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12 setembro, 2012

Capítulo 14


Saí cego de ódio de mim mesmo por ter sido incapaz de me segurar lá. Se tivesse me controlado poderia ter desfrutado da companhia dela por mais algum tempo antes de um adeus. Estava louco. Cada vez que pensava que poderia estar lá, guardando cada detalhe simplório para qualquer um, mas importantíssimo para mim, minha raiva aumentava. Passei pela frente de um bar de quinta e entrei. Não iria beber nem nada, mas queria ouvir algo mais barulhento que meu próprio pensamento me julgando. Sentei no balcão e pedi uma cerveja. Fiquei olhando-a e pensando na minha vida até então. Ainda me perguntava como consegui fazer a Felicity esquecer meus olhos. Nem sei como ela não correu, pois eu ficava assustador com os olhos brancos. Ela é uma garota muito corajosa e a admiro por isso, só que não poderia levar essa historia adiante. Amanhã teria que ir à loja e dizer que nós não poderíamos nos ver novamente. Não seria tanto pelo que aconteceu e sim por causa dela. Daquela garota. Ela mexeu comigo instantânea e profundamente e eu não conseguiria pensar em mais ninguém que não fosse ela. Charlie. Esse nome novamente. De onde o conhecia? Só sabia que quando o lembrava me acalmava. De repente começou uma briga.
— Cara me ajuda aqui. Esses loucos vão destruir o meu bar.
Tive dúvidas se ele estaria falando comigo mesmo, mas minha dúvida acabou quando ele me puxou pela camisa. Dois caras, um gordo, alto, barbudo e com cara de bêbado e o outro forte, mais baixo uns cinco centímetros com barba cerrada, brigavam por um motivo que devia ser bem idiota. O dono do bar que também era muito corpulento agarrou o gordo pelo pescoço e eu agarrei o fortão virando o braço dele para trás.
— Tira ele daqui vai. Leva ele lá pra fora.
Arrastei-o para fora ouvindo ele me xingar aos gritos. Joguei-o na parede.
— Qual é cara para com isso. Para que brigar?
— O que você tem haver com isso seu idiota filho de uma vaca?
— Olha sem ofensas, te fiz um favor tirando você de lá. Agora cala sua boca e dá o fora daqui.
— Como é? Acho que não ouvi bem. Você está me mandando fazer algo. Garotos imbecis como você não me mandam fazer nada, seu moleque.
— Não me insulta. Sabe de uma faz o que quiser da sua vidinha imunda.
— Ninguém me ofende e vira as costas para mim garoto.
O cara me puxou pela camisa, mas eu girei por baixo do braço dele. Dei-lhe um empurrão que o fez cair sobre umas latas de lixo que ficava na esquina perto de um poste que estava sem luz. Ele levantou-se cambaleando e dessa vez eu não hesitei nem pensei sobre muita coisa. Peguei-o pelo pescoço e o empurrei na parede. Cravei meus dentes no seu pescoço e dessa vez não deixei que o sangue caísse muito. Foi mais fácil hoje, pois parecia que minha fúria era uma ótima professora que me ensinava perfeitamente como agir. Ele foi desfalecendo enquanto eu via imagens da sua vida assim como vi do cara naquele beco.
Havia pessoas, bares, muitas bebidas e, o que mais me impressionou, uma morte. O cara havia matado uma mulher, uma prostituta pelo visto. Eu queria saber mais sobre aquilo então continuei bebendo e vi a mulher numa cama, depois se levantou e apontou uma arma para ele. Ele a rendeu e atirou no seu peito, depois limpou a arma e alguns objetos rapidamente, vestiu-se e saiu correndo deixado-a quase morta lá. Vi depois um julgamento, uma cela e muitos homens abusando uns dos outros. E ele era um dos que abusavam. Larguei-o enojado depois que não senti nada mais sair enquanto sugava. Reparei no pescoço dele: não estava tão destroçado como o outro, havia apenas dois furos largos e marcas pequenas de dentes ao redor e não havia muito sangue espalhado. Passei a mão pelo meu rosto. Estava limpo, só estava sujo até o queixo.  Coloquei-o atrás das latas e quando me virei a vi.
Se eu pudesse evaporar teria acontecido ali mesmo. Ela estava na esquina do outro lado da rua e seus olhos estavam apavorados. Será que ela tinha visto tudo? Será que tudo mesmo? Fiquei lá parado sendo metralhado por perguntas da minha consciência enquanto ela me olhava descrente. Pelo seu olhar percebi que estava enojada, amedrontada e confusa como eu havia ficado da primeira vez. Ela chorou. Derramou duas lágrimas inicialmente. Depois um turbilhão delas. Olhava-me com tristeza. Não havia medo mais. Só havia pesar. Dor. Ela pôs a mão na boca, limpou as lágrimas e saiu correndo. Eu queria ir atrás dela, correr, abraçá-la, me desculpar, chorar com ela e prometer que aquilo nunca mais aconteceria. Prometer que iríamos ficar juntos para sempre, fazê-la esquecer tudo aquilo como fiz com a Felicity. Se eu pudesse chorar teria chorado, se tivesse forças pra gritar teria gritado, se pudesse voltar no tempo e não tê-la decepcionado eu teria feito e  se pudesse não ter morrido não estaria aqui hoje fazendo-a sofrer.  Quando consegui fazer minhas pernas se moverem caminhei a passos de tartaruga para casa. Andei como se estivesse uma bola de ferro acorrentada ao meu tornozelo. Cheguei e me joguei no colchonete. Fiquei lá pensando em tudo e em nada durante horas, dias.

***

Quando tive ânimo para me levantar vi que havia se passado quatro dias. Tomei um bom banho. Não precisava disso, mas queria me livrar do cheiro daquele homem. Olhei a rua. Resolvi sair para ver gente. Para respirar um ar diferente. Andei por Notting Hill, entrei em algumas livrarias, comprei um livro de auto-ajuda. Caminhei mais entrando por várias ruas. Quando me dei conta percebi que estava em frente a um dos últimos lugares em que deveria estar no mundo: a Cambright High School.
Quis fugir, pois minha mãe trabalhava lá, alguns dos meus antigos amigos estudavam lá, meus professores. Não queria que ninguém visse um morto caminhando pela rua. Quis muito fugir, mas não pude. Era horário de saída, muitos alunos estavam do lado de fora, mas nenhum deles me importava. Quero dizer, um deles me importava. Na verdade era a única pessoa que me importava no momento: minha estranha perfeita. Ela usava o fardamento feminino da escola: saia um pouco acima do joelho (ela deve ter modificado, pelo que me lembre elas iam até o joelho), camisa branca de botão manga três quartos, gravata, blazer, meia e sapato Mary Jane. Estava linda como sempre. Parecia estar triste, cabisbaixa. Será que seria por causa do ocorrido há quatro dias? Procurei não ser visto por ninguém. Ela despediu-se de algumas pessoas, andou até uma parada de ônibus e pegou o terceiro que apareceu. Quando ela entrou no ônibus e passou para o andar superior rapidamente entrei atrás e fui para o fundo. Sei bem que foi arriscado, mas eu precisava saber algo mais sobre ela. Cinco paradas depois ela desceu e caminhou entrando em algumas ruas até chegar à dela. Segui-a de longe e muito sorrateiramente. Ela entrou num prédio e demorou uns instantes para aparecer novamente. Olhei em todas as janelas para tentar encontrá-la e a vi finalmente entrando pela porta de uma casa no terceiro andar. Era um bom apartamento. E pelo visto estava vazio quando ela entrou. Ela largou a bolsa num sofá e caminhou até uma porta. Demorou um pouco e voltou com outra roupa. Sentou-se no sofá e ligou a televisão. Fiquei lá observando até anoitecer. Ela passeava pela casa, lia revistas, fez a lição de casa, estudou um pouco e comeu vendo TV. Depois entrou na mesma porta de quando chegou e não saiu mais. Só assim eu fui embora. Estava longe de casa e precisava ir. Fui andando para pensar. Minha estranha perfeita era muito linda. Cada movimento dela me encantava, me fascinava e se eu pudesse nunca mais sairia do lado dela. Certamente eu estaria lá amanhã novamente e depois e depois e depois... Se eu pudesse vê-la e senti-la já seria algo. Já seria muito. Eu teria motivo para viver a partir de agora.
Voltei para casa e me deitei novamente. Senti- me feliz mesmo com tudo, pois sabia onde ela morava, onde estudava e o que fazia. Conhecia sua rotina. Só precisava saber seu nome. Charlie. Minha consciência sussurrava esse nome para mim ininterruptas vezes. Será que seria o nome dela? Mas como eu poderia saber? Deveria ser algo diferente disso. Como eu gostaria de dormir! Ao menos o tempo passaria sem que eu sentisse. Pela manhã desci e tomei um bom banho. Lavei meu cabelo, gostava de fazê-lo. Vesti-me com uma calça bege, uma camisa preta e sai caminhando devagar até a Cambright. Conhecia muito bem os horários e a rotina daquela escola na qual passei toda a minha vida letiva. Cheguei meia hora antes de o sinal bater, apoiei-me numa árvore e esperei-a. Fiquei testando meus ouvidos e percebi que poderia ouvir conversas a até mais ou menos cinco metros de distância. Estava empolgado com isso quando a vi se aproximar. Ela vinha conversando monotonamente com uma garota ruiva.
— Fale mais sobre o Brasil. Sempre quis conhecer o Rio de Janeiro. Ouço falar muito sobre as escolas de samba. Deve ser tão lindo.
— E é mesmo. Lá faz muito calor. Calor tipo 40° C. Convertendo deve dar uns 104° F
— Minha nossa. Eu morreria de calor.
— Mas lá tem muitas praias lotadas de gente. Tem muitos garotos bonitos também que vocês iriam adorar. Minha amiga tem um ficante que se chama Júlio e ele faz esse estilo surfistinha.
— O que é ficante?
— Ficante é como um namorado temporário. Eles não têm um compromisso sério e podem ficar, ou melhor, namorar temporariamente ao mesmo tempo com outras pessoas. É mais ou menos assim.
— E o que você falou sobre estilo surfistinha, comenta mais.
— Estilo surfistinha é quando o cara é bronzeado, surfa, usa óculos lupa, bermuda colorida, sandália, cabelo não muito grande como o do emo, coisas assim.
— Entendi e gostei. Eu adoraria conhecer o Rio.
— Isso porque você nunca viu Búzios. É uma cidade litorânea onde chovem garotos assim.
— Oh meu Deus preciso realmente ir para lá.
Elas riram e foram para dentro. É inacreditável. Ela é brasileira do Rio de Janeiro. Eu já fui ao Rio com meus pais assistir o desfile das escolas de samba. No primeiro dia na praia passei muito mal e fui para o hospital. O sol estava muito quente. Também pudera: sai do inverno inglês para o verão brasileiro, não sei como não morri.
Esperei até o fim das aulas. Ela saiu com a garota e se despediram novamente. Ela seguiu para o ponto de ônibus. Como eu já sabia o caminho da casa dela fui andando. A vi chegar. Caminhava devagar para casa como se o mundo pudesse esperar por ela. Estava triste, com o olhar longe, como acho que deveriam estar seus pensamentos. Entrou, então atravessei a rua para ver melhor sua janela. Ela jogou os livros em algum lugar e sumiu. Deve ter ido para a cozinha ou quarto, não sei. Esperei. Então ela apareceu rapidamente vestindo uma calça, uma blusa e um casaco. Estava linda, mas nunca me acostumaria com a beleza dela. Não que ela fosse uma super modelo, mas seus traços eram perfeitamente harmônicos e naturais, sua pele deslumbrante. Combinaria perfeitamente em contato com a minha. Ela desceu com alguns materiais na mão e andou até o café. Fiquei do outro lado observando enquanto ela estudava. Ela murmurava coisas enquanto lia. O que será que estudava? Qual sua matéria preferida. O que será que a interessava? Talvez eu nunca soubesse, apesar de desejar estar sempre ao lado dela. Não adiantaria ficar me martirizando com isso. Ainda estava cedo, não seria perigoso voltar a essa hora. Então dei as costas e saí.

Nana&Karol 

Capítulo 13


Adormeci em meio às lágrimas. Sonhei novamente com o garoto sem rosto. No sonho estávamos passeando na praia de mãos dadas, vestidos com roupas simples não muito quentes, quando uma nuvem escura encobriu o sol, fazendo-nos nos assustar. A sensação era que o mal estava a nossa volta, que algo ruim iria acontecer. Tentei me mover, mas minhas pernas pareciam grudadas na areia. Virei-me para avisar ao garoto que deveríamos sair dali e me assustei com o que vi. Era o garoto do café, o mesmo que vi entrar na loja parecendo um mendigo. Ele me olhava espantado como se estivesse me dizendo algo que eu não conseguia entender. Olhei em seus olhos e vi que eles não eram mais o azul que tinha visto antes, eles estavam esbranquiçados.
Acordei assustada e sem saber ao certo porque sonhei com aquilo. Levantei-me e vi as horas. Era quase o horário do almoço. Andei em direção ao banheiro e lavei o rosto, vi que estava um pouco pálida pelo susto. Tomei banho e fiz minha higiene. Resolvi fazer algo para comer, mas algo estava me perturbando. Perdi a fome nas primeiras garfadas. Estava me sentindo sufocada. E resolvi sair para espairecer.
O céu estava nublado e o dia frio, mas sem indícios de chuva. Coloquei uma calça jeans skinny azul-acinzentado, um tênis all star, uma blusa de manga comprida e um casaco. Pequei minha bolsa e um guarda-chuva ( com o tempo assim, nunca se sabe se vai chover ou não). Ao descer procurei um táxi e pedi que me levasse ao Hyde Park Resolvi ir lá, pois queria distrair minha mente do meu sonho e do que aconteceu no beco.
 O Hyde Park é um dos lugares mais bonitos que já vi. Parecia um enorme jardim, com pessoas sentadas na grama. Algumas fazendo piquenique, outras lendo livros ou tirando fotos. Do outro lado do parque havia um lago muito bonito. Era uma linda vista. Fui caminhando por todo o parque até me distanciar da vista verde e avistar lojas.
Passei em frente a uma livraria e resolvi entrar. Estava olhando uns livros, quando me lembrei de que as aulas iriam começar em menos de uma semana. Resolvi então comprar algumas coisas que estavam em falta.
Voltei pra casa e resolvi arrumar minhas coisas da escola. Peguei o meu uniforme e resolvi dar uma arrumada na saia. Como minha mãe eu tinha uma certa habilidade na costura. Ela me ensinou alguns truques e foi assim que encurtei um pouco a saia, não saindo do padrão, mas também não deixando tão longa e nem tão brega.
Os dias se passaram e eu não consegui tirar a cena do beco da minha cabeça. Isso era insano, eu sabia, mas eu vi com meus próprios olhos o que aconteceu, ninguém me contou. Acho que isso fez com que eu ficasse memorizando cada momento. O mais difícil foi lembrar como ele me olhava. Era como se sentisse culpado, como se me pedisse perdão. O pior de tudo é que eu estava tão assustada que nem quis mais saber do que estava acontecendo. Era como se um bolo se formasse em minha garganta e eu só pude chorar e correr de volta para casa. E mesmo fazendo isso eu me sentia triste, como se tivesse que perdoá-lo, como se tivesse explicação pelo que aconteceu. Eu tinha a sensação de que devia ter continuado lá. Mas também tinha a sensação de que essa história não estava acabada. Que havia algo mais para eu descobrir.

Nana&Karol

Capítulo 12


Passava das oito. Subi e peguei a minha melhor roupa. Se bem que não era boa, só era a minha melhor no momento. Calça preta e camisa azul marinho. Não. Usava uma roupa assim no dia que... deixa pra lá. Peguei uma camisa bege, um casaco preto e a calça preta mesmo. Desci correndo e tomei um banho demorado. Penteei meu cabelo cuidadosamente e prendi com um elástico. Vesti-me, tranquei o galpão e fui buscá-la. Não era dez ainda, mas ela estava pronta. Vestia um vestido preto com alças finas e detalhes florais, uma sandália de salto branca, cabelo solto, brincos discretos, maquiagem leve com olhos marcados e batom rosa que ressaltavam ainda mais seus lábios grossos. Para terminar usava um casaquinho branco.
— Você está excepcionalmente linda!
— Obrigada. Você também.
— Seu elogio me fez ganhar a noite. Está pronta para ir?
— Sim, claro. Estava só te esperando.
— Me atrasei?
— Não, imagina. Havia só uns minutos.
— Então vamos.
Seguimos a mesma rua e viramos à direita. Duas quadras a frente havia um café muito bom. Eu ia lá com a Verônica quando... Senti que deveria lembrar algo que não conseguia. Vi um flash muito rápido, como o do banheiro. Era a Verônica brigando com alguém que eu não conhecia. Ou não me recordava. Estavam naquele mesmo lugar de paredes e teto vermelho.
— Caine, o que aconteceu você está bem? – A Felicity me sacudia desesperadamente.
— Estou. Eu tive um flash de memória. Algo que eu havia esquecido, mas está tudo bem.
— Seus olhos estão...brancos! O que está acontecendo, Caine? – Ela parecia horrorizada me olhando. Pisquei duas vezes.
—  O que?
— Agora voltaram ao normal. Estão azuis. Você pode me explicar o que está acontecendo?
— Não está acontecendo nada. Já falei que foi apenas um flash de memória. Não está acontecendo nada, repito.
— Mas eu vi seus olhos mudarem de cor. Isso não acontece naturalmente. Você pode me explicar?
Não sabia o que fazer. Desde o dia em que...me alimentei isso não acontecia. Minha única saída era tentar convencê-la. Olhei-a fixamente e de maneira terna. Dei um meio sorriso e segurei seu braço com uma das mãos. Depois falei calmamente de forma clara e objetiva.
— Felicity, o que você viu não foi nada. Foi apenas um flash. Você se assustou comigo e pensou ter visto algo que realmente não poderia ter acontecido. Eu estou bem. Estamos bem, agora podemos ir?
Ela parecia paralisada ao meu toque. Ela nem sequer mexia seus olhos olhando para mim. Parecia longe, muito distante mesmo, como se estivesse num mundo onde minha voz fosse o único som a ser ouvido. Ela assentiu e eu a larguei. Imediatamente ela saiu do transe.
— Podemos ir agora?
— Claro que sim. Quando você desejar.
Seguimos caminhando normalmente e falando sobre coisas banais, como casais que passavam; lojas, coisas que víamos, como se nada tivesse acontecido. Ela não tocou mais nesse assunto.
Chegamos ao café e sentamo-nos numa mesa perto da janela: ela de frente para mim e eu de frente para a direção da porta.
— Quer pedir agora?
— Sim, pode ser. Quero um cappuccino e bolinhos com cobertura de açúcar refinado.
— Eu quero um café puro.
Só aí lembrei um detalhe que faria toda a diferença: não sabia se poderia ou não comer. Isso me fez chocar comigo mesmo. Porque não a levei para passear, ou para um programa menos “comestível”? Droga! Agora teria que me virar e descobrir no improviso.
— Fale mais de você.
— Falar o que? Não tenho muito a contar.
— Tenho certeza que sim. Agora começa.
— Bom, moro sozinha. Vai fazer um ano mês que vem. Estou conseguindo me virar muito bem sem meus pais. Tenho dezenove anos e faço faculdade de economia.
— Mas e o seu trabalho?
— Eu trabalho todos os horários que não tenho aula. Às vezes pela manhã, mas não frequentemente. Ganho por hora trabalhada por isso meu chefe quase me matou aquele dia.
— Bom. Você mora sozinha ou divide com alguém?
— Divido com uma amiga da faculdade. E você. Onde mora?
— Num galpão.
— Estou falando sério.
— Eu também. Mudei-me há pouco tempo.
— Ok, se você não quiser falar eu entendo. – Ela ficou desapontada. Mas eu estava falando a verdade.
— Eu estou falando sério, mas se você não quiser acreditar eu entendo. – Rimos juntos e os pedidos chegaram. Ela continuou falando sobre a faculdade e os projetos dela, mas eu só conseguia focar em como beberia aquele café. Coloquei um gole da boca e engoli. Tinha um gosto... péssimo. Não era o café, pois sempre o tomei aqui mesmo. Era eu que não sentia gosto de café, apenas de uma coisa muito, muito ruim. Forcei-me a engolir e fiz cara de nojo.
— O que foi o café está ruim?
— Não, só está muito quente. Queimei a língua. Mas estou bem.
— Ok então. Continuando...
Ela estava empolgada comigo ali. E eu com ela. Ela falava e eu buscava evadir-me das perguntas dela sobre mim, o que a fazia desapontar. Foi quando tentava ouvir tudo que ela falava que a vi. Ela entrou graciosamente pela porta e sorriu olhando o lugar. Seu sorriso era deslumbrante, seus olhos verde-escuros, redondos e expressivos denotavam alegria. Ela era deslumbrante. Usava um vestido roxo na metade da coxa, uma bota preta de salto fino até o joelho e um casaco bege. Seu nariz reto e boca volumosa completavam sua face angelical. Seu cabelo estava preso em uma trança francesa que lhe caia pelo colo e ia até pouco abaixo do esterno. A maquiagem era leve e sua boca brilhava. Quando ela me viu sobressaltei-me: parecia que minha alma estava exposta para que ela lesse detalhada e indiscretamente. Devia estar paralisado, pois ela olhou-me confusa. Eu precisava dela ao meu lado. Eu a queria para mim.
— Caine é a segunda vez que eu falo e você não me dá atenção. – Na verdade era a terceira, mas tudo bem. – O que está havendo? Se você não estiver bem podemos ir. – Jamais. Eu não correria o risco de perdê-la de vista nem por um segundo. Desviei o olhar daquela estranha perfeita e olhei para Felicity.
— Não é necessário. Olha Felicity, peço perdão por estar tão distante. Realmente eu queria fazer dessa noite muito agradável, mas estou com alguns problemas. Perdoe-me, por favor.
— Claro que sim Caine. Todo mundo tem problemas. Olha. Eu já terminei. Realmente quero que você fique bem então vou embora.
— Você não precisa ir. Eu estou bem vou melhorar, Charlie. Desculpa Felicity.
— Quem é Charlie?
— Não sei. Não conheço ninguém com esse nome. Veio-me à cabeça e falei sem querer. Desculpa. Mas você não precisa ir. Vou ficar bem.
— Não tudo bem, já tinha terminado mesmo e você precisa pensar. – Eu me levantei para acompanhá-la, pois era o mínimo que podia fazer depois dessa noite desastrosa. – Não precisa me acompanhar. Estou perto de casa.
— Claro que vou te acompanhar. É perigoso lá fora.
— Eu sei bem como é, mas não precisa se preocupar. Vou chegar bem.
— Tem certeza? Absoluta certeza?
— Claro. Já disse que não precisa se preocupar. Até... outro dia.
— Até. Fica bem e novamente desculpe pelo que aconteceu hoje. Foi uma série incontrolável de erros que...
— Tudo bem. Nem sempre estamos nos nossos melhores dias. Bom, tchau.
— Tchau.
Dei-lhe um abraço e um beijo no rosto, mas não desviei os olhos da mesa na qual a garota se sentou. Ela me olhava fixamente então procurei me afastar da Felicity. Levei-a até a porta e voltei. Percebi que a garota me seguiu com o olhar. Senti o olhar profundo dela nas minhas costas. Ao passar senti um cheiro alucinante, doce, rico. Muito bom. Não era nada que vendesse no café. Era sangue. Puro. Sentei no mesmo lugar que ficava de frente para ela, fixei meu olhar em seu rosto calmante e procurei me controlar para pensar sobre o que me aconteceu. Eu tive uma visão nova que poderia ser alguma pista sobre a minha transformação, fiz com que a Felicity esquecesse o momento em que meus olhos mudaram o que, aliás, ainda não sei explicar, não consegui beber o café, mas isso era menor dos meus problemas para o qual eu já tinha uma explicação e para finalizar senti um turbilhão de emoções que nunca havia sentido só em olhar para aquela garota que continuava me encarando. Ela era perfeita. Concentrei-me novamente. Perdi o foco. Era impossível me concentrar em qualquer coisa quando aqueles olhos estavam fixos em mim. Ela se movia graciosamente. Parecia ter um ritmo próprio de fazer as coisas. Ela levantava seu copo delicadamente, piscava com elegância, agia como uma princesa. Senti que a conhecia, senti... não sei. Algo novo, diferente e muito, muito intenso. O garçom trouxe a conta, paguei e continuei lá observando cada milímetro de pele que ela mexia. Ela me encarava como se não houvesse problema algum. Na verdade não havia, mas eu poderia ser um maníaco. E se a seguisse? E se fizesse algo contra ela? Mas não. Meu corpo gritava que eu nunca deveria agir contra ela de nenhuma forma possível. E por isso mesmo eu deveria me afastar. Estava começando a sentir sede, a salivar. Não poderia continuar ali naquele jogo. Ela não era uma peça de xadrez que poderia ser posta para ser destruída. Não. Ela era intocável e perfeita e eu era a última pessoa que deveria se aproximar dela. Senti raiva de mim naquela hora, por não saber nada sobre minha vida. Nada mais que importasse. Senti-me impotente diante dela, diante do mundo. Senti uma fúria imensa crescer dentro de mim e me culpei por ser tão... fraco. Saí de lá apressado e irado. Ela percebeu, pois seu último olhar para mim foi de descrença. Nunca mais a veria então era melhor guardar bem aquele rosto lindo em meu pensamento, pois seria a única coisa que eu teria dela.

Nana&Karol