Eu não estava
me sentindo o super homem, mas eu realmente não achei que ele fosse atirar. Não
achei mesmo. Mas ele atirou. E tinha uma boa mira, pois o garoto que eu
segurava ocupava quase todo o espaço da minha frente, mas não cobria o ombro e
foi aí que ele acertou o tiro. Senti algo furar minha pele e adentrar o músculo
que fica entre a clavícula e a escápula. Doeu. Muito, mas eu não caí. Meu corpo
girou para o lado, mas continuei segurando o garoto só que agora com mais
força, pois a dor que senti descarreguei apertando o braço dele.
— Ai cara,
agora está doendo. Me solta, você vai quebrar meu braço. Alguém faz alguma
coisa!
— Ah é? Está
mesmo doendo e você acha que estou sentindo o que no meu ombro seu idiota?
— Ai meu Deus,
o que eu fiz? Estão vendo seus drogados? Eu atirei num cara. Eu vou ser preso,
vou morrer na cadeia. A culpa é de vocês.
— Vamos
embora, vamos nessa cara. Minha perna tá doendo demais.
— Se ele me
largar eu vou. Cara me solta!
— Se eu te
soltar vocês virão aqui amanhã e vou ter que matar vocês. Para que esperar mais
um dia se posso fazer isso agora mesmo?
— Não faz isso
cara, por favor. A gente só tava brincando.
— Sério. Vocês
atiraram em mim brincando?
— E você bateu
na gente brincando?
— Claro que
não. Eu estou falando muito sério. Vou matar vocês.
— Oh cara, por
favor. Não faz isso.
— E porque não
deveria. Vocês vieram aqui me perturbar, querendo me bater ou me matar e eu
deveria soltar vocês? O que eu ganho com isso?
— Paz. Nem eu,
nem ninguém que eu conheço vai voltar aqui. Nunca mais se você quiser, mas, por
favor, larga a gente.
— É cara. Não
voltamos mais. Solta ele.
— Bom, eu
solto, mas paz não é tudo. Quero mais uma coisa.
— O que você
quiser. Mas diz logo.
— Eu quero
todo o dinheiro que estiver com vocês, porque, aliás, vocês atiraram em mim
preciso dar um jeito nisso.
— Qual é cara.
Eu não posso voltar pra casa liso.
— Ah é? Então
dou três escolhas: ou vocês me dão a grana, ou eu chamo a polícia, ou mato
vocês. E, sério, a terceira opção está me tentando muito mais.
— Ok, ok.
Vamos dar a grana. Me larga e eu te dou.
— Nada disso.
Dê-me a arma primeiro.
O garoto meu
deu a arma, recolheu o dinheiro de todos eles e me passou. Deixei claro outra
vez que nunca mais queria ver a cara deles. Eles concordaram e saíram correndo.
Eu não ia matar ninguém, nem chamar a polícia. Muito menos isso. Um morto não
liga para a polícia dizendo que invadiram sua casa que na verdade é um galpão
abandonado. Não tenho culpa que eles acreditaram em tudo. Seria até cômico se
eu não tivesse levado um tiro. Deixei o dinheiro e a arma no chão e fui ao
banheiro me arrastando. Devia estar horrível e como morto não poderia ir a um
hospital. A bala tinha atravessado meu ombro. Tirei a camisa e olhei no
espelho. Havia o mínimo possível de sangue no local e não havia mais o buraco
que a bala fez. Olhei atrás e vi que o buraco estava se fechando rapidamente.
Todas as fibras iam se ligando e refazendo como antes o meu ombro. Olhei
atentamente e esperei. Quando não havia
sinal de ferimento toquei o lugar para me certificar. Estava dolorido, mas nem se
compara a antes. Fiquei fascinado com aquilo. Tinha acabado de levar um tiro e
não havia nem uma marca disso. Subi eufórico, peguei uma muda de roupa e tomei
um banho como não tomava a... duas semanas? Lavei meu cabelo cuidadosamente,
esfreguei meu corpo que estava exatamente igual à antes. Não havia nenhum sinal
de mudanças como pensei que haveria quando li a revista. Passei a mão pelo
pescoço e senti dois furinhos minúsculos.
Tremi
ligeiramente àquele toque e vi flashes de um lugar com paredes e teto vermelho.
Foi muito, muito rápido. Senti uma imensa angústia, dor, medo. Concentrei-me
novamente no meu banho, mas não consegui esquecer aquela sensação durante toda
a noite.
Saí do banho,
me vesti, recolhi a arma, guardei-a no fundo do arquivo e contei o dinheiro.
Havia quase £400. Dessa vez poderia comprar mais roupas e coisas para ajudar a
limpar minha...casa. Agora seria minha casa. Voltei àquela loja. Encontrei a
mesma moça que havia me ajudado ontem.
— Olá
novamente. Vim comprar mais coisas.
— Quer ajuda?
— Não
obrigado. Já sei onde fica o que preciso. Só queria agradecer por você ter me
ajudado. É a primeira pessoa que faz isso em... algum tempo.
— De nada. Eu
fiquei sem graça. Não sei o que dizer.
— Não diga
nada.
Dei um meio
sorriso, para não assustá-la. Ela sorriu brilhantemente para mim. Senti-me bem,
feliz, acolhido. Havia tempo que não me sentia assim. De repente abracei-a. Fui
impulsivo, eu sei, mas fiz assim mesmo. Abracei-a forte e a soltei em seguida.
— Desculpe-me,
não sei o que me deu. Desculpe.
— Não tudo
bem, não precisa se desculpar foi só um... abraço.— ela foi cortês, mas estava toda vermelha e
muito sem graça.
— Não, você
está totalmente sem graça. Eu não deveria ter feito isso.
— Já te disse
que não há problema. Desencana.
— Felicity
aconteceu algo?
— Não, não
aconteceu nada Carter. Está tudo bem.
— Seu nome é
Felicity?
— Sim por quê?
— Por nada. É
diferente e muito bonito.
— Muito
obrigada. – e sorriu um sorriso deslumbrante. – Mas acho que você está
atrasando suas compras por minha causa.
— Ah ok, já
entendi que você está me expulsando e que não me quer ao seu lado.
— Não, olha,
não, não foi isso que eu...
— Tudo bem.
Foi só uma brincadeira. — Ri para ela
que dessa vez não se assustou. Quem sabe por que sorri mais ternamente.
— Não se faz
isso, ta. Fiquei confusa e mais sem graça ainda.
— Por quê? Foi
só uma brincadeira.
— Você me
deixa assim. – Ficamos nos olhando tensamente por um segundo. — Sabe uma coisa?
— O que?
— Você não me
disse seu nome. Você já sabe muito sobre mim.
— O que eu sei
sobre você?
— Meu nome,
onde eu trabalho e que sou tímida. O que eu sei sobre você?
— Que meu nome
é Caine. Caine Ventrue. E que gosto de abraçar pessoas legais.
— Ok, Caine
Ventrue então sou uma pessoa legal?
— É sim e já
deveria saber disso.
— Ok,
obrigada. Mas vai fazer suas compras. Meu chefe está me olhando com cara de que
vai me matar em segundos se eu não sair daqui e for trabalhar. Então vai!
Ela fez sinal
com o dedão para as sessões, sorriu novamente e piscou. Senti-me bem com aquilo.
Abaixei a cabeça com a mão no peito e segui para as sessões. Peguei mais
roupas, mais produtos de limpeza e higiene, uma corrente e cadeado para a porta
do galpão e um colchonete. Certo que havia três dias que não dormia, mas
gostava de ficar deitado. E no chão ou na mesa não daria para fazer isso muito
bem. Passei as compras no caixa e voltei a falar com a Felicity.
— Já fiz
minhas compras. Vou embora antes que seu chefe te mate. Eu não gostaria disso.
— Obrigada por
se preocupar com a minha morte prematura.
As palavras
“morte prematura” me fizeram estremecer. Foquei na despedida novamente.
— Então, até
outro dia. Posso te dar um abraço, de novo?
— Claro.
Sabendo antes é melhor.
Abracei-a
calorosamente, mas dessa vez a sensação foi melhor. Além de o abraço ter sido
muito bom, tê-la perto me fez sentir outra coisa. O cheiro do seu sangue. Não
foi exatamente sede, mas foi atraente. Eu poderia mesmo sem estar faminto sugar
o sangue dela ali mesmo. A ideia não me pareceu ruim por isso larguei-a imediatamente.
— Preciso ir
agora. Boa noite. Tchau.
— Boa noite...
Não ouvi o
resto da frase. Ela deve ter me achado um louco ou estúpido, mas aquela
proximidade foi muito, muito perigosa. Não podia continuar ali sabendo que
poderia atacá-la no próximo segundo. Caminhei apressado para casa. Cheguei e
fechei o galpão com o cadeado. Para os outros funcionaria perfeitamente. Fui ao
banheiro e guardei os produtos de limpeza. Subi correndo e coloquei o resto das
compras, no arquivo. Estendi o colchonete no chão agora limpo e deitei-me.
Fiquei o resto da noite pensando em quando teria que me alimentar novamente e
isso me fez tremer. Quando amanheceu levantei-me mais disposto. Desci a fim de
terminar a faxina. Era meu terceiro dia lá. Tinha comprado uma vassoura para facilitar
meu trabalho. Joguei solvente no chão para tentar diminuir as manchas. Esfreguei, joguei água e conseguir
diminuí-las. Lavei tudo com sabão e arrumei melhor o que estava espalhado. No
fim da tarde estava tudo em ordem. Tirei minha roupa suja e lavei junto com as
de ontem. Depois subi e peguei uma roupa limpa. Tomei banho, vesti-me e saí.
Pensei em passar na loja para em encontrar Felicity. Quem sabe seu nome não
seria apenas coincidência. Andei
vagarosamente aproveitando a noite, o vento e a vista. Cheguei à loja e
encontrei-a do lado de fora do balcão de cabeça baixa bastante concentrada
anotando algo. Andei bem devagar e sem fazer barulho. Cheguei bem perto do
ouvido dela e disse:
— Assim você
me mata.
Ela deu um
salto e escorregou. Segurei-a com um braço só e ela ficou a centímetros do meu
rosto. Ficamos assim parados por um segundo até ela responder.
— Assim você
me mata. Eu quase caí aqui Caine!
— Eu não
deixaria você cair.
— Ah isso me
acalmou muito mais. – ela falava num tom meio ríspido.
— Nossa! O que
aconteceu com você?
— Você me
deixou falando sozinha ontem e hoje aparece e me dá um baita susto. Como
esperava que eu reagisse: ah Caine que legal, eu adoro levar sustos e cair.
— Você não
caiu. E quanto a ontem eu... tive problemas. Precisava ir, realmente.
— Agora está
mais bem explicado.
— Você poderia
me desculpar? Pelas duas coisas, por favor?
— Tudo bem,
esquece. Realmente odeio sustos, tenho trauma disso. Então, promete que não faz
mais que te desculpo.
Cheguei bem
próximo a ela e abaixei para chegar ao seu ouvido.
— Prometo que
nunca mais farei nada que te deixe com raiva, nem nada parecido.
Ela estremeceu
quando eu falei. Depois deu um meio sorriso e então me afastei.
— Que horas
você sai?
— O que?
— Que horas
você sai do trabalho?
— Porque a
pergunta? Olha se você acha que...
— Não. Você
entendeu errado. Quero passear com você, ir a um café ou algo assim. Não
precisa se assustar.
— Ok. Eu não
quis te ofender, mas é que...
— Se você não
quiser ir comigo tudo bem.
— Não é isso.
Você é sempre assim?
— Assim como?
— Não deixa
ninguém falar.
— Ok desculpe,
pode falar, não vou te interromper.
— O problema
não é você. Eu fico até mais tarde hoje. Faço as contas dos gastos e lucros da
semana. Era isso que fazia quando você quase me matou de susto. Então, hoje
eu não posso sair. Quem sabe amanhã, ou outro dia. – Ela esperou que eu
respondesse. Olhou-me seriamente, depois interrogativamente e incredulamente
até que não aguentou e perguntou:
— Você não vai
dizer nada?
— Você queria
falar. Eu apenas calei a boca.
— Nossa às
vezes você é muito infantil.
— E você é tão
direta que chega a ser cruel.
— Será mesmo
que nós vamos brigar antes de sair?
Dobrei-me em
risadas enquanto ela me olhava estática. Sério, ela não esperava aquilo.
— Você leva as
coisas tão a serio Felicity! Fazia tempo que eu não me divertia tanto. Na
verdade eu estava precisando rir um pouco. Obrigada.
— De nada.
Estou feliz em saber que te faço rir. Estou pensando em entrar pro Cirque Du
Soleil.
Parei de rir
imediatamente.
— Não quis te
ofender é que...
— Você leva as
coisas tão a sério Caine!
Rimos juntos e
nos olhamos profundamente por algum tempo. Depois passei as costas da minha mão
no rosto dela.
— Preciso ir
agora. Que horas te busco amanhã?
— Às dez. Até
amanhã.
— Ok então até
amanhã. – abracei-a e dei-lhe um beijo demorado no rosto. Ambos de olhos
fechados. E falei ao seu ouvido. – Obrigado. Você me ajudou muito.
— De nada.
Estarei aqui sempre.
Separamo-nos e
fui para casa pensativo. Será que estava fazendo certo em sair com ela? Era
perigoso, mas me faria bem. Em muito tempo não houve ninguém para me ajudar e
agora ela apareceu. Só não queria iludi-la, seria crueldade e a última coisa
que eu queria era magoá-la. Ela estava lá, eu apareci e não poderia destruir
sua vida sem razão. Com isso na cabeça passei a noite toda pensando. Amanheceu
mais rápido do que o que me dei conta, tão absorto que estava em mim mesmo.
Resolvi fazer uns testes comigo. Pus meu óculos e fui até a porta. A claridade
não estava mais tão forte para mim. Abri a porta. Meus olhos arderam e
fechei-os, mas tentei abrir aos poucos. Consegui. Só não podia tirar o óculos,
ainda. O sol não me machucou também como dizia na revista. Resolvi dar uma
volta. Passeei por alguns bairros e passei na loja onde a Felicity trabalhava.
— Oi.
— Olha só quem
apareceu. Você não chegou um pouco cedo não? Eu só saio às 10. Da noite. São 9
da manhã.
— Eu sei, mas
tive vontade de te ver. Não posso?
— Claro que
pode, mas é que achei estranho. Você sempre vem de noite e...
— Então eu vou
embora.
— Não. Não foi
isso que eu quis dizer.
— Eu sei. Mas
tenho que ir mesmo. Só passei para dar um “oi” e um abraço.
Abracei-a e
ela ficou vermelha de novo. Dei um beijo rápido em seu rosto e sai sorrindo.
Não deveria, mas sorri. Senti novamente o cheiro do sangue e dessa vez foi
muito mais tentador. Nossa, foi incrível. Um simples toque. Fui para casa.
Esperaria a hora certa de aparecer e sairia para encontrá-la.
Nana&Karol