Eu era bom.
Antes de tudo isso eu era bom. Meus pais são maravilhosos. Eles não mereciam
isso. Eles não mereciam minha “morte”. Eu estudava na Cambright High School,
tinha muitos amigos, era um bom aluno e estava com tudo preparado para entrar
na faculdade. Minha bolsa estava em minhas mãos e foi por causa dela que tudo
aconteceu. Tenho uma namorada. Ou melhor, tinha. Nós estávamos juntos havia
quase um ano. Verônica Malkavian. Conhecemo-nos numa festa da faculdade na qual
o primo do Marcus, meu melhor amigo, estuda.
— Qual é cara,
você não pode perder essa festa. Meu primo é o melhor organizador de festas que
você vai chegar a conhecer. O cara é demais! E você está pensando em ficar em
casa estudando?
— Estou sim,
não vejo problema. Olha Marcus, eu preciso fazer uma prova amanhã e ainda não
peguei no livro.
— Besteira
Caine! Você volta cedo, garanto. Eu sei que você não pode deixar seus livros e
sua mamãezinha. Ela morreria com sua ausência...
— Tá, cara, eu
vou, mas eu preciso voltar cedo. Amanhã eu acordo mais cedo e estudo antes da
prova. Mas tem certeza que é tudo legal nessa festa?
— Cara você se
preocupa demais. Parece uma garota. Uma garota não, porque as garotas da
faculdade dão de dez a zero nas do colégio. Você vai enlouquecer com elas.
— Quero só ver
se essa festa vai ser isso tudo que você está prometendo.
— Vai ser
muito melhor meu amigo.
E lá nos
fomos. Nunca pensei que depois dessa festa minha vida mudaria tanto. Lá conheci
a Verônica. Ela estava vestindo um vestido curto e vermelho-sangue com um
grande decote. Seus olhos verdes se destacavam totalmente no meio daquela
neblina formada pela sua maquiagem escura. Sua boca era vermelha, da mesma cor
do vestido. Seu cabelo era longo e castanho escuro, mas na luz adquiria uma
tonalidade avermelhada como mogno. Usava um salto finíssimo que a fazia mais
alta ainda. Ela não andava. Ela volitava. Nunca tinha visto uma mulher tão
linda como aquela. E o que mais me impressionou não foi a beleza dela. Foi ela
ter vindo falar comigo. Sua voz era perfeitamente clara e adocicada quando
falou.
— Oi, percebi
que você está sozinho e um cara tão lindo não pode permanecer assim. Posso te
fazer companhia?
— Na
verdade...
— Olha cara,
eu estou indo ta. Vou falar com meu primo, cumprimentar umas pessoas, nos vemos
depois, – e tão baixo que só eu pude ouvir – cara você se deu bem, aproveita.
— Seu amigo
não é muito discreto.
— O que?
— Esquece.
Vamos falar de nós. Seus olhos são lindos. São da sua mãe?
Minha mãe tem
os olhos azuis profundos. Seu cabelo é castanho, quase loiro, não é muito alta,
tem a pele muito clara e é muito amorosa. Ela me trata como se eu fosse uma
eterna criança apesar dos meus recém completados dezessete anos. Meu pai tinha
olhos verdes, cabelos negros, a pele um tom mais escura que a da minha mãe. Não
era tão pálido quanto ela aparentava ser. Herdei exatamente o cabelo negro do
meu pai e os olhos expressivos e azuis da minha mãe. Só não sei como ela sabia
disso. Cada segundo que ficava ao lado dela me sentia mais atraído.
— É, são sim.
Você é a garota mais linda daqui. – Ok eu realmente não devia ter dito isso.
Logo depois me senti o cara mais retardado da festa.
— Eu sou a mulher
mais linda daqui. Mas obrigada. Valeu a tentativa.
Ela me
retificou e sorriu. Um sorriso branco como uma nuvem num dia claro.
Surpreendentemente branco.
— Desculpe. Eu
só gostaria de saber o que levou uma mulher como você a vir falar com um cara
como eu.
— Você é...
interessante. –Ela falou depois de um momento —
Gostei de você. Eu te vi.
Ok, eu não
entendi o sentido de “vi”, mas estava pouco me importando. Estava enlouquecendo
com ela ali tão próxima.
— Aqui está muito
barulhento. Se você quiser podemos sair e ir para um lugar mais tranqüilo.
— Pensei que
teria que te convidar.
Fomos para o
jardim, num lugar onde tinham tantas plantas que até parecia uma floresta.
Havia um banco de madeira. Sentamos lá.
— Até agora eu
não sei o seu nome.
— Meu nome é
Verônica Malkavian, Caine.
— Como você
sabe o meu nome?
— Eu ouvi seu
amigo dizer.
— Mas ele não
disse.
— Isso
realmente importa? –Não, não importava mesmo.
— Não. Você
estuda aqui?
— Não. Eu sou
amiga do Robert.
— Não conheço.
— Não tem
problema. Você estuda aqui?
— Não, eu...
E antes que eu
a respondesse ela me beijou. Não sei se a conversa estava tão chata que ela
quis fechar minha boca de alguma forma ou se fez de propósito, mas foi o melhor
beijo da minha vida. E eu não tinha poucas experiências, ao contrário. Já tive
várias namoradas, algumas sérias, outras nem tanto, mas esse beijo foi
incomparável. Eu senti uma energia explodir dentro de mim. Senti meu sangue
ferver abaixo da minha pele e podia ouvir meu coração bater. Foi algo surreal.
Não conseguia falar depois que o beijo acabou. Parei de sentir tudo isso, mas
eu não queria.
— Foi
inacreditável.
— É? Só
inacreditável?
— Foi mais que
isso, mas eu não conheço palavras para definir esse momento, foi... uma explosão,
foi surreal.
— Agora sim,
eu estou mais satisfeita com a definição.
E ela me
beijou de novo me fazendo sentir tudo aquilo novamente. Nós trocamos telefone e
eu passei o resto do meu tempo pensando nela. Verônica nunca falou sobre
família. A única coisa que soube é que ela tinha um pai que ela admirava como a
uma entidade suprema. Mas nunca fomos apresentados. Ela ia pouco à minha casa e
sempre tentava me convencer de que precisava sair de lá, largar minha vida
dependente. Dizia que eu precisava amadurecer e fazer minhas próprias escolhas.
Só que eu já fazia minhas próprias escolhas. Na verdade ela não queria que eu
me libertasse de coisa alguma. Sua intenção era que eu passasse a depender de
outra coisa, ou melhor, de outra pessoa...
— Você é muito
especial Caine.
— Mesmo? De
que forma?— eu sempre a respondia e a
beijava em seguida. Eu estava apaixonado por ela. Verônica era algo
indispensável na minha vida desde aquela noite.
— De todas as
formas possíveis. E você nem imagina o quanto.
— Eu te amo,
sabia?
— Você me diz
isso sempre, Caine. Eu também gosto muito de você.
Ela sempre me
dizia que eu era especial, mas nunca me dizia como. E ela nunca me disse “eu te
amo”. Mas eu não percebia isso. Não percebia nada ao lado dela. Afastei-me dos
meus amigos e da minha família, mas ela queria mais.
— Você passa
tanto tempo com seus amigos. Você precisa conhecer gente nova. Ver outras
caras.
— Mas gosto
dos meus amigos. Não vejo problema algum neles.
— Você precisa
viver novas experiências, crescer. Eu tenho 19 anos. Você tem 17. Você não
percebeu que estamos cada dia mais parecidos? Você só precisa freqüentar os
mesmos lugares que eu e encontrar as mesmas pessoas.
— O que você
pretende com isso?
— Nos
aproximar mais.
— Estou
começando a gostar disso. Você nunca falou assim antes. Sempre pareceu na
defensiva.
— É que
estávamos nos conhecendo. Precisava saber quem você realmente era.
— Você fala
coisas confusas, às vezes sem nexo. Eu não entendo. Parece que você pensa
coisas que não quer dizer. Ou não pode dizer e solta fios para eu desvendar...
— Bem que
falei que estávamos cada dia mais parecidos.
E ela sempre
escapava das minhas perguntas me beijando, pois sabia que perdia a noção da
vida quando fazia isso. Eu só queria ter descoberto as intenções dela um dia
mais cedo.
Estava na reta
final das provas escolares. Minha bolsa na faculdade estava pra ser aceita e eu
estava totalmente apreensivo. Minha mãe me dava muita força e era nela que me
refugiava quando estava fora de mim de tão nervoso. Ela sempre sabia o que me
dizer e como me acalmar, mesmo quando eu achava que tudo ia dar errado.
— Caine,
querido, você é demais. Você sabe que está preparado para tudo isso e que tudo
vai dar certo.
— Mas mãe, eu
estava tão nervoso na hora da entrevista. Eu não sabia o que fazer quando o
entrevistador me perguntou por que eu queria entrar na faculdade.
— Eu tenho
certeza que você se saiu muito bem. Além do mais é um ótimo aluno. Você é
especial meu filho e eu te amo por isso. Você é tão bondoso e sincero; tenho
certeza que tudo isso contará a favor.
— A Verônica
sempre me diz isso. Que eu sou especial, não que eu vou entrar pra faculdade.
Na verdade ela acha isso tudo uma bobagem.
— Nunca
escondi de você que eu não gosto dessa garota. Ela me parece sombria e
misteriosa. Em minha opinião ela não fala o que sente nem o que pensa.
Parece-me mais como um personagem. E nunca te apoia nas suas decisões, ela te
impõe vontades dela.
— Mãe eu te
amo, mas eu amo a Verônica. Eu não gosto quando você fala assim dela.
— Será mesmo
que você a ama? Eu acho que tudo isso é só uma paixonite adolescente.
— Não mãe, eu
sei bem o que sinto. Quando estou com a Verônica eu me sinto vivo, renovado. Eu
sinto sangue correndo nas minhas veias.
— Meu Deus!
Nunca imaginei que fosse tão forte. Só não acho que isso seja bom para você.
— Não se
preocupe mãe. Eu continuo o mesmo.
— Será que
continua mesmo?
Duas semanas
depois da entrevista recebi a resposta: tinha sido admitido na faculdade. Ia
cursar medicina. Queria ser cirurgião neurologista. Fiquei tão feliz que pensei
que fosse explodir.
— Está vendo
Caine. Eu te falei que tudo ia dar certo.
— Sua mãe
tinha razão. Você será um ótimo médico meu filho.
— Obrigado
pai, vocês não imaginam como estou feliz.
— Que bom que
tudo deu certo, Caine. Isso merece uma comemoração. Hoje à noite meu pai dará
uma festa. Seria uma ótima oportunidade de apresentá-los.
— Eu acho que
o Caine deveria comemorar com os amigos e a família dele.
— Eu concordo
Sra. Ventrue, mas ele pode fazer isso amanhã. É só um jantar e além do mais
seria ótimo para o Caine conhecer meu pai.
— É mãe, é só
uma noite. Não haverá problema. Amanhã comemoramos a vontade. E depois eu não
conheço o Sr. Malkavian, será bom encontrar meu sogro.
— Eu ainda
discordo, mas a vitória é sua. Escolha como quer comemorar.
— Por isso que
eu te amo mãe.
— Filho, quero
te dar algo de presente.
— Você sabe
que não precisa pai.
— Claro que
precisa. Meu único filho entrou para a faculdade. Merece algo. Achei que seu
carro estava um pouco fora de moda e resolvi trocar. Só daria no seu
aniversário de dezoito, mas pensei bem e vi que a ocasião merecia uma
comemoração especial. — Novamente essa palavra.
— Mas pai, meu
carro só tem um ano.
— Quase dois.
E isso não importa. Deixe-me ter uma desculpa para te dar um presente que quero
dar.
Nós vivíamos
bem. Meu pai era cientista. Ele estava trabalhando num projeto novo. Trabalhava
com mutações genéticas em animais. Minha mãe era professora da Cambright High
School. Ela não precisaria trabalhar se não quisesse, mas adora crianças e
odeia monotonia. Não deixaria seu trabalho por nada nesse mundo. Morávamos num
triplex. No térreo ficava a garagem com o meu carro, o da minha mãe e do meu
pai, ao lado uma sala de estar, uma sala de jogos, a sala de TV e um banheiro
social. No primeiro andar havia um lavabo, a cozinha, a sala de jantar e o
escritório do meu pai que mais parecia um mini laboratório super equipado. No
segundo andar ficavam as cinco suítes: uma dos meus pais, a minha e as de
hóspedes.
— Mas você nem
sabia se eu iria passar.
— É claro que
eu sabia. Confio em você.
— Ah pai
obrigada.
— Você merece
Caine, mas vamos logo ver esse carro que já estou ansioso.
Fomos ver o
carro. Já estava na garagem. Os olhos da minha mãe estavam aguçados de
curiosidade exatamente como os meus. A Verônica estava sem expressão como era
geralmente. Ela só esboçava reação quando eu fazia alguma pergunta que ela não
queria responder.
— É perfeito
pai. Demais!
O carro era um 911 Turbo S Cabriolet Grafite.
Lindo. O carro perfeito. Compacto e rápido. São 315 km por hora. Antes eu tinha
um Citroën C5 prata que era maior, mais alto. Estável, mas sem tanta velocidade
(exigências da minha mãe). Gosto de correr, sentir o vento cortando a pele do
meu rosto, meu cabelo longo voando. Certo que com o frio o carro teria que
estar quase sempre fechado, mas estávamos no verão então não haveria problemas.
— Agora você
pode ir para a festa com um carro decente. Estou muito orgulhoso de você meu
filho.
— Obrigado
pai, espero poder corresponder sempre às suas expectativas.
— Você já o
faz Caine.
— Bom, eu
odeio atrapalhar, mas preciso ir. O jantar será em menos de três horas e
preciso me arrumar.
— Eu te levo
lá fora.
— Obrigada,
até mais Sr. e Sra. Ventrue.
— Até mais
Verônica.
— Até. Cuide
bem do Caine logo mais.
— Pai, eu não
sou mais criança. Eu é que devo cuidar da Verônica.
— Que seja,
que seja.
— Que horas
será o jantar?
— Às nove.
— Bom, até as
nove.
— Até. Não se
atrase, Caine. É importante para mim. Para nós dois.
— Está bem,
não se preocupe.
E nos beijamos
demoradamente. Eu ainda sentia tudo aquilo que senti da primeira vez só que
cada vez mais intenso. A cada dia que nos aproximávamos eu me sentia mais
apaixonado. Era aterrador. Ela se foi e eu voltei para a garagem para
contemplar meu carro novo. Entrei nele, senti o cheiro de carro novo. Passei a
mão no painel, peguei no volante, deslizei o dedo sobre a superfície e decidi
dar uma volta para experimentar. Mesmo com o frio abri o carro. Avisei meus
pais que iria sair e sob as recomendações de cuidado da minha mãe subi a rua
que levava à estrada. Acelerei aos poucos e cada vez mais. Corri, mas senti que
voava. O vento, os aromas, a vista. Empolguei-me tanto que perdi a hora. Quando
vi já eram sete e meia. Precisava voltar, eu tinha uma festa para ir. Estava atrasado
para acabar com a minha vida.
Nana&Karol
