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12 setembro, 2012

Capítulo 14


Saí cego de ódio de mim mesmo por ter sido incapaz de me segurar lá. Se tivesse me controlado poderia ter desfrutado da companhia dela por mais algum tempo antes de um adeus. Estava louco. Cada vez que pensava que poderia estar lá, guardando cada detalhe simplório para qualquer um, mas importantíssimo para mim, minha raiva aumentava. Passei pela frente de um bar de quinta e entrei. Não iria beber nem nada, mas queria ouvir algo mais barulhento que meu próprio pensamento me julgando. Sentei no balcão e pedi uma cerveja. Fiquei olhando-a e pensando na minha vida até então. Ainda me perguntava como consegui fazer a Felicity esquecer meus olhos. Nem sei como ela não correu, pois eu ficava assustador com os olhos brancos. Ela é uma garota muito corajosa e a admiro por isso, só que não poderia levar essa historia adiante. Amanhã teria que ir à loja e dizer que nós não poderíamos nos ver novamente. Não seria tanto pelo que aconteceu e sim por causa dela. Daquela garota. Ela mexeu comigo instantânea e profundamente e eu não conseguiria pensar em mais ninguém que não fosse ela. Charlie. Esse nome novamente. De onde o conhecia? Só sabia que quando o lembrava me acalmava. De repente começou uma briga.
— Cara me ajuda aqui. Esses loucos vão destruir o meu bar.
Tive dúvidas se ele estaria falando comigo mesmo, mas minha dúvida acabou quando ele me puxou pela camisa. Dois caras, um gordo, alto, barbudo e com cara de bêbado e o outro forte, mais baixo uns cinco centímetros com barba cerrada, brigavam por um motivo que devia ser bem idiota. O dono do bar que também era muito corpulento agarrou o gordo pelo pescoço e eu agarrei o fortão virando o braço dele para trás.
— Tira ele daqui vai. Leva ele lá pra fora.
Arrastei-o para fora ouvindo ele me xingar aos gritos. Joguei-o na parede.
— Qual é cara para com isso. Para que brigar?
— O que você tem haver com isso seu idiota filho de uma vaca?
— Olha sem ofensas, te fiz um favor tirando você de lá. Agora cala sua boca e dá o fora daqui.
— Como é? Acho que não ouvi bem. Você está me mandando fazer algo. Garotos imbecis como você não me mandam fazer nada, seu moleque.
— Não me insulta. Sabe de uma faz o que quiser da sua vidinha imunda.
— Ninguém me ofende e vira as costas para mim garoto.
O cara me puxou pela camisa, mas eu girei por baixo do braço dele. Dei-lhe um empurrão que o fez cair sobre umas latas de lixo que ficava na esquina perto de um poste que estava sem luz. Ele levantou-se cambaleando e dessa vez eu não hesitei nem pensei sobre muita coisa. Peguei-o pelo pescoço e o empurrei na parede. Cravei meus dentes no seu pescoço e dessa vez não deixei que o sangue caísse muito. Foi mais fácil hoje, pois parecia que minha fúria era uma ótima professora que me ensinava perfeitamente como agir. Ele foi desfalecendo enquanto eu via imagens da sua vida assim como vi do cara naquele beco.
Havia pessoas, bares, muitas bebidas e, o que mais me impressionou, uma morte. O cara havia matado uma mulher, uma prostituta pelo visto. Eu queria saber mais sobre aquilo então continuei bebendo e vi a mulher numa cama, depois se levantou e apontou uma arma para ele. Ele a rendeu e atirou no seu peito, depois limpou a arma e alguns objetos rapidamente, vestiu-se e saiu correndo deixado-a quase morta lá. Vi depois um julgamento, uma cela e muitos homens abusando uns dos outros. E ele era um dos que abusavam. Larguei-o enojado depois que não senti nada mais sair enquanto sugava. Reparei no pescoço dele: não estava tão destroçado como o outro, havia apenas dois furos largos e marcas pequenas de dentes ao redor e não havia muito sangue espalhado. Passei a mão pelo meu rosto. Estava limpo, só estava sujo até o queixo.  Coloquei-o atrás das latas e quando me virei a vi.
Se eu pudesse evaporar teria acontecido ali mesmo. Ela estava na esquina do outro lado da rua e seus olhos estavam apavorados. Será que ela tinha visto tudo? Será que tudo mesmo? Fiquei lá parado sendo metralhado por perguntas da minha consciência enquanto ela me olhava descrente. Pelo seu olhar percebi que estava enojada, amedrontada e confusa como eu havia ficado da primeira vez. Ela chorou. Derramou duas lágrimas inicialmente. Depois um turbilhão delas. Olhava-me com tristeza. Não havia medo mais. Só havia pesar. Dor. Ela pôs a mão na boca, limpou as lágrimas e saiu correndo. Eu queria ir atrás dela, correr, abraçá-la, me desculpar, chorar com ela e prometer que aquilo nunca mais aconteceria. Prometer que iríamos ficar juntos para sempre, fazê-la esquecer tudo aquilo como fiz com a Felicity. Se eu pudesse chorar teria chorado, se tivesse forças pra gritar teria gritado, se pudesse voltar no tempo e não tê-la decepcionado eu teria feito e  se pudesse não ter morrido não estaria aqui hoje fazendo-a sofrer.  Quando consegui fazer minhas pernas se moverem caminhei a passos de tartaruga para casa. Andei como se estivesse uma bola de ferro acorrentada ao meu tornozelo. Cheguei e me joguei no colchonete. Fiquei lá pensando em tudo e em nada durante horas, dias.

***

Quando tive ânimo para me levantar vi que havia se passado quatro dias. Tomei um bom banho. Não precisava disso, mas queria me livrar do cheiro daquele homem. Olhei a rua. Resolvi sair para ver gente. Para respirar um ar diferente. Andei por Notting Hill, entrei em algumas livrarias, comprei um livro de auto-ajuda. Caminhei mais entrando por várias ruas. Quando me dei conta percebi que estava em frente a um dos últimos lugares em que deveria estar no mundo: a Cambright High School.
Quis fugir, pois minha mãe trabalhava lá, alguns dos meus antigos amigos estudavam lá, meus professores. Não queria que ninguém visse um morto caminhando pela rua. Quis muito fugir, mas não pude. Era horário de saída, muitos alunos estavam do lado de fora, mas nenhum deles me importava. Quero dizer, um deles me importava. Na verdade era a única pessoa que me importava no momento: minha estranha perfeita. Ela usava o fardamento feminino da escola: saia um pouco acima do joelho (ela deve ter modificado, pelo que me lembre elas iam até o joelho), camisa branca de botão manga três quartos, gravata, blazer, meia e sapato Mary Jane. Estava linda como sempre. Parecia estar triste, cabisbaixa. Será que seria por causa do ocorrido há quatro dias? Procurei não ser visto por ninguém. Ela despediu-se de algumas pessoas, andou até uma parada de ônibus e pegou o terceiro que apareceu. Quando ela entrou no ônibus e passou para o andar superior rapidamente entrei atrás e fui para o fundo. Sei bem que foi arriscado, mas eu precisava saber algo mais sobre ela. Cinco paradas depois ela desceu e caminhou entrando em algumas ruas até chegar à dela. Segui-a de longe e muito sorrateiramente. Ela entrou num prédio e demorou uns instantes para aparecer novamente. Olhei em todas as janelas para tentar encontrá-la e a vi finalmente entrando pela porta de uma casa no terceiro andar. Era um bom apartamento. E pelo visto estava vazio quando ela entrou. Ela largou a bolsa num sofá e caminhou até uma porta. Demorou um pouco e voltou com outra roupa. Sentou-se no sofá e ligou a televisão. Fiquei lá observando até anoitecer. Ela passeava pela casa, lia revistas, fez a lição de casa, estudou um pouco e comeu vendo TV. Depois entrou na mesma porta de quando chegou e não saiu mais. Só assim eu fui embora. Estava longe de casa e precisava ir. Fui andando para pensar. Minha estranha perfeita era muito linda. Cada movimento dela me encantava, me fascinava e se eu pudesse nunca mais sairia do lado dela. Certamente eu estaria lá amanhã novamente e depois e depois e depois... Se eu pudesse vê-la e senti-la já seria algo. Já seria muito. Eu teria motivo para viver a partir de agora.
Voltei para casa e me deitei novamente. Senti- me feliz mesmo com tudo, pois sabia onde ela morava, onde estudava e o que fazia. Conhecia sua rotina. Só precisava saber seu nome. Charlie. Minha consciência sussurrava esse nome para mim ininterruptas vezes. Será que seria o nome dela? Mas como eu poderia saber? Deveria ser algo diferente disso. Como eu gostaria de dormir! Ao menos o tempo passaria sem que eu sentisse. Pela manhã desci e tomei um bom banho. Lavei meu cabelo, gostava de fazê-lo. Vesti-me com uma calça bege, uma camisa preta e sai caminhando devagar até a Cambright. Conhecia muito bem os horários e a rotina daquela escola na qual passei toda a minha vida letiva. Cheguei meia hora antes de o sinal bater, apoiei-me numa árvore e esperei-a. Fiquei testando meus ouvidos e percebi que poderia ouvir conversas a até mais ou menos cinco metros de distância. Estava empolgado com isso quando a vi se aproximar. Ela vinha conversando monotonamente com uma garota ruiva.
— Fale mais sobre o Brasil. Sempre quis conhecer o Rio de Janeiro. Ouço falar muito sobre as escolas de samba. Deve ser tão lindo.
— E é mesmo. Lá faz muito calor. Calor tipo 40° C. Convertendo deve dar uns 104° F
— Minha nossa. Eu morreria de calor.
— Mas lá tem muitas praias lotadas de gente. Tem muitos garotos bonitos também que vocês iriam adorar. Minha amiga tem um ficante que se chama Júlio e ele faz esse estilo surfistinha.
— O que é ficante?
— Ficante é como um namorado temporário. Eles não têm um compromisso sério e podem ficar, ou melhor, namorar temporariamente ao mesmo tempo com outras pessoas. É mais ou menos assim.
— E o que você falou sobre estilo surfistinha, comenta mais.
— Estilo surfistinha é quando o cara é bronzeado, surfa, usa óculos lupa, bermuda colorida, sandália, cabelo não muito grande como o do emo, coisas assim.
— Entendi e gostei. Eu adoraria conhecer o Rio.
— Isso porque você nunca viu Búzios. É uma cidade litorânea onde chovem garotos assim.
— Oh meu Deus preciso realmente ir para lá.
Elas riram e foram para dentro. É inacreditável. Ela é brasileira do Rio de Janeiro. Eu já fui ao Rio com meus pais assistir o desfile das escolas de samba. No primeiro dia na praia passei muito mal e fui para o hospital. O sol estava muito quente. Também pudera: sai do inverno inglês para o verão brasileiro, não sei como não morri.
Esperei até o fim das aulas. Ela saiu com a garota e se despediram novamente. Ela seguiu para o ponto de ônibus. Como eu já sabia o caminho da casa dela fui andando. A vi chegar. Caminhava devagar para casa como se o mundo pudesse esperar por ela. Estava triste, com o olhar longe, como acho que deveriam estar seus pensamentos. Entrou, então atravessei a rua para ver melhor sua janela. Ela jogou os livros em algum lugar e sumiu. Deve ter ido para a cozinha ou quarto, não sei. Esperei. Então ela apareceu rapidamente vestindo uma calça, uma blusa e um casaco. Estava linda, mas nunca me acostumaria com a beleza dela. Não que ela fosse uma super modelo, mas seus traços eram perfeitamente harmônicos e naturais, sua pele deslumbrante. Combinaria perfeitamente em contato com a minha. Ela desceu com alguns materiais na mão e andou até o café. Fiquei do outro lado observando enquanto ela estudava. Ela murmurava coisas enquanto lia. O que será que estudava? Qual sua matéria preferida. O que será que a interessava? Talvez eu nunca soubesse, apesar de desejar estar sempre ao lado dela. Não adiantaria ficar me martirizando com isso. Ainda estava cedo, não seria perigoso voltar a essa hora. Então dei as costas e saí.

Nana&Karol 

Capítulo 13


Adormeci em meio às lágrimas. Sonhei novamente com o garoto sem rosto. No sonho estávamos passeando na praia de mãos dadas, vestidos com roupas simples não muito quentes, quando uma nuvem escura encobriu o sol, fazendo-nos nos assustar. A sensação era que o mal estava a nossa volta, que algo ruim iria acontecer. Tentei me mover, mas minhas pernas pareciam grudadas na areia. Virei-me para avisar ao garoto que deveríamos sair dali e me assustei com o que vi. Era o garoto do café, o mesmo que vi entrar na loja parecendo um mendigo. Ele me olhava espantado como se estivesse me dizendo algo que eu não conseguia entender. Olhei em seus olhos e vi que eles não eram mais o azul que tinha visto antes, eles estavam esbranquiçados.
Acordei assustada e sem saber ao certo porque sonhei com aquilo. Levantei-me e vi as horas. Era quase o horário do almoço. Andei em direção ao banheiro e lavei o rosto, vi que estava um pouco pálida pelo susto. Tomei banho e fiz minha higiene. Resolvi fazer algo para comer, mas algo estava me perturbando. Perdi a fome nas primeiras garfadas. Estava me sentindo sufocada. E resolvi sair para espairecer.
O céu estava nublado e o dia frio, mas sem indícios de chuva. Coloquei uma calça jeans skinny azul-acinzentado, um tênis all star, uma blusa de manga comprida e um casaco. Pequei minha bolsa e um guarda-chuva ( com o tempo assim, nunca se sabe se vai chover ou não). Ao descer procurei um táxi e pedi que me levasse ao Hyde Park Resolvi ir lá, pois queria distrair minha mente do meu sonho e do que aconteceu no beco.
 O Hyde Park é um dos lugares mais bonitos que já vi. Parecia um enorme jardim, com pessoas sentadas na grama. Algumas fazendo piquenique, outras lendo livros ou tirando fotos. Do outro lado do parque havia um lago muito bonito. Era uma linda vista. Fui caminhando por todo o parque até me distanciar da vista verde e avistar lojas.
Passei em frente a uma livraria e resolvi entrar. Estava olhando uns livros, quando me lembrei de que as aulas iriam começar em menos de uma semana. Resolvi então comprar algumas coisas que estavam em falta.
Voltei pra casa e resolvi arrumar minhas coisas da escola. Peguei o meu uniforme e resolvi dar uma arrumada na saia. Como minha mãe eu tinha uma certa habilidade na costura. Ela me ensinou alguns truques e foi assim que encurtei um pouco a saia, não saindo do padrão, mas também não deixando tão longa e nem tão brega.
Os dias se passaram e eu não consegui tirar a cena do beco da minha cabeça. Isso era insano, eu sabia, mas eu vi com meus próprios olhos o que aconteceu, ninguém me contou. Acho que isso fez com que eu ficasse memorizando cada momento. O mais difícil foi lembrar como ele me olhava. Era como se sentisse culpado, como se me pedisse perdão. O pior de tudo é que eu estava tão assustada que nem quis mais saber do que estava acontecendo. Era como se um bolo se formasse em minha garganta e eu só pude chorar e correr de volta para casa. E mesmo fazendo isso eu me sentia triste, como se tivesse que perdoá-lo, como se tivesse explicação pelo que aconteceu. Eu tinha a sensação de que devia ter continuado lá. Mas também tinha a sensação de que essa história não estava acabada. Que havia algo mais para eu descobrir.

Nana&Karol

Capítulo 12


Passava das oito. Subi e peguei a minha melhor roupa. Se bem que não era boa, só era a minha melhor no momento. Calça preta e camisa azul marinho. Não. Usava uma roupa assim no dia que... deixa pra lá. Peguei uma camisa bege, um casaco preto e a calça preta mesmo. Desci correndo e tomei um banho demorado. Penteei meu cabelo cuidadosamente e prendi com um elástico. Vesti-me, tranquei o galpão e fui buscá-la. Não era dez ainda, mas ela estava pronta. Vestia um vestido preto com alças finas e detalhes florais, uma sandália de salto branca, cabelo solto, brincos discretos, maquiagem leve com olhos marcados e batom rosa que ressaltavam ainda mais seus lábios grossos. Para terminar usava um casaquinho branco.
— Você está excepcionalmente linda!
— Obrigada. Você também.
— Seu elogio me fez ganhar a noite. Está pronta para ir?
— Sim, claro. Estava só te esperando.
— Me atrasei?
— Não, imagina. Havia só uns minutos.
— Então vamos.
Seguimos a mesma rua e viramos à direita. Duas quadras a frente havia um café muito bom. Eu ia lá com a Verônica quando... Senti que deveria lembrar algo que não conseguia. Vi um flash muito rápido, como o do banheiro. Era a Verônica brigando com alguém que eu não conhecia. Ou não me recordava. Estavam naquele mesmo lugar de paredes e teto vermelho.
— Caine, o que aconteceu você está bem? – A Felicity me sacudia desesperadamente.
— Estou. Eu tive um flash de memória. Algo que eu havia esquecido, mas está tudo bem.
— Seus olhos estão...brancos! O que está acontecendo, Caine? – Ela parecia horrorizada me olhando. Pisquei duas vezes.
—  O que?
— Agora voltaram ao normal. Estão azuis. Você pode me explicar o que está acontecendo?
— Não está acontecendo nada. Já falei que foi apenas um flash de memória. Não está acontecendo nada, repito.
— Mas eu vi seus olhos mudarem de cor. Isso não acontece naturalmente. Você pode me explicar?
Não sabia o que fazer. Desde o dia em que...me alimentei isso não acontecia. Minha única saída era tentar convencê-la. Olhei-a fixamente e de maneira terna. Dei um meio sorriso e segurei seu braço com uma das mãos. Depois falei calmamente de forma clara e objetiva.
— Felicity, o que você viu não foi nada. Foi apenas um flash. Você se assustou comigo e pensou ter visto algo que realmente não poderia ter acontecido. Eu estou bem. Estamos bem, agora podemos ir?
Ela parecia paralisada ao meu toque. Ela nem sequer mexia seus olhos olhando para mim. Parecia longe, muito distante mesmo, como se estivesse num mundo onde minha voz fosse o único som a ser ouvido. Ela assentiu e eu a larguei. Imediatamente ela saiu do transe.
— Podemos ir agora?
— Claro que sim. Quando você desejar.
Seguimos caminhando normalmente e falando sobre coisas banais, como casais que passavam; lojas, coisas que víamos, como se nada tivesse acontecido. Ela não tocou mais nesse assunto.
Chegamos ao café e sentamo-nos numa mesa perto da janela: ela de frente para mim e eu de frente para a direção da porta.
— Quer pedir agora?
— Sim, pode ser. Quero um cappuccino e bolinhos com cobertura de açúcar refinado.
— Eu quero um café puro.
Só aí lembrei um detalhe que faria toda a diferença: não sabia se poderia ou não comer. Isso me fez chocar comigo mesmo. Porque não a levei para passear, ou para um programa menos “comestível”? Droga! Agora teria que me virar e descobrir no improviso.
— Fale mais de você.
— Falar o que? Não tenho muito a contar.
— Tenho certeza que sim. Agora começa.
— Bom, moro sozinha. Vai fazer um ano mês que vem. Estou conseguindo me virar muito bem sem meus pais. Tenho dezenove anos e faço faculdade de economia.
— Mas e o seu trabalho?
— Eu trabalho todos os horários que não tenho aula. Às vezes pela manhã, mas não frequentemente. Ganho por hora trabalhada por isso meu chefe quase me matou aquele dia.
— Bom. Você mora sozinha ou divide com alguém?
— Divido com uma amiga da faculdade. E você. Onde mora?
— Num galpão.
— Estou falando sério.
— Eu também. Mudei-me há pouco tempo.
— Ok, se você não quiser falar eu entendo. – Ela ficou desapontada. Mas eu estava falando a verdade.
— Eu estou falando sério, mas se você não quiser acreditar eu entendo. – Rimos juntos e os pedidos chegaram. Ela continuou falando sobre a faculdade e os projetos dela, mas eu só conseguia focar em como beberia aquele café. Coloquei um gole da boca e engoli. Tinha um gosto... péssimo. Não era o café, pois sempre o tomei aqui mesmo. Era eu que não sentia gosto de café, apenas de uma coisa muito, muito ruim. Forcei-me a engolir e fiz cara de nojo.
— O que foi o café está ruim?
— Não, só está muito quente. Queimei a língua. Mas estou bem.
— Ok então. Continuando...
Ela estava empolgada comigo ali. E eu com ela. Ela falava e eu buscava evadir-me das perguntas dela sobre mim, o que a fazia desapontar. Foi quando tentava ouvir tudo que ela falava que a vi. Ela entrou graciosamente pela porta e sorriu olhando o lugar. Seu sorriso era deslumbrante, seus olhos verde-escuros, redondos e expressivos denotavam alegria. Ela era deslumbrante. Usava um vestido roxo na metade da coxa, uma bota preta de salto fino até o joelho e um casaco bege. Seu nariz reto e boca volumosa completavam sua face angelical. Seu cabelo estava preso em uma trança francesa que lhe caia pelo colo e ia até pouco abaixo do esterno. A maquiagem era leve e sua boca brilhava. Quando ela me viu sobressaltei-me: parecia que minha alma estava exposta para que ela lesse detalhada e indiscretamente. Devia estar paralisado, pois ela olhou-me confusa. Eu precisava dela ao meu lado. Eu a queria para mim.
— Caine é a segunda vez que eu falo e você não me dá atenção. – Na verdade era a terceira, mas tudo bem. – O que está havendo? Se você não estiver bem podemos ir. – Jamais. Eu não correria o risco de perdê-la de vista nem por um segundo. Desviei o olhar daquela estranha perfeita e olhei para Felicity.
— Não é necessário. Olha Felicity, peço perdão por estar tão distante. Realmente eu queria fazer dessa noite muito agradável, mas estou com alguns problemas. Perdoe-me, por favor.
— Claro que sim Caine. Todo mundo tem problemas. Olha. Eu já terminei. Realmente quero que você fique bem então vou embora.
— Você não precisa ir. Eu estou bem vou melhorar, Charlie. Desculpa Felicity.
— Quem é Charlie?
— Não sei. Não conheço ninguém com esse nome. Veio-me à cabeça e falei sem querer. Desculpa. Mas você não precisa ir. Vou ficar bem.
— Não tudo bem, já tinha terminado mesmo e você precisa pensar. – Eu me levantei para acompanhá-la, pois era o mínimo que podia fazer depois dessa noite desastrosa. – Não precisa me acompanhar. Estou perto de casa.
— Claro que vou te acompanhar. É perigoso lá fora.
— Eu sei bem como é, mas não precisa se preocupar. Vou chegar bem.
— Tem certeza? Absoluta certeza?
— Claro. Já disse que não precisa se preocupar. Até... outro dia.
— Até. Fica bem e novamente desculpe pelo que aconteceu hoje. Foi uma série incontrolável de erros que...
— Tudo bem. Nem sempre estamos nos nossos melhores dias. Bom, tchau.
— Tchau.
Dei-lhe um abraço e um beijo no rosto, mas não desviei os olhos da mesa na qual a garota se sentou. Ela me olhava fixamente então procurei me afastar da Felicity. Levei-a até a porta e voltei. Percebi que a garota me seguiu com o olhar. Senti o olhar profundo dela nas minhas costas. Ao passar senti um cheiro alucinante, doce, rico. Muito bom. Não era nada que vendesse no café. Era sangue. Puro. Sentei no mesmo lugar que ficava de frente para ela, fixei meu olhar em seu rosto calmante e procurei me controlar para pensar sobre o que me aconteceu. Eu tive uma visão nova que poderia ser alguma pista sobre a minha transformação, fiz com que a Felicity esquecesse o momento em que meus olhos mudaram o que, aliás, ainda não sei explicar, não consegui beber o café, mas isso era menor dos meus problemas para o qual eu já tinha uma explicação e para finalizar senti um turbilhão de emoções que nunca havia sentido só em olhar para aquela garota que continuava me encarando. Ela era perfeita. Concentrei-me novamente. Perdi o foco. Era impossível me concentrar em qualquer coisa quando aqueles olhos estavam fixos em mim. Ela se movia graciosamente. Parecia ter um ritmo próprio de fazer as coisas. Ela levantava seu copo delicadamente, piscava com elegância, agia como uma princesa. Senti que a conhecia, senti... não sei. Algo novo, diferente e muito, muito intenso. O garçom trouxe a conta, paguei e continuei lá observando cada milímetro de pele que ela mexia. Ela me encarava como se não houvesse problema algum. Na verdade não havia, mas eu poderia ser um maníaco. E se a seguisse? E se fizesse algo contra ela? Mas não. Meu corpo gritava que eu nunca deveria agir contra ela de nenhuma forma possível. E por isso mesmo eu deveria me afastar. Estava começando a sentir sede, a salivar. Não poderia continuar ali naquele jogo. Ela não era uma peça de xadrez que poderia ser posta para ser destruída. Não. Ela era intocável e perfeita e eu era a última pessoa que deveria se aproximar dela. Senti raiva de mim naquela hora, por não saber nada sobre minha vida. Nada mais que importasse. Senti-me impotente diante dela, diante do mundo. Senti uma fúria imensa crescer dentro de mim e me culpei por ser tão... fraco. Saí de lá apressado e irado. Ela percebeu, pois seu último olhar para mim foi de descrença. Nunca mais a veria então era melhor guardar bem aquele rosto lindo em meu pensamento, pois seria a única coisa que eu teria dela.

Nana&Karol

Capítulo 11


Vesti um vestido roxo com um casaquinho bege e uma bota preta até o joelho. Fiz uma trança francesa e me maquiei levemente. Estava com um sentimento estranho de que algo aconteceria. Não sei se era empolgação por ter encontrado conhecidos e uma nova amiga aqui ou se era realmente uma premonição. Eu nunca acreditei em premonições nem nada. Não devia ser isso. Um sexto sentido talvez, um desejo, um anseio. Sei lá. Deve ser assim que a gente se sente num novo lugar. Eu estava me sentindo assim então tudo bem.
Desci as pressas e corri para o café. Quando entrei olhei tudo e sorri. Virei-me para ir me sentar no lugar de sempre e foi quando o vi. Era ele não era? Trapinho? Era sim. Aquele cabelo nunca me enganaria. Era ele sim. Fui caminhando automaticamente me sentei atônita. Fiquei olhando-o e ele me encarava também. Estava acompanhado. Devia ser uma namorada. Nossa ele era muito lindo. As meninas morreriam quando eu contasse como ele é perfeito. Olhos azuis profundos, alto porque a garota mesmo sentada era bem menor que ele. O cabelo preto que tanto me chamou atenção era mais lindo ainda na luz. Ficava meio azulado, sei lá. Que olhos. Seu nariz era perfeitamente reto, seus lábios eram médios. Na medida. Contrastaria com os meus volumosos. Ele tinha lindas mãos. Estava segurando um copo de café. A garota falava sem parar e ele nem estava aí. Estava me olhando. Encarando-me. Eu quis sair daqui correndo e abraçá-lo. Não que eu fosse uma garota qualquer que se atira nos braços de qualquer um. Mas ele me pareceu especial. Poderia estar totalmente enganada e quebrar minha cara, mas ele nunca me faria mal. Senti isso quando seus olhos me fitaram de uma forma carinhosa. Senti que por ele poderia me apaixonar. Nunca havia sentido algo assim tão forte, explosivo, envolvente. Foi um choque para mim estar envolta em tantas emoções ao mesmo tempo. Eu pedi automaticamente o de sempre e comecei a comer de forma robótica. Ele me olhava e num momento virou-se para garota. Senti-me traída apesar de nem saber quem eles eram. Eles poderiam ser casados e ter cinco filhos. Eu nem poderia estar olhando-o dessa forma. Será que estava enlouquecendo? Pensei tantas coisas sem nexo. Pensei em tudo que cabia na minha mente naquele momento. Imaginei-me com ele para sempre. Eu precisava saber quem ele era. Todos sentem necessidade de um sentido para viver. Finalmente havia encontrado o meu. Ele falou com a garota, mas não tirava os olhos de mim. Ela pareceu chateada, levantou-se e ele lhe deu um abraço e um beijo no rosto. Afastou-se rapidamente, ainda me olhando e saiu com ela. Fiquei muito desapontada. Queria correr atrás dele. Segui-lo sei lá. Quando ia me levantar ele voltou. Sentei-me mais que rápido e continuei olhando-o. Tentei fazer minha cara mais controlada, mas desviar daquele roso perfeito era impossível para mim. Ele continuou me olhando com cara de raiva, parecia que tinha brigado com a garota e estava pondo a culpa em mim. Não entendi nada. Ele foi ficando com o olhar cada vez mais desapontado e contrariado. Fiquei assustada e desapontada talvez na mesma intensidade que ele quando ele se levantou e saiu quase voando pela porta. Senti que se não fizesse algo nunca mais o veria. Ele desapareceria e não voltaria mais para mim. Precisava me apressar se não perderia minha chance de felicidade. O que estava me acontecendo? Deixei o dinheiro em cima da mesa e saí correndo atrás dele. O cara andava rápido demais e quase não pude alcançá-lo. Ele andou bastante e entrou num bar. Quis entrar, mas não me deixaram. Eu era menor de idade. Droga. Droga. Droga ao cubo. Sai daí logo, preciso te ver. Encostei-me do outro lado da rua. Já passava das 10. Era perigoso estar aqui a essa hora. Era um bar de quinta com gente de sexta. Precisava ir para minha segurança, mas sentia que se fizesse isso estaria deixando-o ir e certamente não me perdoaria por isso. Ouvi um barulho mais alto que o do som. Pessoas gritavam e ele saiu arrastando um cara muito maior que ele.
— Qual é cara para com isso. Para que brigar?
— O que você tem haver com isso seu idiota filho de uma vaca?
— Olha sem ofensas, te fiz um favor tirando você de lá. Agora cala sua boca e dá o fora daqui.
— Como é? Acho que não ouvi bem. Você está me mandando fazer algo? Garotos imbecis como você não me mandam fazer nada, seu moleque.
— Não me insulta. Sabe de uma faz o que quiser da sua vidinha imunda.
— Ninguém me ofende e vira as costas para mim garoto.
Antes que pudesse ficar feliz por vê-lo novamente ou deliciar-me com aquela voz embriagante o cara voou para cima dele. Eles brigaram feio por alguns minutos, mas o meu estranho fez algo que me chocou. Ele jogou o cara contra a parede e o mordeu. Não foi uma mordida tipo “eu vou te morder e você vai parar com isso”. Ele o mordeu de verdade. Ele estava bebendo sangue? Não pude acreditar. Quem bebe sangue é vampiro e vampiros não existem fora do cinema e dos livros. Tive ímpeto de correr, de gritar, de pedir para ele parar, de chorar, de morrer. Qualquer coisa que me tirasse dali. Escolhi a que menos me ajudou. Ele derrubou o homem no chão atrás das lixeiras e virou-se na minha direção. Ele me viu e sua expressão era de surpresa, choque, dor, desculpa, pesar, sofrimento, exatamente nessa ordem. Vi seus olhos olharem minha alma e senti-me protegida, mas não poderia. Ele matou um cara, bebeu seu sangue, escondeu-o no lixo. O que seria capaz de fazer comigo? Senti-me triste. De tudo que eu poderia sentir senti tristeza e comecei a chorar. Ele quase desabou no chão. Seus olhos gritavam me pedindo desculpa. Nesse momento tudo que eu poderia fazer era correr e me esconder. Esconder-me de mim, dele, do mundo. Queria desaparecer e nunca mais voltar.
Cheguei em casa vacilante. Tirei as roupas e fiquei sentada na banheira chorando enquanto a água caia sobre mim. Fiquei assim até o sol começar a nascer e me avisar que outro dia estava começando. Saí da banheira, vesti um roupão e me arrastei até cama. Deitei e chorei novamente. Não sei de onde vieram tantas lágrimas, mas vieram e não as detive. Deixei que elas corressem e levassem embora toda a dor que estava pressionando meu coração.

Nana&Karol

Capítulo 10


Acordei cedo, terminei de arrumar minhas roupas no armário e ajeitar umas coisas na casa como porta retratos e fotos para que minha família ficasse sempre perto de mim, mandei um e-mail para as garotas e contei tudo detalhadamente: a viagem, o passeio, o café e, lógico, do cara que eu vi. Enquanto me arrumava recebi um e-mail resposta e quando abri quase morri de rir.

“Gente, o que é isso! Eu não acredito que com tanto gato em Londres você se sentiu atraída por um mendigo...”

— Qual é ele não era um mendigo, eu acho.

“...Nossa, o que será que aconteceu pra ele estar desse jeito? Deu pra ver o rosto dele? Era gatinho? Porque ninguém merece além de sujo feio não é? Só era o que faltava. Cuidado pra não ficar rodada como o “vestido da Glorinha”. Um mendigo não néh! E ai quando começam as aulas? Já conheceu alguém além de trapinho? A escola é legal? Responda o mais rápido possível. Qual é o signo de trapinho?
Qual é Julie você é louca? Ela nem deve ter visto o cara como ia saber o signo? Você acha que ela ia chegar e dizer ‘Oi mendigo qual é o seu signo? E a propósito seu nome também’. Claro que não sua louca.
Ei vocês não acham que vão enlouquecer a Char com esse e-mail não? Envia logo...
PS.: aaaaaaaa, quase esqueci. Rolou fight na escola. A Alícia traiu o Pietro com aquele carinha que você ficou na festa.
Qual era o nome dele? Você acha que eu me lembro? Sei lá, você conhece todos os caras da escola. Eu acho que nem a Char lembra quanto mais eu.
PS2.: Te amamos.  ”

E esse era o e-mail. Eu ri por mais uns cinco minutos e saí. Fui para a escola. Eu iria estudar na Cambright High School. Foi muito bem recomendada aos meus pais por uns amigos deles que moravam aqui. Aliás, eu teria que visitá-los como forma de agradecimento. Chequei minha matrícula, peguei meu horário e conheci a escola e suas dependências. Era enorme. Tinha vários blocos. Andei pelos corredores acompanhada da coordenadora e conheci tudo: as salas, a quadra, a piscina, o vestiário, a sala do grêmio e o refeitório.
— Aqui será uma de suas salas. À medida que formos caminhando você verá as outras.
— Obrigada. O que é aquilo ali?
— Aquilo é o memorial. Uma sala destinada às homenagens. Lá estão os troféus, as medalhas das competições e todos os outros títulos conquistados pelos nossos alunos. Tem fotos das turmas desde que a escola foi fundada, dos professores e dos alunos destaque. Há também fotos de alguns alunos que morreram.
— Sinto muito.
— Tudo bem querida. Aquele é um local parecido com um museu interno, onde recordamos o passado da escola.
— Isso é muito interessante.
— Na sua antiga escola tinha algo parecido?
— Não. Nem perto disso.
— Tudo bem. Vamos continuar?
— Sim claro.
Continuamos andando pela escola e conheci a biblioteca gigantesca, os banheiros, a sala dos professores, a sala da direção, a secretaria interna e fui até ao anexo onde ficava o bloco infantil. Tinha uma professora lá que estava preparando umas coisas na sala que ela lecionava. Colava figuras e números nas paredes e pendurava penduricalhos pelo teto.
— Olá professora Lorenna. O que a senhora faz aqui. Deveria estar aproveitando o resto das suas férias.
— Eu sei Sra. McAvoy. Mas a senhora deve saber bem que agora ficar em casa para mim é um martírio. Preciso de algo que me faça esquecer o que aconteceu nem que seja por umas horas.
— Tudo bem Lorenna. Fique a vontade. A propósito, essa é nossa nova aluna Charlotte Marie Camarillo. Ela é brasileira, do Rio de Janeiro e acabou de se mudar para cá.
— Seja bem vinda Charlotte. Eu passei minhas férias no Rio de Janeiro ano passado. Meu filho até passou mal com o calor.
Ela sorriu e nós também. Percebi que a Sr. McAvoy ficou sem graça.
— Tudo bem, agora vamos deixar a Lorenna terminar seus trabalhos em paz e continuar nosso tour, não é Srta. Camarillo?
— Claro Sr. McAvoy.
Continuamos o passeio por mais alguns minutos até que ela me revelou algo que me deixou muito triste. Não sei por que, mas senti parte da dor da Lorenna.
— A senhora Ventrue acabou de perder o filho num acidente de carro. Foi horrível, muito repentino. Então ela passa horas a fio aqui trabalhando para tentar esquecer por alguns momentos o que aconteceu.
— Oh eu sinto muitíssimo. De verdade. Senti como se a conhecesse e sentisse sua dor.
— Você é uma boa garota Charlotte.
Depois do tour comprei meu fardamento: blusa branca manga três quartos, saia no joelho, meia até o joelho, sapato Mary Jane, um verdadeiro horror. Com certeza daria um jeito naquela saia depois.
Já era de tarde então fui naquele café e comi bolo e suco. Doces também. Teria que passar na casa dos amigos da minha família ainda. Peguei o ônibus que a moça do café me indicou e fui até Notting Hill. Achei com muita dificuldade o endereço do casal.
— Olá Charlotte, como foi a viagem?
— Foi muito boa. Passei para agradecer pela indicação.
A casa deles era extraordinária. Pequena, cômoda, mas muito bem decorada. Tinha uma lareira maior que o sofá. Era a única coisa grande na casa. Tudo era pequenininho, arrumadinho, parecia a casa dos hobbits de Senhor dos Anéis. Tinha florezinhas em vasos espalhados, cactozinhos também. As toalhas da sala de jantar, do centro, da mesinha de telefone e as mantas que cobriam o sofá eram bordadas e rendadas com os mesmos desenhos com as mesmas cores. Parecia uma casa de bonecas.
— O Daniel saiu com os amigos. Deve estar chegando. Tome um chá conosco enquanto espera.
— Tudo bem.
Era um casal de meia idade. Ele tinha um cabelo grisalho tipo George Clooney. Ela tinha um cabelo tipo Meryl Streep. Tinham olhos vivos, redondos e podiam se passar por irmãos. Logo que começamos a tomar o chá Daniel chegou. Ele era totalmente lindo. Tinha olhos pretos, redondos como os dos pais. Usava uma calça jeans e uma camisa com um casaco preto por cima. Ainda bem que eu estava bem vestida. O cabelo dele era curto, não tanto, mas era legal.
— Você deve ser a Charlotte não é?
— Isso mesmo. Prazer.
— Prazer.
Ele me deu um abraço e eu quase morri com isso. O perfume dele era excepcional. Muito bom. Quando consegui largá-lo conversamos mais.
— Você vai estudar na Cambright não é?
— Isso mesmo. Vou começar segunda e você estuda?
— Sim, mas não na escola. Faço faculdade de Economia.
— Legal. Pretendo fazer para Geologia.
— Muito bom. Você quer voltar para o Brasil?
— Sim, para trabalhar. Não antes de me formar.
— Muito bom.
Nós conversamos mais e estava ficando tarde. Já passava das cinco então tinha que ir.
— Preciso ir agora. O caminho é longo e vou de ônibus.
— Nada disso, faço questão de te levar.
— Imagina. Não quero dar tanto trabalho.
— Não faz isso. Vamos logo.
Despedi-me deles e desci. O carro do Daniel era um Panamera cobre escuro. Ele perguntou onde era minha casa e me levou muito rápido. Não tanto pela velocidade, mas por conhecer o lugar muito melhor que eu.
— Com quantos anos você veio para cá.
— Aos 15. Hoje tenho 21.
— Uau, não parece.
— E você tem quantos anos?
— 17.
— Uau. Não parece. Achava que você tinha no mínimo 18.
— Me senti bem velha agora
— Imagina. Você é muito linda e jovem. Só falei porque você parece bem madura. Não velha.
— Tudo bem. Chegamos. É naquele prédio ali. Obrigada pela carona. Foi muito legal da sua parte me trazer em casa.
— Foi muito legal passar esse tempo com você.
Ele me deu um beijo no rosto e eu saí acanhada. Entrei correndo e fui até a janela. Ele estava lá, então eu acenei e ele piscou os faróis. Tomei um bom banho e fui dormir. O meu dia foi cansativo e eu precisava de um descanso.

***
No outro dia acordei bem disposta, vesti um short jeans com meia calça preta e blusa azul. Calçava uma bota sem salto. Desci devagar e fui dar uma volta. Falei com alguns vizinhos para me socializar. Conheci mais pontos turísticos e passeei por parques e praças. Tomei um lanche e tirei milhares de fotos.
Na praça havia uma garota falando ao telefone. Tinha olhos castanhos, era meio gordinha, usava um óculos muito divertido e seu cabelo ruivo bem comprido preso num rabo de cavalo. Usava um vestido lilás até a metade da coxa com meias três quartos brancas e sapatilha e falava de como estava ansiosa para começar logo na Cambright. Eu parei perto dela e assim que ela desligou pulei na sua frente empolgada.
— Você vai estudar na Cambright?
— Oh que susto você me deu agora! Sim eu vou estudar lá por quê?
— Desculpe-me pelo susto. Eu sou brasileira e irei começar lá também.
— Que legal! Como você veio parar aqui? Por intercâmbio?
— Não. Meus pais decidiram que seria melhor eu vir depois que eu pedi muito a eles para sair do país.
— Que legal! Que ano você vai cursar?
— O último.
— Eu também! Muito divertido assim nós estudaremos juntas ao menos em algumas aulas.
— Você não me disse seu nome.
— Você nem me deu chance. Meu nome é Carly. Carly Johnson
—  O meu é Charlotte Camarillo. Charlotte Marie Camarillo.
—  Prazer. Você já conhece a cidade?
— Um pouco. Bem pouco na verdade. É sem graça passear sozinha. Você quer me acompanhar?
— Claro será muito divertido mesmo.
Passeamos e conversamos sobre nossas vidas. Ela mora com os pais e com duas irmãs mais novas. Eu falei da minha família e das meninas. Caminhamos mais um pouco e ela pegou o ônibus para ir pra casa. Fui para casa trocar de roupa. Queria comer e o melhor lugar era o café.

Nana&Karol 

Capítulo 9


Eu não estava me sentindo o super homem, mas eu realmente não achei que ele fosse atirar. Não achei mesmo. Mas ele atirou. E tinha uma boa mira, pois o garoto que eu segurava ocupava quase todo o espaço da minha frente, mas não cobria o ombro e foi aí que ele acertou o tiro. Senti algo furar minha pele e adentrar o músculo que fica entre a clavícula e a escápula. Doeu. Muito, mas eu não caí. Meu corpo girou para o lado, mas continuei segurando o garoto só que agora com mais força, pois a dor que senti descarreguei apertando o braço dele.
— Ai cara, agora está doendo. Me solta, você vai quebrar meu braço. Alguém faz alguma coisa!
— Ah é? Está mesmo doendo e você acha que estou sentindo o que no meu ombro seu idiota?
— Ai meu Deus, o que eu fiz? Estão vendo seus drogados? Eu atirei num cara. Eu vou ser preso, vou morrer na cadeia. A culpa é de vocês.
— Vamos embora, vamos nessa cara. Minha perna tá doendo demais.
— Se ele me largar eu vou. Cara me solta!
— Se eu te soltar vocês virão aqui amanhã e vou ter que matar vocês. Para que esperar mais um dia se posso fazer isso agora mesmo?
— Não faz isso cara, por favor. A gente só tava brincando.
— Sério. Vocês atiraram em mim brincando?
— E você bateu na gente brincando?
— Claro que não. Eu estou falando muito sério. Vou matar vocês.
— Oh cara, por favor. Não faz isso.
— E porque não deveria. Vocês vieram aqui me perturbar, querendo me bater ou me matar e eu deveria soltar vocês? O que eu ganho com isso?
— Paz. Nem eu, nem ninguém que eu conheço vai voltar aqui. Nunca mais se você quiser, mas, por favor, larga a gente.
— É cara. Não voltamos mais. Solta ele.
— Bom, eu solto, mas paz não é tudo. Quero mais uma coisa.
— O que você quiser. Mas diz logo.
— Eu quero todo o dinheiro que estiver com vocês, porque, aliás, vocês atiraram em mim preciso dar um jeito nisso.
— Qual é cara. Eu não posso voltar pra casa liso.
— Ah é? Então dou três escolhas: ou vocês me dão a grana, ou eu chamo a polícia, ou mato vocês. E, sério, a terceira opção está me tentando muito mais.
— Ok, ok. Vamos dar a grana. Me larga e eu te dou.
— Nada disso. Dê-me a arma primeiro.
O garoto meu deu a arma, recolheu o dinheiro de todos eles e me passou. Deixei claro outra vez que nunca mais queria ver a cara deles. Eles concordaram e saíram correndo. Eu não ia matar ninguém, nem chamar a polícia. Muito menos isso. Um morto não liga para a polícia dizendo que invadiram sua casa que na verdade é um galpão abandonado. Não tenho culpa que eles acreditaram em tudo. Seria até cômico se eu não tivesse levado um tiro. Deixei o dinheiro e a arma no chão e fui ao banheiro me arrastando. Devia estar horrível e como morto não poderia ir a um hospital. A bala tinha atravessado meu ombro. Tirei a camisa e olhei no espelho. Havia o mínimo possível de sangue no local e não havia mais o buraco que a bala fez. Olhei atrás e vi que o buraco estava se fechando rapidamente. Todas as fibras iam se ligando e refazendo como antes o meu ombro. Olhei atentamente e esperei.  Quando não havia sinal de ferimento toquei o lugar para me certificar. Estava dolorido, mas nem se compara a antes. Fiquei fascinado com aquilo. Tinha acabado de levar um tiro e não havia nem uma marca disso. Subi eufórico, peguei uma muda de roupa e tomei um banho como não tomava a... duas semanas? Lavei meu cabelo cuidadosamente, esfreguei meu corpo que estava exatamente igual à antes. Não havia nenhum sinal de mudanças como pensei que haveria quando li a revista. Passei a mão pelo pescoço e senti dois furinhos minúsculos.
Tremi ligeiramente àquele toque e vi flashes de um lugar com paredes e teto vermelho. Foi muito, muito rápido. Senti uma imensa angústia, dor, medo. Concentrei-me novamente no meu banho, mas não consegui esquecer aquela sensação durante toda a noite.
Saí do banho, me vesti, recolhi a arma, guardei-a no fundo do arquivo e contei o dinheiro. Havia quase £400. Dessa vez poderia comprar mais roupas e coisas para ajudar a limpar minha...casa. Agora seria minha casa. Voltei àquela loja. Encontrei a mesma moça que havia me ajudado ontem.
— Olá novamente. Vim comprar mais coisas.
— Quer ajuda?
— Não obrigado. Já sei onde fica o que preciso. Só queria agradecer por você ter me ajudado. É a primeira pessoa que faz isso em... algum tempo.
— De nada. Eu fiquei sem graça. Não sei o que dizer.
— Não diga nada.
Dei um meio sorriso, para não assustá-la. Ela sorriu brilhantemente para mim. Senti-me bem, feliz, acolhido. Havia tempo que não me sentia assim. De repente abracei-a. Fui impulsivo, eu sei, mas fiz assim mesmo. Abracei-a forte e a soltei em seguida.
— Desculpe-me, não sei o que me deu. Desculpe.
— Não tudo bem, não precisa se desculpar foi só um... abraço.—  ela foi cortês, mas estava toda vermelha e muito sem graça.
— Não, você está totalmente sem graça. Eu não deveria ter feito isso.
— Já te disse que não há problema. Desencana.
— Felicity aconteceu algo?
— Não, não aconteceu nada Carter. Está tudo bem.
— Seu nome é Felicity?
— Sim por quê?
— Por nada. É diferente e muito bonito.
— Muito obrigada. – e sorriu um sorriso deslumbrante. – Mas acho que você está atrasando suas compras por minha causa.
— Ah ok, já entendi que você está me expulsando e que não me quer ao seu lado.
— Não, olha, não, não foi isso que eu...
— Tudo bem. Foi só uma brincadeira. —  Ri para ela que dessa vez não se assustou. Quem sabe por que sorri mais ternamente.
— Não se faz isso, ta. Fiquei confusa e mais sem graça ainda.
— Por quê? Foi só uma brincadeira.
— Você me deixa assim. – Ficamos nos olhando tensamente por um segundo. —  Sabe uma coisa?
— O que?
— Você não me disse seu nome. Você já sabe muito sobre mim.
— O que eu sei sobre você?
— Meu nome, onde eu trabalho e que sou tímida. O que eu sei sobre você?
— Que meu nome é Caine. Caine Ventrue. E que gosto de abraçar pessoas legais.
— Ok, Caine Ventrue então sou uma pessoa legal?
— É sim e já deveria saber disso.
— Ok, obrigada. Mas vai fazer suas compras. Meu chefe está me olhando com cara de que vai me matar em segundos se eu não sair daqui e for trabalhar. Então vai!
Ela fez sinal com o dedão para as sessões, sorriu novamente e piscou. Senti-me bem com aquilo. Abaixei a cabeça com a mão no peito e segui para as sessões. Peguei mais roupas, mais produtos de limpeza e higiene, uma corrente e cadeado para a porta do galpão e um colchonete. Certo que havia três dias que não dormia, mas gostava de ficar deitado. E no chão ou na mesa não daria para fazer isso muito bem. Passei as compras no caixa e voltei a falar com a Felicity.
— Já fiz minhas compras. Vou embora antes que seu chefe te mate. Eu não gostaria disso.
— Obrigada por se preocupar com a minha morte prematura.
As palavras “morte prematura” me fizeram estremecer. Foquei na despedida novamente.
— Então, até outro dia. Posso te dar um abraço, de novo?
— Claro. Sabendo antes é melhor.
Abracei-a calorosamente, mas dessa vez a sensação foi melhor. Além de o abraço ter sido muito bom, tê-la perto me fez sentir outra coisa. O cheiro do seu sangue. Não foi exatamente sede, mas foi atraente. Eu poderia mesmo sem estar faminto sugar o sangue dela ali mesmo. A ideia não me pareceu ruim por isso larguei-a imediatamente.
— Preciso ir agora. Boa noite. Tchau.
— Boa noite...
Não ouvi o resto da frase. Ela deve ter me achado um louco ou estúpido, mas aquela proximidade foi muito, muito perigosa. Não podia continuar ali sabendo que poderia atacá-la no próximo segundo. Caminhei apressado para casa. Cheguei e fechei o galpão com o cadeado. Para os outros funcionaria perfeitamente. Fui ao banheiro e guardei os produtos de limpeza. Subi correndo e coloquei o resto das compras, no arquivo. Estendi o colchonete no chão agora limpo e deitei-me. Fiquei o resto da noite pensando em quando teria que me alimentar novamente e isso me fez tremer. Quando amanheceu levantei-me mais disposto. Desci a fim de terminar a faxina. Era meu terceiro dia lá. Tinha comprado uma vassoura para facilitar meu trabalho. Joguei solvente no chão para tentar diminuir as manchas.  Esfreguei, joguei água e conseguir diminuí-las. Lavei tudo com sabão e arrumei melhor o que estava espalhado. No fim da tarde estava tudo em ordem. Tirei minha roupa suja e lavei junto com as de ontem. Depois subi e peguei uma roupa limpa. Tomei banho, vesti-me e saí. Pensei em passar na loja para em encontrar Felicity. Quem sabe seu nome não seria apenas coincidência.  Andei vagarosamente aproveitando a noite, o vento e a vista. Cheguei à loja e encontrei-a do lado de fora do balcão de cabeça baixa bastante concentrada anotando algo. Andei bem devagar e sem fazer barulho. Cheguei bem perto do ouvido dela e disse:
— Assim você me mata.
Ela deu um salto e escorregou. Segurei-a com um braço só e ela ficou a centímetros do meu rosto. Ficamos assim parados por um segundo até ela responder.
— Assim você me mata. Eu quase caí aqui Caine!
— Eu não deixaria você cair.
— Ah isso me acalmou muito mais. – ela falava num tom meio ríspido.
— Nossa! O que aconteceu com você?
— Você me deixou falando sozinha ontem e hoje aparece e me dá um baita susto. Como esperava que eu reagisse: ah Caine que legal, eu adoro levar sustos e cair.
— Você não caiu. E quanto a ontem eu... tive problemas. Precisava ir, realmente.
— Agora está mais bem explicado.
— Você poderia me desculpar? Pelas duas coisas, por favor?
— Tudo bem, esquece. Realmente odeio sustos, tenho trauma disso. Então, promete que não faz mais que te desculpo.
Cheguei bem próximo a ela e abaixei para chegar ao seu ouvido.
— Prometo que nunca mais farei nada que te deixe com raiva, nem nada parecido.
Ela estremeceu quando eu falei. Depois deu um meio sorriso e então me afastei.
— Que horas você sai?
— O que?
— Que horas você sai do trabalho?
— Porque a pergunta? Olha se você acha que...
— Não. Você entendeu errado. Quero passear com você, ir a um café ou algo assim. Não precisa se assustar.
— Ok. Eu não quis te ofender, mas é que...
— Se você não quiser ir comigo tudo bem.
— Não é isso. Você é sempre assim?
— Assim como?
— Não deixa ninguém falar.
— Ok desculpe, pode falar, não vou te interromper.
— O problema não é você. Eu fico até mais tarde hoje. Faço as contas dos gastos e lucros da semana. Era isso que fazia quando você quase me matou de susto. Então, hoje eu não posso sair. Quem sabe amanhã, ou outro dia. – Ela esperou que eu respondesse. Olhou-me seriamente, depois interrogativamente e incredulamente até que não aguentou e perguntou:
— Você não vai dizer nada?
— Você queria falar. Eu apenas calei a boca.
— Nossa às vezes você é muito infantil.
— E você é tão direta que chega a ser cruel.
— Será mesmo que nós vamos brigar antes de sair?
Dobrei-me em risadas enquanto ela me olhava estática. Sério, ela não esperava aquilo.
— Você leva as coisas tão a serio Felicity! Fazia tempo que eu não me divertia tanto. Na verdade eu estava precisando rir um pouco. Obrigada.
— De nada. Estou feliz em saber que te faço rir. Estou pensando em entrar pro Cirque Du Soleil.
Parei de rir imediatamente.
— Não quis te ofender é que...
— Você leva as coisas tão a sério Caine!
Rimos juntos e nos olhamos profundamente por algum tempo. Depois passei as costas da minha mão no rosto dela.
— Preciso ir agora. Que horas te busco amanhã?
— Às dez. Até amanhã.
— Ok então até amanhã. – abracei-a e dei-lhe um beijo demorado no rosto. Ambos de olhos fechados. E falei ao seu ouvido. – Obrigado. Você me ajudou muito.
— De nada. Estarei aqui sempre.
Separamo-nos e fui para casa pensativo. Será que estava fazendo certo em sair com ela? Era perigoso, mas me faria bem. Em muito tempo não houve ninguém para me ajudar e agora ela apareceu. Só não queria iludi-la, seria crueldade e a última coisa que eu queria era magoá-la. Ela estava lá, eu apareci e não poderia destruir sua vida sem razão. Com isso na cabeça passei a noite toda pensando. Amanheceu mais rápido do que o que me dei conta, tão absorto que estava em mim mesmo. Resolvi fazer uns testes comigo. Pus meu óculos e fui até a porta. A claridade não estava mais tão forte para mim. Abri a porta. Meus olhos arderam e fechei-os, mas tentei abrir aos poucos. Consegui. Só não podia tirar o óculos, ainda. O sol não me machucou também como dizia na revista. Resolvi dar uma volta. Passeei por alguns bairros e passei na loja onde a Felicity trabalhava.
— Oi.
— Olha só quem apareceu. Você não chegou um pouco cedo não? Eu só saio às 10. Da noite. São 9 da manhã.
— Eu sei, mas tive vontade de te ver. Não posso?
— Claro que pode, mas é que achei estranho. Você sempre vem de noite e...
— Então eu vou embora.
— Não. Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei. Mas tenho que ir mesmo. Só passei para dar um “oi” e um abraço.
Abracei-a e ela ficou vermelha de novo. Dei um beijo rápido em seu rosto e sai sorrindo. Não deveria, mas sorri. Senti novamente o cheiro do sangue e dessa vez foi muito mais tentador. Nossa, foi incrível. Um simples toque. Fui para casa. Esperaria a hora certa de aparecer e sairia para encontrá-la.

Nana&Karol

20 agosto, 2012

Capítulo 8


O fim do ano estava chagando assim nossas férias iriam começar em menos de uma semana. Meus pais decidiram realizar o meu sonho. Eu iria fazer o meu último ano escolar fora do país, cursar universidade no mesmo local e se tudo isso já não fosse bom o bastante me pediram para que escolhesse para onde queria ir. No primeiro momento pensei em ir para os Estados Unidos ou para a França como já havia pensado, mas alguma coisa dentro de mim dizia que iria ser bem melhor que eu fosse para Londres.
Quanto às minhas férias tão esperadas tínhamos que planejar tudo. Eu e as meninas decidimos falar com os meus pais e irmos pra Búzios. Eles toparam numa boa e assim que as aulas acabaram arrumamos nossas coisas e partimos.
Meus pais tinham uma casa lá, mas como o meu pai era médico as férias dele eram muito curtas, logo não dava tempo pra nós viajarmos. Porém dessa vez ele resolver alonga-las e fizemos as malas. Meu pai tem 47 anos, 1,82, cabelo preto em alguns lugares já grisalhos, com os mesmos olhos verde-escuro que eu. Ele gosta de se vestir bem e está sempre com roupas adequadas às ocasiões. Na viagem ele estava com uma bermuda bege que chegava ao joelho e uma camisa pólo branca. Já a minha mãe, também muito moderna, tem 42 anos, cabelos negros abaixo dos ombros, olhos castanhos claro, pele levemente bronzeada, assim como a minha, 1,75, e vestia um vestidinho abaixo do joelho todo estampado com flores cor de rosa. Ela tinha um pequeno hobby que era confeccionar algumas peças de roupas, o meu vestido era obra dela, com uma estampa de flores vermelhas e laranjas.
Anne tinha conversado com o David, que tinha pedido para que ela passasse as férias com ele, para que ele não ficasse magoado por ela preferir ficar com as amigas. Ela estava vestida com uma blusinha vermelha e uma saia jeans.
A Gloria, que ficou a viagem quase toda falando com o namorado no telefone, usava um short branco e uma blusa azul bebê. A Julie vestia uma bermuda e blusa rosa.
— E aí meninas gostando da paisagem? – disse minha mãe quando entramos na cidade e começamos a ver a praia.
— Nossa isso aqui é lindo. —  Disse a Anne enquanto tirava foto de tudo que via pela frente.
— Vamos combinar que tem garotos bonitos aqui também, vamos ver se desencalhamos Char. – disse Glória.
— É estamos precisando não é Glorinha? – disse eu rindo.
— É isso mesmo. Estou precisando de um namorado há muito tempo, só estou sendo o cupido de vocês assim não dá. – disse ela se defendendo.
— Você já tem um namorado. Por sinal falou com ele todo o caminho.
— Veja bem cara Anne. Ele não é bem um namorado. É o cara da festa. Não é sério. Se fosse eu não estaria tão empolgada aqui. Quantos surfistinhas têm nesse lugar? Quatro por metro quadrado? Minha nossa!
— Você não tem jeito mesmo. Onde está seu vestido rodado mesmo?
— Cala a boca Anne!
Meu pai dirigia um Fiat Doblo Adventure, por isso cabíamos todos nós no carro junto com as malas. Chegamos por volta das 16h e fomos desfazer nossas malas e comer alguma coisa.
Fazia anos que não ia a Búzios, não me recordava de muitas coisas, mas a casa era inesquecível, estava do mesmo jeito que da última vez há doze anos. Tinha as paredes de madeira, e na parte de dentro tinha um tom amarelo bem clarinho quase bege, com móveis brancos e chão de madeira na cor marrom bem escuro. No canto da sala havia uma escada arredondada, que levava para o segundo andar onde havia os quartos, os banheiros, a biblioteca e a sala de TV. Na parte de baixo havia a sala de jantar, a cozinha, a sala de estar e a de jogos. Na parte de fora ficava a varanda, a piscina e o jardim.
Fizemos o lanche na varanda próximo a piscina. Quando anoiteceu alguns amigos dos meus pais que moravam perto foram nos avisar que havia um luau e que podíamos dar uma passada e nos divertirmos um pouco enquanto os meus pais jantavam na casa deles. Meus pais aceitaram o convite e eu e as garotas fomos à festa.
Na festa havia uma banda local que tocava muito, e começamos a falar com uns meninos que moravam lá. A Glória deu a sorte de rever um dos garotos que ela achou gatinho quando chegamos a Búzios e começou a falar com ele.
Eu e a Anne começamos a conversar com uns meninos que nos acompanharam para não nos perdermos. Comecei a conversar com o Marcus, um deles.
— Oi, tudo bem? Meu nome é Marcus. – disse ele
— Oi, sou a Charlotte, tudo bem sim. – disse.
— Que tal se nós formos passear pela beira da praia. – disse ele.
— Boa idéia. Vamos meninas. – disse.
— Vamos sim. – disse Glória já caminhando na frente com o carinha que se chamava Júlio. As outras a seguiram me deixando pra trás com o Marcus.
— E aí você mora aqui? – disse ele.
— Não estou aqui de férias. Meus pais têm uma casa aqui e resolvemos vir pra cá, sabe sair um pouco da rotina. – disse.
— Bem que percebi, iria lembrar de você se a tivesse visto antes. – disse ele.
— Bom, isso quer dizer que teria uma boa memória. – disse.
— É realmente tenho. – disse ele. – Meus pais também vieram para cá para sair da rotina e acabaram ficando permanentemente. – disse ele rindo.
— Bom, tenho certeza que isso não vai acontecer conosco, o lugar é lindo, mas minha mãe adora o Rio e eu vou sair em viajem então não vou ficar por aqui por muito tempo. – disse.
— Sério? E para onde você está pensando em ir? – disse ele.
— Londres.
— Uau! Vai a passeio espero.
— Não. Vou fazer meu último ano lá e fazer universidade também. Mas porque você esperava que não fosse assim?
— Porque o Brasil iria perder uma de suas garotas mais belas.
— Obrigada. Mas você já foi a Londres?
— Eu estive lá no ano passado pra passar as férias com meus pais. É um lugar muito bom se pudesse teríamos ficado lá também, espero que se divirta.
— Obrigado.
Ficamos conversando e curtindo a festa até o dia o sol começar a nascer. A festa foi acabando pouco a pouco e voltamos para casa. Nos demais dias a nossa rotina era acordar cedo para aproveitarmos o lugar, curtir a praia e a galera que conhecemos.  Tirávamos várias fotos e depois quando voltávamos para casa íamos pra parte da piscina e continuávamos a bagunça. Tinha que aproveitar bem o sol, pois um sol como aquele eu não iria ver mais por muito tempo. Estava acabando. Teria que me acostumar a uma nova vida daqui para frente. Esse sol, essa farra, meus pais, minhas amigas. Tudo iria ficar para trás pelo menos por parte da minha vida. Seria uma ótima oportunidade que talvez não tivesse novamente, mas seria doloroso deixar tudo que eu amo para viver sozinha num lugar desconhecido. Seria uma barra no inicio, mas me adaptava com facilidade a diversas situações. Foi assim sempre e o exemplo mais recente foi o Pietro. Esse é outro que nunca mais queria ouvir o nome. Não por raiva nem nada, mas meu orgulho foi ferido e minha confiança foi traída, ele não merecia mais nem que eu passasse na mesma rua que ele.
Faltando uma semana como o combinado, estávamos no aeroporto esperando o meu avião estar pronto para decolar. As meninas e minha mãe estavam numa choradeira só, mas sabiam que era o que eu queria e me apoiavam.
— Char, vou sentir sua falta, amiga. – disse Anne.
— É Char, quem vai me ajudar a estudar para as provas? – disse Julie.
— O pior quem é que vai me ajudar a pôr juízo na cabeça dessas meninas, hein? Nossa gente vai ser melhor para ela se ela for. – disse Glória.
— Nossa Glorinha você está sendo tão fria. – disse Julie.
— A fria da história sempre sou eu, mas preciso admitir que você passou do ponto Glorinha.
— Não estou sendo fria, Anne estou sendo realista. Ela será feliz lá e nós seríamos as pessoas mais egoístas do mundo se impedíssemos que ela fosse.
— Gente, vamos parar, realmente alguém tem que pôr juízo na cabeça de TODAS vocês. —  disse eu rindo. – Glorinha eu sei que você vai se dar bem nessa tarefa, amiga.
— Tá bom Char, você sabe que eu sempre consigo. — Disse Glória sorrindo.
A atendente começou a chamar as pessoas para entrarem no avião. E eu me despedi da minha família e dos meus amigos.
— Tchau, Charlotte, tenha uma boa viagem. – disse David.
— Tchau Charlotte. Tomara que tudo dê certo. – disse Júlio.
— Tchau filha. – disse minha mãe meio chorosa.
— Boa viagem. – disse o meu pai.
— Tchau Char. – disseram as meninas em uníssono.
— Mande notícias, cartões postais, fotos dos lugares, da escola, dos gatinhos, dos ficantes, peguetes, de tudo. Por favor. Não se esqueça de nós nunca. Nunca.
— Nunca, Julie. Jamais. Vocês são minhas melhores amigas, minha família. Eu amo vocês. Vou mandar notícias sempre. Todos os dias. Amo vocês.
— Meu amor você precisa ir.
— Tudo bem mãe. Amo vocês pais. Tchau gente, amo vocês também... – disse e fui embarcar.
Durante toda a viagem fiquei on-line na minha pagina de relacionamento falando com as garotas. Comia algo às vezes, mas não queria desgrudar delas. Minha mãe estava falando comigo também e foi muito bom me sentir amada e apoiada na minha decisão. Eu precisava fugir daquele lugar. Vivi muitas coisas boas, mas também ruins. Ver lugares novos me faria bem e esse lugar em especial me faria melhor ainda. Eu sentia isso dentro do meu coração e fiquei muito feliz.
A viagem foi tranquila, o voo foi perfeito não teve nenhuma preocupação. Cheguei por volta 15h e fui do aeroporto Heathrow para o apartamento que os meus pais compraram para que eu ficasse. Peguei um táxi — eles chamam o táxi preto de cab — daqueles que parecem carrinhos antigos muito fofos. Pedi para que o motorista fizesse um tour pela cidade. Passei pelo Westminster Palace e vi aquela abadia impressionante, o Big Bang, a Tower Bridgt, o Greenwich Park, a Queen’s House e o National Maritime Museam. Era tudo muito perfeito. Depois fui para o endereço da minha casa. A rua era curvada tinha vários prédios de três ou quatro andares. O meu tinha quatro, mas eu morava no terceiro, quarta janela da direita para a esquerda. Subi as escadas e fui observando as pessoas que passavam: pessoas comuns, com cara de europeu mesmo tipo branca com olhos claros na maioria, roupas leves como as minhas. Eu usava jeans um moletom, um casaco e tênis. O motorista me ajudou a subir com minhas malas. Eram três sendo que duas eram grandes e uma de mão. Paguei a corrida e entrei. Foi muito, muito caro. Meus pais tinham me dado £1000. Sei que era muito para começar, mas eles não me queriam de banco em banco tirando dinheiro. O apartamento era grande. A sala estava mobiliada com um sofá de formato “L” e uma poltrona em bege, um tapete e uma estante baixa para TV e home theater. Um balcão dividia a sala da cozinha que tinha um fogão no balcão, geladeira, que por sinal estava vazia, e armário. O quarto tinha uma cama de casal, guarda roupas, cômoda, tapete e um banheiro simples com uma banheira. Uma vez vi num filme um cara dizendo que Londres era uma cidade de prostitutas e gays. Eu realmente precisava tirar isso a limpo então larguei minhas malas lá e fui passear a pé pelo meu bairro para conhecer afinal tinha que me socializar.
Andei por muitas ruas e encontrei um café muito legal. Tinha um balcão muito grande de um canto para o outro e várias mesas com grandes bancos. Era charmoso. Comi alguma coisa por lá mesmo. Era deliciosa a comida então resolvi que comeria lá todos os dias de noite. Resolvi voltar para casa, pois já era tarde. Saí de lá e virei uma esquina. Andei alguns metros e algo me chamou atenção. Ou melhor, alguém. Um cara estava de costas entrando numa loja. Ele tinha um cabelo preto no ombro preso com uma tira de pano e vestia uma camisa azul gasta e uma calça preta rasgada. Ele era alto e andava máscula e formalmente. Estava muito, muito sujo e parecia um mendigo, mas era lindo de costas. Fiquei parada por alguns instantes olhando aquele estranho tão lindo e continuei caminhando. Não fazia sentido ficar lá parada, mas ele realmente me chamou a atenção. Cheguei a casa e tomei um bom banho. Comecei a desfazer minhas malas e fui arrumando no guarda roupas. Dormi na metade. Já era muito tarde e estava cansada demais tanto pelo passeio como pelo fuso horário.

Nana&Karol