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22 setembro, 2012

Capítulo 16


Não fui direto pra casa. Estava me sentindo pesado demais para me deitar e ficar lá a noite toda. Andei pelas ruas sem uma direção certa. Estava confuso com o que sentia. A única certeza que tinha era que gostava muito dela e que não gostaria de me afastar. Mas como eu poderia me aproximar? Eu não tinha uma vida, mal sabia quem era, todos achavam que eu estava morto. Era demais pra mim, imagine pra ela que deveria viver num mundo seguro e feliz.
Ela era forte. Uma adolescente se muda para Londres para viver sozinha, longe de todos que conhece e ama. Com certeza ela não era igual a todas as outras. Mas isso não era desculpa para chegar e dizer: “Olá, meu nome é Caine Ventrue e eu gosto muito de você. Ah, aliás eu sou um vampiro sem memória.” Andei por muito tempo sem saber pra onde ia. Até que começou a amanhecer. Era óbvio que eu estava longe de casa. Então tratei de me localizar e voltar para casa. Esse tempo me fez bem. Decidi que me afastaria dela aos poucos. Não a deixaria sozinha nessa cidade perigosa. Ela era estrangeira e isso dificultava um pouco as coisas pra ela. Então a medida que ela fosse se acostumando ao ritmo da cidade e da escola, conhecendo novas pessoas eu me ausentaria. Não manteria contato, entretanto, em nenhum momento.
Cheguei ao galpão e percebi que já era quase hora dela ir para a escola. Que saudade eu tinha de lá. Vivi muitas coisas boas naquele lugar. Sempre estudei direito, era um bom aluno, mas no time de futebol, não tem como ser sempre correto. Fazia umas besteiras de vez em quando. Lembro que um dia saí com os meus amigos e bebi demais. O Marcus ligou para minha casa avisando que eu dormiria na casa dele. Eu não podia nem falar. No outro dia quando cheguei minha mãe enlouqueceu. Eu estava péssimo de verdade. Foi a maior bronca da minha vida. Ela me tirou o carro por um mês. Precisei ir com ela e voltar da escola todos os dias. É claro que todos me sacanearam, inclusive o Marcus. Foi o mês mais constrangedor da minha vida.
Agora sinto falta dessa proteção, do companheirismo dos meus amigos, da alegria de ter pessoas ao redor. Hoje não tenho mais que lembranças desse tempo que me parece outra vida e se não fosse aquela garota estaria completamente sozinho com meus próprios pensamentos e torturas. A essa altura estava perto do galpão. Apressei o passo, entrei e me ajeitei um pouco. Estava com uma cara de cansaço, não pela caminhada, mas pelo tanto que amadureci nesses últimos dias. Andei rápido até a casa dela, mas ela já tinha saído. Andei até o ponto de ônibus e ela estava subindo em um quando cheguei. Peguei outra rua e fui direto para a escola. Cheguei antes. Ela precisava mudar de ônibus. Aquele demorava muito mais para chegar lá. Ela chegou alguns minutos depois de mim. Encostei-me a uma árvore de frente à escola e fiquei observando seus movimentos. Ela caminhava lentamente, como se estivesse com sono, bocejando algumas vezes. A menina de cabelo ruivo se aproximou e foram ambas para dentro. Tentei ouvir o que elas diziam, mas eram só coisas do dia-a-dia. Esperei um horário, até o sinal tocar. Não fazia sentido ficar ali, mas para onde mais eu iria. Sentia-me entristecido. Em pouco tempo não estaria mais seguindo-a, percebendo seus detalhes, contando seus passos. Era estranho sentir como se fosse arrancado parte de mim. Só me senti assim quando percebi que estava morto para os meus pais. Ela era uma estranha para mim e apesar desse magnetismo, da beleza dela, não deveria ser certo senti-la como uma parte tão importante de mim em tão pouco tempo. Parte da minha família. Resolvi sair de novo para caminhar, ver pessoas diferentes. Na hora que ela saísse já estaria de volta.
Andei devagar, mas quando me dei conta estava num parque. Sentei debaixo duma árvore e fiquei observando as pessoas que estavam lá. Era cedo ainda, mas alguns faziam exercícios, crianças corriam e brincavam com seus cachorros. Tinha um casal jovem também. Observei-os. A garota tinha cabelo escuro curto, olhos castanhos e bastante expressivos. Ela olhava para ele de uma maneira tão sutil e apaixonada que desejei automaticamente que a minha estranha me olhasse daquela forma. Ela sorria casualmente enquanto ele falava e apertava sua mão com delicadeza. Ele, com seu cabelo curto, cacheado, fitava-a com tamanha dedicação e amor que só tinha visto antes nos olhares dos meus pais. Perguntei-me como um casal tão jovem poderia se olhar com tanto respeito e admiração. Imediatamente percebi que era isso que eu sentia por ela. A admirava não pela sua beleza fascinante, mas pela forma como ela me parecia: madura, forte, inteligente, feliz! Respeitava-a com toda minha alma, não a queria que nada a acontecesse que não fosse de sua inteira vontade. Tanto que preferia nunca mais vê-la, a pô-la em perigo a mergulhando na minha vida nômade. Não achava justo comigo que tudo isso tivesse acontecido de forma tão brutal. Não conseguia imaginar nem de longe expô-la a qualquer situação desagradável. E essa era minha afirmação mais incontestável. Não por mim ela sofreria, e faria ainda tudo que estivesse ao meu alcance para que nada perturbasse sua inocente, doce e feliz vida.
O casal continuou caminhando agradavelmente, alheio a tudo que se passava ao redor. Segui-os com o olhar por alguns minutos até que sumissem pelo outro lado do parque. Respirei fundo, com exaspero. Eu nunca teria isso para mim? Nunca poderia ser feliz novamente? Sem meus pais, sem meus amigos, sem um amor? Fiquei pensando nisso por algumas horas ainda. Quando percebi, algumas pessoas já estavam me olhando desconfiadas. Quem passa tanto tempo parado debaixo de uma árvore? Percebi que estava atraindo atenção, uma que eu não queria nem precisava no momento. Tudo que desejava era passar despercebido por todos os lugares enquanto estivesse vivo.
Levantei-me espreguiçando-me. Afinal seria isso que um humano faria apesar de que poderia ficar naquela posição o dia todo sem que sentisse dormência ou dor em nenhuma parte do corpo. Andei devagar de cabeça baixa procurando não chamar atenção. Ainda não estava hora dela sair então tomei uma decisão: iria ver Felicity. Não seria ruim, então, se eu a procurasse para um Olá! Quem sabe eu não conseguiria substituir o que eu sentia pela minha estranha por uma simples lembrança. Começaria não pensando mais nela como minha. Ela não me pertencia de nenhuma forma. Estava apenas em meus pensamentos mais insanos. Caminhei até a loja da Felicity. Pela vitrine a procurei. A vi junto de um rapaz que a olhava com muito carinho. Para minha surpresa ela retribuiu o sorriso com igual intensidade. Eles conversavam no balcão, sorridentes, afetuosos. Afastei-me um pouco para que ela não me visse, mas continuei observando. Seu chefe chegou perto então ela se distanciou do rapaz e fingiu arrumar uma prateleira bagunçada. O rapaz pegou algumas revistas, um pacote de salgadinhos e foi olhar as prateleiras contrárias às de Felicity. O chefe dela falou algo a ela, que assentiu, e em seguida saiu. O rapaz voltou a ela e passou as compras. Eles não tiravam os olhos um do outro e se comunicavam assim, em silêncio. O que acontecia com as pessoas apaixonadas? Elas ficavam com seus pensamentos interligados? Nunca senti isso, nem pela Verônica! Que droga!
O rapaz pagou as compras, pegou a sacola e segurou a mão de Felicity beijando-a com carinho e respeito. Ela sorriu envergonhada e então ele lhe beijou na testa antes de sair, sempre olhando pra trás. Ela ficou com um meio sorriso bobo no rosto, olhando através da vitrine enquanto ele se distanciava alegre. O que eu poderia fazer lá? Atrapalhar esse momento nostálgico dela? Depois do exame que eu dei no café ela bem que poderia nunca mais querer me ver, apesar da sua boa educação não permitir que ela dissesse nada disso. Não me encaixava naquele cenário. Seria só mais alguém que poderia causar problemas a ela. E foi ótimo que isso tivesse acontecido. Se eu não poderia inserir aquela garota na minha vida, teria o direito de fazer isso com Felicity? Ela era tão inocente quanto. Eu seria um canalha se a usasse dessa forma, só para tentar esquecer... e novamente o nome Charlie me veio à mente. Foi bom que tivesse me lembrado dela. Estava na hora de ir à escola. Quando cheguei ainda esperei uns vinte minutos. Logo que tocou ela saiu acompanhada da garota ruiva. Meu coração disparou quando a vi. Que efeito ela teria sobre mim? Como ela era capaz de me fazer sentir como um menino de 15 anos? Eu não tinha muito mais que isso, mas parecia que tinha envelhecido anos nesses últimos dias.
As meninas se abraçaram e se separaram. Ela seguiu para o ponto de ônibus como de costume, mas ainda estava com uma expressão cansada. Será que não teria dormido o suficiente? Será que estava se alimentando mal? Meus pensamentos soaram como se minha mãe estivesse falando comigo. Sorri com a lembrança saudosista. Eu estava aqui, porque não esperava minha mãe sair. Poderia vê-la de longe. Seria arriscado, mas valeria. Eu podia chegar antes dela se me apressasse mais. Minutos depois minha mãe saiu da escola. Fiquei preocupado. Sua expressão sempre sorridente, reconfortante, meiga, parecia tão triste e envelhecida. Havia uma sombra em seu rosto e eu imediatamente quis correr para abraçá-la. Dizer a ela que eu estava bem, que estava vivo e que ela não podia mais ficar tão triste. Sempre tive uma ligação forte com minha mãe. Mais do que a maioria dos garotos. Talvez por ser filho único? Não sei.
Ela entrou no seu carro e seguiu para casa provavelmente. Então andei rapidamente para a casa da minha, digo, da garota. Quando cheguei sua janela ainda estava fechada. Realmente o ônibus não tinha chegado. Esperei durante algum tempo. Ela não aparecia. Convenci-me de que algo estava errado com o ônibus. Ela poderia ter pegado um ônibus errado. Mas não. Eu a vi entrar no ônibus certo. Tentei me acalmar. O que poderia acontecer de errado num caminho tão curto? Absolutamente nada!
Esperei, mas ela não chegou. Fiquei muito preocupado, pois Londres é a cidade mais linda e uma das mais perigosas do mundo. Milhares de coisas começaram a turvar meus pensamentos. Assalto, sequestro, estupro, acidente com o ônibus, atropelamento. Nunca tinha sido tão apologético, pelo contrário, mas quando se tratava dela nada era normal em mim. Tudo era muito exagerado, monstruoso. Precisava encontrá— la e levá— la a salvo para casa. Seria mais fácil protegê— la de mim do que dos outros. Saí caminhando e passei pelo café que ficava próximo a casa dela. Ela estava lá sentada do lado de fora, pensativa. Não acredito que imaginei milhares de horrores enquanto ela estava calmamente sentada no café, lanchando e folheando livros. Senti-me um idiota e sorri para mim mesmo.
Parei e passei para o outro lado da rua. Quando ela saiu e segui— a. Outro cara teve a mesma ideia. Quando ela atravessou a rua e foi atrás dela. Estava mal vestido e não parecia estar bem intencionado. Perto da casa dela ele abordou— a. Eu sabia. Sabia que isso não daria certo. Eu senti que precisava encontrá— la e protegê— la. Esse cara iria se arrepender de ter tocado a minha estranha perfeita.

Nana&Karol 

Capítulo 15


Passei o resto das minhas férias vagando como um zumbi dentro de casa. Saí uma vez pra comprar comida só para não precisar voltar àquele café. Ele me trazia boas, mas também péssimas recordações. Não parei de pensar nem por um segundo sobre o que aconteceu. Aqueles olhos azuis tão profundos me marcaram como nunca aconteceu. Eu estava apaixonada por um cara que eu não sabia nem o nome e que cometeu um assassinato da forma mais inacreditável possível.
Andei por todo o apartamento naquele domingo e tentei me encontrar ali dentro, mas sabia que não adiantaria. Olhei as paredes brancas, elas não combinavam comigo. Troquei de roupa, saí correndo escada abaixo e procurei uma loja de tintas.
Era bem legal, as paredes eram coloridas tipo uma tela de testes de cores e texturas.
— Olá, eu gostaria de comprar cores variadas de tintas.
— Tem preferência de marca ou tonalidade?
— Não muito. Não conheço muitas marcas, só não quero muito caras nem com cheiro forte. É para o meu apartamento então não quero ter que sair de lá enquanto seca.
— Tudo bem, na parede tem várias cores e no catálogo têm outras que são lançamento, só que são mais caras.
— Fico com as da parede. Eu as faço virarem lançamento.
A moça que me atendia riu com a minha frase e me mostrou os galões. Comprei de várias cores: vermelho, preto, roxo, verde claro, rosa bebê, marrom, azul céu e vários pincéis e rolinhos de diferentes tamanhos. Comprei também uma touca e solvente para tirar a tinta de mim e de onde caísse. A casa de búzios foi pintada pela minha família. Uma parte dela. Quando eu era criança. Ajudei a sujar, mas meus pais não reclamaram. Foi um dos dias mais divertidos da minha vida e lembrá-lo me ajudou a ter mais ânimo.
Voltei para casa, vesti um short e uma camiseta velhos, afastei os móveis e espalhei jornais e revistas pelo chão, abri os galões e comecei a espalhar as tintas pelas paredes fazendo formas geométricas, riscos e manchas.
Misturei algumas cores e formei novas tonalidades. A sala ficou com as cores mais escuras (vermelho, preto e marrom) e a cozinha com as demais cores e junto com as variações entre laranja, lilás e algumas não definidas.
Não mexi muito no quarto porque não podia arrastar os móveis. Limpei a casa, juntei os jornais e joguei no lixo, limpei-me com o solvente e tomei um bom banho. Almocei em casa mesmo e passei o resto do dia vedo TV, arrumando minhas coisas para a escola e falando com as garotas.
— O que você viu?
— Eu não acredito.
— Estou pasma e morta!
— Tem certeza disso?
— Claro que sim. Eu não mentiria para vocês, mas isso é um segredo, óbvio. Não quero ter que voltar ao Brasil para matar vocês esquartejadas.
— Diga-me em que tempo existente em qualquer dimensão que exista no infinito nós contamos seus segredos ou o de uma de nós a outra pessoa.
— Isso mesmo. Fale-nos.
— Tudo bem. Só quis reforçar.
— Não precisa.
— Assim você nos ofende, desconfiando da nossa lealdade.
— Isso mesmo, o que Londres fez na sua cabeça?
— Mil perdões amigas, mas é que foi algo inesperado, inacreditável.
— Entendemos. Nunca pensei que vampiros existissem. Sempre quis conhecer um.
— Qual é Glória você nem sabia que eles existiam.
— É eu sei, mas mesmo assim. Sempre alimentei dentro de mim esse sonho. Ahhhhhhhhhh!
— Vai começar a ladainha.
— Qual é galera vocês querem saber mais ou não?
— Claro que sim conta. Calem as bocas.
— Ele é totalmente perfeito. É alto e forte, tem a voz lindíssima e envolvente, lábios muito fofos e olhos incrivelmente azuis. Aliás, como os de uma professora da escola.
— E você já foi lá?
— Já. Fui ver minha matrícula. Ela perdeu o filho há pouco tempo. Uma pena. Mas voltando ao assunto. Ele é totalmente demais. Eu estou apaixonada por ele e...
— O que? Acho que não entendi bem. Charlotte Camarillo apaixonada?
— Sempre achei que ouviria isso.
— Qual é Julie. A Charlotte nunca gostou de alguém assim. Agora ela se apaixona por um bebedor de sangue.
— Nossa. Não fala assim. Você já pensou como deve estar sendo difícil para ela?
— Desculpa Char. Não quis te ofender nem te magoar.
— Tudo bem, eu sei. Você não falou por mal, mas mesmo assim. Eu fiquei triste porque ainda não tinha me dado conta disso.
— Se ele for perigoso?
— Eu não sei. Não sei qual das lendas é a verdadeira ou se algumas delas é. A única coisa que eu sei é que ele bebe sangue, é mais forte que um humano comum e me olhou com muita dor quando me viu lá olhando ele. Foi real. Ele me olhou como se estivesse se desculpando. Se ele pudesse chorar o teria feito. Eu nem sei se ele pode chorar.
— Mas se pudesse choraria. Com certeza.
— Pode até ser Julie, mas a Anne tem razão. E se ele for perigoso? Eu não tenho garantia de nada perto dele, nem se vou sair viva ou humana de lá. Senti que ele nunca me faria mal, mas isso sou eu. Não tenho como saber se meu sentimento é verdadeiro.
— Oh, eu sinto tanto. Queria estar ai e te ajudar.
— Todas nós queríamos.
— Vamos mudar de assunto.
— Tudo bem. O meu apartamento ficou lindo de morrer.
Continuamos conversando sobre coisas mais animadas. Duas horas depois desligamos quase chorando e a Carly me ligou marcando de passar aqui para me pegar para irmos para a escola. Conversamos um pouco e fui dormir. Já era tarde e tinha que acordar cedo para não me atrasar para o meu primeiro dia.
De manhã acordei disposta. O fuso horário quase não me afetou. Tomei café e me troquei. Esperei mais uns dez minutos e a Carly chegou.
— Olá.
— Olá Sra. Johnson.
— Olá Charlotte. A Carly me falou bem de você. Que bom que estão amigas. Será mais fácil começar.
— Obrigada Sra. Johnson.
Ela nos deixou na esquina e fomos andando até a escola. Conversamos um pouco e entramos logo. Ambas já conheciam os caminhos e fomos direto para a sala de aula. Os alunos eram uns gatos. Os professores super demais e a escola totalmente perfeita. Entramos pela escadaria de pedra e andamos pelos largos corredores até termos que nos separar para irmos para nossas salas. Só nos encontraríamos no quinto horário na aula de história e no almoço. Nas minhas turmas todos me trataram bem e ficaram curiosos para saber sobre o Brasil. Decorei um texto de apresentação do país porque não tinha mais nem o que falar era só sol, mar, calor, gente bonita e quebrar os mitos de que as favelas invadem as ruas e que todos os dias morrem várias pessoas pelas mãos da máfia. Lá nem tem máfia. Tem traficantes, gangues, mas máfia não. Tudo que tem em todos os países. O Brasil está crescendo e pelo menos nas minhas turmas eles teriam que enxergar isso.
No almoço nos encontramos e comentamos sobre a manhã de aulas.
— Nossa Charlotte isso é totalmente demais. Essa escola é o máximo. Os professores são ótimos e os alunos uns gatos. Na minha aula de inglês tem um cara muito lindo. Ele tem um cabelo super descolado loiro com mechas pretas. Não é muito grande a parte loira, mas as mechas pretas vão até o pescoço.
— Esse “não é muito grande” é estilo surfistinha.
— Legal! Continuando, o cabelo estilo surfistinha, os olhos verde-água quase transparentes. Muito legal.
— Isso é um emo!
— Isso não. Ele. E o cara não é emo. Pelo menos ele não se veste assim.
— Mas você não sabe como ele se veste. Estamos de farda.
— Mas mesmo assim. O estilo dele não parece ser emo.
— Tudo bem. Só esse?
— Sim. Ele é mais lindo que todos os outros.
— O meu parceiro de química é um deus grego. Se bem que no Brasil eu tinha um professor de historia que dizia: “O ego desses deuses era tão grande que eles só enxergavam beleza no próprio sexo, logo eram gays”.
— Nunca ouvi essa teoria.
— Os brasileiros são mais criativos. – Ambas riram muito.
— Voltando ao assunto, você não me falou como é seu parceiro de química.
— O cara é loiro, tem olhos cor de mel, uma boca muito chamativa, mais que o apropriado, devia ser proibido ter uma boca daquela. Ele é alto, mas forte. Não musculoso, mais para magro, mas não esquelético. Uma verdadeira sincronia.
— U-a-u. Apaixonei-me.
— Você não estava apaixonada pelo emo da sua classe?
— Em primeiro lugar ele não é emo e em segundo meu coração é grande, sempre cabe mais um.
Rimos muito e voltamos para a sala. O dia foi legal, legal demais. Fui para casa de ônibus no andar de cima porque queria ver tudo do alto. Desci e andei até chegar ao apartamento. Larguei minha bolsa no sofá, fui para o quarto me trocar e voltei. Fiquei lendo algumas revistas, depois peguei alguns livros e fiquei no sofá estudando, relembrei o meu inglês, algumas gírias usadas por lá. Comi algo vendo TV. Fiz meu dever de casa, que era bem pouco e fui dormir.
No outro dia acordei cedo de novo e fui novamente com a Carly. Ela era uma amiga e tanto e seria demais passar esse tempo com ela. Chegamos e como eu estava cansada e ainda pensando muito em trapinho estava com uma cara desanimada.
— Charlotte o que aconteceu você está triste?
— Não imagina, estou cansada apenas Sra. Johnson. Acho que o fuso horário está me afetando um pouco.
— Tudo bem, mas isso passa. É normal. Até mais.
— Até.
Saímos de perto do carro e caminhamos devagar para a escola. Apesar de animadas estávamos com sono.
— Charlotte fale mais sobre o Brasil. Sempre quis conhecer o Rio de Janeiro. Ouço falar muito sobre as escolas de samba. Deve ser tão lindo.
— E é mesmo. Lá faz muito calor. Calor tipo 40° C. Convertendo deve dar uns 104° F.
— Minha nossa. Eu morreria de calor.
— Mas lá tem muitas praias lotadas de gente. Tem muitos garotos bonitos também que vocês iriam adorar. Minha amiga tem um ficante que se chama Júlio e ele faz esse estilo surfistinha.
— O que é ficante?
— Ficante é como um namorado temporário. Eles não têm um compromisso sério e podem ficar, ou melhor, namorar temporariamente ao mesmo tempo com outras pessoas. É mais ou menos assim.
— E o que você falou sobre estilo surfistinha, comenta mais.
— Estilo surfistinha é quando o cara é bronzeado, surfa, usa óculos lupa, bermuda colorida, sandália, o cabelo não muito grande como o do emo,coisas assim.
— Entendi e gostei. Eu adoraria conhecer o Rio.
— Isso porque você nunca viu Búzios. É uma cidade litorânea onde chovem garotos assim.
— Oh meu Deus preciso realmente ir para lá.
Entramos e ela continuou perguntando sobre o Brasil. Falei o que pude detalhadamente. No fim do dia nos despedimos e fui para casa. Fiquei no ponto a espera do ônibus. Subi e sentei-me em um dos bancos vagos no primeiro andar. Desci e fui caminhando para casa. Durante a caminhada fui pensando em tudo o que aconteceu. A curiosidade passava a tomar conta de mim. Eu queria saber o que estava acontecendo, queria saber mais sobre aquele rapaz. Seu nome, quem ele era, mas a pergunta que circulava a minha cabeça era ‘o que tinha acontecido com ele’. Eu sei que devia me afastar, mas só de lembrar do modo como ele me olhava me fazia perceber que ele nunca iria me machucar, pelo menos não de propósito.
Entrei no apartamento e joguei meus livros na mesinha de centro. Fui pro quarto e troquei aquela farda horrenda por uma calça escura e uma blusinha de manga azul e peguei um casaco. Estava com fome, mas não aguentava comer sozinha e muito menos estudar. Ainda por cima com o humor que estava. Resolvi pegar meus livros e ir até o café. La eu poderia comer rodeada de pessoas, estudar e não me sentir tão só.
Cumprimentei algumas pessoas que eu conhecia de vista, pois já frequentavam o café. E falei com alguns dos atendentes. Fiz o meu pedido e me sentei em uma das mesas que ficavam de frente para a janela. Peguei um dos livros e comecei a estudar. Não que não fosse boa na matéria, mas a turma estava mais adiantada e precisava me acostumar com o modo de ensino daqui. Mas o que também não ajudava muito era o fato de que eu não conseguia tirá-lo da cabeça. Apesar de ter a sensação de ser observada durante o tempo que fiquei no café, não percebi ninguém me olhando. Fiz o dever e depois de tomar café juntei minhas coisas e voltei para casa.
Chegando em casa tomei banho e me arrumei para dormir. O primeiro dia de aula até que tinha sido bem cansativo. No dia seguinte acordei cedo e preparei algumas coisas pro café como, torradas, suco, alguns ovos e geléia. Fiz minha higiene e me arrumei. Desci e fiquei esperando a Carly e a mãe no portão do prédio. Quando elas chegaram fomos direto pra escola.
Nada de tão inacreditável aconteceu, eu e a Carly tivemos algumas aulas juntas, almoçamos e fofocamos sobre os meninos que ela me falou outro dia. De acordo com ela o garoto da sua turma estava dando em cima dela. E eu que não sou boba nem nada ia tentar ajudar a minha amiga. No fim das aulas, me despedi e fui até o ponto esperar o ônibus. Subi e fui pra casa. Estava casada demais. Fiz alguma coisa pra comer, me arrumei o fui dormir.

Nana&Karol

12 setembro, 2012

Capítulo 14


Saí cego de ódio de mim mesmo por ter sido incapaz de me segurar lá. Se tivesse me controlado poderia ter desfrutado da companhia dela por mais algum tempo antes de um adeus. Estava louco. Cada vez que pensava que poderia estar lá, guardando cada detalhe simplório para qualquer um, mas importantíssimo para mim, minha raiva aumentava. Passei pela frente de um bar de quinta e entrei. Não iria beber nem nada, mas queria ouvir algo mais barulhento que meu próprio pensamento me julgando. Sentei no balcão e pedi uma cerveja. Fiquei olhando-a e pensando na minha vida até então. Ainda me perguntava como consegui fazer a Felicity esquecer meus olhos. Nem sei como ela não correu, pois eu ficava assustador com os olhos brancos. Ela é uma garota muito corajosa e a admiro por isso, só que não poderia levar essa historia adiante. Amanhã teria que ir à loja e dizer que nós não poderíamos nos ver novamente. Não seria tanto pelo que aconteceu e sim por causa dela. Daquela garota. Ela mexeu comigo instantânea e profundamente e eu não conseguiria pensar em mais ninguém que não fosse ela. Charlie. Esse nome novamente. De onde o conhecia? Só sabia que quando o lembrava me acalmava. De repente começou uma briga.
— Cara me ajuda aqui. Esses loucos vão destruir o meu bar.
Tive dúvidas se ele estaria falando comigo mesmo, mas minha dúvida acabou quando ele me puxou pela camisa. Dois caras, um gordo, alto, barbudo e com cara de bêbado e o outro forte, mais baixo uns cinco centímetros com barba cerrada, brigavam por um motivo que devia ser bem idiota. O dono do bar que também era muito corpulento agarrou o gordo pelo pescoço e eu agarrei o fortão virando o braço dele para trás.
— Tira ele daqui vai. Leva ele lá pra fora.
Arrastei-o para fora ouvindo ele me xingar aos gritos. Joguei-o na parede.
— Qual é cara para com isso. Para que brigar?
— O que você tem haver com isso seu idiota filho de uma vaca?
— Olha sem ofensas, te fiz um favor tirando você de lá. Agora cala sua boca e dá o fora daqui.
— Como é? Acho que não ouvi bem. Você está me mandando fazer algo. Garotos imbecis como você não me mandam fazer nada, seu moleque.
— Não me insulta. Sabe de uma faz o que quiser da sua vidinha imunda.
— Ninguém me ofende e vira as costas para mim garoto.
O cara me puxou pela camisa, mas eu girei por baixo do braço dele. Dei-lhe um empurrão que o fez cair sobre umas latas de lixo que ficava na esquina perto de um poste que estava sem luz. Ele levantou-se cambaleando e dessa vez eu não hesitei nem pensei sobre muita coisa. Peguei-o pelo pescoço e o empurrei na parede. Cravei meus dentes no seu pescoço e dessa vez não deixei que o sangue caísse muito. Foi mais fácil hoje, pois parecia que minha fúria era uma ótima professora que me ensinava perfeitamente como agir. Ele foi desfalecendo enquanto eu via imagens da sua vida assim como vi do cara naquele beco.
Havia pessoas, bares, muitas bebidas e, o que mais me impressionou, uma morte. O cara havia matado uma mulher, uma prostituta pelo visto. Eu queria saber mais sobre aquilo então continuei bebendo e vi a mulher numa cama, depois se levantou e apontou uma arma para ele. Ele a rendeu e atirou no seu peito, depois limpou a arma e alguns objetos rapidamente, vestiu-se e saiu correndo deixado-a quase morta lá. Vi depois um julgamento, uma cela e muitos homens abusando uns dos outros. E ele era um dos que abusavam. Larguei-o enojado depois que não senti nada mais sair enquanto sugava. Reparei no pescoço dele: não estava tão destroçado como o outro, havia apenas dois furos largos e marcas pequenas de dentes ao redor e não havia muito sangue espalhado. Passei a mão pelo meu rosto. Estava limpo, só estava sujo até o queixo.  Coloquei-o atrás das latas e quando me virei a vi.
Se eu pudesse evaporar teria acontecido ali mesmo. Ela estava na esquina do outro lado da rua e seus olhos estavam apavorados. Será que ela tinha visto tudo? Será que tudo mesmo? Fiquei lá parado sendo metralhado por perguntas da minha consciência enquanto ela me olhava descrente. Pelo seu olhar percebi que estava enojada, amedrontada e confusa como eu havia ficado da primeira vez. Ela chorou. Derramou duas lágrimas inicialmente. Depois um turbilhão delas. Olhava-me com tristeza. Não havia medo mais. Só havia pesar. Dor. Ela pôs a mão na boca, limpou as lágrimas e saiu correndo. Eu queria ir atrás dela, correr, abraçá-la, me desculpar, chorar com ela e prometer que aquilo nunca mais aconteceria. Prometer que iríamos ficar juntos para sempre, fazê-la esquecer tudo aquilo como fiz com a Felicity. Se eu pudesse chorar teria chorado, se tivesse forças pra gritar teria gritado, se pudesse voltar no tempo e não tê-la decepcionado eu teria feito e  se pudesse não ter morrido não estaria aqui hoje fazendo-a sofrer.  Quando consegui fazer minhas pernas se moverem caminhei a passos de tartaruga para casa. Andei como se estivesse uma bola de ferro acorrentada ao meu tornozelo. Cheguei e me joguei no colchonete. Fiquei lá pensando em tudo e em nada durante horas, dias.

***

Quando tive ânimo para me levantar vi que havia se passado quatro dias. Tomei um bom banho. Não precisava disso, mas queria me livrar do cheiro daquele homem. Olhei a rua. Resolvi sair para ver gente. Para respirar um ar diferente. Andei por Notting Hill, entrei em algumas livrarias, comprei um livro de auto-ajuda. Caminhei mais entrando por várias ruas. Quando me dei conta percebi que estava em frente a um dos últimos lugares em que deveria estar no mundo: a Cambright High School.
Quis fugir, pois minha mãe trabalhava lá, alguns dos meus antigos amigos estudavam lá, meus professores. Não queria que ninguém visse um morto caminhando pela rua. Quis muito fugir, mas não pude. Era horário de saída, muitos alunos estavam do lado de fora, mas nenhum deles me importava. Quero dizer, um deles me importava. Na verdade era a única pessoa que me importava no momento: minha estranha perfeita. Ela usava o fardamento feminino da escola: saia um pouco acima do joelho (ela deve ter modificado, pelo que me lembre elas iam até o joelho), camisa branca de botão manga três quartos, gravata, blazer, meia e sapato Mary Jane. Estava linda como sempre. Parecia estar triste, cabisbaixa. Será que seria por causa do ocorrido há quatro dias? Procurei não ser visto por ninguém. Ela despediu-se de algumas pessoas, andou até uma parada de ônibus e pegou o terceiro que apareceu. Quando ela entrou no ônibus e passou para o andar superior rapidamente entrei atrás e fui para o fundo. Sei bem que foi arriscado, mas eu precisava saber algo mais sobre ela. Cinco paradas depois ela desceu e caminhou entrando em algumas ruas até chegar à dela. Segui-a de longe e muito sorrateiramente. Ela entrou num prédio e demorou uns instantes para aparecer novamente. Olhei em todas as janelas para tentar encontrá-la e a vi finalmente entrando pela porta de uma casa no terceiro andar. Era um bom apartamento. E pelo visto estava vazio quando ela entrou. Ela largou a bolsa num sofá e caminhou até uma porta. Demorou um pouco e voltou com outra roupa. Sentou-se no sofá e ligou a televisão. Fiquei lá observando até anoitecer. Ela passeava pela casa, lia revistas, fez a lição de casa, estudou um pouco e comeu vendo TV. Depois entrou na mesma porta de quando chegou e não saiu mais. Só assim eu fui embora. Estava longe de casa e precisava ir. Fui andando para pensar. Minha estranha perfeita era muito linda. Cada movimento dela me encantava, me fascinava e se eu pudesse nunca mais sairia do lado dela. Certamente eu estaria lá amanhã novamente e depois e depois e depois... Se eu pudesse vê-la e senti-la já seria algo. Já seria muito. Eu teria motivo para viver a partir de agora.
Voltei para casa e me deitei novamente. Senti- me feliz mesmo com tudo, pois sabia onde ela morava, onde estudava e o que fazia. Conhecia sua rotina. Só precisava saber seu nome. Charlie. Minha consciência sussurrava esse nome para mim ininterruptas vezes. Será que seria o nome dela? Mas como eu poderia saber? Deveria ser algo diferente disso. Como eu gostaria de dormir! Ao menos o tempo passaria sem que eu sentisse. Pela manhã desci e tomei um bom banho. Lavei meu cabelo, gostava de fazê-lo. Vesti-me com uma calça bege, uma camisa preta e sai caminhando devagar até a Cambright. Conhecia muito bem os horários e a rotina daquela escola na qual passei toda a minha vida letiva. Cheguei meia hora antes de o sinal bater, apoiei-me numa árvore e esperei-a. Fiquei testando meus ouvidos e percebi que poderia ouvir conversas a até mais ou menos cinco metros de distância. Estava empolgado com isso quando a vi se aproximar. Ela vinha conversando monotonamente com uma garota ruiva.
— Fale mais sobre o Brasil. Sempre quis conhecer o Rio de Janeiro. Ouço falar muito sobre as escolas de samba. Deve ser tão lindo.
— E é mesmo. Lá faz muito calor. Calor tipo 40° C. Convertendo deve dar uns 104° F
— Minha nossa. Eu morreria de calor.
— Mas lá tem muitas praias lotadas de gente. Tem muitos garotos bonitos também que vocês iriam adorar. Minha amiga tem um ficante que se chama Júlio e ele faz esse estilo surfistinha.
— O que é ficante?
— Ficante é como um namorado temporário. Eles não têm um compromisso sério e podem ficar, ou melhor, namorar temporariamente ao mesmo tempo com outras pessoas. É mais ou menos assim.
— E o que você falou sobre estilo surfistinha, comenta mais.
— Estilo surfistinha é quando o cara é bronzeado, surfa, usa óculos lupa, bermuda colorida, sandália, cabelo não muito grande como o do emo, coisas assim.
— Entendi e gostei. Eu adoraria conhecer o Rio.
— Isso porque você nunca viu Búzios. É uma cidade litorânea onde chovem garotos assim.
— Oh meu Deus preciso realmente ir para lá.
Elas riram e foram para dentro. É inacreditável. Ela é brasileira do Rio de Janeiro. Eu já fui ao Rio com meus pais assistir o desfile das escolas de samba. No primeiro dia na praia passei muito mal e fui para o hospital. O sol estava muito quente. Também pudera: sai do inverno inglês para o verão brasileiro, não sei como não morri.
Esperei até o fim das aulas. Ela saiu com a garota e se despediram novamente. Ela seguiu para o ponto de ônibus. Como eu já sabia o caminho da casa dela fui andando. A vi chegar. Caminhava devagar para casa como se o mundo pudesse esperar por ela. Estava triste, com o olhar longe, como acho que deveriam estar seus pensamentos. Entrou, então atravessei a rua para ver melhor sua janela. Ela jogou os livros em algum lugar e sumiu. Deve ter ido para a cozinha ou quarto, não sei. Esperei. Então ela apareceu rapidamente vestindo uma calça, uma blusa e um casaco. Estava linda, mas nunca me acostumaria com a beleza dela. Não que ela fosse uma super modelo, mas seus traços eram perfeitamente harmônicos e naturais, sua pele deslumbrante. Combinaria perfeitamente em contato com a minha. Ela desceu com alguns materiais na mão e andou até o café. Fiquei do outro lado observando enquanto ela estudava. Ela murmurava coisas enquanto lia. O que será que estudava? Qual sua matéria preferida. O que será que a interessava? Talvez eu nunca soubesse, apesar de desejar estar sempre ao lado dela. Não adiantaria ficar me martirizando com isso. Ainda estava cedo, não seria perigoso voltar a essa hora. Então dei as costas e saí.

Nana&Karol