Páginas

12 agosto, 2012

Capítulo 6


Abri os olhos lentamente, pisquei muitas vezes tentando me acostumar com a claridade e vi tudo passar de turvo a perfeitamente claro em poucos instantes. Tentei me levantar, mas minha cabeça parecia pesada demais para se apoiar no meu pescoço e caí. Fechei os olhos e levei a mão à cabeça muito rapidamente para quem acaba de cair numa...cama. Tentei me sentar dessa vez mais cuidadosamente e consegui. Olhei em volta. Vi que estava sentado numa cama. Havia uma cadeira, um criado mudo ao lado com um copo vazio e uma janela trancada com inúmeros cadeados. O quarto era rústico.
Eu estava vestido com a mesma roupa do jantar, mas sem meu relógio e sem a corrente que minha mãe havia me dado no meu último aniversário com um pequeno pingente oval onde estava escrito meu nome. Passei a mão pelo cabelo que estava desgrenhado e levantei da cama. Andei cambaleando um pouco até chegar a uma porta. Abri-a e vi outro cômodo parecido com uma sala. Havia um sofá de canto grande, uma mesa de centro, uma estante com uma TV enorme e vários DVDs e uma bancada que dividia a sala da cozinha. A cozinha tinha um armário, uma geladeira e um fogão de quatro bocas. Desci o batente que separava o quarto do resto da casa. Vi outra porta na lateral e olhei.
Era um banheiro comum e não muito grande. Andei até a porta principal e vi que estava totalmente trancada como a janela do quarto e as do resto da casa. Tinha uns papéis no chão perto da porta. Abaixei-me e peguei eu conseguia ver nitidamente apesar da claridade ainda me incomodar. Não sei por que se a casa estava toda fechada e quase não havia luz dentro dela. Os papéis eram panfletos ofertando guias para trilhas e equipamento para escalada.  O panfleto era datado de treze de março, duas semanas depois do dia da festa e não parecia novo, estava pisado e com marcas de lama. Havia duas semanas ou mais que eu estava fora de casa. Sentei-me no sofá ainda atordoado e tentei organizar minhas ideias para entender o que aconteceu.
A última coisa de que me lembro é de ter ganhado um carro do meu pai como presente pela minha aprovação na faculdade e de estar indo para a casa da Verônica para um jantar. Não me lembrava de ter chegado nem de mais nada, só de acordar naquela cabana. Fui ao banheiro não por necessidade, mas para tentar encontrar um espelho para ver como eu estava. A visão que tive me deixou mais assustado do que qualquer vez em que já estive na vida. Meu cabelo estava totalmente bagunçado —  mas isso eu já esperava — , meus olhos estavam esbranquiçados e alarmados e qualquer vestígio de azul sumira.
Abri a boca num susto e percebi que meus caninos estavam pontiagudos. Afastei-me do espelho atordoado e corri para a porta. Inútil, estava trancada. Passei a mão pelo cabelo e senti algo como uma marca no meu pescoço. Corri de volta para o banheiro e afastei o cabelo da nuca. Havia duas marquinhas vermelho-púrpuras rodeadas com manchinhas num tom de roxo quase nulo. O vermelho era sangue coagulado, pois também estava em todo o meu pescoço. Saí correndo para a porta novamente dessa vez desesperado e esmurrei-a sem esperanças de abrí-la, mas com toda a força que eu consegui reunir. Os trincos e a porta quebraram e voaram pedaços de madeira para longe.
Estava começando a escurecer, mas a luz quase me cegou. Coloquei a mão nos olhos e aos poucos consegui ver que tinha árvores por perto, muitas árvores. Eu corri entre elas sem saber onde estava nem para onde ia chorando compulsivamente. Meu cabelo batia nos meus olhos que eu não queria lembrar que estavam brancos e grudava no meu rosto. Eu passava a mão tentando me livrar dele e corria cada vez mais rápido como se eu pudesse escapar de mim mesmo. Corri e chorei como se isso fosse me fazer voltar ao normal.
Queria ir pra casa e encontrar meus pais que certamente me ajudariam a entender o que aconteceu comigo. Corri mais ainda com essa ideia na cabeça e encontrei uma estrada. Corri pela estrada na esperança de encontrar um carro para pedir carona. Depois de mais ou menos cinco quilômetros correndo —  não me pergunte como, pois nem eu sabia de onde estava vindo toda aquela disposição —  vi uma luz. Era um caminhão. Parei e acenei loucamente para ele. Graças a Deus ele parou.
— Garoto o que você faz aqui sozinho? Está escurecendo.
— Eu não sei. Eu acordei numa cabana e consegui chegar até aqui.
— Mas não tem cabanas, casas nem nada parecido nessa área.
— Eu corri até chegar a essa estrada.
— Mas a única área na qual você poderia ter estado era a reserva e fica a muitos quilômetros daqui.
— Eu não sei onde estava. Só quero sair daqui.
— Tudo bem, vou te dar a lanterna pra você subir no caminhão pelo outro lado. Tem uma parte quebrada e está escuro. Você pode se machucar. – ele pegou uma lanterna e balançou, depois acendeu. E se inclinou para me entregar. —  Oh meu Deus o que...
Ele deixou a lanterna cair e acelerou o caminhão saindo em disparada. Chorei. Por frustração, ódio, medo, desesperança. Lembre-me de como devia estar minha aparência e aceitei o fato de que eu não conseguiria carona, teria que andar. Não me sentia cansado de forma nenhuma. Acho que a corrida me fez bem. Não sentia minha visão turva nem meus olhos doíam. Respirei fundo, senti o cheiro da noite, reconheci odores diferentes: pneu, asfalto, terra, plantas, animais... sangue. A esse pensamento eu salivei como se estivesse diante de um banquete. Assustado eu corri na direção que estava antes de pedir carona. Corri muito. Parava às vezes, mas quando sentia que havia pessoas por perto eu corria novamente por duas razões: primeira que eu os assustaria novamente como fiz com o caminhoneiro. Depois, que cada vez que eu sentia alguém se aproximar eu só conseguia sentir cheiro de... sangue. E não só isso. Eu gostava, salivava e isso me fazia ter medo de mim mesmo. Nessas vagas horas eu corria até não sentir mais vontade de...comer. Só isso me vinha na cabeça. Comer. Mas comer o que se nada me lembrava comida?

***
Eram mais ou menos quatro da manhã quando cheguei à minha casa. Havia um jornal em frente à porta. Peguei e vi que era do dia dezesseis de março, quase três semanas depois do dia que recebi a notícia da faculdade. O último dia que me lembro antes de hoje. Ia tocar a campainha, mas vi minha mãe passando pela sala agarrada a um porta-retrato, vestida numa camisola e envolta num roupão. Achei estranho ela estar acordada àquela hora, pois acordava sempre cedo e deveria estar dormindo para descansar. Olhei melhor e reconheci o porta-retrato. Nele tinha uma foto minha vestido para o baile do ano retrasado. Lembro bem daquela noite. Tinha acabado de fazer dezesseis anos e ia para o baile com a garota mais bonita da escola. Jennifer tinha quinze anos, loira, olhos verdes. Vestia um vestido rosa claro curto com alças bem finas enfeitado com babados que iam de pouco abaixo do busto até o final do vestido, na metade da coxa. Do lado esquerdo, no peito, havia uma linda flor com ramos pendurados e detalhes prateados. Calçava um sapato muito delicado rosa choque que contrastava com o vestido. Seu cabelo estava preso num coque perfeitamente desarrumado onde finas e onduladas mechas caiam sobre sua face angelical. Havia presilhas minúsculas e brilhantes no cabelo. Com uma maquiagem leve seu rosto ficou ainda mais puro. Linda. Estávamos juntos havia um mês e nos dávamos muito bem. Antes dela tive várias namoradas casuais, mas nenhuma era tão legal. Depois do baile continuamos juntos por uns dois meses até que ela viajou para os EUA onde os pais dela iam começar num trabalho novo. Foi ruim no início, mas depois vieram outras e a Verônica...
Saí das minhas lembranças com a memória estranha que tive da Verônica. Na verdade não era estranha, foi a primeira vez que a vi na festa, mas ela me pareceu desconhecida. Olhei para o rosto da minha mãe e vi dor. Uma dor imensa e havia lágrimas. Ela chorava muito e olhava para minha foto. Eu senti uma tristeza imensa quando a vi daquele jeito então bati na janela.
--- Mãe. Mãe olha pra cá. Abre a porta, porque você está chorando? Mãe, mãe.
Eu chamava e ela não ouvia. Continuei chamando até que me vi gritando. Ela levantou a cabeça e parou. Acho que me ouviu. Continuei chamando e batendo. Ela se virou para a janela vagarosamente e me viu ali chamando. Eu sorri para ela.
— Mãe o que aconteceu, preciso falar com você. Por favor, abre a porta. Preciso de você.
— Caine, Caine, meu filho você voltou? Você está vivo? Caine!
Ela chorava copiosamente e gritava com uma expressão mista de dor, dúvida, alívio e alegria. Eu não entendi porque ela perguntou se eu estava vivo. Claro que eu estava. Eu passei um tempo fora, mas não morri. Porque ela perguntou aquilo? Daí eu baixei um pouco a vista e vi no aparador um cartão onde estava escrito:

“É com imensa dor que enviamos nossos pêsames pelo falecimento trágico do seu amado e querido filho, Sr. e Sra. Ventrue. Ele estará eternamente vivo em nossa lembrança.
Família Hanson”

Eu não entendi absolutamente nada. Eu vi minha mãe cair no chão, desmaiada e tive impulso de entrar, mas meu pai desceu correndo as escadas e eu tive receio do que poderia acontecer. Sai da janela e fiquei de um lado onde eu não poderia ser visto.
— Lorenna, Lorenna o que aconteceu? —  e quando a viu no chão correu em sua direção pegando-a a o pondo-a no sofá. —  Lorenna o que houve? Acorda, meu amor, o que aconteceu?
— O Caine, eu o vi, ele estava aqui, na janela. Onde está o Caine? Ele subiu? Ele está no quarto? Responda-me Rich!
— Meu amor o Caine não está aqui. Ele não voltou nem poderá. Ele está morto, querida. Já conversamos sobre isso. Eu sinto muito meu bem, mas o nosso Caine não voltará.
Eles choravam a minha perda, mas eu estava vivo. Como poderia? Decidi ir até porta e tocar a campainha. Eles não podiam pensar que eu estava morto. Tropecei em algo e olhei para trás. Era o jornal que eu tinha pegado para ver a data. Ele estava aberto agora na sessão policial. Eu vi a manchete e quase caí para trás.

“Descoberta a causa da morte do adolescente Caine Ventrue”

            Parei abismado diante do jornal e abaixei incrédulo para pegá-lo. Então meus pais estavam falando a verdade? Eu estava “morto”? Sentei na escadinha da entrada e comecei a ler o jornal:

“O estudante Caine Ventrue de dezessete anos foi encontrado sem vida em seu carro numa estrada localizada próximo a sua casa, na noite de vinte e sete de fevereiro do corrente ano quando voltava de uma recepção na casa da sua namorada, Verônica Malkavian. O carro se chocou com uma árvore à aproximadamente 180 quilômetros por hora e pegou fogo. O corpo foi encontrado entre o carro e a árvore totalmente desfigurado e só foi reconhecido pelos pais do jovem, Richard e Lorenna Ventrue por causa de um relógio e uma corrente que o rapaz usava na noite do acidente. O freio travou e o rapaz perdeu o controle do carro até que na curva bateu o carro. Seus pais declararam...”

Já havia lido o bastante. Eu não me lembrava nem de haver chegado à festa quanto mais de ter voltado e morrido. A única coisa que eu sabia era que mataria meus pais do coração se aparecesse sem respostas depois de tanto tempo. Eles enterraram um corpo e choraram uma morte que não eram meus e eu precisava encontrar uma explicação plausível para tudo isso. Eu não poderia continuar sem uma vida, sem meus pais. Precisava de respostas e a única pessoa que me vinha à mente era Verônica Malkavian.

Nana&Karol

Capítulo 5


Acordei assustada. Não foi nenhum sonho terrível, nem bom nem nada. Acordei de um salto sem motivo. Faltava uma semana para minhas férias chegarem e eu acordei mais cedo ainda. Devia estar me acostumando à boa vida das férias. Ao invés disso me encontrei olhando para o despertador que apontava 5 da manhã. Ele não tocaria antes das 6 então tentei voltar ao sono, mas não consegui. Estava com calor, agitada, me sentindo doente. Levantei e fui beber uma água para me acalmar. Lá embaixo estava tudo silencioso. Minha mãe acordaria em breve e não queria que ela me visse de pé àquela hora. Começaria a me perguntar sobre o porquê de eu estar acordada e tudo mais. Voltei de fininho para meu quarto e liguei o computador. Li meus e-mails, joguei um pouco e entrei num site sobre países que aceitam intercâmbio. Entre eles os EUA, França, Holanda... Inglaterra.
Comecei a procurar umas escolas por lá, mas não achei nada de interessante. Desliguei, tomei banho, desci e fui tomar café. Meus pais já estavam acordados. Comi algo rápido e fui para a escola.
— Meninas, preciso contar uma coisa. Duas.
— Conta.
Elas estavam sentadas na cantina comendo alguma coisa gordurosa logo cedo. Iam morrer cheias de colesterol, mas não quis repreendê-las no momento. Queria só conversar.
— Saí com o cara da festa ontem pro boliche.
— Mentira, e você nem nos contou.
— Calma Gloria, foi só um passeio. A gente ficou mais uma vez, mas não tem futuro. Ele é gente boa, mas não rola.
— É também achei. Ele é muito bonzinho, cheio de coisinha, nhem... – Anne fez voz de enjoada.
— Não é bem assim não Anne. Ele parece ser um cara bacana.
— Bacana? De onde você tirou essa palavra Julie. Pelo amor de Deus!
— Glória!!!
— Deixa ela. O fato é que tenho que dizer que não rola mais. Não quero ficar iludindo ele.
— Faz bem. Aproveita e vai logo que ele acabou de chegar.
Saí andando devagar na direção dele. E o olhei nos olhos antes de começar.
— Oi, eu queria dizer...
— Oi gata, topa sair comigo hoje a noite?
— Era justamente isso que eu queria falar.
— Ótimo, já pensou em algum lugar pra gente ir, pode ser onde você quis...
— Não. Eu queria dizer que não dá pra gente sair mais. Fui ontem porque não queria dizer não.
— Está dizendo agora.
— É eu sei, mas não quero que siga adiante. Eu não estou em clima de sair e sei que você precisa de uma companhia. Melhor que eu pelo menos.
— Tudo bem, eu entendo. Amigos?
— Sim, claro. —  Dei um abraço nele e sai rapidamente voltando para a mesa das meninas.
— Deu tudo certo?
— Sim.
— Agora conta a segunda coisa.
— Que coisa?
— Você disse que tinha duas coisas para contar.
— Ah sim, quase esqueci. Tive um sonho esquisito. Estava no sol...
Contei todos os detalhes do sonho para elas. Julie achou super romântico, Anne achou que eu deveria esquecer e Glória... não disse nada. Achou legal e só.
Cada vez que me lembrava daquele sonho me sentia mais confusa. Esforçava-me para descobrir quem era aquele cara que me fazia tão bem. Fomos para as aulas e depois para minha casa. Jogamos, comemos, brincamos, foi muito divertido. Pela noite estudamos um pouco, pois ainda estávamos em provas. Elas foram para casa e eu fui ver tv deitada no colo da minha mãe. Contei o sonho para ela.
— Mãe o que você acha?
— Você ficou realmente impressionada com esse sonho não foi?
— Sim, fiquei. Ele me pareceu tão familiar e eu... —   comecei a agitar as mão tentando me explicar, mas as palavras não saiam da minha boca coerentemente.
— Sabe uma coisa que sua avó me contou?
— O que?
— Que os sonhos nos dizem muito sobre o que somos realmente ou o que queremos para nós. Nesse caso acho que é algo que você projetou para si mesma.
—  Não entendi.
— É que você procura alguém como esse rapaz do sonho. Quer que ele te proteja, te abrace nos momentos difíceis e fique ao seu lado, te dando essa sensação de reconhecimento, de amor e proteção. Assim você sonhou. É algo feito pelo subconsciente.
— É, deve ser mesmo, pois meu consciente me diz que está longe de encontrar um cara como esse.
Sorrimos e ficamos lá. Fui dormir. Queria sonhar com ele de novo, ver seu rosto dessa vez, mas não aconteceu nada. Foi só mais uma noite sono tranquila e monótona. Queria mais, queria sonhar. Mesmo que eu acordasse cansada e ofegante e... espera um pouco! Será que tinha algo a ver com meu sonho eu ter acordado ofegante e cansada no dia anterior? Será que... não sei! Eu não sabia. Não sabia quem era ele. Que eu o encontraria algum dia. Não muito depois dali. Aqueles olhos que eu não consegui ver, aquela boca que por pouco não me beijou, aqueles braços que me envolveram e me fizeram sentir em casa seriam meus, todos meus, mas eu não sabia o que estava me esperando.
Levantei e fui para a escola. Minha rotina estava cada dia mais...rotineira. Nem sequer havia diferença entre meus dias. Ia para a escola, ia pra casa, ia pro clube e só. Estava ficando entediante. Precisava pensar em uma saída divertida para minhas férias. Ia ser um saco ficar em casa sem fazer nada. Ia morrer. Pensei numa viagem pelo Brasil. Até mesmo pelo Rio, mas ficar em casa JAMORE! Conversei com as garotas.
— Que tal umas férias bem legais?
— Claro que sim, mas onde?
— Na serra. Deve estar fazendo um friozinho por lá. Vamos?
— Claro que não Julie você é louca. Moramos no Brasil, temos sol o ano todo e você quer ir para a serra?
— Justamente por isso Glória.
— Vamos para São Paulo. Lá tem boates lindas e super arrojadas. Deve ser o máximo.
— Tenho uma ideia melhor Anne. Búzios.

Nana&Karol

04 agosto, 2012

Capítulo 4


Subi correndo para o meu quarto, escolhi uma roupa e fui tomar banho. Lavei o cabelo e sequei com a própria toalha. Não iria secar totalmente, mas não daria tempo de esperar. Vesti a roupa e desci. Saí eufórico de casa para conhecer um pouco mais da minha misteriosa e envolvente namorada. Despedi-me rapidamente dos meus pais, algo que me faria arrepender-me amargamente pouco depois. Peguei o carro que já estava do lado de fora e fui ao endereço que eu nunca freqüentei. O máximo que vi foi a entrada. A casa da Verônica ficava dois bairros depois do meu. Estava frio em Londres (nada fora do normal), mas aquela noite parecia diferente. Eu usava um blazer preto e uma camisa azul marinho por baixo que, de certa forma, marcava meu peito e braços definidos por causa dos treinos do time de futebol da escola. Eu era atacante, mas não jogaria na faculdade apesar de fazê-lo muito bem. Eu me dedicaria totalmente à medicina. Para completar minha roupa usava uma calça preta, com sapato social preto. A casa dela ficava num lugar um pouco afastado, tinha um jardim imenso e florido, perfeitamente tratado. O portão era de ferro com um símbolo que eu não identifiquei de lugar nenhum. Havia vários carros parados no estacionamento do jardim. Parei em frente à porta, entreguei a chave ao manobrista e logo a verônica apareceu. Ela usava um vestido preto que alcançava a panturrilha, sem alças com detalhes prateados que brilhavam e pareciam dançar ao redor do seu corpo modelado. Calçava um sapato prata com um salto finíssimo (mais um deles) que eu quase não enxerguei. Seu longo cabelo caia sobre seu colo e costas como uma cascata.
— Você está lindo.
— Se eu estou lindo, você me deixou sem palavras para te definir.
Ela me beijou rapidamente e me levou para dentro da mansão. Havia uma escadaria que levava à gigantesca porta de madeira na qual estava entalhado o mesmo símbolo desconhecido. Dentro da casa era magnífico. Iluminada à meia luz por um lustre imenso de vidro. O símbolo se repetia no chão da sala. Havia um grande espaço no meio e poltronas localizadas de forma circular ao redor da sala que como tudo naquela casa era gigantesca. Havia quadros antigos nas paredes de pessoas trajando roupas de diferentes épocas. Elas se pareciam muito, como membros próximos de uma mesma família. Os quadros estavam dispostos em fila nas paredes laterais da sala e estavam em sequência cronológica da direita para a esquerda de acordo com as vestes. Havia cerca de vinte pessoas distribuídas irregularmente e de certa forma informalmente pela sala, mas que adquiriram uma postura mais rígida quando eu entrei. Pendurei meu casaco e Verônica me conduziu por entre as pessoas até o pai dela. Ele trajava um terno preto que lhe caia tão bem que parecia ter sido feito nele assim como todos os outros homens o que me fez sentir-me inadequado.
— Papai.
Verônica o chamou carinhosa, mas respeitosamente. Ele virou-se e me encarou. Seus olhos redondos verdes e aguçados me pareceram esbranquiçados quando ele me olhou. Fiquei assustado quando vi a cor verde voltar, depois confuso e finalmente esqueci. Mas só me lembraria disso depois. Ele era alto e forte, sua pele era descomunalmente branca —  mas ainda que a da minha mãe o que me parecia humanamente impossível —  cabelo castanho curto, rosto angular de expressões fortes.
— Olá Caine, é um prazer conhecê-lo. Fico feliz em recebê-lo em minha casa.
— Obrigado Sr. Malkavian. Fico igualmente feliz em ser tão bem recepcionado. Sua casa é maravilhosa.
— Agradeço, você é um rapaz muito cortês. Minha filha tem muita sorte de... estar com um rapaz tão qualificado como você. – Ele, assim como Verônica, usava expressões que me confundiam quanto ao significado que elas adquiriam sendo pronunciadas em frases nas quais não cabiam.
— Obrigado senhor.
— Mas vão. Aproveitem a recepção. Não quero prender-lhes a um velho como eu. Divirtam-se.
— Obrigada papai, mas não é uma prisão, é um prazer estar em sua companhia.
— A Verônica tem razão senhor. Sua companhia é muito agradável.
— Oh agradeço, mas não precisam ficar. Mostre o jardim ao Caine, Verônica.
— Tudo bem, até já.
Na verdade era irônico chamá-lo de velho. Ele não aparentava ter mais de 38 anos. Exagerando 40. Mas tendo passado o momento ela me apresentou e cumprimentou algumas pessoas e fomos passear no jardim. Ela me levou a uma área que ficava na lateral da casa. Havia espécies variadas e desconhecidas de flores —  ao menos para mim —  e um banco embaixo de um arco rodeado com ramos.
— Seu pai é um verdadeiro lord. Seus olhos são idênticos. —  E rapidamente tive a impressão que deveria lembrar de algo em relação aos olhos dele.
— Como os seus e os da Sra. Ventrue. Será mais algo em comum? —  e me beijou.
— Esta noite é muito especial. Eu estou muito feliz.
Estávamos de pé. Ela aproximou-se de mim até ficar a dois passos curtos de distância e estendeu lentamente seu braço. Apertou minha nuca com uma mão, enrolou meu cabelo que estava preso com um elástico em sua outra mão e puxou minha cabeça levemente para o lado direito, mas com força e sensualidade suficientes para não me deixar outra escolha se não obedecer. Ela me olhou profunda e calmamente, se inclinou para o meu pescoço e aspirou o cheiro do meu ombro até atrás da minha orelha. Passou a ponta do nariz na altura da minha mandíbula e beijou delicadamente meu pescoço e depois ferozmente meus lábios. Uma onda de calor me invadiu. Senti-me fraco e poderoso, sedento e faminto, mas saciado, tudo ao mesmo tempo. Beijei-a com ferocidade em resposta e a apertei contra mim. Ela continuava correspondendo na mesma intensidade. Senti que não a largaria nunca mais. Depois de algum tempo fomos diminuindo o ritmo e finalmente paramos. Estávamos ofegantes e ela continuava me abraçando com as mãos agarradas ao meu cabelo agora emaranhado. Ela riu junto à minha orelha.
— Nossa Caine! Às vezes você me surpreende.
— Que pena que seja só às vezes. Você me surpreende sempre.
— É melhor irmos. Temos um jantar, lembra?
— Não, eu não lembro —  e a beijei novamente.
— Mas eu lembro por nós dois.
Entramos depois de nos recompormos e seguimos para o salão de jantar ricamente decorado.  A mesa era enorme de madeira avermelhada, talhada bem ao estilo clássico e tinha 22 lugares. Estava posta com louça de porcelana e baixela de prata que continha o mesmo símbolo agora familiar.  Sentei-me ao lado de Verônica que estava ao lado do pai que por sua vez estava na cabeceira. Os convidados na mesma posição formal sentaram-se e o Sr. Malkavian iniciou um pequeno discurso.
— Hoje estamos aqui por um motivo especial. – novamente esta palavra que me persegue desde o dia em que encontrei Verônica. – Estamos, eu e Verônica, apresentando a vocês Caine Ventrue.
Assustei-me com a declaração. Até onde eu sabia a festa já estava marcada. Eu era apenas mais um convidado. —  Caine é filho de uma tradicional família muito próxima a nós Malkavians, mas que estava perdida no tempo. Agora estamos aqui reunidos para celebrar esse reencontro. Um brinde ao reencontro dos Ventrue com os Malkavian. E lembrando que Caine acaba de ser aceito na faculdade. Então um brinde duplo.
Todos brindaram solenemente. Fiquei aliviado por ouvir algo familiar, mas eu não consegui entender o que ele quis dizer com reencontro dos Ventrue com os Malkavian. Eu nunca tinha ouvido falar nos Malkavian antes de conhecer a Verônica e tenho certeza que meus pais me falariam algo se soubessem. Alguém teria que me explicar algo e esse alguém seria a Verônica.
Jantamos demoradamente. Mais do que o que eu esperava. Estava ansioso para falar com a Verônica. Foram servidos pratos que eu não conhecia, apesar de ser apreciador de boa comida, hábito que adquiri com meu pai. O vinho tinha um gosto diferente. Meio acre, não sei. Algo indescritível. Depois todos foram para a sala e me cumprimentaram. Agradeci a todos cordialmente e foi assim até o fim da reunião. Quando as pessoas começaram a ir embora eu chamei a Verônica.
— Precisamos conversar. Eu quero entender tudo que aconteceu hoje à noite, o porquê dessas pessoas terem me tratado como uma realeza e o porquê do seu pai ter falado tudo aquilo.
— Eu já te disse que você é especial.
— Sim disso você não me deixa esquecer, só não entendo porque você sempre fala essas coisas e...
— Calma Caine. Vamos subir ao meu quarto. Podemos falar melhor lá.
— Mas e seu pai? Ele não irá se incomodar?
— Não, tudo bem. Vamos discretamente.
Subimos a larga escada que ficava no centro da sala. Estava coberta com um carpete vermelho limpo ao extremo, viramos à direita e passamos por corredores com mais daqueles quadros lá de baixo, ao mesmo estilo e na mesma ordem cronológica à medida que adentrávamos mais o lugar. Depois de quatro portas entramos em uma branca. O quarto dela era incrível. A porta dentro era vermelho escuro. O carpete era preto e as paredes eram vermelhas como a porta, mas os objetos de decoração eram todos brancos. Tudo, da cama ao lustre. Estava iluminado à meia luz e ela sentou-se na cama.
— O que exatamente te fez agir assim? Nós te damos uma festa e você age como se nunca estivesse estado em uma.
— Muito pelo contrário. Eu fui muito cordial com todas essas pessoas que eu nem sequer vi antes de hoje e esse é exatamente o ponto. Você me falou que havia um jantar e que eu estava convidado, mas isso não aconteceu. O jantar era em minha homenagem. E isso não é o pior. Que papo era aquele que se reuniram novamente as duas famílias. Eu nunca conheci um Malkavian antes de você e seu pai faz um discurso falando que era bom retomar as velhas amizades.
— Vai ver meus antepassados conheciam os seus.
— Eu tenho certeza que você pode me explicar melhor que isso.
— Olha Caine, eu não sei por que você está tão preocupado. Eu não entendo isso. Por favor, para de brigar e reclamar comigo. Eu não tive nada haver com isso tudo, ok. Meu pai ia dar essa festa e eu resolvi te convidar. Só. – Ela se aproximou lentamente de mim. Estava encostado a uma escrivaninha do outro lado do quarto de frente para ela. Ela veio caminhando como da primeira vez que eu a vi. Quase volitando. – Só relaxa um pouco, não precisa fazer todo esse escândalo.
Verônica pousou a mão no meu peito e me olhou culpadamente. Eu esqueci tudo: o jantar, as pessoas restantes lá embaixo, o pai dela, a briga, tudo. Eu só via aquela linda mulher parada na minha frente. Ela me abraçou e sussurrou no meu ouvido “só relaxa” novamente e me beijou delicadamente no pescoço. Ela tirou meu blazer me desencostou da escrivaninha. Colocou-me na cadeira da escrivaninha ainda de frente para ela e tirou o sapato, jogando-os longe, ao lado da cama. Eu só olhava as ações dela. Ela nunca havia feito nada parecido ao contrário sempre me repeliu quando as coisas entre nós ficavam mais... quentes. Hoje agia diferente. Seus olhos estavam perigosos, me cercava como uma leoa cerca uma presa. Até suas mãos estavam em posição de ataque. Ela se aproximou novamente, levantou-me, passou a mão pela minha cintura subindo pelas minhas costas e tirou minha camisa. Estava louco, queria beija-la, abraça-la, a queria, mas ela sempre agia deixando claro que ela é quem estava no controle da situação. Ela soltou o elástico do meu cabelo que se espalhou pela minha nuca, aspirou o cheiro e novamente eu pensei ter visto seus olhos ficarem brancos por um momento. Ela não dizia nada. Apenas me cercava e me deixava mais louco a cada momento. Eu a beijava com ferocidade, mas ela me repelia e continuava seu jogo de gato e rato. Ela me jogou na cama dela e tirou meu cinto. Puxei-a para mim e tirei seu vestido por cima da cabeça. Ela usava um corpete preto maior um pouco que a altura do ísquio. Beijei-a novamente devorando sua boca. Não conseguia pensar tão próximo a ela. Ela agia na mesma ferocidade que eu. Inspirou com força e no alto da minha alienação achei ter ouvido algo próximo a um rosnado. Beijava meu pescoço, meu queixo e minha boca em desordem e nunca abria os olhos. Observava quando podia sua expressão e via uma fera não aquela doce e misteriosa criatura que eu amava – amava? Ela afastou o cabelo da nuca e eu vi que suas unhas fizeram um pequeno arranhão no pescoço. Nem tive tempo de dizer alguma coisa sobre aquilo. Pensei que ela fosse me beijar novamente no pescoço – o que ela estava fazendo esta noite mais que em qualquer outro dia —  mas não. Senti algo perfurar minha pele, algo pontiagudo que inicialmente só me incomodou um pouco. Senti uma queimação no local e fiquei tonto, como se tivesse tomado algum alucinógeno. Senti — me muito, mas muito mal e antes que pudesse reclamar ela me beijou. A dor incomodava, mas a proximidade era tão boa... Beijei seu pescoço em meio aquela confusão e senti gosto de sangue nos meus lábios. Eu estava tonto e quase não consegui enxergar nada, além disso. Só... queimava. Queimava muito, parecia que uma tocha tinha sido cravada no meu pescoço. Estava lá sem conseguir me mexer, com os olhos e a boca abertos tentando respirar ou ao menos encontrar uma explicação lógica para tudo aquilo. Ela saiu de cima de mim e vestiu — se numa velocidade sobre humana e um segundo depois o Sr. Malkavian entrou pelo quarto com os olhos estreitos de fúria.
— Sua louca! O que você fez Verônica Malkavian?
— Pai eu, eu... não.. sei...
— Você o mordeu? Responda!
E ele gritou exalando tanto ódio que mesmo no estado em que me encontrava tremi. Verônica chorava compulsivamente e não conseguia responder com nenhuma frase completa.
— S...sim.
— Você passou o seu sangue? Passou?
— Não sei acho que... sim.
— Você acabou com os meus planos sua... isso não poderia ter acontecido, eu te disse que precisávamos ganhar a confiança dele antes. E nem uma missão idiota você consegue cumprir sua inútil!
— Des..des...cul...pa, pai.
— Não me chame de pai. Você sabia desde o começo que não podia se envolver com ele. Eu te falei que era uma missão. E você falhou até nisso. Quando será que você vai conseguir arcar com as suas responsabilidades Verônica?
— Você nunca falou assim comigo pai.
— E você nunca me decepcionou tanto em toda a sua inútil vida. O que eu faço agora? Ele não estava preparado ainda. O que deu em você para fazer isso?
— Eu não sei pai. Eu agi sem pensar, me deixei levar. Ele estava me questionando sobre seu discurso no jantar e sobre os convidados de honra. Eu não sabia o que fazer.
— E achou que indo pra cama com ele conseguiria fazê-lo esquecer isso?
— Pai não fale assim comigo. Eu fiz tudo que pude. Eu me segurei até o último instante.
— Mas não foi o suficiente.  Eu te falei para não se apaixonar por ele. Seria perigoso demais.
— Mas eu não estou apaixonada. Ele é muito... bonzinho. Passei esse tempo todo encenando nesse circo todo que o senhor armou por objetivos que são só seus. Eu só me deixei levar pela situação. Eu não o amo ouviu? Mas foi mais forte que eu.
— Não fale nesse tom comigo. Você sabe muito bem que eu não serei o único beneficiado com tudo isso sua idiota. Você pode não estar apaixonada, mas cedeu e isso é suficiente para acabar com tudo que passei anos planejando.
Enquanto eles discutiam sobre coisas que não conseguia entender bem eu estava paralisado na cama. Quero dizer, quase isso, pois eu me retorcia de dor. A queimação evoluiu para uma dor terrível e desesperadora. Sentia como se estivesse caindo do monte Everest, batendo em todas as pedras do caminho e em seguida sendo atropelado por um caminhão carregado de toras de madeira tudo isso bem lentamente. Eu estava com os olhos abertos, mas a cada minuto tudo ficava mais turvo. Minhas mãos se retorciam em volta do pescoço e eu me arranhava como se assim pudesse drenar a dor do meu corpo.
— O que faremos com ele?
— Isso é responsabilidade sua. Só não o mate. Precisaremos dele depois. Agora vá e resolva o problema que você me causou. Vamos ver se você conseguirá consertar sua burrada.
— Mas ele não se lembrará de nada?
— Você se lembrou?
— Mas eu pensei...
E saiu batendo a porta do quarto antes que ela pudesse completar a frase. Depois disso a última coisa que eu pude perceber em meio àquela dor toda foi ela se aproximar de mim.

Nana&Karol