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12 setembro, 2012

Capítulo 13


Adormeci em meio às lágrimas. Sonhei novamente com o garoto sem rosto. No sonho estávamos passeando na praia de mãos dadas, vestidos com roupas simples não muito quentes, quando uma nuvem escura encobriu o sol, fazendo-nos nos assustar. A sensação era que o mal estava a nossa volta, que algo ruim iria acontecer. Tentei me mover, mas minhas pernas pareciam grudadas na areia. Virei-me para avisar ao garoto que deveríamos sair dali e me assustei com o que vi. Era o garoto do café, o mesmo que vi entrar na loja parecendo um mendigo. Ele me olhava espantado como se estivesse me dizendo algo que eu não conseguia entender. Olhei em seus olhos e vi que eles não eram mais o azul que tinha visto antes, eles estavam esbranquiçados.
Acordei assustada e sem saber ao certo porque sonhei com aquilo. Levantei-me e vi as horas. Era quase o horário do almoço. Andei em direção ao banheiro e lavei o rosto, vi que estava um pouco pálida pelo susto. Tomei banho e fiz minha higiene. Resolvi fazer algo para comer, mas algo estava me perturbando. Perdi a fome nas primeiras garfadas. Estava me sentindo sufocada. E resolvi sair para espairecer.
O céu estava nublado e o dia frio, mas sem indícios de chuva. Coloquei uma calça jeans skinny azul-acinzentado, um tênis all star, uma blusa de manga comprida e um casaco. Pequei minha bolsa e um guarda-chuva ( com o tempo assim, nunca se sabe se vai chover ou não). Ao descer procurei um táxi e pedi que me levasse ao Hyde Park Resolvi ir lá, pois queria distrair minha mente do meu sonho e do que aconteceu no beco.
 O Hyde Park é um dos lugares mais bonitos que já vi. Parecia um enorme jardim, com pessoas sentadas na grama. Algumas fazendo piquenique, outras lendo livros ou tirando fotos. Do outro lado do parque havia um lago muito bonito. Era uma linda vista. Fui caminhando por todo o parque até me distanciar da vista verde e avistar lojas.
Passei em frente a uma livraria e resolvi entrar. Estava olhando uns livros, quando me lembrei de que as aulas iriam começar em menos de uma semana. Resolvi então comprar algumas coisas que estavam em falta.
Voltei pra casa e resolvi arrumar minhas coisas da escola. Peguei o meu uniforme e resolvi dar uma arrumada na saia. Como minha mãe eu tinha uma certa habilidade na costura. Ela me ensinou alguns truques e foi assim que encurtei um pouco a saia, não saindo do padrão, mas também não deixando tão longa e nem tão brega.
Os dias se passaram e eu não consegui tirar a cena do beco da minha cabeça. Isso era insano, eu sabia, mas eu vi com meus próprios olhos o que aconteceu, ninguém me contou. Acho que isso fez com que eu ficasse memorizando cada momento. O mais difícil foi lembrar como ele me olhava. Era como se sentisse culpado, como se me pedisse perdão. O pior de tudo é que eu estava tão assustada que nem quis mais saber do que estava acontecendo. Era como se um bolo se formasse em minha garganta e eu só pude chorar e correr de volta para casa. E mesmo fazendo isso eu me sentia triste, como se tivesse que perdoá-lo, como se tivesse explicação pelo que aconteceu. Eu tinha a sensação de que devia ter continuado lá. Mas também tinha a sensação de que essa história não estava acabada. Que havia algo mais para eu descobrir.

Nana&Karol

Capítulo 12


Passava das oito. Subi e peguei a minha melhor roupa. Se bem que não era boa, só era a minha melhor no momento. Calça preta e camisa azul marinho. Não. Usava uma roupa assim no dia que... deixa pra lá. Peguei uma camisa bege, um casaco preto e a calça preta mesmo. Desci correndo e tomei um banho demorado. Penteei meu cabelo cuidadosamente e prendi com um elástico. Vesti-me, tranquei o galpão e fui buscá-la. Não era dez ainda, mas ela estava pronta. Vestia um vestido preto com alças finas e detalhes florais, uma sandália de salto branca, cabelo solto, brincos discretos, maquiagem leve com olhos marcados e batom rosa que ressaltavam ainda mais seus lábios grossos. Para terminar usava um casaquinho branco.
— Você está excepcionalmente linda!
— Obrigada. Você também.
— Seu elogio me fez ganhar a noite. Está pronta para ir?
— Sim, claro. Estava só te esperando.
— Me atrasei?
— Não, imagina. Havia só uns minutos.
— Então vamos.
Seguimos a mesma rua e viramos à direita. Duas quadras a frente havia um café muito bom. Eu ia lá com a Verônica quando... Senti que deveria lembrar algo que não conseguia. Vi um flash muito rápido, como o do banheiro. Era a Verônica brigando com alguém que eu não conhecia. Ou não me recordava. Estavam naquele mesmo lugar de paredes e teto vermelho.
— Caine, o que aconteceu você está bem? – A Felicity me sacudia desesperadamente.
— Estou. Eu tive um flash de memória. Algo que eu havia esquecido, mas está tudo bem.
— Seus olhos estão...brancos! O que está acontecendo, Caine? – Ela parecia horrorizada me olhando. Pisquei duas vezes.
—  O que?
— Agora voltaram ao normal. Estão azuis. Você pode me explicar o que está acontecendo?
— Não está acontecendo nada. Já falei que foi apenas um flash de memória. Não está acontecendo nada, repito.
— Mas eu vi seus olhos mudarem de cor. Isso não acontece naturalmente. Você pode me explicar?
Não sabia o que fazer. Desde o dia em que...me alimentei isso não acontecia. Minha única saída era tentar convencê-la. Olhei-a fixamente e de maneira terna. Dei um meio sorriso e segurei seu braço com uma das mãos. Depois falei calmamente de forma clara e objetiva.
— Felicity, o que você viu não foi nada. Foi apenas um flash. Você se assustou comigo e pensou ter visto algo que realmente não poderia ter acontecido. Eu estou bem. Estamos bem, agora podemos ir?
Ela parecia paralisada ao meu toque. Ela nem sequer mexia seus olhos olhando para mim. Parecia longe, muito distante mesmo, como se estivesse num mundo onde minha voz fosse o único som a ser ouvido. Ela assentiu e eu a larguei. Imediatamente ela saiu do transe.
— Podemos ir agora?
— Claro que sim. Quando você desejar.
Seguimos caminhando normalmente e falando sobre coisas banais, como casais que passavam; lojas, coisas que víamos, como se nada tivesse acontecido. Ela não tocou mais nesse assunto.
Chegamos ao café e sentamo-nos numa mesa perto da janela: ela de frente para mim e eu de frente para a direção da porta.
— Quer pedir agora?
— Sim, pode ser. Quero um cappuccino e bolinhos com cobertura de açúcar refinado.
— Eu quero um café puro.
Só aí lembrei um detalhe que faria toda a diferença: não sabia se poderia ou não comer. Isso me fez chocar comigo mesmo. Porque não a levei para passear, ou para um programa menos “comestível”? Droga! Agora teria que me virar e descobrir no improviso.
— Fale mais de você.
— Falar o que? Não tenho muito a contar.
— Tenho certeza que sim. Agora começa.
— Bom, moro sozinha. Vai fazer um ano mês que vem. Estou conseguindo me virar muito bem sem meus pais. Tenho dezenove anos e faço faculdade de economia.
— Mas e o seu trabalho?
— Eu trabalho todos os horários que não tenho aula. Às vezes pela manhã, mas não frequentemente. Ganho por hora trabalhada por isso meu chefe quase me matou aquele dia.
— Bom. Você mora sozinha ou divide com alguém?
— Divido com uma amiga da faculdade. E você. Onde mora?
— Num galpão.
— Estou falando sério.
— Eu também. Mudei-me há pouco tempo.
— Ok, se você não quiser falar eu entendo. – Ela ficou desapontada. Mas eu estava falando a verdade.
— Eu estou falando sério, mas se você não quiser acreditar eu entendo. – Rimos juntos e os pedidos chegaram. Ela continuou falando sobre a faculdade e os projetos dela, mas eu só conseguia focar em como beberia aquele café. Coloquei um gole da boca e engoli. Tinha um gosto... péssimo. Não era o café, pois sempre o tomei aqui mesmo. Era eu que não sentia gosto de café, apenas de uma coisa muito, muito ruim. Forcei-me a engolir e fiz cara de nojo.
— O que foi o café está ruim?
— Não, só está muito quente. Queimei a língua. Mas estou bem.
— Ok então. Continuando...
Ela estava empolgada comigo ali. E eu com ela. Ela falava e eu buscava evadir-me das perguntas dela sobre mim, o que a fazia desapontar. Foi quando tentava ouvir tudo que ela falava que a vi. Ela entrou graciosamente pela porta e sorriu olhando o lugar. Seu sorriso era deslumbrante, seus olhos verde-escuros, redondos e expressivos denotavam alegria. Ela era deslumbrante. Usava um vestido roxo na metade da coxa, uma bota preta de salto fino até o joelho e um casaco bege. Seu nariz reto e boca volumosa completavam sua face angelical. Seu cabelo estava preso em uma trança francesa que lhe caia pelo colo e ia até pouco abaixo do esterno. A maquiagem era leve e sua boca brilhava. Quando ela me viu sobressaltei-me: parecia que minha alma estava exposta para que ela lesse detalhada e indiscretamente. Devia estar paralisado, pois ela olhou-me confusa. Eu precisava dela ao meu lado. Eu a queria para mim.
— Caine é a segunda vez que eu falo e você não me dá atenção. – Na verdade era a terceira, mas tudo bem. – O que está havendo? Se você não estiver bem podemos ir. – Jamais. Eu não correria o risco de perdê-la de vista nem por um segundo. Desviei o olhar daquela estranha perfeita e olhei para Felicity.
— Não é necessário. Olha Felicity, peço perdão por estar tão distante. Realmente eu queria fazer dessa noite muito agradável, mas estou com alguns problemas. Perdoe-me, por favor.
— Claro que sim Caine. Todo mundo tem problemas. Olha. Eu já terminei. Realmente quero que você fique bem então vou embora.
— Você não precisa ir. Eu estou bem vou melhorar, Charlie. Desculpa Felicity.
— Quem é Charlie?
— Não sei. Não conheço ninguém com esse nome. Veio-me à cabeça e falei sem querer. Desculpa. Mas você não precisa ir. Vou ficar bem.
— Não tudo bem, já tinha terminado mesmo e você precisa pensar. – Eu me levantei para acompanhá-la, pois era o mínimo que podia fazer depois dessa noite desastrosa. – Não precisa me acompanhar. Estou perto de casa.
— Claro que vou te acompanhar. É perigoso lá fora.
— Eu sei bem como é, mas não precisa se preocupar. Vou chegar bem.
— Tem certeza? Absoluta certeza?
— Claro. Já disse que não precisa se preocupar. Até... outro dia.
— Até. Fica bem e novamente desculpe pelo que aconteceu hoje. Foi uma série incontrolável de erros que...
— Tudo bem. Nem sempre estamos nos nossos melhores dias. Bom, tchau.
— Tchau.
Dei-lhe um abraço e um beijo no rosto, mas não desviei os olhos da mesa na qual a garota se sentou. Ela me olhava fixamente então procurei me afastar da Felicity. Levei-a até a porta e voltei. Percebi que a garota me seguiu com o olhar. Senti o olhar profundo dela nas minhas costas. Ao passar senti um cheiro alucinante, doce, rico. Muito bom. Não era nada que vendesse no café. Era sangue. Puro. Sentei no mesmo lugar que ficava de frente para ela, fixei meu olhar em seu rosto calmante e procurei me controlar para pensar sobre o que me aconteceu. Eu tive uma visão nova que poderia ser alguma pista sobre a minha transformação, fiz com que a Felicity esquecesse o momento em que meus olhos mudaram o que, aliás, ainda não sei explicar, não consegui beber o café, mas isso era menor dos meus problemas para o qual eu já tinha uma explicação e para finalizar senti um turbilhão de emoções que nunca havia sentido só em olhar para aquela garota que continuava me encarando. Ela era perfeita. Concentrei-me novamente. Perdi o foco. Era impossível me concentrar em qualquer coisa quando aqueles olhos estavam fixos em mim. Ela se movia graciosamente. Parecia ter um ritmo próprio de fazer as coisas. Ela levantava seu copo delicadamente, piscava com elegância, agia como uma princesa. Senti que a conhecia, senti... não sei. Algo novo, diferente e muito, muito intenso. O garçom trouxe a conta, paguei e continuei lá observando cada milímetro de pele que ela mexia. Ela me encarava como se não houvesse problema algum. Na verdade não havia, mas eu poderia ser um maníaco. E se a seguisse? E se fizesse algo contra ela? Mas não. Meu corpo gritava que eu nunca deveria agir contra ela de nenhuma forma possível. E por isso mesmo eu deveria me afastar. Estava começando a sentir sede, a salivar. Não poderia continuar ali naquele jogo. Ela não era uma peça de xadrez que poderia ser posta para ser destruída. Não. Ela era intocável e perfeita e eu era a última pessoa que deveria se aproximar dela. Senti raiva de mim naquela hora, por não saber nada sobre minha vida. Nada mais que importasse. Senti-me impotente diante dela, diante do mundo. Senti uma fúria imensa crescer dentro de mim e me culpei por ser tão... fraco. Saí de lá apressado e irado. Ela percebeu, pois seu último olhar para mim foi de descrença. Nunca mais a veria então era melhor guardar bem aquele rosto lindo em meu pensamento, pois seria a única coisa que eu teria dela.

Nana&Karol

Capítulo 11


Vesti um vestido roxo com um casaquinho bege e uma bota preta até o joelho. Fiz uma trança francesa e me maquiei levemente. Estava com um sentimento estranho de que algo aconteceria. Não sei se era empolgação por ter encontrado conhecidos e uma nova amiga aqui ou se era realmente uma premonição. Eu nunca acreditei em premonições nem nada. Não devia ser isso. Um sexto sentido talvez, um desejo, um anseio. Sei lá. Deve ser assim que a gente se sente num novo lugar. Eu estava me sentindo assim então tudo bem.
Desci as pressas e corri para o café. Quando entrei olhei tudo e sorri. Virei-me para ir me sentar no lugar de sempre e foi quando o vi. Era ele não era? Trapinho? Era sim. Aquele cabelo nunca me enganaria. Era ele sim. Fui caminhando automaticamente me sentei atônita. Fiquei olhando-o e ele me encarava também. Estava acompanhado. Devia ser uma namorada. Nossa ele era muito lindo. As meninas morreriam quando eu contasse como ele é perfeito. Olhos azuis profundos, alto porque a garota mesmo sentada era bem menor que ele. O cabelo preto que tanto me chamou atenção era mais lindo ainda na luz. Ficava meio azulado, sei lá. Que olhos. Seu nariz era perfeitamente reto, seus lábios eram médios. Na medida. Contrastaria com os meus volumosos. Ele tinha lindas mãos. Estava segurando um copo de café. A garota falava sem parar e ele nem estava aí. Estava me olhando. Encarando-me. Eu quis sair daqui correndo e abraçá-lo. Não que eu fosse uma garota qualquer que se atira nos braços de qualquer um. Mas ele me pareceu especial. Poderia estar totalmente enganada e quebrar minha cara, mas ele nunca me faria mal. Senti isso quando seus olhos me fitaram de uma forma carinhosa. Senti que por ele poderia me apaixonar. Nunca havia sentido algo assim tão forte, explosivo, envolvente. Foi um choque para mim estar envolta em tantas emoções ao mesmo tempo. Eu pedi automaticamente o de sempre e comecei a comer de forma robótica. Ele me olhava e num momento virou-se para garota. Senti-me traída apesar de nem saber quem eles eram. Eles poderiam ser casados e ter cinco filhos. Eu nem poderia estar olhando-o dessa forma. Será que estava enlouquecendo? Pensei tantas coisas sem nexo. Pensei em tudo que cabia na minha mente naquele momento. Imaginei-me com ele para sempre. Eu precisava saber quem ele era. Todos sentem necessidade de um sentido para viver. Finalmente havia encontrado o meu. Ele falou com a garota, mas não tirava os olhos de mim. Ela pareceu chateada, levantou-se e ele lhe deu um abraço e um beijo no rosto. Afastou-se rapidamente, ainda me olhando e saiu com ela. Fiquei muito desapontada. Queria correr atrás dele. Segui-lo sei lá. Quando ia me levantar ele voltou. Sentei-me mais que rápido e continuei olhando-o. Tentei fazer minha cara mais controlada, mas desviar daquele roso perfeito era impossível para mim. Ele continuou me olhando com cara de raiva, parecia que tinha brigado com a garota e estava pondo a culpa em mim. Não entendi nada. Ele foi ficando com o olhar cada vez mais desapontado e contrariado. Fiquei assustada e desapontada talvez na mesma intensidade que ele quando ele se levantou e saiu quase voando pela porta. Senti que se não fizesse algo nunca mais o veria. Ele desapareceria e não voltaria mais para mim. Precisava me apressar se não perderia minha chance de felicidade. O que estava me acontecendo? Deixei o dinheiro em cima da mesa e saí correndo atrás dele. O cara andava rápido demais e quase não pude alcançá-lo. Ele andou bastante e entrou num bar. Quis entrar, mas não me deixaram. Eu era menor de idade. Droga. Droga. Droga ao cubo. Sai daí logo, preciso te ver. Encostei-me do outro lado da rua. Já passava das 10. Era perigoso estar aqui a essa hora. Era um bar de quinta com gente de sexta. Precisava ir para minha segurança, mas sentia que se fizesse isso estaria deixando-o ir e certamente não me perdoaria por isso. Ouvi um barulho mais alto que o do som. Pessoas gritavam e ele saiu arrastando um cara muito maior que ele.
— Qual é cara para com isso. Para que brigar?
— O que você tem haver com isso seu idiota filho de uma vaca?
— Olha sem ofensas, te fiz um favor tirando você de lá. Agora cala sua boca e dá o fora daqui.
— Como é? Acho que não ouvi bem. Você está me mandando fazer algo? Garotos imbecis como você não me mandam fazer nada, seu moleque.
— Não me insulta. Sabe de uma faz o que quiser da sua vidinha imunda.
— Ninguém me ofende e vira as costas para mim garoto.
Antes que pudesse ficar feliz por vê-lo novamente ou deliciar-me com aquela voz embriagante o cara voou para cima dele. Eles brigaram feio por alguns minutos, mas o meu estranho fez algo que me chocou. Ele jogou o cara contra a parede e o mordeu. Não foi uma mordida tipo “eu vou te morder e você vai parar com isso”. Ele o mordeu de verdade. Ele estava bebendo sangue? Não pude acreditar. Quem bebe sangue é vampiro e vampiros não existem fora do cinema e dos livros. Tive ímpeto de correr, de gritar, de pedir para ele parar, de chorar, de morrer. Qualquer coisa que me tirasse dali. Escolhi a que menos me ajudou. Ele derrubou o homem no chão atrás das lixeiras e virou-se na minha direção. Ele me viu e sua expressão era de surpresa, choque, dor, desculpa, pesar, sofrimento, exatamente nessa ordem. Vi seus olhos olharem minha alma e senti-me protegida, mas não poderia. Ele matou um cara, bebeu seu sangue, escondeu-o no lixo. O que seria capaz de fazer comigo? Senti-me triste. De tudo que eu poderia sentir senti tristeza e comecei a chorar. Ele quase desabou no chão. Seus olhos gritavam me pedindo desculpa. Nesse momento tudo que eu poderia fazer era correr e me esconder. Esconder-me de mim, dele, do mundo. Queria desaparecer e nunca mais voltar.
Cheguei em casa vacilante. Tirei as roupas e fiquei sentada na banheira chorando enquanto a água caia sobre mim. Fiquei assim até o sol começar a nascer e me avisar que outro dia estava começando. Saí da banheira, vesti um roupão e me arrastei até cama. Deitei e chorei novamente. Não sei de onde vieram tantas lágrimas, mas vieram e não as detive. Deixei que elas corressem e levassem embora toda a dor que estava pressionando meu coração.

Nana&Karol