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20 agosto, 2012

Capítulo 8


O fim do ano estava chagando assim nossas férias iriam começar em menos de uma semana. Meus pais decidiram realizar o meu sonho. Eu iria fazer o meu último ano escolar fora do país, cursar universidade no mesmo local e se tudo isso já não fosse bom o bastante me pediram para que escolhesse para onde queria ir. No primeiro momento pensei em ir para os Estados Unidos ou para a França como já havia pensado, mas alguma coisa dentro de mim dizia que iria ser bem melhor que eu fosse para Londres.
Quanto às minhas férias tão esperadas tínhamos que planejar tudo. Eu e as meninas decidimos falar com os meus pais e irmos pra Búzios. Eles toparam numa boa e assim que as aulas acabaram arrumamos nossas coisas e partimos.
Meus pais tinham uma casa lá, mas como o meu pai era médico as férias dele eram muito curtas, logo não dava tempo pra nós viajarmos. Porém dessa vez ele resolver alonga-las e fizemos as malas. Meu pai tem 47 anos, 1,82, cabelo preto em alguns lugares já grisalhos, com os mesmos olhos verde-escuro que eu. Ele gosta de se vestir bem e está sempre com roupas adequadas às ocasiões. Na viagem ele estava com uma bermuda bege que chegava ao joelho e uma camisa pólo branca. Já a minha mãe, também muito moderna, tem 42 anos, cabelos negros abaixo dos ombros, olhos castanhos claro, pele levemente bronzeada, assim como a minha, 1,75, e vestia um vestidinho abaixo do joelho todo estampado com flores cor de rosa. Ela tinha um pequeno hobby que era confeccionar algumas peças de roupas, o meu vestido era obra dela, com uma estampa de flores vermelhas e laranjas.
Anne tinha conversado com o David, que tinha pedido para que ela passasse as férias com ele, para que ele não ficasse magoado por ela preferir ficar com as amigas. Ela estava vestida com uma blusinha vermelha e uma saia jeans.
A Gloria, que ficou a viagem quase toda falando com o namorado no telefone, usava um short branco e uma blusa azul bebê. A Julie vestia uma bermuda e blusa rosa.
— E aí meninas gostando da paisagem? – disse minha mãe quando entramos na cidade e começamos a ver a praia.
— Nossa isso aqui é lindo. —  Disse a Anne enquanto tirava foto de tudo que via pela frente.
— Vamos combinar que tem garotos bonitos aqui também, vamos ver se desencalhamos Char. – disse Glória.
— É estamos precisando não é Glorinha? – disse eu rindo.
— É isso mesmo. Estou precisando de um namorado há muito tempo, só estou sendo o cupido de vocês assim não dá. – disse ela se defendendo.
— Você já tem um namorado. Por sinal falou com ele todo o caminho.
— Veja bem cara Anne. Ele não é bem um namorado. É o cara da festa. Não é sério. Se fosse eu não estaria tão empolgada aqui. Quantos surfistinhas têm nesse lugar? Quatro por metro quadrado? Minha nossa!
— Você não tem jeito mesmo. Onde está seu vestido rodado mesmo?
— Cala a boca Anne!
Meu pai dirigia um Fiat Doblo Adventure, por isso cabíamos todos nós no carro junto com as malas. Chegamos por volta das 16h e fomos desfazer nossas malas e comer alguma coisa.
Fazia anos que não ia a Búzios, não me recordava de muitas coisas, mas a casa era inesquecível, estava do mesmo jeito que da última vez há doze anos. Tinha as paredes de madeira, e na parte de dentro tinha um tom amarelo bem clarinho quase bege, com móveis brancos e chão de madeira na cor marrom bem escuro. No canto da sala havia uma escada arredondada, que levava para o segundo andar onde havia os quartos, os banheiros, a biblioteca e a sala de TV. Na parte de baixo havia a sala de jantar, a cozinha, a sala de estar e a de jogos. Na parte de fora ficava a varanda, a piscina e o jardim.
Fizemos o lanche na varanda próximo a piscina. Quando anoiteceu alguns amigos dos meus pais que moravam perto foram nos avisar que havia um luau e que podíamos dar uma passada e nos divertirmos um pouco enquanto os meus pais jantavam na casa deles. Meus pais aceitaram o convite e eu e as garotas fomos à festa.
Na festa havia uma banda local que tocava muito, e começamos a falar com uns meninos que moravam lá. A Glória deu a sorte de rever um dos garotos que ela achou gatinho quando chegamos a Búzios e começou a falar com ele.
Eu e a Anne começamos a conversar com uns meninos que nos acompanharam para não nos perdermos. Comecei a conversar com o Marcus, um deles.
— Oi, tudo bem? Meu nome é Marcus. – disse ele
— Oi, sou a Charlotte, tudo bem sim. – disse.
— Que tal se nós formos passear pela beira da praia. – disse ele.
— Boa idéia. Vamos meninas. – disse.
— Vamos sim. – disse Glória já caminhando na frente com o carinha que se chamava Júlio. As outras a seguiram me deixando pra trás com o Marcus.
— E aí você mora aqui? – disse ele.
— Não estou aqui de férias. Meus pais têm uma casa aqui e resolvemos vir pra cá, sabe sair um pouco da rotina. – disse.
— Bem que percebi, iria lembrar de você se a tivesse visto antes. – disse ele.
— Bom, isso quer dizer que teria uma boa memória. – disse.
— É realmente tenho. – disse ele. – Meus pais também vieram para cá para sair da rotina e acabaram ficando permanentemente. – disse ele rindo.
— Bom, tenho certeza que isso não vai acontecer conosco, o lugar é lindo, mas minha mãe adora o Rio e eu vou sair em viajem então não vou ficar por aqui por muito tempo. – disse.
— Sério? E para onde você está pensando em ir? – disse ele.
— Londres.
— Uau! Vai a passeio espero.
— Não. Vou fazer meu último ano lá e fazer universidade também. Mas porque você esperava que não fosse assim?
— Porque o Brasil iria perder uma de suas garotas mais belas.
— Obrigada. Mas você já foi a Londres?
— Eu estive lá no ano passado pra passar as férias com meus pais. É um lugar muito bom se pudesse teríamos ficado lá também, espero que se divirta.
— Obrigado.
Ficamos conversando e curtindo a festa até o dia o sol começar a nascer. A festa foi acabando pouco a pouco e voltamos para casa. Nos demais dias a nossa rotina era acordar cedo para aproveitarmos o lugar, curtir a praia e a galera que conhecemos.  Tirávamos várias fotos e depois quando voltávamos para casa íamos pra parte da piscina e continuávamos a bagunça. Tinha que aproveitar bem o sol, pois um sol como aquele eu não iria ver mais por muito tempo. Estava acabando. Teria que me acostumar a uma nova vida daqui para frente. Esse sol, essa farra, meus pais, minhas amigas. Tudo iria ficar para trás pelo menos por parte da minha vida. Seria uma ótima oportunidade que talvez não tivesse novamente, mas seria doloroso deixar tudo que eu amo para viver sozinha num lugar desconhecido. Seria uma barra no inicio, mas me adaptava com facilidade a diversas situações. Foi assim sempre e o exemplo mais recente foi o Pietro. Esse é outro que nunca mais queria ouvir o nome. Não por raiva nem nada, mas meu orgulho foi ferido e minha confiança foi traída, ele não merecia mais nem que eu passasse na mesma rua que ele.
Faltando uma semana como o combinado, estávamos no aeroporto esperando o meu avião estar pronto para decolar. As meninas e minha mãe estavam numa choradeira só, mas sabiam que era o que eu queria e me apoiavam.
— Char, vou sentir sua falta, amiga. – disse Anne.
— É Char, quem vai me ajudar a estudar para as provas? – disse Julie.
— O pior quem é que vai me ajudar a pôr juízo na cabeça dessas meninas, hein? Nossa gente vai ser melhor para ela se ela for. – disse Glória.
— Nossa Glorinha você está sendo tão fria. – disse Julie.
— A fria da história sempre sou eu, mas preciso admitir que você passou do ponto Glorinha.
— Não estou sendo fria, Anne estou sendo realista. Ela será feliz lá e nós seríamos as pessoas mais egoístas do mundo se impedíssemos que ela fosse.
— Gente, vamos parar, realmente alguém tem que pôr juízo na cabeça de TODAS vocês. —  disse eu rindo. – Glorinha eu sei que você vai se dar bem nessa tarefa, amiga.
— Tá bom Char, você sabe que eu sempre consigo. — Disse Glória sorrindo.
A atendente começou a chamar as pessoas para entrarem no avião. E eu me despedi da minha família e dos meus amigos.
— Tchau, Charlotte, tenha uma boa viagem. – disse David.
— Tchau Charlotte. Tomara que tudo dê certo. – disse Júlio.
— Tchau filha. – disse minha mãe meio chorosa.
— Boa viagem. – disse o meu pai.
— Tchau Char. – disseram as meninas em uníssono.
— Mande notícias, cartões postais, fotos dos lugares, da escola, dos gatinhos, dos ficantes, peguetes, de tudo. Por favor. Não se esqueça de nós nunca. Nunca.
— Nunca, Julie. Jamais. Vocês são minhas melhores amigas, minha família. Eu amo vocês. Vou mandar notícias sempre. Todos os dias. Amo vocês.
— Meu amor você precisa ir.
— Tudo bem mãe. Amo vocês pais. Tchau gente, amo vocês também... – disse e fui embarcar.
Durante toda a viagem fiquei on-line na minha pagina de relacionamento falando com as garotas. Comia algo às vezes, mas não queria desgrudar delas. Minha mãe estava falando comigo também e foi muito bom me sentir amada e apoiada na minha decisão. Eu precisava fugir daquele lugar. Vivi muitas coisas boas, mas também ruins. Ver lugares novos me faria bem e esse lugar em especial me faria melhor ainda. Eu sentia isso dentro do meu coração e fiquei muito feliz.
A viagem foi tranquila, o voo foi perfeito não teve nenhuma preocupação. Cheguei por volta 15h e fui do aeroporto Heathrow para o apartamento que os meus pais compraram para que eu ficasse. Peguei um táxi — eles chamam o táxi preto de cab — daqueles que parecem carrinhos antigos muito fofos. Pedi para que o motorista fizesse um tour pela cidade. Passei pelo Westminster Palace e vi aquela abadia impressionante, o Big Bang, a Tower Bridgt, o Greenwich Park, a Queen’s House e o National Maritime Museam. Era tudo muito perfeito. Depois fui para o endereço da minha casa. A rua era curvada tinha vários prédios de três ou quatro andares. O meu tinha quatro, mas eu morava no terceiro, quarta janela da direita para a esquerda. Subi as escadas e fui observando as pessoas que passavam: pessoas comuns, com cara de europeu mesmo tipo branca com olhos claros na maioria, roupas leves como as minhas. Eu usava jeans um moletom, um casaco e tênis. O motorista me ajudou a subir com minhas malas. Eram três sendo que duas eram grandes e uma de mão. Paguei a corrida e entrei. Foi muito, muito caro. Meus pais tinham me dado £1000. Sei que era muito para começar, mas eles não me queriam de banco em banco tirando dinheiro. O apartamento era grande. A sala estava mobiliada com um sofá de formato “L” e uma poltrona em bege, um tapete e uma estante baixa para TV e home theater. Um balcão dividia a sala da cozinha que tinha um fogão no balcão, geladeira, que por sinal estava vazia, e armário. O quarto tinha uma cama de casal, guarda roupas, cômoda, tapete e um banheiro simples com uma banheira. Uma vez vi num filme um cara dizendo que Londres era uma cidade de prostitutas e gays. Eu realmente precisava tirar isso a limpo então larguei minhas malas lá e fui passear a pé pelo meu bairro para conhecer afinal tinha que me socializar.
Andei por muitas ruas e encontrei um café muito legal. Tinha um balcão muito grande de um canto para o outro e várias mesas com grandes bancos. Era charmoso. Comi alguma coisa por lá mesmo. Era deliciosa a comida então resolvi que comeria lá todos os dias de noite. Resolvi voltar para casa, pois já era tarde. Saí de lá e virei uma esquina. Andei alguns metros e algo me chamou atenção. Ou melhor, alguém. Um cara estava de costas entrando numa loja. Ele tinha um cabelo preto no ombro preso com uma tira de pano e vestia uma camisa azul gasta e uma calça preta rasgada. Ele era alto e andava máscula e formalmente. Estava muito, muito sujo e parecia um mendigo, mas era lindo de costas. Fiquei parada por alguns instantes olhando aquele estranho tão lindo e continuei caminhando. Não fazia sentido ficar lá parada, mas ele realmente me chamou a atenção. Cheguei a casa e tomei um bom banho. Comecei a desfazer minhas malas e fui arrumando no guarda roupas. Dormi na metade. Já era muito tarde e estava cansada demais tanto pelo passeio como pelo fuso horário.

Nana&Karol

Capítulo 7



Corri descompassadamente até a casa da Verônica procurando não passar por ruas movimentadas. Escolhi becos e vielas para não chamar atenção com a minha aparência e estado. Não me sentia cansado apesar de ter corrido a noite inteira e ter passado por tantas coisas estranhas, mas me sentia confuso, triste, sem chão. Meus pais achavam que eu estava morto! A esse pensamento chorei mais descontroladamente e corri com mais fúria. Cheguei à mansão e encontrei tudo trancado e escuro.
— Verônica! Apareça, por favor. Verônica —  eu gritava por ela —  Verônica!
Cheguei mais perto do portão e vi uma plaquinha onde estava escrito:

“Mudamo-nos. Favor endereçar a correspondência para a caixa postal que segue abaixo...”

Sentei-me em frente ao portão e continuei chorando. Não sabia mais o que fazer da minha... morte? Seria isso? Minha mãe desmaiou quando me viu e estava nesse momento se convencendo que eu nunca mais voltaria porque estava morto. 
Essa palavra me assustava mais que “especial”. Até a Verônica me abandonou. Porque ela se mudou? Será que quis se livrar da minha lembrança? Levantei e andei por ruas mais calmas como antes. Entrei numa viela onde ficava o fundo de uma boate.
— Me larga cara! Eu já falei pra você parar. Se você não tem grana então nada feito.
— Qual é baby, vamos lá. Depois você nem vai se lembrar do dinheiro.
— Já disse que não. Sem grana, nada feito.
A prostituta empurrou o cara que estava totalmente bêbado. Não sei como ela se equilibrou porque além dele ser alto, gordo e estar babando em cima dela, ela usava uma bota até o joelho com um salto tão fino que me pareceu impossível de ser usado. Tinha um cabelo longo e loiro amarrado em um rabo de cavalo e vestia um vestido preto brilhante como plástico que ia até a metade da coxa, sem alças, aberto até o umbigo e fechado nessa parte com tiras cruzadas. O cara cambaleou para o outro lado, mas ainda alcançou o cabelo dela e puxou. Ela voltou-se para ele e cuspiu em seu rosto. Ele lhe deu um tapa no rosto que a fez cair no chão com a mão na face dolorida.
— Seu filho da...
— Ei, para com isso. Deixe-a em paz.
— Qual é garoto, vai querer encarar? Vai defender essa vadia?
— Sai daqui moça. Vai embora, rápido.
— Obrigada garoto, cuidado. —  ela levantou-se e saiu correndo.
— Você me fez perdeu uma ótima noite. Vai me pagar caro seu idiota.
Ele veio cambaleando para cima de mim e me deu um soco, mas eu só inclinei a cabeça para trás. O homem segurou a mão machucada e me xingou. Veio para cima de mim novamente dando socou no ar enquanto eu me esquivava até que girei por baixo do braço estendido dele e dei-lhe um soco no nariz. Aprendi na segunda e última aula de luta do colégio. Tinha quinze anos e cheguei naquele dia com o nariz quebrado em casa e minha mão ficou louca quando me viu. Disse que eu nunca mais poria os pés naquela aula. Foi aí que entrei para o futebol. Ele tombou com a mão no nariz ensangüentado e recostou-se na parede.
Não sei como aquilo aconteceu comigo. Olhei para minha mão suja de sangue dele e tudo aquele sentimento de fome, sede e angustia que senti quando pessoas se aproximavam voltou só que com mais intensidade, mais forte. Os pêlos do meu copo se eriçaram, salivei, minha visão ficou mais aguçada, clara e eu o vi cheio de sangue nas mãos. Ele estava a uns dois metros de distância de mim. Lambi o sangue dos meus dedos e senti como se estivesse há vários dias sem beber água e de repente começasse a chuviscar, limpando minha garganta, começando a matar minha sede.
Mas era só um chuvisco. Eu queria uma tempestade. Cortei a distância que havia entre nós e vi a pulsação no pescoço dele. Senti que havia vida ali e eu precisava de vida. Cravei meus dentes no pescoço dele e senti um sabor inigualável. Era doce, quente, aveludado, singular. Tinha gosto de álcool, mas isso não me fez parar. Comecei a “ver” coisas: um casal de idosos, um balcão, uma praia, uma mulher jovem e bonita, um casamento singelo, mas feliz, uma casa modesta, crianças, mais pessoas, risos... Era como se eu estivesse vivendo aquilo tudo.
Continuei sugando e me lambuzando em sangue até que não senti mais nada saindo do corpo. Retirei meus dentes do pescoço do homem que caiu pálido e desfigurado no chão. Seu rosto estava contorcido numa expressão de dor e seu pescoço estava em frangalhos como se um animal feroz o tivesse atacado. Havia sangue ao redor do ferimento.
Passei a mão assustado pelo cabelo e senti que estava pastoso. Estava grudado no meu rosto, no meu pescoço, lambuzado de sangue. Passei a mão pelo rosto e estava na mesma situação. Rasguei a camisa dele e limpei minha face. Alisei meu cabelo para trás e amarrei com uma tira de pano. Minha roupa estava suja. Não iria adiantar nada sair daquele jeito por aí.
Eu parecia uma besta. Sai correndo tentando me esconder nas sombras e encontrei um galpão abandonado. Havia alguns garotos, mas entrei fazendo barulho e eles fugiram. O lugar cheirava a bebida e cigarro e parecia uma antiga oficina. Havia uma porta quebrada no fundo, manchas de óleo misturado com sujeira no chão, pneus velhos encostados nos cantos formando bancos, algumas ferramentas avariadas, latas, plástico e muitas garrafas de cerveja e pontas de cigarro no chão. Tinha uma escadinha no canto direito que dava para uma porta lá em cima. Passava das cinco e meia.
Logo amanheceria e a claridade começou a me incomodar. Fiquei encolhido num canto tentando entender o que aconteceu. Até chegar lá eu agi com frieza o suficiente para não ser descoberto, mas agora eu estava entrando em pânico. Bebi sangue, matei um homem. Não sei o que era pior. Estava transtornado e não tinha ninguém para me ajudar. Não sentia sono, nem cansaço, nem vontade de ir ao banheiro, nada; só sentia um vazio dentro de mim.
Comecei a chorar. Chorei até não ter mais lágrimas. O que eu faria? Para onde iria? Em quem confiaria se nem em mim mesmo eu poderia confiar? As respostas para essas perguntas estavam fora do meu alcance.
Fiquei lá recostado tentando descobrir uma forma de levar minha vida à frente. Amanheceu. A luz entrava pelas frestas me deixando quase cego. Meus olhos ardiam muito e estava impossível abri-los. Pus a mão na frente e fiquei de cabeça baixa. Fui apalpando os lugares para encontrar algo que pudesse me ajudar. Encontrei a porta que vira antes e a abri. Dava para um lugar mais escuro que era como um banheiro. O cheiro era péssimo e meu nariz ardeu.
Tirei a mão dos olhos e tapei o nariz. Olhei em volta havia um vaso sanitário entupido e um chuveiro pingando sem parar. Havia um espelho quebrado em vários caquinhos pelo chão. Apanhei um pedaço maior e me olhei mais detalhadamente que na cabana. Estava deplorável. Meu cabelo sujo de sangue empastado para trás, meu rosto com manchas avermelhadas já que o sangue não saiu totalmente. Meus olhos não estavam mais brancos, estavam azuis como sempre foram o que me fez duvidar se eles realmente tinham mudado alguma hora. Minha camisa era escura, mas ainda assim era claro que não estava limpa. Tinha manchas de sangue e sujeira da estrada. Minha calça estava rasgada na barra das pernas. Meu sapato cheio de lama. Abri o chuveiro e a água caiu forte. Arranquei minhas roupas e entrei debaixo da água. Tirei o pedaço de pano que prendia meu cabelo e deixei a água cair sobre mim levando embora aquele sangue que agora me parecia nojento. Chorei novamente vendo a água vermelha cair no chão sujo até que não houvesse mais sinal de sangue.
Peguei minha camisa e a lavei depois me esfreguei com ela. Fiquei lá por mais uns dez minutos. Saí, vesti a cueca e a calça, calcei os sapatos e deixei a camisa num canto para secar. Sentei-me do lado de fora, perto da porta do banheiro e fiquei observando o lugar. Tapei os olhos de forma que só pude ver o que estava pouco à minha frente e andei até a escada. Subi e abri a porta. Era uma sala, um escritório. Ou melhor, foi um. Havia uma mesa e dois arquivos aberto e cheios de papel rasgado, uma cadeira sem encosto e uns objetos no chão: mais papéis rasgados, uma carteira aberta e vazia, cartuchos de bala e uma jaqueta num canto.
O chão estava mais limpo que lá embaixo, mas havia muitas teias de aranha. Não tinha janelas e decidi que seria o lugar mais limpo e escuro que eu encontraria a essa hora. Fechei o arquivo, sentei na cadeira e me encostei a ele. Não tinha nada para fazer a não ser pensar na minha situação. Certamente não era algo agradável então comecei a ler os papéis que estavam inteiros. Eram faturas de compra e venda de peças de carros, anotações sobre prováveis fregueses, folhas de um livro caixa antigo, recortes de notícias de jornal... entendi que a oficina tinha falido e que fora abandonada passando a ser um esconderijo para jovens fazerem coisas ilegais. Passei a manhã e a tarde concentrado nos papéis, tentando juntar pedaços e ler o que dava.
            Organizeis algumas coisas nos arquivos, mas era muita coisa. Quando percebi estava escurecendo. Devia ser por volta das cinco horas. Decidi descer e observar melhor o lugar já que não estava me incomodando tanto mais. Fiquei lá, olheis os pneus, movi alguns de lugar e fiz ficar de um jeito mais confortável. Estava gostando dali. Eu estaria sozinho de qualquer forma então seria melhor que fosse num lugar onde estivesse em paz, sem precisar fugir nem esconder meu rosto. Fui ao banheiro, dei uma olhada e percebi o quão imundo ele era. Precisaria de uma boa limpeza. Estava lá pensando quando escutei um barulho.
A porta pela qual entrei que ficava no canto de um grande portão de correr abriu e por ela entraram quatro pessoas. Duas garotas e dois garotos. Uma das meninas tinha um cabelo preto curto repicado nas pontas com mechas loiras e usava um vestido cinza até o joelho. No final formava uma pequena saia de babados com desenhos geométricos em tom sobre tom de roxo com um casaco preto com correntes e argolas penduradas, luvas cinza, uma meia calça roxa e botas de combate de camurça preto.
A outra tinha o cabelo longo vermelho sangue com mechas pretas e usava uma saia de prega xadrez vermelha baixa até a metade da coxa com uma corrente pendurada do cós atrás, meia de arrastão preta, botas cinza dégradé de salto médio até o joelho com vários adereços circulares prateados, uma blusa azul marinho com estampa de caveira em branco caída no ombro e que deveria mostrar a barriga. Mas ela também usava uma blusa apertada branca por baixo da azul e um casaco estilo esquimó preto.
Ambas usavam maquiagem escura e tinham piercings espalhados pelas orelhas, narizes e sobrancelhas. O cara que abraçava a garota de vestido usava uma touca e uma calça jeans preta caída com um cinto de corrente, uma camiseta do Iron Maiden, um casaco marrom e botas de cano baixo e largo aberta. O outro tinha um moicano com mechas em vermelho e laranja parecendo fogo, usava uma camiseta preta comum com um casaco grosso e também marrom por cima com uma calça azul escuro rasgada na perna e tênis. Ambos tinham alargadores, piercings nos lábios e no supercílio e não tinham luvas. Todos traziam em suas mãos garrafas de cerveja e cigarros. Riam e falavam alto e cambaleavam abraçados. Beijavam-se e lambiam-se vulgarmente. Não tinham me visto. Ainda.
— Qual é cara. Você pegou sim a Lizzi. Não vem pra cima de mim com essa.
— Não peguei. A gente só... saiu.
— Mentira sua Adrian. Eu te vi com ela, confessa.
— Tá a gente se pegou na festa da Z. Mas não foi nada demais.
— Qual é não foi? A garota ta de quatro atrás de você. Faz tudo que você quer.
— Eu não tenho culpa se ela nunca tinha visto um cara como eu.
— Não se acha ta, Adrian. Você nem é tudo isso.
— Qual é Sam, vai me tirar agora?
— Ela tem razão Adrian, você não é tudo isso que fala.
— Olha cara, se eu fosse você desistia. Até a Miley!
— Se toca Noah. Cala a boca.
Eles continuavam entrando devagar e rindo do cara que se chamava Adrian —  o do moicano. Eu fui andando até eles.
— Saiam daqui.
— Olha só o cara, Noah. Ta querendo zoar cara? Esse lugar é nosso.
— Não, não é. Esse lugar é meu e vocês vão sair daqui agora.
— Vamos nessa Adrian, deixe essa cara aí.
— Não vamos a lugar nenhum. Nós freqüentamos esse lugar desde sempre. Não é esse cara aí que vai nos tirar daqui.
— Tem certeza disso?—  eu disse ameaçadoramente.
— Vai querer brigar cara?
— Pára Noah, vamos nessa. —  disse uma das garotas puxando-o pelo casaco.
— Não, eu quero ficar e vou ficar, e se esse cara quiser tirar a gente daqui vai ter que brigar. Somos dois, você é só um. Então vai encarar?
— Eu não quero brigar, só quero que vocês saiam daqui. Não será difícil encontrar um lugar para beber e fumar.
— Não vamos sair daqui cara!
— Se vocês não vão por bem, vão por mal.
Rodei nos calcanhares e empurrei os caras que estavam sendo segurados pelas garotas. Eles caíram se levantaram rapidamente. Correram para cima de mim e tentaram me dar socos, mas só acertavam o ar. Desviei dos socos com agilidade e peguei nos braços deles e os empurrei de novo. As garotas choravam e davam gritinhos cada vez que eu fazia algo com eles, mas não fizeram nada para impedir. Os caras, caídos no chão as chamaram e elas os ajudaram a se levantar.
— Isso não vai ficar assim ta cara. Ns vamos voltar.
— Façam como quiserem, mas já dei meu aviso. Vocês não serão mais pegos de surpresa.
Eles saíram correndo e eu fiquei lá olhando para a saída. Percebi que a carteira de um deles tinha caído no chão. Peguei a carteira e abri. Havia uma carteira de motorista, uma identidade e umas £120. Certamente não sairia e diria: “Ei cara, quando estava te dando uma surra sua carteira caiu. Vim te devolver”. Então compraria algo com aquele dinheiro que eu estivesse precisando. E o que eu não estava precisando. Teria que me virar. Vesti minha camisa que estava seca a essa altura e saí para dar uma volta. Não me sentia faminto como ontem. Nem sentia tanto desejo quando sentia pessoas se aproximarem, mas mesmo assim resolvi não dar chance para que tudo aquilo se repetisse. Andei por ruas menos movimentadas procurando alguma loja de departamento ou de conveniência onde pudesse comprar umas coisas. Vi várias. Devia ser perto das sete e muitas coisas estavam abertas. Entrei em um pequeno brechó onde parecia vender de tudo até peças para aeronaves. Ri a esse pensamento, mas fui interrompido.
— Olá, em que posso ajudar?
— Olá quero comprar, hum, roupas e produtos de higiene.
— Tudo bem, pode me acompanhar?
— Claro.
A moça que me atendeu era morena, tinha olhos castanhos escuros, redondos e marcantes, um belo sorriso, um cabelo curto e usava uma franja de lado. Usava uma camiseta com o nome da loja, um casaco azul claro por cima, calça jeans, sapato fechado e um avental. Andava graciosamente. Levou-me até uma sessão onde havia roupas e me mostrou que do outro lado ficavam os produtos de higiene.
— Obrigada. Daqui eu me viro, pode deixar.
— De nada, estou aqui para isso. Se precisar de algo é só me chamar.
— Tudo bem. – ri para ela de forma amena, mas percebi que ela tremeu rapidamente apesar de ter retribuído meu sorriso.
Virei-me e ela saiu apressada. Olhei em um espelho que estava pendurado. Eu não estava em boa aparência, mas também não estava tão ruim a ponto de assustar a moça. Sorri tristemente para mim mesmo e percebi que meus dentes estavam muito mais brancos que o comum (não que já não fossem brancos) e eu parecia assustador sorrindo. Não exatamente assustador, mas perigoso. Meus olhos se afiavam e em meus dentes pareciam ter escrito “cuidado” neles. Fiquei pasmo por um segundo, mas voltei meu pensamento para as compras. Não tinha cartão e só tinha pouco mais de £100 então teria que economizar. Peguei um par de calças jeans, uma marrom-escura e uma preta, três camisas, uma preta, uma azul clara e uma cáqui e cuecas. Fiz as contas mentalmente e daria um £105. Soltei a camisa cáqui e fui pegar produtos de limpeza. Peguei sabonete, sabão e um esfregão. As compras deram £115. Ainda sobrou £5, mas resolvi guardar caso precisasse depois. Voltei pro galpão, deixei as compras guardadas no arquivo e fui dar uma volta. Andei pela noite muito calmamente, agora que eu não sentia frio era melhor para ver as coisas. Andei a noite toda. Vi um cara vendendo óculos na rua.
— Qual o preço?
— £10.
— Só tenho £5.
— Problema seu, vaza.
— Você não acha melhor £5 que nada? —  lembrei-me de como meu sorriso parecia assustar as pessoas e dei um sorriso de canto de boca para ele. O cara me olhou confuso.
— É, é sim. Pode escolher. – peguei o que parecia mais escuro e saí andando com ele no bolso na camisa. Observei as ruas e a cidade como nunca fizera antes. Sempre fiquei restrito ao meu círculo e aos meus amigos, protegido pela minha mãe e em conseqüência pelo meu pai. Nunca havia visto realmente por onde andava, nunca prestei muita atenção. Sempre sabia para onde ia, sempre andei de carro. Agora eu via por onde andava, observava as pessoas, o jeito, os cheiros, os lojas, o céu, todos os detalhes. Quando parei de caminhar deveria ser umas quatro e meia, por aí. Tinha que voltar antes que amanhecesse. Andei mais rápido. Passei por um grupo de adolescentes que deviam ter suas mães loucas a essa hora e me bati com um deles.
— Olha aí cara, você derrubou minhas coisas.
— Desculpe-me, não foi minha intenção. Eu pego para você.
Quando me abaixei para pegar as coisas, vi que se tratava de revistas e gibis. Olhei uma delas mais atentamente.
— Essas revistas lhe serão úteis?
— Não. Ia leva-las para vender em algum lugar, mas não achei ninguém que quisesse.
— Posso ficar com esta aqui?
— Vá em frente. Isso agora é só lixo.
— Obrigado e novamente me desculpe pelo esbarrão.
— Tudo bem.
Corri para o galpão e subi para o escritório. Sentei na mesma posição de antes e folheei a revista. Falava sobre criaturas místicas e estranhas, mas o que chamou a atenção foi a capa onde estava escrito: “Vampiros: Sanguessugas Noturnos”. Procurei essa parte e quando encontrei comecei a ler atentamente:

“...Vampiros são criaturas essencialmente noturnas que se alimentam de sangue, seja ele humano ou não. Esses seres são geralmente impedidos de sair ao sol por causa da sua pele e olhos sensíveis. Há inúmeras lendas que falam sobre tipos de vampiros. Em algumas eles formam clãs, em outras comunidades e em outras são nômades. Em certas lendas eles necessitam de sangue regularmente, em outras passa-se até uma semana ou mais sem se alimentar. Outra coisa que varia é a forma de transformação. Pode ser por mordida do vampiro, por simples troca de sangue ou quando o vampiro suga quase todo o sangue e transfere parte do seu para a vítima. A vítima pode demorar minutos, dias, ou semanas para mudar totalmente e pode ser de forma tranqüila ou extremamente dolorosa. E além de tudo isso, a transformação trás consigo alguns poderes. Talvez não sejam exatamente poderes, mas seus sentidos e força são aumentados. A audição, visão e olfato ficam várias vezes mais aguçados (daí a sensibilidade a muita luz, barulho excessivo e fortes cheiros). Com isso a percepção de sangue (sua fonte de sobrevivência) fica mais clara podendo-se chegar a sentir o cheiro do sangue de dentro das pessoas. As lendas são inúmeras e de vários tipo, mas o que todas elas tem em comum é que sem sangue, os vampiros viram bestas, saem para caçar e não importa quem apareça em sua frente: eles não verão nada a não ser uma fonte de alimento. ”

Parei por aí. Essa revista parecia contar minha vida nas últimas três semanas. Perdi duas delas, mas agora tinha uma pista do que aconteceu. Comecei a fazer analogias entre o que li na revista e o que me aconteceu de ontem para hoje. Consegui quebrar a porta de madeira da cabana que estava trancada, corri até chegar aqui sem me cansar, ouvi minha mãe e a conversa dela com meu pai dentro de casa, quando ela não me ouvia, não conseguia abrir os olhos na luz; o cheiro do banheiro me pareceu ácido injetado no nariz e senti o cheiro das árvores, animais que estavam longe e do sangue das pessoas fora que vi a veia pulsando no pescoço daquele homem. Tudo isso sem contar que bebi o sangue dele e foi... estupendo. Essa revista me descrevia totalmente. A única parte que não me lembrava é da transformação. Nem um flash, nada. Agora já devia ser de manhã. Estava confuso, mas ao mesmo tempo aliviado em saber que as coisas estavam ficando mais claras. Desci e resolvi dar uma limpada no galpão. Como a claridade me incomodava pus o óculos e melhorou. Fui ao banheiro, lavei-o até ficar aceitável, depois procurei alguma coisa que me ajudasse com a luz. Achei latas viradas de óleo e graxa. Abri uma delas com a mão e mistureis os restos. Passei nos pedaços de vidro que sobraram das janelas e o resto cobri com os plásticos que estavam no chão. Subi e olhei atentamente. Já tinha organizado os papéis só faltava limpar o chão. Olhei bem o esfregão que estava na minha mão e olhei o chão. Não teria mais o que fazer então deixei a preguiça de lado e comecei a faxina. Tirei as teias de aranha, limpei o arquivo e a mesa e varri o chão. Quando acabei de limpar tudo já era de tarde. Devia ser umas três, então desci, e olhei bem. Ainda faltava limpar a parte de baixo. Comecei a limpar perto do banheiro para que quando entrasse não sujasse tudo. Logo era noite e precisava sair um pouco para me distrair. Devia ser umas cinco ou seis horas. Tirei a tira de pano do cabelo e deixei-o livre. Passei a mão tentando desgrenhá-lo um pouco e respirei fundo. Ouvi um barulho na porta. Eram os garotos da noite anterior. Senti pelo cheiro, mas eles não estavam sozinhos. Devia haver... eles com... dois outros garotos. Não havia meninas com eles. Eles entraram e começaram a gritar.
— Ei cara, onde você está? Aparece!
— Estou aqui, o que vocês querem, eu disse para não voltarem. Vocês já foram avisados.
— Olha só o cara. – todos riram sarcasticamente —  tá se achando. Quero ver você encarar nós quatro.
Eles estavam com paus, tacos e um deles, o que parecia mais velho, portava uma arma. Os garotos com os paus vieram para cima de mim. Esquivei-me de todos os golpes e acertei um no nariz como fiz com o gordo no beco, um no estomago e um na curva da perna, atrás do joelho, tão rapidamente que eles nem puderam me ver totalmente para se defender. O que estava armado estava atônito. Peguei o que soquei no nariz que era o que estava menos pior e o segurei com o braço para trás.
— Solta ele cara se não eu atiro em você.
— Sério. Você vai atirar mesmo?
— Tô falando sério. Larga ele!
— E se eu não fizer o que você esta pedindo?
— Eu já disse que atiro.
— Vai em frente. 

Nana&Karol

12 agosto, 2012

Capítulo 6


Abri os olhos lentamente, pisquei muitas vezes tentando me acostumar com a claridade e vi tudo passar de turvo a perfeitamente claro em poucos instantes. Tentei me levantar, mas minha cabeça parecia pesada demais para se apoiar no meu pescoço e caí. Fechei os olhos e levei a mão à cabeça muito rapidamente para quem acaba de cair numa...cama. Tentei me sentar dessa vez mais cuidadosamente e consegui. Olhei em volta. Vi que estava sentado numa cama. Havia uma cadeira, um criado mudo ao lado com um copo vazio e uma janela trancada com inúmeros cadeados. O quarto era rústico.
Eu estava vestido com a mesma roupa do jantar, mas sem meu relógio e sem a corrente que minha mãe havia me dado no meu último aniversário com um pequeno pingente oval onde estava escrito meu nome. Passei a mão pelo cabelo que estava desgrenhado e levantei da cama. Andei cambaleando um pouco até chegar a uma porta. Abri-a e vi outro cômodo parecido com uma sala. Havia um sofá de canto grande, uma mesa de centro, uma estante com uma TV enorme e vários DVDs e uma bancada que dividia a sala da cozinha. A cozinha tinha um armário, uma geladeira e um fogão de quatro bocas. Desci o batente que separava o quarto do resto da casa. Vi outra porta na lateral e olhei.
Era um banheiro comum e não muito grande. Andei até a porta principal e vi que estava totalmente trancada como a janela do quarto e as do resto da casa. Tinha uns papéis no chão perto da porta. Abaixei-me e peguei eu conseguia ver nitidamente apesar da claridade ainda me incomodar. Não sei por que se a casa estava toda fechada e quase não havia luz dentro dela. Os papéis eram panfletos ofertando guias para trilhas e equipamento para escalada.  O panfleto era datado de treze de março, duas semanas depois do dia da festa e não parecia novo, estava pisado e com marcas de lama. Havia duas semanas ou mais que eu estava fora de casa. Sentei-me no sofá ainda atordoado e tentei organizar minhas ideias para entender o que aconteceu.
A última coisa de que me lembro é de ter ganhado um carro do meu pai como presente pela minha aprovação na faculdade e de estar indo para a casa da Verônica para um jantar. Não me lembrava de ter chegado nem de mais nada, só de acordar naquela cabana. Fui ao banheiro não por necessidade, mas para tentar encontrar um espelho para ver como eu estava. A visão que tive me deixou mais assustado do que qualquer vez em que já estive na vida. Meu cabelo estava totalmente bagunçado —  mas isso eu já esperava — , meus olhos estavam esbranquiçados e alarmados e qualquer vestígio de azul sumira.
Abri a boca num susto e percebi que meus caninos estavam pontiagudos. Afastei-me do espelho atordoado e corri para a porta. Inútil, estava trancada. Passei a mão pelo cabelo e senti algo como uma marca no meu pescoço. Corri de volta para o banheiro e afastei o cabelo da nuca. Havia duas marquinhas vermelho-púrpuras rodeadas com manchinhas num tom de roxo quase nulo. O vermelho era sangue coagulado, pois também estava em todo o meu pescoço. Saí correndo para a porta novamente dessa vez desesperado e esmurrei-a sem esperanças de abrí-la, mas com toda a força que eu consegui reunir. Os trincos e a porta quebraram e voaram pedaços de madeira para longe.
Estava começando a escurecer, mas a luz quase me cegou. Coloquei a mão nos olhos e aos poucos consegui ver que tinha árvores por perto, muitas árvores. Eu corri entre elas sem saber onde estava nem para onde ia chorando compulsivamente. Meu cabelo batia nos meus olhos que eu não queria lembrar que estavam brancos e grudava no meu rosto. Eu passava a mão tentando me livrar dele e corria cada vez mais rápido como se eu pudesse escapar de mim mesmo. Corri e chorei como se isso fosse me fazer voltar ao normal.
Queria ir pra casa e encontrar meus pais que certamente me ajudariam a entender o que aconteceu comigo. Corri mais ainda com essa ideia na cabeça e encontrei uma estrada. Corri pela estrada na esperança de encontrar um carro para pedir carona. Depois de mais ou menos cinco quilômetros correndo —  não me pergunte como, pois nem eu sabia de onde estava vindo toda aquela disposição —  vi uma luz. Era um caminhão. Parei e acenei loucamente para ele. Graças a Deus ele parou.
— Garoto o que você faz aqui sozinho? Está escurecendo.
— Eu não sei. Eu acordei numa cabana e consegui chegar até aqui.
— Mas não tem cabanas, casas nem nada parecido nessa área.
— Eu corri até chegar a essa estrada.
— Mas a única área na qual você poderia ter estado era a reserva e fica a muitos quilômetros daqui.
— Eu não sei onde estava. Só quero sair daqui.
— Tudo bem, vou te dar a lanterna pra você subir no caminhão pelo outro lado. Tem uma parte quebrada e está escuro. Você pode se machucar. – ele pegou uma lanterna e balançou, depois acendeu. E se inclinou para me entregar. —  Oh meu Deus o que...
Ele deixou a lanterna cair e acelerou o caminhão saindo em disparada. Chorei. Por frustração, ódio, medo, desesperança. Lembre-me de como devia estar minha aparência e aceitei o fato de que eu não conseguiria carona, teria que andar. Não me sentia cansado de forma nenhuma. Acho que a corrida me fez bem. Não sentia minha visão turva nem meus olhos doíam. Respirei fundo, senti o cheiro da noite, reconheci odores diferentes: pneu, asfalto, terra, plantas, animais... sangue. A esse pensamento eu salivei como se estivesse diante de um banquete. Assustado eu corri na direção que estava antes de pedir carona. Corri muito. Parava às vezes, mas quando sentia que havia pessoas por perto eu corria novamente por duas razões: primeira que eu os assustaria novamente como fiz com o caminhoneiro. Depois, que cada vez que eu sentia alguém se aproximar eu só conseguia sentir cheiro de... sangue. E não só isso. Eu gostava, salivava e isso me fazia ter medo de mim mesmo. Nessas vagas horas eu corria até não sentir mais vontade de...comer. Só isso me vinha na cabeça. Comer. Mas comer o que se nada me lembrava comida?

***
Eram mais ou menos quatro da manhã quando cheguei à minha casa. Havia um jornal em frente à porta. Peguei e vi que era do dia dezesseis de março, quase três semanas depois do dia que recebi a notícia da faculdade. O último dia que me lembro antes de hoje. Ia tocar a campainha, mas vi minha mãe passando pela sala agarrada a um porta-retrato, vestida numa camisola e envolta num roupão. Achei estranho ela estar acordada àquela hora, pois acordava sempre cedo e deveria estar dormindo para descansar. Olhei melhor e reconheci o porta-retrato. Nele tinha uma foto minha vestido para o baile do ano retrasado. Lembro bem daquela noite. Tinha acabado de fazer dezesseis anos e ia para o baile com a garota mais bonita da escola. Jennifer tinha quinze anos, loira, olhos verdes. Vestia um vestido rosa claro curto com alças bem finas enfeitado com babados que iam de pouco abaixo do busto até o final do vestido, na metade da coxa. Do lado esquerdo, no peito, havia uma linda flor com ramos pendurados e detalhes prateados. Calçava um sapato muito delicado rosa choque que contrastava com o vestido. Seu cabelo estava preso num coque perfeitamente desarrumado onde finas e onduladas mechas caiam sobre sua face angelical. Havia presilhas minúsculas e brilhantes no cabelo. Com uma maquiagem leve seu rosto ficou ainda mais puro. Linda. Estávamos juntos havia um mês e nos dávamos muito bem. Antes dela tive várias namoradas casuais, mas nenhuma era tão legal. Depois do baile continuamos juntos por uns dois meses até que ela viajou para os EUA onde os pais dela iam começar num trabalho novo. Foi ruim no início, mas depois vieram outras e a Verônica...
Saí das minhas lembranças com a memória estranha que tive da Verônica. Na verdade não era estranha, foi a primeira vez que a vi na festa, mas ela me pareceu desconhecida. Olhei para o rosto da minha mãe e vi dor. Uma dor imensa e havia lágrimas. Ela chorava muito e olhava para minha foto. Eu senti uma tristeza imensa quando a vi daquele jeito então bati na janela.
--- Mãe. Mãe olha pra cá. Abre a porta, porque você está chorando? Mãe, mãe.
Eu chamava e ela não ouvia. Continuei chamando até que me vi gritando. Ela levantou a cabeça e parou. Acho que me ouviu. Continuei chamando e batendo. Ela se virou para a janela vagarosamente e me viu ali chamando. Eu sorri para ela.
— Mãe o que aconteceu, preciso falar com você. Por favor, abre a porta. Preciso de você.
— Caine, Caine, meu filho você voltou? Você está vivo? Caine!
Ela chorava copiosamente e gritava com uma expressão mista de dor, dúvida, alívio e alegria. Eu não entendi porque ela perguntou se eu estava vivo. Claro que eu estava. Eu passei um tempo fora, mas não morri. Porque ela perguntou aquilo? Daí eu baixei um pouco a vista e vi no aparador um cartão onde estava escrito:

“É com imensa dor que enviamos nossos pêsames pelo falecimento trágico do seu amado e querido filho, Sr. e Sra. Ventrue. Ele estará eternamente vivo em nossa lembrança.
Família Hanson”

Eu não entendi absolutamente nada. Eu vi minha mãe cair no chão, desmaiada e tive impulso de entrar, mas meu pai desceu correndo as escadas e eu tive receio do que poderia acontecer. Sai da janela e fiquei de um lado onde eu não poderia ser visto.
— Lorenna, Lorenna o que aconteceu? —  e quando a viu no chão correu em sua direção pegando-a a o pondo-a no sofá. —  Lorenna o que houve? Acorda, meu amor, o que aconteceu?
— O Caine, eu o vi, ele estava aqui, na janela. Onde está o Caine? Ele subiu? Ele está no quarto? Responda-me Rich!
— Meu amor o Caine não está aqui. Ele não voltou nem poderá. Ele está morto, querida. Já conversamos sobre isso. Eu sinto muito meu bem, mas o nosso Caine não voltará.
Eles choravam a minha perda, mas eu estava vivo. Como poderia? Decidi ir até porta e tocar a campainha. Eles não podiam pensar que eu estava morto. Tropecei em algo e olhei para trás. Era o jornal que eu tinha pegado para ver a data. Ele estava aberto agora na sessão policial. Eu vi a manchete e quase caí para trás.

“Descoberta a causa da morte do adolescente Caine Ventrue”

            Parei abismado diante do jornal e abaixei incrédulo para pegá-lo. Então meus pais estavam falando a verdade? Eu estava “morto”? Sentei na escadinha da entrada e comecei a ler o jornal:

“O estudante Caine Ventrue de dezessete anos foi encontrado sem vida em seu carro numa estrada localizada próximo a sua casa, na noite de vinte e sete de fevereiro do corrente ano quando voltava de uma recepção na casa da sua namorada, Verônica Malkavian. O carro se chocou com uma árvore à aproximadamente 180 quilômetros por hora e pegou fogo. O corpo foi encontrado entre o carro e a árvore totalmente desfigurado e só foi reconhecido pelos pais do jovem, Richard e Lorenna Ventrue por causa de um relógio e uma corrente que o rapaz usava na noite do acidente. O freio travou e o rapaz perdeu o controle do carro até que na curva bateu o carro. Seus pais declararam...”

Já havia lido o bastante. Eu não me lembrava nem de haver chegado à festa quanto mais de ter voltado e morrido. A única coisa que eu sabia era que mataria meus pais do coração se aparecesse sem respostas depois de tanto tempo. Eles enterraram um corpo e choraram uma morte que não eram meus e eu precisava encontrar uma explicação plausível para tudo isso. Eu não poderia continuar sem uma vida, sem meus pais. Precisava de respostas e a única pessoa que me vinha à mente era Verônica Malkavian.

Nana&Karol