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12 setembro, 2012

Capítulo 11


Vesti um vestido roxo com um casaquinho bege e uma bota preta até o joelho. Fiz uma trança francesa e me maquiei levemente. Estava com um sentimento estranho de que algo aconteceria. Não sei se era empolgação por ter encontrado conhecidos e uma nova amiga aqui ou se era realmente uma premonição. Eu nunca acreditei em premonições nem nada. Não devia ser isso. Um sexto sentido talvez, um desejo, um anseio. Sei lá. Deve ser assim que a gente se sente num novo lugar. Eu estava me sentindo assim então tudo bem.
Desci as pressas e corri para o café. Quando entrei olhei tudo e sorri. Virei-me para ir me sentar no lugar de sempre e foi quando o vi. Era ele não era? Trapinho? Era sim. Aquele cabelo nunca me enganaria. Era ele sim. Fui caminhando automaticamente me sentei atônita. Fiquei olhando-o e ele me encarava também. Estava acompanhado. Devia ser uma namorada. Nossa ele era muito lindo. As meninas morreriam quando eu contasse como ele é perfeito. Olhos azuis profundos, alto porque a garota mesmo sentada era bem menor que ele. O cabelo preto que tanto me chamou atenção era mais lindo ainda na luz. Ficava meio azulado, sei lá. Que olhos. Seu nariz era perfeitamente reto, seus lábios eram médios. Na medida. Contrastaria com os meus volumosos. Ele tinha lindas mãos. Estava segurando um copo de café. A garota falava sem parar e ele nem estava aí. Estava me olhando. Encarando-me. Eu quis sair daqui correndo e abraçá-lo. Não que eu fosse uma garota qualquer que se atira nos braços de qualquer um. Mas ele me pareceu especial. Poderia estar totalmente enganada e quebrar minha cara, mas ele nunca me faria mal. Senti isso quando seus olhos me fitaram de uma forma carinhosa. Senti que por ele poderia me apaixonar. Nunca havia sentido algo assim tão forte, explosivo, envolvente. Foi um choque para mim estar envolta em tantas emoções ao mesmo tempo. Eu pedi automaticamente o de sempre e comecei a comer de forma robótica. Ele me olhava e num momento virou-se para garota. Senti-me traída apesar de nem saber quem eles eram. Eles poderiam ser casados e ter cinco filhos. Eu nem poderia estar olhando-o dessa forma. Será que estava enlouquecendo? Pensei tantas coisas sem nexo. Pensei em tudo que cabia na minha mente naquele momento. Imaginei-me com ele para sempre. Eu precisava saber quem ele era. Todos sentem necessidade de um sentido para viver. Finalmente havia encontrado o meu. Ele falou com a garota, mas não tirava os olhos de mim. Ela pareceu chateada, levantou-se e ele lhe deu um abraço e um beijo no rosto. Afastou-se rapidamente, ainda me olhando e saiu com ela. Fiquei muito desapontada. Queria correr atrás dele. Segui-lo sei lá. Quando ia me levantar ele voltou. Sentei-me mais que rápido e continuei olhando-o. Tentei fazer minha cara mais controlada, mas desviar daquele roso perfeito era impossível para mim. Ele continuou me olhando com cara de raiva, parecia que tinha brigado com a garota e estava pondo a culpa em mim. Não entendi nada. Ele foi ficando com o olhar cada vez mais desapontado e contrariado. Fiquei assustada e desapontada talvez na mesma intensidade que ele quando ele se levantou e saiu quase voando pela porta. Senti que se não fizesse algo nunca mais o veria. Ele desapareceria e não voltaria mais para mim. Precisava me apressar se não perderia minha chance de felicidade. O que estava me acontecendo? Deixei o dinheiro em cima da mesa e saí correndo atrás dele. O cara andava rápido demais e quase não pude alcançá-lo. Ele andou bastante e entrou num bar. Quis entrar, mas não me deixaram. Eu era menor de idade. Droga. Droga. Droga ao cubo. Sai daí logo, preciso te ver. Encostei-me do outro lado da rua. Já passava das 10. Era perigoso estar aqui a essa hora. Era um bar de quinta com gente de sexta. Precisava ir para minha segurança, mas sentia que se fizesse isso estaria deixando-o ir e certamente não me perdoaria por isso. Ouvi um barulho mais alto que o do som. Pessoas gritavam e ele saiu arrastando um cara muito maior que ele.
— Qual é cara para com isso. Para que brigar?
— O que você tem haver com isso seu idiota filho de uma vaca?
— Olha sem ofensas, te fiz um favor tirando você de lá. Agora cala sua boca e dá o fora daqui.
— Como é? Acho que não ouvi bem. Você está me mandando fazer algo? Garotos imbecis como você não me mandam fazer nada, seu moleque.
— Não me insulta. Sabe de uma faz o que quiser da sua vidinha imunda.
— Ninguém me ofende e vira as costas para mim garoto.
Antes que pudesse ficar feliz por vê-lo novamente ou deliciar-me com aquela voz embriagante o cara voou para cima dele. Eles brigaram feio por alguns minutos, mas o meu estranho fez algo que me chocou. Ele jogou o cara contra a parede e o mordeu. Não foi uma mordida tipo “eu vou te morder e você vai parar com isso”. Ele o mordeu de verdade. Ele estava bebendo sangue? Não pude acreditar. Quem bebe sangue é vampiro e vampiros não existem fora do cinema e dos livros. Tive ímpeto de correr, de gritar, de pedir para ele parar, de chorar, de morrer. Qualquer coisa que me tirasse dali. Escolhi a que menos me ajudou. Ele derrubou o homem no chão atrás das lixeiras e virou-se na minha direção. Ele me viu e sua expressão era de surpresa, choque, dor, desculpa, pesar, sofrimento, exatamente nessa ordem. Vi seus olhos olharem minha alma e senti-me protegida, mas não poderia. Ele matou um cara, bebeu seu sangue, escondeu-o no lixo. O que seria capaz de fazer comigo? Senti-me triste. De tudo que eu poderia sentir senti tristeza e comecei a chorar. Ele quase desabou no chão. Seus olhos gritavam me pedindo desculpa. Nesse momento tudo que eu poderia fazer era correr e me esconder. Esconder-me de mim, dele, do mundo. Queria desaparecer e nunca mais voltar.
Cheguei em casa vacilante. Tirei as roupas e fiquei sentada na banheira chorando enquanto a água caia sobre mim. Fiquei assim até o sol começar a nascer e me avisar que outro dia estava começando. Saí da banheira, vesti um roupão e me arrastei até cama. Deitei e chorei novamente. Não sei de onde vieram tantas lágrimas, mas vieram e não as detive. Deixei que elas corressem e levassem embora toda a dor que estava pressionando meu coração.

Nana&Karol

Capítulo 10


Acordei cedo, terminei de arrumar minhas roupas no armário e ajeitar umas coisas na casa como porta retratos e fotos para que minha família ficasse sempre perto de mim, mandei um e-mail para as garotas e contei tudo detalhadamente: a viagem, o passeio, o café e, lógico, do cara que eu vi. Enquanto me arrumava recebi um e-mail resposta e quando abri quase morri de rir.

“Gente, o que é isso! Eu não acredito que com tanto gato em Londres você se sentiu atraída por um mendigo...”

— Qual é ele não era um mendigo, eu acho.

“...Nossa, o que será que aconteceu pra ele estar desse jeito? Deu pra ver o rosto dele? Era gatinho? Porque ninguém merece além de sujo feio não é? Só era o que faltava. Cuidado pra não ficar rodada como o “vestido da Glorinha”. Um mendigo não néh! E ai quando começam as aulas? Já conheceu alguém além de trapinho? A escola é legal? Responda o mais rápido possível. Qual é o signo de trapinho?
Qual é Julie você é louca? Ela nem deve ter visto o cara como ia saber o signo? Você acha que ela ia chegar e dizer ‘Oi mendigo qual é o seu signo? E a propósito seu nome também’. Claro que não sua louca.
Ei vocês não acham que vão enlouquecer a Char com esse e-mail não? Envia logo...
PS.: aaaaaaaa, quase esqueci. Rolou fight na escola. A Alícia traiu o Pietro com aquele carinha que você ficou na festa.
Qual era o nome dele? Você acha que eu me lembro? Sei lá, você conhece todos os caras da escola. Eu acho que nem a Char lembra quanto mais eu.
PS2.: Te amamos.  ”

E esse era o e-mail. Eu ri por mais uns cinco minutos e saí. Fui para a escola. Eu iria estudar na Cambright High School. Foi muito bem recomendada aos meus pais por uns amigos deles que moravam aqui. Aliás, eu teria que visitá-los como forma de agradecimento. Chequei minha matrícula, peguei meu horário e conheci a escola e suas dependências. Era enorme. Tinha vários blocos. Andei pelos corredores acompanhada da coordenadora e conheci tudo: as salas, a quadra, a piscina, o vestiário, a sala do grêmio e o refeitório.
— Aqui será uma de suas salas. À medida que formos caminhando você verá as outras.
— Obrigada. O que é aquilo ali?
— Aquilo é o memorial. Uma sala destinada às homenagens. Lá estão os troféus, as medalhas das competições e todos os outros títulos conquistados pelos nossos alunos. Tem fotos das turmas desde que a escola foi fundada, dos professores e dos alunos destaque. Há também fotos de alguns alunos que morreram.
— Sinto muito.
— Tudo bem querida. Aquele é um local parecido com um museu interno, onde recordamos o passado da escola.
— Isso é muito interessante.
— Na sua antiga escola tinha algo parecido?
— Não. Nem perto disso.
— Tudo bem. Vamos continuar?
— Sim claro.
Continuamos andando pela escola e conheci a biblioteca gigantesca, os banheiros, a sala dos professores, a sala da direção, a secretaria interna e fui até ao anexo onde ficava o bloco infantil. Tinha uma professora lá que estava preparando umas coisas na sala que ela lecionava. Colava figuras e números nas paredes e pendurava penduricalhos pelo teto.
— Olá professora Lorenna. O que a senhora faz aqui. Deveria estar aproveitando o resto das suas férias.
— Eu sei Sra. McAvoy. Mas a senhora deve saber bem que agora ficar em casa para mim é um martírio. Preciso de algo que me faça esquecer o que aconteceu nem que seja por umas horas.
— Tudo bem Lorenna. Fique a vontade. A propósito, essa é nossa nova aluna Charlotte Marie Camarillo. Ela é brasileira, do Rio de Janeiro e acabou de se mudar para cá.
— Seja bem vinda Charlotte. Eu passei minhas férias no Rio de Janeiro ano passado. Meu filho até passou mal com o calor.
Ela sorriu e nós também. Percebi que a Sr. McAvoy ficou sem graça.
— Tudo bem, agora vamos deixar a Lorenna terminar seus trabalhos em paz e continuar nosso tour, não é Srta. Camarillo?
— Claro Sr. McAvoy.
Continuamos o passeio por mais alguns minutos até que ela me revelou algo que me deixou muito triste. Não sei por que, mas senti parte da dor da Lorenna.
— A senhora Ventrue acabou de perder o filho num acidente de carro. Foi horrível, muito repentino. Então ela passa horas a fio aqui trabalhando para tentar esquecer por alguns momentos o que aconteceu.
— Oh eu sinto muitíssimo. De verdade. Senti como se a conhecesse e sentisse sua dor.
— Você é uma boa garota Charlotte.
Depois do tour comprei meu fardamento: blusa branca manga três quartos, saia no joelho, meia até o joelho, sapato Mary Jane, um verdadeiro horror. Com certeza daria um jeito naquela saia depois.
Já era de tarde então fui naquele café e comi bolo e suco. Doces também. Teria que passar na casa dos amigos da minha família ainda. Peguei o ônibus que a moça do café me indicou e fui até Notting Hill. Achei com muita dificuldade o endereço do casal.
— Olá Charlotte, como foi a viagem?
— Foi muito boa. Passei para agradecer pela indicação.
A casa deles era extraordinária. Pequena, cômoda, mas muito bem decorada. Tinha uma lareira maior que o sofá. Era a única coisa grande na casa. Tudo era pequenininho, arrumadinho, parecia a casa dos hobbits de Senhor dos Anéis. Tinha florezinhas em vasos espalhados, cactozinhos também. As toalhas da sala de jantar, do centro, da mesinha de telefone e as mantas que cobriam o sofá eram bordadas e rendadas com os mesmos desenhos com as mesmas cores. Parecia uma casa de bonecas.
— O Daniel saiu com os amigos. Deve estar chegando. Tome um chá conosco enquanto espera.
— Tudo bem.
Era um casal de meia idade. Ele tinha um cabelo grisalho tipo George Clooney. Ela tinha um cabelo tipo Meryl Streep. Tinham olhos vivos, redondos e podiam se passar por irmãos. Logo que começamos a tomar o chá Daniel chegou. Ele era totalmente lindo. Tinha olhos pretos, redondos como os dos pais. Usava uma calça jeans e uma camisa com um casaco preto por cima. Ainda bem que eu estava bem vestida. O cabelo dele era curto, não tanto, mas era legal.
— Você deve ser a Charlotte não é?
— Isso mesmo. Prazer.
— Prazer.
Ele me deu um abraço e eu quase morri com isso. O perfume dele era excepcional. Muito bom. Quando consegui largá-lo conversamos mais.
— Você vai estudar na Cambright não é?
— Isso mesmo. Vou começar segunda e você estuda?
— Sim, mas não na escola. Faço faculdade de Economia.
— Legal. Pretendo fazer para Geologia.
— Muito bom. Você quer voltar para o Brasil?
— Sim, para trabalhar. Não antes de me formar.
— Muito bom.
Nós conversamos mais e estava ficando tarde. Já passava das cinco então tinha que ir.
— Preciso ir agora. O caminho é longo e vou de ônibus.
— Nada disso, faço questão de te levar.
— Imagina. Não quero dar tanto trabalho.
— Não faz isso. Vamos logo.
Despedi-me deles e desci. O carro do Daniel era um Panamera cobre escuro. Ele perguntou onde era minha casa e me levou muito rápido. Não tanto pela velocidade, mas por conhecer o lugar muito melhor que eu.
— Com quantos anos você veio para cá.
— Aos 15. Hoje tenho 21.
— Uau, não parece.
— E você tem quantos anos?
— 17.
— Uau. Não parece. Achava que você tinha no mínimo 18.
— Me senti bem velha agora
— Imagina. Você é muito linda e jovem. Só falei porque você parece bem madura. Não velha.
— Tudo bem. Chegamos. É naquele prédio ali. Obrigada pela carona. Foi muito legal da sua parte me trazer em casa.
— Foi muito legal passar esse tempo com você.
Ele me deu um beijo no rosto e eu saí acanhada. Entrei correndo e fui até a janela. Ele estava lá, então eu acenei e ele piscou os faróis. Tomei um bom banho e fui dormir. O meu dia foi cansativo e eu precisava de um descanso.

***
No outro dia acordei bem disposta, vesti um short jeans com meia calça preta e blusa azul. Calçava uma bota sem salto. Desci devagar e fui dar uma volta. Falei com alguns vizinhos para me socializar. Conheci mais pontos turísticos e passeei por parques e praças. Tomei um lanche e tirei milhares de fotos.
Na praça havia uma garota falando ao telefone. Tinha olhos castanhos, era meio gordinha, usava um óculos muito divertido e seu cabelo ruivo bem comprido preso num rabo de cavalo. Usava um vestido lilás até a metade da coxa com meias três quartos brancas e sapatilha e falava de como estava ansiosa para começar logo na Cambright. Eu parei perto dela e assim que ela desligou pulei na sua frente empolgada.
— Você vai estudar na Cambright?
— Oh que susto você me deu agora! Sim eu vou estudar lá por quê?
— Desculpe-me pelo susto. Eu sou brasileira e irei começar lá também.
— Que legal! Como você veio parar aqui? Por intercâmbio?
— Não. Meus pais decidiram que seria melhor eu vir depois que eu pedi muito a eles para sair do país.
— Que legal! Que ano você vai cursar?
— O último.
— Eu também! Muito divertido assim nós estudaremos juntas ao menos em algumas aulas.
— Você não me disse seu nome.
— Você nem me deu chance. Meu nome é Carly. Carly Johnson
—  O meu é Charlotte Camarillo. Charlotte Marie Camarillo.
—  Prazer. Você já conhece a cidade?
— Um pouco. Bem pouco na verdade. É sem graça passear sozinha. Você quer me acompanhar?
— Claro será muito divertido mesmo.
Passeamos e conversamos sobre nossas vidas. Ela mora com os pais e com duas irmãs mais novas. Eu falei da minha família e das meninas. Caminhamos mais um pouco e ela pegou o ônibus para ir pra casa. Fui para casa trocar de roupa. Queria comer e o melhor lugar era o café.

Nana&Karol 

Capítulo 9


Eu não estava me sentindo o super homem, mas eu realmente não achei que ele fosse atirar. Não achei mesmo. Mas ele atirou. E tinha uma boa mira, pois o garoto que eu segurava ocupava quase todo o espaço da minha frente, mas não cobria o ombro e foi aí que ele acertou o tiro. Senti algo furar minha pele e adentrar o músculo que fica entre a clavícula e a escápula. Doeu. Muito, mas eu não caí. Meu corpo girou para o lado, mas continuei segurando o garoto só que agora com mais força, pois a dor que senti descarreguei apertando o braço dele.
— Ai cara, agora está doendo. Me solta, você vai quebrar meu braço. Alguém faz alguma coisa!
— Ah é? Está mesmo doendo e você acha que estou sentindo o que no meu ombro seu idiota?
— Ai meu Deus, o que eu fiz? Estão vendo seus drogados? Eu atirei num cara. Eu vou ser preso, vou morrer na cadeia. A culpa é de vocês.
— Vamos embora, vamos nessa cara. Minha perna tá doendo demais.
— Se ele me largar eu vou. Cara me solta!
— Se eu te soltar vocês virão aqui amanhã e vou ter que matar vocês. Para que esperar mais um dia se posso fazer isso agora mesmo?
— Não faz isso cara, por favor. A gente só tava brincando.
— Sério. Vocês atiraram em mim brincando?
— E você bateu na gente brincando?
— Claro que não. Eu estou falando muito sério. Vou matar vocês.
— Oh cara, por favor. Não faz isso.
— E porque não deveria. Vocês vieram aqui me perturbar, querendo me bater ou me matar e eu deveria soltar vocês? O que eu ganho com isso?
— Paz. Nem eu, nem ninguém que eu conheço vai voltar aqui. Nunca mais se você quiser, mas, por favor, larga a gente.
— É cara. Não voltamos mais. Solta ele.
— Bom, eu solto, mas paz não é tudo. Quero mais uma coisa.
— O que você quiser. Mas diz logo.
— Eu quero todo o dinheiro que estiver com vocês, porque, aliás, vocês atiraram em mim preciso dar um jeito nisso.
— Qual é cara. Eu não posso voltar pra casa liso.
— Ah é? Então dou três escolhas: ou vocês me dão a grana, ou eu chamo a polícia, ou mato vocês. E, sério, a terceira opção está me tentando muito mais.
— Ok, ok. Vamos dar a grana. Me larga e eu te dou.
— Nada disso. Dê-me a arma primeiro.
O garoto meu deu a arma, recolheu o dinheiro de todos eles e me passou. Deixei claro outra vez que nunca mais queria ver a cara deles. Eles concordaram e saíram correndo. Eu não ia matar ninguém, nem chamar a polícia. Muito menos isso. Um morto não liga para a polícia dizendo que invadiram sua casa que na verdade é um galpão abandonado. Não tenho culpa que eles acreditaram em tudo. Seria até cômico se eu não tivesse levado um tiro. Deixei o dinheiro e a arma no chão e fui ao banheiro me arrastando. Devia estar horrível e como morto não poderia ir a um hospital. A bala tinha atravessado meu ombro. Tirei a camisa e olhei no espelho. Havia o mínimo possível de sangue no local e não havia mais o buraco que a bala fez. Olhei atrás e vi que o buraco estava se fechando rapidamente. Todas as fibras iam se ligando e refazendo como antes o meu ombro. Olhei atentamente e esperei.  Quando não havia sinal de ferimento toquei o lugar para me certificar. Estava dolorido, mas nem se compara a antes. Fiquei fascinado com aquilo. Tinha acabado de levar um tiro e não havia nem uma marca disso. Subi eufórico, peguei uma muda de roupa e tomei um banho como não tomava a... duas semanas? Lavei meu cabelo cuidadosamente, esfreguei meu corpo que estava exatamente igual à antes. Não havia nenhum sinal de mudanças como pensei que haveria quando li a revista. Passei a mão pelo pescoço e senti dois furinhos minúsculos.
Tremi ligeiramente àquele toque e vi flashes de um lugar com paredes e teto vermelho. Foi muito, muito rápido. Senti uma imensa angústia, dor, medo. Concentrei-me novamente no meu banho, mas não consegui esquecer aquela sensação durante toda a noite.
Saí do banho, me vesti, recolhi a arma, guardei-a no fundo do arquivo e contei o dinheiro. Havia quase £400. Dessa vez poderia comprar mais roupas e coisas para ajudar a limpar minha...casa. Agora seria minha casa. Voltei àquela loja. Encontrei a mesma moça que havia me ajudado ontem.
— Olá novamente. Vim comprar mais coisas.
— Quer ajuda?
— Não obrigado. Já sei onde fica o que preciso. Só queria agradecer por você ter me ajudado. É a primeira pessoa que faz isso em... algum tempo.
— De nada. Eu fiquei sem graça. Não sei o que dizer.
— Não diga nada.
Dei um meio sorriso, para não assustá-la. Ela sorriu brilhantemente para mim. Senti-me bem, feliz, acolhido. Havia tempo que não me sentia assim. De repente abracei-a. Fui impulsivo, eu sei, mas fiz assim mesmo. Abracei-a forte e a soltei em seguida.
— Desculpe-me, não sei o que me deu. Desculpe.
— Não tudo bem, não precisa se desculpar foi só um... abraço.—  ela foi cortês, mas estava toda vermelha e muito sem graça.
— Não, você está totalmente sem graça. Eu não deveria ter feito isso.
— Já te disse que não há problema. Desencana.
— Felicity aconteceu algo?
— Não, não aconteceu nada Carter. Está tudo bem.
— Seu nome é Felicity?
— Sim por quê?
— Por nada. É diferente e muito bonito.
— Muito obrigada. – e sorriu um sorriso deslumbrante. – Mas acho que você está atrasando suas compras por minha causa.
— Ah ok, já entendi que você está me expulsando e que não me quer ao seu lado.
— Não, olha, não, não foi isso que eu...
— Tudo bem. Foi só uma brincadeira. —  Ri para ela que dessa vez não se assustou. Quem sabe por que sorri mais ternamente.
— Não se faz isso, ta. Fiquei confusa e mais sem graça ainda.
— Por quê? Foi só uma brincadeira.
— Você me deixa assim. – Ficamos nos olhando tensamente por um segundo. —  Sabe uma coisa?
— O que?
— Você não me disse seu nome. Você já sabe muito sobre mim.
— O que eu sei sobre você?
— Meu nome, onde eu trabalho e que sou tímida. O que eu sei sobre você?
— Que meu nome é Caine. Caine Ventrue. E que gosto de abraçar pessoas legais.
— Ok, Caine Ventrue então sou uma pessoa legal?
— É sim e já deveria saber disso.
— Ok, obrigada. Mas vai fazer suas compras. Meu chefe está me olhando com cara de que vai me matar em segundos se eu não sair daqui e for trabalhar. Então vai!
Ela fez sinal com o dedão para as sessões, sorriu novamente e piscou. Senti-me bem com aquilo. Abaixei a cabeça com a mão no peito e segui para as sessões. Peguei mais roupas, mais produtos de limpeza e higiene, uma corrente e cadeado para a porta do galpão e um colchonete. Certo que havia três dias que não dormia, mas gostava de ficar deitado. E no chão ou na mesa não daria para fazer isso muito bem. Passei as compras no caixa e voltei a falar com a Felicity.
— Já fiz minhas compras. Vou embora antes que seu chefe te mate. Eu não gostaria disso.
— Obrigada por se preocupar com a minha morte prematura.
As palavras “morte prematura” me fizeram estremecer. Foquei na despedida novamente.
— Então, até outro dia. Posso te dar um abraço, de novo?
— Claro. Sabendo antes é melhor.
Abracei-a calorosamente, mas dessa vez a sensação foi melhor. Além de o abraço ter sido muito bom, tê-la perto me fez sentir outra coisa. O cheiro do seu sangue. Não foi exatamente sede, mas foi atraente. Eu poderia mesmo sem estar faminto sugar o sangue dela ali mesmo. A ideia não me pareceu ruim por isso larguei-a imediatamente.
— Preciso ir agora. Boa noite. Tchau.
— Boa noite...
Não ouvi o resto da frase. Ela deve ter me achado um louco ou estúpido, mas aquela proximidade foi muito, muito perigosa. Não podia continuar ali sabendo que poderia atacá-la no próximo segundo. Caminhei apressado para casa. Cheguei e fechei o galpão com o cadeado. Para os outros funcionaria perfeitamente. Fui ao banheiro e guardei os produtos de limpeza. Subi correndo e coloquei o resto das compras, no arquivo. Estendi o colchonete no chão agora limpo e deitei-me. Fiquei o resto da noite pensando em quando teria que me alimentar novamente e isso me fez tremer. Quando amanheceu levantei-me mais disposto. Desci a fim de terminar a faxina. Era meu terceiro dia lá. Tinha comprado uma vassoura para facilitar meu trabalho. Joguei solvente no chão para tentar diminuir as manchas.  Esfreguei, joguei água e conseguir diminuí-las. Lavei tudo com sabão e arrumei melhor o que estava espalhado. No fim da tarde estava tudo em ordem. Tirei minha roupa suja e lavei junto com as de ontem. Depois subi e peguei uma roupa limpa. Tomei banho, vesti-me e saí. Pensei em passar na loja para em encontrar Felicity. Quem sabe seu nome não seria apenas coincidência.  Andei vagarosamente aproveitando a noite, o vento e a vista. Cheguei à loja e encontrei-a do lado de fora do balcão de cabeça baixa bastante concentrada anotando algo. Andei bem devagar e sem fazer barulho. Cheguei bem perto do ouvido dela e disse:
— Assim você me mata.
Ela deu um salto e escorregou. Segurei-a com um braço só e ela ficou a centímetros do meu rosto. Ficamos assim parados por um segundo até ela responder.
— Assim você me mata. Eu quase caí aqui Caine!
— Eu não deixaria você cair.
— Ah isso me acalmou muito mais. – ela falava num tom meio ríspido.
— Nossa! O que aconteceu com você?
— Você me deixou falando sozinha ontem e hoje aparece e me dá um baita susto. Como esperava que eu reagisse: ah Caine que legal, eu adoro levar sustos e cair.
— Você não caiu. E quanto a ontem eu... tive problemas. Precisava ir, realmente.
— Agora está mais bem explicado.
— Você poderia me desculpar? Pelas duas coisas, por favor?
— Tudo bem, esquece. Realmente odeio sustos, tenho trauma disso. Então, promete que não faz mais que te desculpo.
Cheguei bem próximo a ela e abaixei para chegar ao seu ouvido.
— Prometo que nunca mais farei nada que te deixe com raiva, nem nada parecido.
Ela estremeceu quando eu falei. Depois deu um meio sorriso e então me afastei.
— Que horas você sai?
— O que?
— Que horas você sai do trabalho?
— Porque a pergunta? Olha se você acha que...
— Não. Você entendeu errado. Quero passear com você, ir a um café ou algo assim. Não precisa se assustar.
— Ok. Eu não quis te ofender, mas é que...
— Se você não quiser ir comigo tudo bem.
— Não é isso. Você é sempre assim?
— Assim como?
— Não deixa ninguém falar.
— Ok desculpe, pode falar, não vou te interromper.
— O problema não é você. Eu fico até mais tarde hoje. Faço as contas dos gastos e lucros da semana. Era isso que fazia quando você quase me matou de susto. Então, hoje eu não posso sair. Quem sabe amanhã, ou outro dia. – Ela esperou que eu respondesse. Olhou-me seriamente, depois interrogativamente e incredulamente até que não aguentou e perguntou:
— Você não vai dizer nada?
— Você queria falar. Eu apenas calei a boca.
— Nossa às vezes você é muito infantil.
— E você é tão direta que chega a ser cruel.
— Será mesmo que nós vamos brigar antes de sair?
Dobrei-me em risadas enquanto ela me olhava estática. Sério, ela não esperava aquilo.
— Você leva as coisas tão a serio Felicity! Fazia tempo que eu não me divertia tanto. Na verdade eu estava precisando rir um pouco. Obrigada.
— De nada. Estou feliz em saber que te faço rir. Estou pensando em entrar pro Cirque Du Soleil.
Parei de rir imediatamente.
— Não quis te ofender é que...
— Você leva as coisas tão a sério Caine!
Rimos juntos e nos olhamos profundamente por algum tempo. Depois passei as costas da minha mão no rosto dela.
— Preciso ir agora. Que horas te busco amanhã?
— Às dez. Até amanhã.
— Ok então até amanhã. – abracei-a e dei-lhe um beijo demorado no rosto. Ambos de olhos fechados. E falei ao seu ouvido. – Obrigado. Você me ajudou muito.
— De nada. Estarei aqui sempre.
Separamo-nos e fui para casa pensativo. Será que estava fazendo certo em sair com ela? Era perigoso, mas me faria bem. Em muito tempo não houve ninguém para me ajudar e agora ela apareceu. Só não queria iludi-la, seria crueldade e a última coisa que eu queria era magoá-la. Ela estava lá, eu apareci e não poderia destruir sua vida sem razão. Com isso na cabeça passei a noite toda pensando. Amanheceu mais rápido do que o que me dei conta, tão absorto que estava em mim mesmo. Resolvi fazer uns testes comigo. Pus meu óculos e fui até a porta. A claridade não estava mais tão forte para mim. Abri a porta. Meus olhos arderam e fechei-os, mas tentei abrir aos poucos. Consegui. Só não podia tirar o óculos, ainda. O sol não me machucou também como dizia na revista. Resolvi dar uma volta. Passeei por alguns bairros e passei na loja onde a Felicity trabalhava.
— Oi.
— Olha só quem apareceu. Você não chegou um pouco cedo não? Eu só saio às 10. Da noite. São 9 da manhã.
— Eu sei, mas tive vontade de te ver. Não posso?
— Claro que pode, mas é que achei estranho. Você sempre vem de noite e...
— Então eu vou embora.
— Não. Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei. Mas tenho que ir mesmo. Só passei para dar um “oi” e um abraço.
Abracei-a e ela ficou vermelha de novo. Dei um beijo rápido em seu rosto e sai sorrindo. Não deveria, mas sorri. Senti novamente o cheiro do sangue e dessa vez foi muito mais tentador. Nossa, foi incrível. Um simples toque. Fui para casa. Esperaria a hora certa de aparecer e sairia para encontrá-la.

Nana&Karol