, mas conversamos sempre que posso.
— Sua vida é muito legal.
— Agora conte sobre você.
— Eu já contei sobre mim.
— Não você contou parcialmente. Quero saber sobre sua vida antes da transformação.
— Eu morava com meus pais, Lorenna e Richard e tinha acabado de ser aprovado na faculdade. Meu pai me deu um carro novo de presente, que ele só me daria nos meus 18 anos. Tinha um amigo chamado Marcus, mas me afastei dele quando conheci a Verônica, minha ex— namorada.
— Por quê?
— O porquê eu não sei, mas o fato é que ela me fez fazer isso. No tempo em que ficamos juntos eu parecia cego e só agia de acordo com as vontades dela. Minha mãe sempre me advertia e agora eu estou vendo que o preço que paguei por não tê— la ouvido foi alto.
— Eu sinto muito.
— Mas eu nem tanto. Se não fosse a minha transformação não teríamos nos encontrado e isso foi a melhor parte de toda essa bagunça na minha vida. Mas agora. – Disse me levantando lentamente. – Eu preciso ir.
— Já?
— Lembra do que eu falei sobre seus vizinhos?
— Lembro, mas...
Eu a silenciei com o meu dedo indicador. E falei ao seu ouvido.
— Onde você pôs a minha camisa? —  Ela hesitou e respirou fundo antes de responder.
— Deve estar no meu quarto. Foi lá que nós a tiramos. Quer ajuda pra procurar?
— Claro que sim. Afinal foi você que a perdeu.
Ela me olhou traiçoeiramente e caminhou devagar para o quarto. Segui— a e começamos a procurar. Três minutos depois a encontramos atrás da cabeceira da cama. Vesti— a e Charlie me olhou duvidosa.
— Você vai realmente sair com essa camisa rasgada e suja de sangue?
— Se eu não tivesse que ir não seria problema. Mas como tenho é a única solução.
— Posso te dar um casaco.
— Ficaria meio estranho sair com um casaco rosa e apertadinho com florezinhas. – Ela me olhou irônica.
— Para o seu governo eu não te daria o meu casaco rosa e sim uma jaqueta vinho.
— O fato de você dizer que não me daria o seu casaco rosa significa que você tem um casaco rosa.
— Qual garota não tem? – Nos dobramos em risadas. Quando conseguimos parar de rir eu finalmente disse.
— Agora eu realmente preciso ir. – ela me olhou meio triste com aqueles doces olhos implorativos.
— Tudo bem, toma a jaqueta. É minha, mas é do time de futebol da escola então é masculina e já que não tem outro jeito... Levo— te até a porta.
Fomos caminhando bem lentamente até a porta. Ela abriu a porta e eu me encostei— me no portal com o pé suspenso.
— Posso voltar amanhã?
— Claro que sim. Porque você não me busca na escola?
— Não posso. Tenho muitas pessoas conhecidas lá, inclusive a minha mãe, lembra?
— Não precisa ser no portão. Podemos nos encontrar no ponto de ônibus.
— Tudo bem então. Vemos— nos amanhã no ponto de ônibus. Até amanhã.
Desencostei— me e me inclinei para dar— lhe um beijo no rosto. Ela se esticou na mesma direção que eu o que fez com que a beijasse no canto da boca.
— Desculpa, eu não quis...
Não deixei que ela terminasse. Olhei— a profundamente nos olhos, puxei— a pela cintura e ela passou seus dedos pelo meu cabelo e segurou— o. Dei— lhe um beijo nos lábios a princípio ferozmente. Foi muito melhor do que aquele primeiro beijo com a Verônica. Deixou— me mais feliz do que passar na faculdade e acelerou mais o meu coração do que andar a 200 km/h no meu carro. Foi supremo, eletrizante, magnífico. Era fogo e eu queria me queimar cada vez mais. Entramos e eu fechei a porta atrás de mim. Sentamos no sofá e continuamos nos beijando. O beijo dela era melhor do que tudo que já provei na minha vida. Eu sabia que precisava ir, mas não conseguia mover um músculo que me ajudasse a levantar e ir embora. Quando paramos para respirar ela estava com o rosto indecifrável: um misto de alegria, surpresa e confusão.
— O que aconteceu foi...
— Magnífico?
— Mais que isso. Foi estupendo.
Ela beijou a minha marca da mordida, dedilhou meu rosto vagarosamente parando na minha boca; olhou— me profundamente como se estivesse declarando todo o seu amor. Estava boquiaberto.
— Seus olhos estão brancos.
— Descobri então uma nova forma para eles ficarem assim.
— Qual?
— Além de sede e das visões, desejo.
Charlie foi se aproximando lentamente me fazendo quase enlouquecer, mas não quis apressar nada. Deixei— a fazer o que quisesse. Ela afastou meu cabelo do rosto, beijou minha testa, meus olhos, a ponta do meu nariz e finalmente meus lábios muito calorosamente. Correspondi da mesma forma, calmamente. Charlie soltou meu cabelo e passou os braços em volta do meu pescoço, se aproximando ainda mais e me abraçando com amor. Segurei— a pela cintura e continuei beijando— a. Ficamos assim por mais alguns minutos, até que tive forças para me afastar do sofá.
— Se continuarmos assim vou acabar não saindo daqui.
— Isso seria bom.
— É, mas realmente tenho que ir Charlie. Encontramos— nos amanhã.
— Tudo bem.
Ela me olhou conformadamente, mas se levantou correndo e se jogou nos meus braços. Segurei— a tirando do chão num abraço e beijando— a novamente. Carreguei a Charlie até a porta e a pus no chão.
— Tchau. – Fechei a porta rapidamente sem deixar que ela respondesse. A última coisa que vi foi seu olhar atônito.
Esperei um segundo e abri a porta. Ela ainda estava parada, mas quando me viu começou a rir.
— Eu te amo mais que tudo nesse mundo. –Sorri amorosamente.
— Eu também te amo. Para sempre.
Pisquei um olho para ela e sai. Fui para casa, tinha muito que pensar essa noite.

Nana&Karol

Capítulo 17


Como não consegui dormir direito, acordei bem cedo e resolvi ter um café mais elaborado. Noite passada acabei tendo sonhos muito estranhos, o rosto do trapinho me atormentava por toda noite. Mas porque ele não saia da minha cabeça? Será que é assim que as meninas se sentem quando se apaixonam? Odeio ser novata nesse assunto. Agora fico aqui perdida, sem saber o que fazer.
Cozinhei algumas coisas para comer agora e outras para comer quando chegasse da escola. Tomei café e vi que já era hora de começar a me arrumar. Peguei minhas coisas e desci para esperar a Carly. Não demorou muito e ela chegou com a mãe. Ela nos deixou no mesmo lugar de sempre e fomos caminhando até o portão. Conversamos sobre coisas banais e quando o sinal tocou fomos cada uma pra sua aula. Tentei me concentrar nas aulas, mas era um pouco difícil. Uma que não consegui dormir direito e outra que o trapinho continuava a encher minha cabeça. Será que um dia eu ainda iria encontrá-lo? Tudo bem que nunca mais o vi, mas eu sabia que o que eu sentia não era uma simples obsessão. Eu realmente estava gostando dele. E o mais estranho era que agente nem sequer tinha conversando e nem ao menos sabíamos o nome um do outro.
Como a ultima vez que nos vimos ele estava no café resolvi ao invés de voltar pra casa ir lá e ver se o encontrava. Quando saí da escola fui pra casa. Quero dizer, não para casa e sim para o café. Estava com saudades daquela comida e a minha era realmente ruim. Estava na hora de encarar os fatos.
Peguei o ônibus e desci antes. Sentei do lado de fora do café porque estava um friozinho agradável. Pedi um cappuccino grande e umas torradas com geléia, bolos e salgados. Seria mesmo meu jantar então era melhor ser reforçado. Fiquei lá, fiz minha lição, olhei as pessoas passando e o pôr-do-sol lindíssimo. Parecia manchado de sangue. Nunca esperei vê— lo tão caloroso numa cidade como Londres. Parei para observar o sol, se pondo bem lentamente e o seu brilho avermelhado ir aos poucos se tornando cinza.
Foi a minha melhor tarde nesta cidade até agora. Três horas depois decidi ir para casa, pois estava ficando mais frio e queria ir andando. Estava bem perto de casa e a noite pedia para ser vista. Estava próximo de casa quando senti alguém me puxar. Meu coração disparou, meu sangue congelou e minha cabeça rodou. Pensei em um milhão de coisas, pois num lugar que conhecemos qualquer amigo poderia chegar de surpresa e fazer isso, mas não num lugar onde não conhecemos praticamente ninguém.
O puxão me fez virar e encarar um homem mal vestido: calça rasgada, casaco puído, sapatos gastos, um touca com um mau cheiro terrível e mãos muito sujas (isso porque estou sendo muito bondosa. Não quis dizer que ele parecia ter catado lixo nas últimas três semanas, sem lavar as mãos em nenhum momento).
— Me passe a grana.
— Que grana?
— O que vi no café. Você deve ser mais uma dessas filhinhas de papai que...
Ele não teve tempo de terminar. Um outro alguém o puxou pelo pescoço e o derrubou no chão, socou o seu rosto até que o cara puxou uma faca da cintura e enfiou pouco abaixo do esterno e arrastou até o umbigo. O assaltante se levantou e correu e eu fiquei lá desesperada vendo a dor naqueles olhos azuis que eu tanto conhecia.
— Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus.
— Calma. Vai passar.
— Não vai, suas vísceras estão expostas! Eu vou desmaiar.
— Não vai não. Preciso de você e minhas vísceras não estão expostas.
— O que você quer que eu faça?
— Preciso de água, muita água.
— Sei que deveria estar muito agradecida por ter salvo minha vida e tudo mais, mas estou com medo. Não te conheço, não sei se devo te levar pra minha casa.
— É, realmente você deveria estar agradecida, mas entendo sua preocupação. Garanto que não vou te fazer mal. Só preciso da sua ajuda e não vou abusar da sua confiança.
Sem mais conversa ajudei— o a levantar e o coloquei no elevador. Entrei em casa apoiando— o e o coloquei no sofá.
— Bonita a sua casa.
— Nós não deveríamos estar preocupados com a sua recuperação?
— Ah, sim isso mesmo. Posso tomar banho?
— O que? – Fiquei super espantada com a pergunta dele. O cara leva uma facada e pede pra tomar banho. –Você não deveria pedir álcool e gaze?
— Confie em mim, sei o que estou fazendo.
Acompanhei— o até o quarto e ajudei— o a tirar a camisa (ai meu Deus, quase morri com aquela visão! Que barriga sarada. Que braços. Estava rezando pra não ficar só na camisa).
— O banheiro fica ali?
— Sim, mas você não acha melhor tirar logo a calça... E o sapato? – Ele me olhou com descrença, surpresa e certo ar de riso. –Não me olha com essa cara. Estou querendo te ajudar, você não devia esforçar sua barriga.
— Não te olhei de jeito nenhum. É que nunca imaginei que você fosse me mandar tirar a roupa.
— Tudo bem vou sair daqui e você que se vire sozinho, já sabe o caminho.
Apontei para a porta, mas ele me puxou pelo braço e quando virei estava bem próxima dele. Seu toque me fez tremer e os pelos do meu braço se eriçaram. Ele me olhou de um jeito implorativo e não tive coragem nem de me mexer quanto mais de sair de lá.
— Por favor, não me deixe sozinho. Não quero passar por isso de novo. Me ajuda.
— Tudo bem, desculpa. Eu deveria estar te ajudando em agradecimento.
— Não por agradecimento. Não precisa agradecer. Só se você quiser.
Se antes não conseguia nem me mexer agora não estava nem respirando. Derramei uma lágrima e ele ficou atônito.
— O que aconteceu?
— Nada, vamos você precisa se limpar.
Ajudei— o a tirar o sapato e a calça. Ele usava uma cueca boxer preta. Ele entrou na banheira e eu saí do banheiro.
— Você poderia ficar perto da porta do lado de fora? É que eu queria ouvir sua voz.
— Tudo bem, estou sentada na porta.
Fechei a porta, sentei no chão e fiquei ouvindo os barulhos que vinham de dentro do banheiro: a água caindo, ele se molhando e logo depois falando.
— Qual o seu nome?
— Charlotte.
— Inacreditável.
— O que?
— Quando nos vimos no café eu senti que conhecia um nome, mas nunca tinha ouvido falar nele antes: Charlie.
— Mas meu nome não é Charlie.
— Mas é assim que eu gostaria de te chamar.
— E o seu nome?
— Caine. Caine Ventrue.
— Você é filho de Lorenna Ventrue?
— Sim, por quê?
— Ela ensina na escola que eu estudo. Sinto muito pela perda do seu irmão.
— Eu não tenho irmãos, sou filho único.
— Mas ela acabou de perder um filho num acidente e você... – Parei de falar por um segundo e me dei conta de que não estava falando com um humano. Ao menos não um humano comum. – É um vampiro.
Ele abriu a porta. Olhei para cima assustada e encarei— o. Ele estava com o cabelo solto e molhado, enrolado numa toalha e não havia mais sinal de que ele tivesse levado um corte tão profundo.
— Eu não gostaria de falar sobre esse assunto.
— Isso não está certo. Eu passei quatro dias me martirizando por ter visto você mordendo um cara e agora que eu tenho a oportunidade de saber o que realmente aconteceu. Eu não vou desperdiçar.
— Você realmente não entende, acha que é muito fácil estar nessa situação. Como você se sentiria com todas as pessoas que você conhece e ama achando que você está morta? Como se sentiria sabendo que foi abandonada sem nenhuma explicação ou lembrança e descobrindo que precisa matar para viver? Se você soubesse o que é isso certamente não quereria tocar no assunto.
— Me desculpe, eu nunca imaginei que a situação fosse essa. Eu só quero entender. Você entende também o que é se apaixonar por alguém que você não conhece e descobrir que esse alguém é totalmente diferente de você no momento?
— É claro que eu entendo, eu estou na mesma situação.

Nana&Karol

Capítulo 16


Não fui direto pra casa. Estava me sentindo pesado demais para me deitar e ficar lá a noite toda. Andei pelas ruas sem uma direção certa. Estava confuso com o que sentia. A única certeza que tinha era que gostava muito dela e que não gostaria de me afastar. Mas como eu poderia me aproximar? Eu não tinha uma vida, mal sabia quem era, todos achavam que eu estava morto. Era demais pra mim, imagine pra ela que deveria viver num mundo seguro e feliz.
Ela era forte. Uma adolescente se muda para Londres para viver sozinha, longe de todos que conhece e ama. Com certeza ela não era igual a todas as outras. Mas isso não era desculpa para chegar e dizer: “Olá, meu nome é Caine Ventrue e eu gosto muito de você. Ah, aliás eu sou um vampiro sem memória.” Andei por muito tempo sem saber pra onde ia. Até que começou a amanhecer. Era óbvio que eu estava longe de casa. Então tratei de me localizar e voltar para casa. Esse tempo me fez bem. Decidi que me afastaria dela aos poucos. Não a deixaria sozinha nessa cidade perigosa. Ela era estrangeira e isso dificultava um pouco as coisas pra ela. Então a medida que ela fosse se acostumando ao ritmo da cidade e da escola, conhecendo novas pessoas eu me ausentaria. Não manteria contato, entretanto, em nenhum momento.
Cheguei ao galpão e percebi que já era quase hora dela ir para a escola. Que saudade eu tinha de lá. Vivi muitas coisas boas naquele lugar. Sempre estudei direito, era um bom aluno, mas no time de futebol, não tem como ser sempre correto. Fazia umas besteiras de vez em quando. Lembro que um dia saí com os meus amigos e bebi demais. O Marcus ligou para minha casa avisando que eu dormiria na casa dele. Eu não podia nem falar. No outro dia quando cheguei minha mãe enlouqueceu. Eu estava péssimo de verdade. Foi a maior bronca da minha vida. Ela me tirou o carro por um mês. Precisei ir com ela e voltar da escola todos os dias. É claro que todos me sacanearam, inclusive o Marcus. Foi o mês mais constrangedor da minha vida.
Agora sinto falta dessa proteção, do companheirismo dos meus amigos, da alegria de ter pessoas ao redor. Hoje não tenho mais que lembranças desse tempo que me parece outra vida e se não fosse aquela garota estaria completamente sozinho com meus próprios pensamentos e torturas. A essa altura estava perto do galpão. Apressei o passo, entrei e me ajeitei um pouco. Estava com uma cara de cansaço, não pela caminhada, mas pelo tanto que amadureci nesses últimos dias. Andei rápido até a casa dela, mas ela já tinha saído. Andei até o ponto de ônibus e ela estava subindo em um quando cheguei. Peguei outra rua e fui direto para a escola. Cheguei antes. Ela precisava mudar de ônibus. Aquele demorava muito mais para chegar lá. Ela chegou alguns minutos depois de mim. Encostei-me a uma árvore de frente à escola e fiquei observando seus movimentos. Ela caminhava lentamente, como se estivesse com sono, bocejando algumas vezes. A menina de cabelo ruivo se aproximou e foram ambas para dentro. Tentei ouvir o que elas diziam, mas eram só coisas do dia-a-dia. Esperei um horário, até o sinal tocar. Não fazia sentido ficar ali, mas para onde mais eu iria. Sentia-me entristecido. Em pouco tempo não estaria mais seguindo-a, percebendo seus detalhes, contando seus passos. Era estranho sentir como se fosse arrancado parte de mim. Só me senti assim quando percebi que estava morto para os meus pais. Ela era uma estranha para mim e apesar desse magnetismo, da beleza dela, não deveria ser certo senti-la como uma parte tão importante de mim em tão pouco tempo. Parte da minha família. Resolvi sair de novo para caminhar, ver pessoas diferentes. Na hora que ela saísse já estaria de volta.
Andei devagar, mas quando me dei conta estava num parque. Sentei debaixo duma árvore e fiquei observando as pessoas que estavam lá. Era cedo ainda, mas alguns faziam exercícios, crianças corriam e brincavam com seus cachorros. Tinha um casal jovem também. Observei-os. A garota tinha cabelo escuro curto, olhos castanhos e bastante expressivos. Ela olhava para ele de uma maneira tão sutil e apaixonada que desejei automaticamente que a minha estranha me olhasse daquela forma. Ela sorria casualmente enquanto ele falava e apertava sua mão com delicadeza. Ele, com seu cabelo curto, cacheado, fitava-a com tamanha dedicação e amor que só tinha visto antes nos olhares dos meus pais. Perguntei-me como um casal tão jovem poderia se olhar com tanto respeito e admiração. Imediatamente percebi que era isso que eu sentia por ela. A admirava não pela sua beleza fascinante, mas pela forma como ela me parecia: madura, forte, inteligente, feliz! Respeitava-a com toda minha alma, não a queria que nada a acontecesse que não fosse de sua inteira vontade. Tanto que preferia nunca mais vê-la, a pô-la em perigo a mergulhando na minha vida nômade. Não achava justo comigo que tudo isso tivesse acontecido de forma tão brutal. Não conseguia imaginar nem de longe expô-la a qualquer situação desagradável. E essa era minha afirmação mais incontestável. Não por mim ela sofreria, e faria ainda tudo que estivesse ao meu alcance para que nada perturbasse sua inocente, doce e feliz vida.
O casal continuou caminhando agradavelmente, alheio a tudo que se passava ao redor. Segui-os com o olhar por alguns minutos até que sumissem pelo outro lado do parque. Respirei fundo, com exaspero. Eu nunca teria isso para mim? Nunca poderia ser feliz novamente? Sem meus pais, sem meus amigos, sem um amor? Fiquei pensando nisso por algumas horas ainda. Quando percebi, algumas pessoas já estavam me olhando desconfiadas. Quem passa tanto tempo parado debaixo de uma árvore? Percebi que estava atraindo atenção, uma que eu não queria nem precisava no momento. Tudo que desejava era passar despercebido por todos os lugares enquanto estivesse vivo.
Levantei-me espreguiçando-me. Afinal seria isso que um humano faria apesar de que poderia ficar naquela posição o dia todo sem que sentisse dormência ou dor em nenhuma parte do corpo. Andei devagar de cabeça baixa procurando não chamar atenção. Ainda não estava hora dela sair então tomei uma decisão: iria ver Felicity. Não seria ruim, então, se eu a procurasse para um Olá! Quem sabe eu não conseguiria substituir o que eu sentia pela minha estranha por uma simples lembrança. Começaria não pensando mais nela como minha. Ela não me pertencia de nenhuma forma. Estava apenas em meus pensamentos mais insanos. Caminhei até a loja da Felicity. Pela vitrine a procurei. A vi junto de um rapaz que a olhava com muito carinho. Para minha surpresa ela retribuiu o sorriso com igual intensidade. Eles conversavam no balcão, sorridentes, afetuosos. Afastei-me um pouco para que ela não me visse, mas continuei observando. Seu chefe chegou perto então ela se distanciou do rapaz e fingiu arrumar uma prateleira bagunçada. O rapaz pegou algumas revistas, um pacote de salgadinhos e foi olhar as prateleiras contrárias às de Felicity. O chefe dela falou algo a ela, que assentiu, e em seguida saiu. O rapaz voltou a ela e passou as compras. Eles não tiravam os olhos um do outro e se comunicavam assim, em silêncio. O que acontecia com as pessoas apaixonadas? Elas ficavam com seus pensamentos interligados? Nunca senti isso, nem pela Verônica! Que droga!
O rapaz pagou as compras, pegou a sacola e segurou a mão de Felicity beijando-a com carinho e respeito. Ela sorriu envergonhada e então ele lhe beijou na testa antes de sair, sempre olhando pra trás. Ela ficou com um meio sorriso bobo no rosto, olhando através da vitrine enquanto ele se distanciava alegre. O que eu poderia fazer lá? Atrapalhar esse momento nostálgico dela? Depois do exame que eu dei no café ela bem que poderia nunca mais querer me ver, apesar da sua boa educação não permitir que ela dissesse nada disso. Não me encaixava naquele cenário. Seria só mais alguém que poderia causar problemas a ela. E foi ótimo que isso tivesse acontecido. Se eu não poderia inserir aquela garota na minha vida, teria o direito de fazer isso com Felicity? Ela era tão inocente quanto. Eu seria um canalha se a usasse dessa forma, só para tentar esquecer... e novamente o nome Charlie me veio à mente. Foi bom que tivesse me lembrado dela. Estava na hora de ir à escola. Quando cheguei ainda esperei uns vinte minutos. Logo que tocou ela saiu acompanhada da garota ruiva. Meu coração disparou quando a vi. Que efeito ela teria sobre mim? Como ela era capaz de me fazer sentir como um menino de 15 anos? Eu não tinha muito mais que isso, mas parecia que tinha envelhecido anos nesses últimos dias.
As meninas se abraçaram e se separaram. Ela seguiu para o ponto de ônibus como de costume, mas ainda estava com uma expressão cansada. Será que não teria dormido o suficiente? Será que estava se alimentando mal? Meus pensamentos soaram como se minha mãe estivesse falando comigo. Sorri com a lembrança saudosista. Eu estava aqui, porque não esperava minha mãe sair. Poderia vê-la de longe. Seria arriscado, mas valeria. Eu podia chegar antes dela se me apressasse mais. Minutos depois minha mãe saiu da escola. Fiquei preocupado. Sua expressão sempre sorridente, reconfortante, meiga, parecia tão triste e envelhecida. Havia uma sombra em seu rosto e eu imediatamente quis correr para abraçá-la. Dizer a ela que eu estava bem, que estava vivo e que ela não podia mais ficar tão triste. Sempre tive uma ligação forte com minha mãe. Mais do que a maioria dos garotos. Talvez por ser filho único? Não sei.
Ela entrou no seu carro e seguiu para casa provavelmente. Então andei rapidamente para a casa da minha, digo, da garota. Quando cheguei sua janela ainda estava fechada. Realmente o ônibus não tinha chegado. Esperei durante algum tempo. Ela não aparecia. Convenci-me de que algo estava errado com o ônibus. Ela poderia ter pegado um ônibus errado. Mas não. Eu a vi entrar no ônibus certo. Tentei me acalmar. O que poderia acontecer de errado num caminho tão curto? Absolutamente nada!
Esperei, mas ela não chegou. Fiquei muito preocupado, pois Londres é a cidade mais linda e uma das mais perigosas do mundo. Milhares de coisas começaram a turvar meus pensamentos. Assalto, sequestro, estupro, acidente com o ônibus, atropelamento. Nunca tinha sido tão apologético, pelo contrário, mas quando se tratava dela nada era normal em mim. Tudo era muito exagerado, monstruoso. Precisava encontrá— la e levá— la a salvo para casa. Seria mais fácil protegê— la de mim do que dos outros. Saí caminhando e passei pelo café que ficava próximo a casa dela. Ela estava lá sentada do lado de fora, pensativa. Não acredito que imaginei milhares de horrores enquanto ela estava calmamente sentada no café, lanchando e folheando livros. Senti-me um idiota e sorri para mim mesmo.
Parei e passei para o outro lado da rua. Quando ela saiu e segui— a. Outro cara teve a mesma ideia. Quando ela atravessou a rua e foi atrás dela. Estava mal vestido e não parecia estar bem intencionado. Perto da casa dela ele abordou— a. Eu sabia. Sabia que isso não daria certo. Eu senti que precisava encontrá— la e protegê— la. Esse cara iria se arrepender de ter tocado a minha estranha perfeita.

Nana&Karol