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27 janeiro, 2013

Capítulo 32


Quando acordei estava deitado no chão do galpão. A Verônica me rodeava e falava mansamente.
— Querido, como está se sentindo?
— Mal, pior ainda de ter que olhar pra seu rosto.
— Não seja tão agressivo só quero o seu bem.
— Sério?
— Claro.
— Então se mata. – Levantei— me meio zonzo e a encarei. Estava com a visão clara. Ela me pegou pelo pescoço colocando dedo por dedo e apertando gradualmente.
— Meu querido, não seja intolerante. Não quero precisar te machucar.
Dei— lhe um tapa no rosto com toda minha força e ela caiu. Levantou— se irada com os olhos fumegantes de ódio e me jogou contra a parede. Andou até uma sacola que estava no chão ao mesmo tempo que falava.
— Você não sabe como me tratar Caine. Está sendo um garoto mau. Suportei— te por meses, suas manias, seus amigos, sua inútil família e seus gostos infantis. Não está sabendo ser grato.
— Sua va...
Nem pude terminar. Ela segurava algo que jogou no chão antes de voar em mim e me morder novamente arrancando pedaços da minha pele. Tentei lutar contra, mas cada vez mais ela bebia meu sangue e ficava mais forte. Eu enfraquecia mais e mais até que desmaiei. Acordei sentindo uma dor lacerante nos pulsos e tornozelos. Abri os olhos devagar e dei de cara com uma luz nos meus olhos. O sol estava quase se pondo, mas algumas luzes ainda atravessavam o plástico rasgado da minha janela.
O sangue pingava dos meus pulsos e dos tornozelos. Quando consegui olhar estava de braços e pernas abertas pregado na parede com estacas de metal que não faziam nada além de me machucar como faria a qualquer pessoa. Ela se aproximou.
— Em breve nossa amiguinha chegará.
— Que amiguinha?
— Já se esqueceu dela Caine? Nunca pensei que meu poder de sedução fosse tão grande.
— Sua vagabunda! Como se atreve?
— Calma Caine. Não vamos descer o nível. Nunca te vi xingar antes.
— Perdi muito tempo então. —  Ela pulou em mim e me bateu tão forte na cabeça que senti como se estivesse sendo jogado contra o concreto. Desceu e ficou lá caminhando de um lado para o outro enquanto minha cabeça latejava.
— Hum, ela está chegando... Com licença.
A Charlie chegou e desobedecendo minhas ordens de ir embora entrou no galpão. Discutiu com a Verônica, brigou com ela e acabou sendo levada para o escritório pelo clã da bruxa depois de ter sido adormecida pelo soco que a fez desmaiar. A Verônica tinha me mordido de novo. Cada vez que eu começava a me recuperar ela me mordia novamente.
Já era umas onze e meia quando ela foi até a sacola de onde tirou as estacas e puxou um alfanje. Ele tinha a empunhadura verde, uma lâmina larga e curta no fim desta com dois convexos quase na ponta. Havia umas inscrições na sua lateral, que parecia representar o clã ao qual ela pertencia. Minha visão estava começando a se concretizar ela se aproximou apontando o alfanje para mim e diferente do que interpretei na minha visão ela ameaçava sim, mas não a mim e sim a Brianna.
— Pra que essa arma? Pretende me matar?
— Jamais. Já disse que tenho muitos planos pra você.
— E o que vai fazer com ela?
— Estou esperando uma convidada. É a...
— Brianna Comte.
— Como sabe? Viu algo?
— Nada que te interesse.
Ela aproximou a ponta do alfanje no meu peito e como na minha visão a Brianna chegou, mas ela trouxe consigo algo que eu não tinha percebido: ela tinha nas mãos uma espada Viking com a empunhadura preta e o guarda com pontas bem afiadas, sua lâmina era longa e fina, na sua lateral também havia inscrições, mas a dela era diferente junto com elas havia o desenho de um lince representando provavelmente o seu clã.
— Começaram a festa sem mim.
— A Verônica tem problemas com ansiedade. Disse a ela pra te esperar.
— Verônica e seus problemas. Eu sei a solução de um deles. Entrega— me o Caine e nos livramos da ira do seu pai.
— E você acha que me importo com meu pai?
— Pois deveria. Ele não ficará nada satisfeito com seus planos, principalmente os que o envolve, ou melhor, os que não envolvem.
— E você acha que será tão fácil? Acha que depois de tudo que fiz e tudo que arrisquei vou te entregar o Caine de bandeja?
— Porque não experimentam perguntar a minha opinião?
— Porque a sua opinião é a que menos importa.
— Olha Brianna é melhor você sair daqui. Essa não é uma luta para bastardos. Estamos falando de realeza.
— Conhecendo— me tão bem não deveria me dar um conselho tolo como esse. Sabe que não vou embora e que vou levar o Caine comigo, nem que eu tenha que cortar a sua cabeça fora.
Enquanto elas falavam uma dor na minha cabeça maior que a que estava sentindo me fez fechar os olhos com força e rosnando. Era uma dor insuportável, incontrolável, esmagadora. Parecia que minha cabeça ia explodir. No auge dessa dor o meu corpo começou a formigar e a queimar, mas não havia fogo, era dentro de mim. Minhas entranhas pareciam estar em brasa, labaredas subiam dos meus pés até minha cabeça, onde estacionavam.
Nunca havia sentido nada parecido, qualquer outro ser que passasse por isso já haveria morrido, mas eu não. E cada vez mais a dor e a queimação aumentavam, até que não aguentei e comecei a me debater e gritar de dor. Meus pulsos e meus tornozelos queimavam mais do que minha cabeça, faria tudo para que aquilo passasse até mesmo cortá— los fora.
— Não queria que terminasse assim, mas você é prepotente, ambiciosa e maldosa. Não suporto pessoas assim, logo não as quero perto de mim.
Brianna correu na direção da Verônica com a Viking a postos e passou na direção do pescoço dela com uma força que quando cortou o ar a fez girar num movimento rotatório e parar novamente a postos. Seu cabelo girou ao redor dela como um lençol de cachos. A Verônica, que havia abaixado, levantou— se girando o alfanje de um lado ao outro na sua frente como se estivesse cortando água de tão simples e fácil que pareceu. O tilintar das lâminas se chocando foi ensurdecedor para mim, além dos meus olhos que queimavam. Elas lutavam girando ao redor de si, abaixando e pulando uma sobre a outra com as espadas a postos de modo com tanta técnica que pareciam dois cavaleiros medievais, mas não tão brutalmente. Estavam mais para duas dançarinas num balé: postura indefectível, expressão compenetrada e passos corretos e medidos como se tivessem sido coreografados.
À medida que a meia noite ficava mais próxima meu sangue esquentava cada vez mais e senti minhas feridas se fechando ao poucos. Tudo doía demais e eu gritava como nunca imaginei ser capaz. Era ruídos dolorosos, graves e cortantes assim como a luta delas. No auge do meu desespero consegui abrir os olhos e ver as duas feridas frente a frente se olhando com um ódio mortal.
Klanas, supakuotas! – Disse a Verônica.
— Klán, fel! – Disse a Brianna.
Ao mesmo tempo seus clãs apareceram. O da Verônica era composto por Gason, Danon, Thor, Loren e Onaro que empunhavam Espatas. O da Brianna trazia sete homens e três mulheres. Elas eram lindas: uma loira com cabelo curto na altura do queixo, uma morena com cabelo bem curto com franja longa e uma ruiva com o cabelo na cintura em cachos grandes e bem definidos; eram altas, olhos expressivos, expressão forte e compenetrada e postura de guerreiras. Entraram em posição triangular, todos com armas brancas cortantes ou perfurantes. Os três homens de trás estavam lado a lado e usavam arco e flecha com ponta de metal, os outros quatro homens empunhavam adagas Sai e as mulheres – que os lideravam —  empunhavam espadas Espata.
Enquanto as duas corriam uma de frente pra outra e continuavam lutando os outros se enfrentavam como coadjuvantes. As três mulheres correram em direção a Loren e Gasel. A loira e a ruiva puseram as mãos na cabeça e gritaram como se estivessem ouvindo muito barulho então o Loren atacou— as. Ainda assim desviaram e com um golpe conjunto cortaram a cabeça dele.
Gasel correu na direção da morena e quando chegou bem próximo teletransportou— se para trás dela golpeando— a na cabeça. Ela levantou a Espata defendendo— se do golpe. Foi a luta que mais durou.
 Thor atacou três dos homens com as adagas Sai matando um deles com um golpe no pescoço decepando— lhe a cabeça e o braço. Os outros dois fatiaram— no com as adagas de forma bem dolorosa, derrubaram— no ao chão e enfiaram as adagas na região traqueal puxando cada um para um lado com as duas mãos.
Danon foi atacado pelos três homens com arco e flecha. As flechas perfuraram seus braços, abdômen e pernas, mas como estavam muito próximos foi mais fácil atacar os homens da Brianna cortando os arcos e as cabeças. A ruiva atacou o Danon pelas costas cortando sua cabeça com muita raiva. Onaro viu, veio correndo em sua direção e enfiou a Espata nas suas costas virando— a para si. Olhou— a com raiva, aproximou— a de si, tirou a Espata pelas costas e decepou— lhe a cabeça. Dois dos homens das adagas correram para cima dele girando as armas ao redor de si como a Verônica havia feito anteriormente, mas o Onaro foi mais rápido. Virou— se, conseguiu tomar— lhes as adagas e os matou. A loira e o outro homem com adagas continuaram brigando com Onaro. Agora só restava eles três, Gasel e a morena e Verônica e Brianna.
A queimação do meu corpo chegou a um ponto em que não pude mais respirar. Senti como se meu pulmão estivesse se contraindo e o meu sangue não circulasse mais. Não tinha forças para gritar. Fechei os olhos, baixei a cabeça e esperei morrer. De repente a dor passou. Senti uma onda energética ao meu redor e dentro de mim tão forte que me fez arfar. Era como se uma massa de ar entrasse nos meus pulmões me trazendo à vida novamente. Abri os olhos sorrindo, levantei a cabeça gradativamente e olhei na direção da Verônica. Um ódio cresceu dentro de mim me deixando mais vivo e com mais vontade de matá— la. A Verônica se aproximou de mim afastando— me da minha família e dos meus amigos, me transformou e agora planejava me escravizar. E se já não fosse o bastante atacou a pessoa que mais me importava no mundo.
— Verônica. – Minha voz soou tão magistral que todos pararam de lutar gradativamente e me olharam. Ela me olhou atônita.
— Caine o que...
Lentamente as estacas foram se desprendendo da parede e caíram. Desci ereto como se pudesse voar. Na verdade não sabia mais o que era capaz de fazer.
— Onaro, jis turi!
Onaro rodou a espada na sua frente apontando o dorso para mim e atacando— me na direção do ombro. Desviei passando para suas costas. Ele virou— se me olhando nos olhos e parando bruscamente: senti sua pressão arterial, sua respiração ofegante e sua circulação acelerada. Sua artéria carótida estava dilatada e pulsava forte. Olhei— o profundamente e irado então senti sua pressão arterial cair, seu coração acelerar a cento e três batimentos por minuto e aumentando, a sua circulação sanguínea acelerar e ele começou a buscar ar abrindo a boca e pondo a mão no pescoço. Estava causando sintomas de anafilaxia no Onaro. Antes que ele caísse segurei— o pelo cabelo e cravei os dentes no seu pescoço sugando o seu sangue lentamente deliciando— me com todo o poder que o sangue de vampiro trás.
Não pensava em nada, nem na Charlie, nem na minha família, nem em ninguém que não fosse eu e meu acerto de contas com a Verônica. Tudo que me motivava antes pareceu apenas desculpas para que seguisse minha ira e a matasse. Seria prazeroso vê— la sob meu julgo, indefesa. Meu ódio crescia e me cegava de tal forma que não enxergava mais nada além do meu objetivo de vingança.
Quando não havia mais sangue larguei— o no chão, me virei lentamente e fixei os olhos na Verônica que estava aterrorizada.
— Eu te disse que tudo melhoraria. – Ela ria nervosamente.
— Realmente melhorou e vou te mostrar o quanto.
Olhei— a profundamente como havia feito com o Onaro. Dessa vez foi mais rápido, não sei se por causa do meu ódio crescente ou pela prática. Ela levou a mão ao pescoço arfando até cair no chão. Tentei fazer as coisas bem lentamente para que ela sentisse mais dor. A Verônica se debateu e gritou até onde seu ar permitiu. Aproximei— me e levantei— a pelo cabelo e olhei bem no fundo dos seus olhos.
— Querida, sabe que gostei muito de você? Pena que não soube retribuir, agora pagará pelo mal que fez contra mim e a Charlie.
Virei sua cabeça lentamente enquanto ela derramava algumas lágrimas e me olhava implorativa. Quando me preparei para atacá— la duas vozes me interromperam gritando em uníssono.
— Caine para agora!

Nana&Karol

Capítulo 31


Fiquei aflita esperando e nem pensar em dormir enquanto ele não chegasse. Arrumei o quarto, estudei até quando minha paciência permitiu e fiquei vendo TV. Por volta das 11h 30 ele chegou triste. Certamente ninguém havia morrido caso contrário ele estaria bem mais descontrolado.
Fiquei um pouco enciumada quando soube que havia sido uma mulher, mas pensei melhor e cheguei à conclusão de que seria complicado convencer um cara a servir de jantar. A garota passou mal por isso ele ficou daquele jeito. Consolei— o e quando ele se acalmou ficamos abraçados até que dormir.

***

— Não vejo à hora de voltar logo.
— Nem eu. Estou ansioso para o feriado.
— Para o feriado ou para o seu aniversário?
— Para ambos.
— Mas hoje é quinta— feira. Teremos quatro dias e meio para comemorar.  Deixe— me ir agora assim o tempo passa mais rápido.
A Carly estava me esperando como sempre.
— Oi Charlotte bom dia.
— Bom dia Carly e Sra. Johnson.
— Bom dia querida. Planos para o feriado?
— Não muitos só alguns passeios e descanso. E vocês?
— Liverpool. Vamos para a casa dos meus avôs.
— Que legal espero que se divirtam.
Chegamos à escola atrasadas pra variar. Assistimos a nossas aulas e no almoço sentamos juntas, o que era uma novidade essa semana.
— Até que enfim! O que aconteceu hoje?
— Andrew faltou, os pais adiantaram o feriado. Vão para a Itália para a casa dos avós maternos dele. Desculpa te deixar sozinha, mas enquanto o meu pai não aceitar o namoro temos que nos ver escondido. E como estou de castigo o único tempo que temos é a hora do almoço.
— E sua mãe o que disse disso tudo?
— Ela até que apoia, mas não quer ir contra o meu pai e discutir com ele não é o melhor a se fazer.
— Sinto muito por você.
— Tudo bem.
Conversamos mais sobre como ela estava feliz. A Carly e o Andrew haviam se encontrado no sábado e ele a tinha levado para uma das melhores cafeterias da cidade. Eles haviam saído pela tarde e como o clima estava bem calmo a Carly usou um vestido azul Royal e uma legging verde claro com uma sandália baixinha que prendia no calcanhar prendendo o cabelo de modo que algumas mechas ficassem soltas. O Andrew vestia uma calça jeans azul gasta, uma camisa chumbo de manga três quartos e um casaco de couro preto.
Quando eles chegaram a casa dela o pai da Carly já havia chegado do trabalho e começou a discutir com ela sobre ela ter saído com um cara com o estilo do Andrew, ou seja, um roqueiro clássico, digamos assim. Ele ficou com raiva por não ter sido avisado do encontro e mandou o Andrew embora dizendo que não voltasse mais. A Carly pediu desculpas ao Andrew e disse que eles conversariam na escola. Toda essa história a Carly me contou durante a semana em longos telefonemas regados a reclamações e lamentos. Tentei ao máximo consolá— la.
Assisti o resto das aulas, despedi— me da Carly, avisei a Lorenna sobre os planos de Blackpool e fui para a parada de ônibus encontrar o Caine. Ele não estava lá, esperei uns 10 minutos até que comecei a me irritar e fui para casa. Teria que me dar uma boa explicação por ter faltado. Chagando lá coloquei minhas coisas em cima do sofá e fui procurar o Caine em todos os cômodos da casa, mas não o achei. Quando cheguei à cozinha achei um bilhete escrito por ele – ou melhor, pensei que fosse.

Charlie,
Desculpa por não ter ido te buscar.
Encontre— me no galpão.
Caine

Não entendi. Porque ele havia me mandando ir a um lugar no qual me havia proibido de estar? De repente senti uma dor na cabeça quase insuportável; sentei— me e apertei minhas têmporas esperando que a dor passasse. Algo me dizia que eu deveria ir. Troquei de roupa: vesti uma calça jeans azul marinho, uma camiseta lilás, um casaco preto e um tênis All Star preto; arrumei o meu cabelo em um rabo de cavalo meio bagunçado, peguei minha bolsa e sai ao encontro do Caine.
Pequei o mesmo ônibus que havia pegado com ele no dia em que me levou para conhecer o galpão. Quando cheguei tive certa dificuldade para encontrar a rua, pois ainda estava tonta pela dor de cabeça, mas quando a encontrei fui direto ao galpão. Ouvi um barulho de lá de dentro, a porta estava entreaberta então chamei pelo espaço.
— Caine?
— Charlie, sai daqui vá embora. – ele gritou com uma voz embargada de dor e sofrimento. Minha cabeça doeu num estalo.
— O que está acontecendo? – gritei de volta ainda do lado de fora.
— Sai daqui agora!
Sua voz me doeu na alma então não aquentei mais, empurrei a porta e entrei. A visão que tive foi estarrecedora: o meu Caine estava pregado na parede pelos pulsos e tornozelos com estacas de metal ao estilo Homem Vitruviano. Havia sangue seco no seu dorso e nos braços, e pingava algum sangue dos seus pulsos, tornozelos e pescoço. As lágrimas saltaram dos meus olhos com a expressão dele: olhos brancos e sem vida, presas expostas em rosnados de dor; pequenos sinais de arranhões pelo corpo que eu sabia que não estavam assim anteriormente.
Corri para tentar ajudá— lo.
— Vá embora, por favor. – ele falou entre soluços não de choro, mas na tentativa de respirar melhor.
— Mas eu quero te ajudar.
— Eu não preciso de sua ajuda.
— Mas...
— Vá embora! – Nesse momento a Verônica saiu de onde estava escondida nos ouvindo.
— Que cenazinha mais patética.
— Verônica, por favor, solta ele eu te imploro.
— E o que eu ganho em troca?
— Charlie, não.
— O que você quiser.
— A sua vida?
— Não! – ele gritou desesperado
— Qualquer outra coisa, por favor.
— Então você não o ama sua egoísta.
— Quem me garante que você o deixaria livre se eu morresse?
— Terá que arriscar meu bem.
— Por favor. O que você pretende com isso?
— Poder.
— O que o Caine tem a ver com isso?
— Tudo a ver. Hoje a meia noite ele alcançará a supremacia dos seus poderes e estando ao meu lado eu o usarei da forma que melhor que convier.
— E o seu pai Verônica?
— O que tem ele meu amor?
— Ele tem planos para mim não é verdade?
— Os mesmos que eu.
— Vocês pretendem me dividir?
— Não. Pretendo ficar com você só para mim e dar um jeito nele. Seus poderes são preciosos. Além de ter visões tem a capacidade de apagar memórias. Com isso poderei fazê— lo esquecer que um dia se interessou pelos seus dons.
— E a Brianna? Como se livrará dela?
— Ela é outra história. Posso fazer o mesmo.
— Mas não conseguirei. É coisa demais.
— Você não faz ideia de como seus poderes estarão avançados depois da meia noite meu querido. Será demais até para você.
— Mas a Charlie não precisa ficar aqui. Ela irá embora e nunca mais nos atrapalhará.
— Não Caine. Não vou te deixar aqui não queira decidir nada por mim.
— Você não entende. Acha mesmo que vale a pena perder sua vida por mim? Pois te respondo: não! Não se jogue numa tormenta Charlotte. Vai embora.
— Cala a boca Caine. Estou falando com ela. Verônica por favor...
— Não. Estou cansada desse papo furado de vocês. Já falei mais do que precisavam ouvir. Eu dou as cartas aqui e vou começar agora.
O Caine estava se mexendo demais e o sangue estava parando de pingar. Suas feridas dos braços e peito estavam cicatrizadas totalmente só restando o sangue. Ela tomou impulso e pulou agarrando— se a ele que gritou. Além do peso dele, o dela e a mordida. Ela não mordeu moderadamente. Estraçalhou parte do pescoço dele. Sugava como se estivesse faminta há vários dias. Ele gritou e se debateu debaixo dela então não suportei ficar parada. Agarrei— a pelo cabelo como fazia com ele, mas sem dó nenhum. Puxei seu cabelo com as duas mãos e com toda a minha força jogando— a no chão. Ela se assustou quando fiz isso e saiu arranhando todo o corpo dele na tentativa de se segurar. Ele rosnou e levantou a cabeça fechando os olhos e abrindo a boca. Subi nela e comecei a batê— la com toda a raiva que estava presa em mim. Por ela ter me esganado, por ter seqüestrado o meu amor e estar fazendo— o passar por essa tortura. Fiz até mesmo por ela ter se aproximado dele pela primeira vez. Soquei— a irregularmente, pois não sabia bem como fazer isso. Arranquei boa parte do seu cabelo e tentei arranhá— la no rosto para que ela sentisse ao menos em centésimo do que ele sentia, mas não fiz tudo isso por mais de um minuto. Ela reagiu me jogando na parede oposta. Fiquei sem fôlego quando bati minhas costas no concreto e caí. Arfei por uns instantes até ela se aproximar e me pegar pelo casaco.
— O que você pensava que estava fazendo? Acha mesmo que pode contra mim? Não sabe que comigo não se mexe garota? Se pensa que vai conseguir me deter com tapas e arranhões está muito enganada. Nem imagina o que sou capaz de fazer. Ou melhor, imagina sim. Já te dei uma amostra do que sou capaz não queira tirar a prova final.
— Calma Verônica, larga ela.
— Por quê? Porque você está pedindo? Enxergue— se Caine. Não está em condições de exigir nada, se toca. É só mais um dos meus discípulos.
Nesse momento entraram cinco caras no galpão. Sério, não sei de onde vieram, mas se eu não estivesse nessa situação poderia dizer que eles eram totalmente lindos.
Estavam numa fila lado a lado. E todos usavam o mesmo estilo de roupa: camisa preta, calça preta de couro e jaqueta de couro combinando com a calça. O primeiro era loiro, cabelo curto, barba por fazer, olhos verdes escuros, ar sombrio, alto e forte. O segundo tinha olhos redondos e castanhos, cabelo castanho cacheado, também alto, só que mais magro. Tinha um olhar envolvente, manso, mas com uma aura perigosa em volta de si. O terceiro tinha o cabelo na altura do ombro como o Caine só que castanho claro quase loiro, boca grossa, um meio sorriso malicioso, olhos cor de mel, braços e tórax torneados, mais alto que os outros dois. O quarto tinha o cabelo preto noite, olhos castanhos escuros, pele morena tipo oliva, muito lindo e o quinto era o mais natural. Tinha a pele negra, olhos bem escuros, cabelo raspado, traços fortes e tinha uma imposição real no olhar como se liderasse aquele grupo. Olhou— a reverenciando— a com o um olhar respeitoso e ela correspondeu, mas percebi que não era apenas isso. Ele a olhou com um ódio oculto também.
— Apresento o meu clã pessoal. Thor tem o poder de ler mentes.
— Muito obrigado garota. – Que poder mais inconveniente. Eles não precisavam saber que os achei lindos.
— Não tenho culpa.
— Dá pra parar!?
— Este é Onaro, sente a aproximação de pessoas. O Danon influencia o pensamento das pessoas. Loren se comunica através do pensamento com qualquer um que ele quiser e o Gasel se teletransporta. Cessando as apresentações...
Ela me entregou a Gasel que me segurou de frente para ela. A Verônica me deu um soco no estômago que me fez desmaiar.

Nana&Karol

02 novembro, 2012

Capítulo 30


Contei a ela sobre as visões e ela ficou eufórica como eu. A cara dela quando comecei dizendo que tinha trazido minhas coisas foi de “Nossa sério que grande novidade essa, conta outra”. Foi engraçado. Tivemos uma grande ideia: testar aquilo de fazer o outro esquecer, como fiz com a Felicity, para que eu pudesse me alimentar gradativamente das pessoas e fazê— las esquecer. Todos ficariam bem no final. Deu certo nos treinos, mas não sei se me sairia tão bem na prática, por isso depois das compras que fizemos para o apartamento eu fui me alimentar.
Cheguei a uma boate clandestina, onde ficavam pessoas não muito agradáveis para não dizer marginais e prostitutas de baixo escalão. O meu maior risco seria morrer, mas como não era possível seria fácil. Entrei, sentei no balcão e pedi uma dose de whisky. O barman me olhou como se eu fosse um lixo e me serviu rudemente. Era um cara alto, careca, corpulento, usava uma camiseta branca sem mangas, uma calça jeans e tinha piercings e alargadores pelas orelhas fora a tatuagem em forma de dragão que tinha nas costas subindo pela cabeça e que ia até só ele sabe onde. Olhei o lugar e vi as prostitutas me observando e se alisando vulgarmente. Uma que devia ter uns vinte e cinco anos mais ou menos, olhos castanhos, olhar vulgar, cansado e malicioso, cabelo castanho longo e solto com uma franja avermelhada, bota preta até o joelho, vestia blusa decotada, apertada e curta com desenho de uma rosa que evidenciava seus fartos seios e cintura fina; usava ainda saia curtíssima preta de couro e tinha brincos e tatuagens. Pensei que seria perfeita: ficaria envolvida e era jovem, se recuperaria rapidamente. Ela se aproximou caminhando sensualmente e me olhando desafiadora.
— Está sozinho não é?
— Sim. O que você sugere para mudar isso?
— Sugiro a mim.
— Boa sugestão.
— Quer beber?
— Não, você quer?
— Sim.
— Whisky?
— Perfeito. – Ela virou a dose de uma só vez, mas não se alterou.
— E agora?
— Podemos fazer o que você quiser.
— Vamos sair daqui.
Saímos e fomos para os fundos da boate que dava para uma rua de oficinas. Estava deserto. Na verdade para qualquer outra pessoa seria perigoso estar aqui.
— Você tem grana gato? – Puxei uma nota do bolso e dei a ela que começou a beijar meu pescoço.
— Que marca é essa?
— Um pequeno acidente.
Puxei— a para mais perto para sentir sua pulsação e o cheiro do seu sangue. Meu olfato estava ficando mais apurado com o tempo. Fora o forte cheiro de gasolina, urina e sujeira em geral do lugar havia o dela: perfume adocicado barato, cigarro, bebida e de outros homens. Seu sangue cheirava a álcool, mas das outras vezes foram assim então não seria novidade. Como seria um sangue puro como o da Cha...
Nem terminei o pensamento. Já era difícil o bastante ter que deixá— la lá vulnerável e agora pensar que eu a poria em risco me fez agir mais rapidamente com a mulher.
— Qual o seu nome?
— Angelique.
— Então Angelique vamos direto ao ponto.
— Como você quiser querido.
Puxei— a para mim pela cintura e ela começou a alisar meu peito. Peguei— a pelo cabelo e virei sua cabeça para o lado beijando e mordiscando seu pescoço até que senti minhas presas aparecerem. Finalmente, achei que nunca sentiria nada. Talvez fosse algo que precisasse controlar também. Mordi— a o mais delicadamente que pude e ela reclamou. Comecei a sugar seu sangue enquanto ela me beijava no pescoço. Vi toda essa noite: ela saiu com vários caras, alguns a bateram, outros a trouxeram para esse mesmo lugar.
Vi também o que parecia sua casa. Era um quarto e sala. Havia umas toalhinhas penduradas, uma divisória, uma cama de casal e fotos dela com outra garota parecida com ela. Vi isso através dos seus olhos. Era como se estivesse no corpo dela. A Angelique foi entrando e observando tudo isso. Estava cansada, deprimida e chorava. Olhou a foto e foi para a cama. Ela ficou leve nos meus braços, foi cedendo até que percebi que era hora de parar. Apertei os dois furos que fiz para estancar o sangue e limpei o local com o dorso da mão. Não mordi na veia, pois poderia matá— la. Escolhi um lugar menos perigoso. Ela parou de me beijar e me olhou confusa.
— Seus olhos...
Olhei no fundo dos olhos turvos dela e a encarei. Ela me olhou fixamente nesse momento e permaneceu assim.
— Angelique, o que está vendo? —  Ela me olhou confusa e tonta.
— O que?
— O que você vê em mim?
— Olhos... brancos, sangue.
— Não querida. Você está tonta e iludida. Está cansada, precisa de sossego não é verdade?
— Sim. Você pode me ajudar?
— Sim posso. O que quer que eu faça?
— Liga para minha casa... preciso dormir.
Ela cedia cada vez mais e já não se segurava nas próprias pernas. Estava com seu peso todo apoiado nos meus braços.
— Tenho um número... na blusa... liga para minha irmã. Por favor?
— Claro que sim!
Senti— me comovido com ela. Estava desfalecendo. Nessa situação (ou com uma pessoa normal) era praticamente impossível ouvir sua voz.
Peguei rapidamente o número e a apoiei contra meu peito. Liguei e uma garota atendeu.
— Você conhece Angelique?
— Sim, é minha irmã o que aconteceu?
— Ela precisa de ajuda. Está numa boate...
— Sei qual é. O que houve?
— Está fraca, precisa descansar.
— Você é cliente?
— Sim e não.
— Tudo bem. Vou passar para pegá— la. Não precisa se preocupar.
— Vou ficar com ela até você chegar.
— Tudo bem. É só um minuto.
Segurei— a nos braços e esperei lá até que a irmã dela chegou. Era a garota da foto que ela olhou e eram ainda mais parecidas pessoalmente. Ela estava num táxi e saiu pedindo que ele esperasse.
— Muito obrigada. Nem sei como agradecer.
— Não precisa só cuida dela.
— Muito obrigada.
— Já disse que não precisa. Vai. Ela está precisando de atenção.
A pus no táxi e a irmã dela me deu um abraço de agradecimento. Foram embora e esperei sinceramente que ficasse tudo bem. Segui para casa muito triste. Ela me ajudou e não pude fazer nada por ela. Derramei algumas lágrimas pelo caminho. Quando cheguei era mais ou menos onze e meia e a Charlie estava me esperando. Quando a vi lá, inocente, pura, amorosa e tão companheira pensei na Angelique e em tudo que ela não teve ou perdeu. Foi doloroso vê— la naquele estado. A Charlie correu para me abraçar. Fomos andando abraçados até o sofá e, deitado no colo dela, a Charlie afagava meu cabelo.
— Deu algo errado?
— Mais ou menos.
— Ele morreu?
— Não era ele era uma garota.
— A sim. – Ela ficou desapontada, mas tentou disfarçar e quase conseguiu, mas conhecia seu olhar e o que se passava por trás dele.
— Ela era jovem, mas estava muito fraca. Trabalhou muito hoje.
— O que ela faz?
— Charlie!
— Tudo bem já entendi. Mas o que aconteceu?
— Ela desfaleceu e foi mais fácil fazê— la esquecer. Pediu que eu a ajudasse então liguei para a irmã dela que a buscou na boate.
— Ficou tudo bem porque está tão triste?
— Porque ela me alimentou e não pude fazer nada por ela que precisava tanto.
— Não é bem assim. Você fez o que pôde ela ficará bem.
— Eu vi a casa dela quando a mordi, era bonita, mas ela não combinava muito bem com o cenário: estava triste, deprimida.
— Não podemos resolver todos os problemas de todas as pessoas. A irmã cuidara dela e ficará tudo bem.
Levantei do colo dela e a beijei na testa carinhosamente. Ela me abraçou e a pus no colo como uma pequena criança. Ficamos trocando carinhos até tarde quando ela finalmente dormiu. Levantei— a e a pus na cama carinhosamente. Estava sentado na cama encostado a cabeceira e ela de lado virada para mim encostada em minha barriga. Fazia frio então a cobri com outro lençol e fui tomar um banho. Ela podia não ter percebido, mas estava com cheiro da Angelique. Lembraria dela o suficiente, não era preciso ter o seu cheiro em mim. Como já era de praxe toquei minha marca e tive outra visão. Ficava cada vez mais fácil obtê— las.
Eu estava preso pelas mãos e pés na parede lateral direita do galpão e estava desesperado: gritava muito e sentia uma forte dor de cabeça, o que era estranho, pois ultimamente não sentia dores tão facilmente. A Verônica se aproximava de mim lenta e gradualmente com um alfanje na mão. Vestia um macacão de couro preto com decote bem delineado na frente, usava um bota que ia até a panturrilha e um salto médio quadrado diferente do que ela normalmente usava. Ela me olhava com certo desprezo enquanto fazia ameaças que não conseguia compreender bem. Ela me apontava o alfanje e continuava falando, nesse momento a Brianna chegou, seu olhar era vigoroso e ameaçador me lembrava um lobo pronto para a caça, ela vestia uma calça também de couro, uma blusa branca de mangas e um espartilho vermelho por cima. Elas começaram a discutir e nesse momento a minha visão acabou, não pude ver mais nada. Tentei por várias vezes, mas nada mais me veio. Voltei para a cama e fiquei pensando na visão enquanto via a Charlie dormir.

***

Nossos dias já haviam virado rotina: despedíamo— nos pela manhã e ela ia para a escola. Chegava de tarde e cozinhávamos juntos para ela que comia e fazia as lições. Depois víamos TV, jogávamos algo e namorávamos no sofá. Ela dormia e quase todas – não, todas – as noites dormíamos juntos, quero dizer: ela dormia abraçada a mim e eu ficava acordado vendo— a dormir. Era muito bom viver essa vida de “casados” apesar de continuarmos só como namorados, sem nada a mais. Tê— la ao meu lado já era suficiente para me fazer feliz no momento.
Estava chegando o feriado e como não havia sinais de perseguição da Verônica começamos a planejar o que faríamos para nos divertir e tentar esquecê— la. Planejamos uma pequena viagem para Blackpool. Havia um parque fantástico lá que eu adorava quando era criança. A Charlie ficou louca quando contei então pediu que a levasse. Decidimos que esse seria nossa comemoração – ou parte dela.
— Não vejo a hora de voltar logo.
— Nem eu. Estou ansioso para o feriado.
— Para o feriado ou para o seu aniversário?
— Para ambos.
— Mas hoje é quinta— feira. Teremos quatro dias e meio para comemorar.  Deixe— me ir agora assim o tempo passa mais rápido.
Beijamo— nos e ela se foi. Enquanto a Charlie estava na escola achei melhor dar uma arrumada na sua casa, afinal ela não se preocupava muito com isso. Comecei pela sala onde as almofadas estavam espalhadas pelo tapete. Depois fui para a cozinha onde as coisas estavam piores. Ela havia deixado a louça do café da manhã suja na pia, dizendo que limparia quando voltasse da escola. Como sabia que estaria cansada para isso resolvi fazer em seu lugar afinal não tinha nada que fazer.
Arrumei o seu quarto e o banheiro, pena que isso não durou muito tempo. Quando terminei ainda não havia chegado nem perto da hora em que a Charlie saia da escola. Sentei— me no sofá e comecei a assistir alguns programas que passavam na TV. A campainha tocou achei estranho, pois em todo esse tempo ela não tinha recebido visita. Não podia abrir se fosse um vizinho ou algum conhecido, pois achariam estranho me encontrar lá. Olhei pelo olho mágico e vi alguém que desejava ver a algum tempo. A Charlie me pediu diversas vezes que eu não fizesse nada, mas era impossível vê— la tão perto e ficar imóvel. Ela acabou com minha vida e o pior, mexeu com a única pessoa no mundo que não lhe era permitida, logo ela pagaria um preço à altura do dano que causou.
— Ora, ora veja quem me deu o ar da graça.
— Não seja irônico meu querido eu sei que você não está muito alegre comigo. Mas também sei que você queria muito me ver.
Sua voz me irritava de tal forma que não aguentei: levantei— a pelo pescoço e a empurrei contra a parede ficando bem próximo a ela e falando o mais irônico que consegui.
— Meu amor, como você adivinhou? Estava louco para conversar com você. Queria reforçar um recado: já te disse uma vez e esperava não ter que repetir, mas infelizmente minha querida você me desobedeceu então terei que fazer algo a respeito.
Joguei— a no chão e ela começou a rir. Minha ira cresceu mais ainda com essa atitude então a levantei puxando pelo cabelo e a pus de frente para meu rosto ao pé que ela continuava rindo.
— Do que está rindo?
— Da sua infantilidade.
— Sério? E como você caracteriza sua atitude?
— Como sábia. Agora que eu já sei a sua motivação vou usá— la contra você.
Ela bateu seu antebraço com força no meu braço desviando— se das minhas mãos e pulou sobre o sofá. Seus olhos estavam brancos e suas presas expostas num sorriso muito perigoso. Ela rosnou e franziu o cenho antes de pular sobre mim e me jogar no chão. Agiu tão rapidamente que não tive como reagir: ela cravou suas unhas nos meus deltoides e rasgou minha pele até os meus pulsos. Chiei de dor e senti minha visão mais clara o que significava que os meus olhos estavam brancos. Mordi o lábio e senti gosto de sangue: minhas presas estavam expostas. Ela arranhou meu peito rasgando minha camisa e arrancando minha pele. Nunca imaginei que ela fosse tão forte. Para terminar cravou os dentes no meu pescoço e sugou me fazendo ficar tonto, fraco e finalmente inconsciente.

Nana&Karol

Capítulo 29


Falei com minha mãe que ficou histérica comigo. Disse que viria até aqui para me buscar, que eu não ficaria hospitalizada aqui sozinha e tudo mais. Acalmei— a e fiz o Caine se passar por médico para convencê— la de que estava tudo bem. Ela se convenceu afinal a lábia dele era ótima. Ele era irresistível em todos os sentidos. Liguei para as meninas e falamos mais sobre o assunto só que na íntegra. Tive alta e já em casa fiquei com o Caine rodeada de amor e cuidados. Conversamos sobre as visões dele e ele conseguiu ver até a parte em que estava no quarto da Verônica. Cara quando ele disse que perdeu a visão porque ela foi para cima dele quase enlouqueci. Na verdade ele não disse, mas eu sabia. Ele deve ter olhado para ela em vez de se concentrar no fato em si e perdeu o foco. Droga. O sangue me subiu à cabeça e tive vontade de bater nele, mas me contive. Já havíamos brigado antes e não tinha sido nada bom.
Pela manhã fui para a escola e lá foi tudo como sempre: legal, divertido e por um momento até esqueci que tinha certos problemas e o Caine como solução de todos eles. Prestei bastante atenção às aulas e no final falei com a Lorenna.
— Como está se sentindo querida?
— Bem. Não tive problemas. Preciso contar uma novidade. O Caine teve uma visão nova, dessa vez provocada.
— Não entendi.
— Ele fez algum esforço para se lembrar e quando tocou a marca da mordida no pescoço conseguiu se ver num jantar com várias pessoas e depois discutindo com a Verônica. Ela estava seduzindo ele quando o Caine perdeu a visão. Tenho certeza que estava focando nela ao invés da situação.
— Mas já foi alguma coisa. Não se prenda a esse mero detalhe. Quero que diga ao Caine que esses dias não poderei vê— lo, pois não tenho mais o que inventar para o Rich. Preciso dar um tempo.
— Tudo bem eu digo. Estou indo para a parada do ônibus ele já deve estar me esperando. Se me atrasar é capaz dele vir aqui. Tchau.
— Tchau querida, mande um beijo para ele.
— Pode deixar.
Encontrei— o eufórico no ponto. Quando me viu veio rápido na minha direção e me deu um abraço forte e um beijo. Fiquei tonta com a surpresa.
— Tenho novidades.
— Conta.
— Em casa, vamos.
— Ah Caine diz logo.
— Não seja precipitada.
Pegamos o ônibus e ele fez suspense sobre o que era quase me matando de ansiedade. Só falou quando chegamos em casa. Ele entrou na minha frente e fechou a porta quando passei. Mandou que sentasse e ficou andando e se mexendo sem parar.
— Trouxe minhas coisas para cá.
— Que bom! Que novidade legal. – Coitado, não quis desapontá— lo, mas era só isso? Para que tanta euforia se ele já estava aqui?
— Não é só isso. – Parecia ter lido minha mente. Quase ri com a expressão dele. —  Consegui outra visão. Sei o que aconteceu agora.
Gritei subindo no sofá e pulei em cima dele. Ele me segurou no ar e me rodou várias vezes. Quando me pôs no chão comecei a pular eufórica e a perguntar descontroladamente o que houve. Isso sim era uma boa novidade.
— Estava no banho e fiz o de sempre: pus a mão na marca e me concentrei. Depois vi o jantar e como se pudesse adiantar a visão fui parar no quarto. Ela arranhou o próprio pescoço, me mordeu e me fez beber seu sangue acidentalmente. Precisa haver troca de sangue para a mudança.
— Mas isso não garante que tenha que ser assim. Ela pode ser apenas uma louca masoquista e nojenta vampira.
— Mas não foi só isso. O homem que falei que estava na mesa é pai dela e ele a perguntou se havia ocorrido troca de sangue. Ela estava nervosa, confusa e quando disse que sim ele quase explodiu de raiva. Se ela houvesse apenas me mordido não haveria problema. Senti um formigamento, um incômodo, mas dor e queimação só depois da troca de sangue. Esse é o segredo. E fora que eu fiz a Felicity esquecer meus olhos. Só preciso treinar essa parte de esquecer para me alimentar sem machucar as pessoas.
— Que bom Caine. Podemos treinar comigo. Você diz algo e tenta me fazer esquecer. Podemos começar com exercícios simples e depois com coisas mais complicadas e traumáticas.
— O que você entende por traumático?
— Não sei. Como você exemplificaria?
— Isso? – E me deu um beijo de uns cinco minutos de tirar o fôlego. Quando parou eu estava ofegante.
— Isso não é traumático. É prazeroso.
— Preciso ser mais criativo nessa parte.
Sorrimos e ele me puxou com um braço só para mais perto como um dançarino de tango: postura indefectível, olhar sensual e firmeza. Beijou— me apaixonada e euforicamente e ficamos lá na nossa comemoração particular.
Algum tempo depois começamos a praticar a parte do esquecimento. Ele me disse que não me queria, que eu não era a pessoa certa e que queria terminar, depois olhou no fundo dos meus olhos e disse calmamente:
— Charlie, não foi isso que você entendeu. Não quis dizer isso, não precisa ser assim. Vamos ficar juntos tudo bem?
Senti— me muito estranha. Era como se estivesse voando através das palavras dele e tudo parecia como se estivesse com eco. Sua voz parecia grave, forte, exigente e seus olhos me pareceram tirânicos. Ficou tudo vago, distante e de repente nem sabia mais sobre o que falávamos.
— Tudo bem?
— Tudo bem o que?
— Ficaremos juntos.
— Sim eu sei. Porque está falando isso agora? Podemos começar a testar o esquecimento?
Ele me levantou e me girou me beijando.
— Já testamos. Disse que não te queria mais e que iríamos terminar depois disse que era mentira e que não era isso que queria dizer.
— Então funcionou bem, pois não lembro essa parte. Só até a hora que estávamos planejando o teste.
— Agora vou falar algo e você me responde até quando consegui. Tudo bem?
— Sim.
Sem mais nem menos ele me empurrou e começou a gritar comigo.
— Vou embora daqui. Não te suporto mais.
— Tá dá pra ser mais realista? Assim não vai funcionar.
— E porque você acha que não estou sendo realista?
— Estamos no meio do teste.
— Não estamos testando nada. Estou falando a verdade. Você me sufoca. Enche— me a paciência.
— Tudo bem está pegando pesado.
— Essa é minha intenção. – Estava começando a ficar muito real. Ele não desviava os olhos nem um segundo dos meus e nem eu dos dele. Mas eu não desviava porque seus olhos pareciam ter certo magnetismo que prendia meu olhar. Era impossível desviar por mais que estivesse vendo ele me ridicularizar. Estava a ponto de gritar com ele. Parecia real de verdade e agonizante.
— Não, não é sua intenção. – Ele se aproximou e me olhou com asco.
— Você é muito prepotente. É só mais uma garota comum com quem saí. Nada, além disso.
Sabia que estava fingindo, mas essa certeza foi sendo substituída gradativamente por dúvida depois desconfiança e logo certeza de que ele falava sério. Ele continuou gritando comigo e eu estava piamente crente de que não valia nada para ele. Por vezes alguns flashes tentavam me dizer que era algo além daquilo, mas não entendia o que. Sabe quando você precisa lembrar algo, mas não sabe o que é e isso fica martelando sua cabeça como se dissesse “Lembre, lembre!”? Era assim que me sentia além da agonia crescente e espécie de sufocamento. Levei a mão à garganta e massageei em meio à minha confusão. Estava realmente convencida de que ele não me suportava quando ele me olhou mais profundamente e disse:
— Eu te amo. Preciso de você e nada disso foi verdade. Foi algo além da realidade. —  Também tinha essa impressão, mas porque motivo isso precisava ser feito? – Estamos bem e ficaremos assim, juntos, felizes. Amamo— nos e ninguém interferirá.
Senti algo estranho. A sensação de que precisava lembrar algo sumiu assim como tudo que estava na minha cabeça. Voltei ao ponto inicial. Ainda me perguntava por que diabos ele não começava logo esse bendito teste.
— O que aconteceu?
— Você está me enrolando. Porque não começa logo esse teste.
Ele me girou de novo e riu.
— Você fica me girando e não diz nada. O que houve?
— Falei coisas mais traumáticas tipo “Você é apenas mais uma”, “Acha que conseguiria me prender por muito tempo?” e outras e pelo seu olhar funcionou. Estava revoltada e quase chorando. Desculpa foi necessário.
Senti como se algo estivesse pesado dentro de mim, como me sentia quando era pequena e minha mãe brigava comigo por eu ter arrancado as flores dela ou quebrado um de seus caros e lindos arranjos. Sentia— me assim também quando ficava de castigo ou quando perdia algo. Senti mais ou menos assim quando o Pietro me traiu e descobri. Ainda estava me recuperando e respirava com incômodo.
— Por que me sinto assim?
— Deve ter sido por causa do que falei. Não foi agradável.
— Mas não me lembro de nada. Nada mesmo.
— Essa era a intenção. Nunca diria tudo aquilo se você tivesse que ficar se lembrando depois, pois nada foi verdade.
— Tudo bem só não faz de novo. Estou me sentindo mal, triste. Não sei bem porque, mas estou.
— Não se preocupe. Não vou mais me testar com você.
Ele me abraçou forte e a sensação de tristeza passou um pouco. Estava mais reconfortada com seus braços ao meu redor e isso me fez ter a certeza de que tudo ficaria bem novamente.
Pouco depois jantei. Ele havia feito uma comida estranha, mas ficou legal. O gosto estava bom e nem perguntei o que era para não quebrar o encanto.
— Precisamos fazer compras.
— Sério?
— Sim. Há quanto tempo não compra comida?
— Só comprei uma vez desde que cheguei.
— Está explicado porque sua cozinha está vazia. Se quiser podemos ir agora.
— Não será perigoso?
— Será perigoso sair a qualquer hora. Não podemos evitar então...
— Vamos.
Saímos e fomos ao mercado que fui da oura vez. Era por volta das sete quando chegamos. Pegamos um carrinho de compras e ele me arrastou junto com o carrinho, pois estava em pé na parte traseira como uma criança entusiasmada.
— O que você quer?
— Comida instantânea, biscoitos, sucos, coisas assim.
— Nada disso. Precisa comer direito, se estiver com preguiça cozinho para você.
Olhei— o cautelosamente e senti pena dele. Sua comida era horrenda, mas só pela disposição dele de me ajudar faria um esforçozinho alguns dias por semana. E depois sempre poderia comer fora.
— Tudo bem. Pega macarrão.
— E produtos de limpeza?
— Calma Caine, estamos na comida ainda. Pega leite, esses temperos aí parecem legais. Quem sabe sua comida fica com um gosto diferente.
— Quer dizer que minha comida é ruim?
— Não. Quero dizer que não tem gosto de nada que eu conheça.
Rimos muito e fomos pegando várias coisas. Na sessão de limpeza pegamos produtos que nem precisávamos muito, mas eram legais e cheirosos então ele, que tinha mania de limpeza, foi pegando as coisas com a desculpa de que “Poderemos precisar para limpar isso ou aquilo”. Fomos para o caixa, paguei as compras e pegamos um táxi. Chegamos em casa por volta das nove e meia então arrumamos tudo. Lá pelas dez eu estava saindo do banho quando ele chegou ao quarto e falou encabulado.
— Charlie queria sua opinião para algo.
— O que?
— Acha que devo sair para me alimentar hoje?
— Está com fome?
— Sim, mas...
— Vai. Não será bom passar tanto tempo sem se alimentar. Quanto mais tempo maior a quantidade que precisará então será mais perigoso para a pessoa.
— Você tem razão. Não queria precisar disso tudo. Desculpe.
— Não precisa se desculpar. Desde sempre soube quem você era e nem por isso deixei de gostar de você. Não te condeno nem te julgo e a partir do momento que fizer isso pode ir embora. Não te mereço mais.
— Obrigado. Eu que não mereço alguém como você. Nunca pensei que me apaixonaria tanto por alguém que não conhecia.
— Mas me conhece.
— Hoje sim, mas não naquele dia em que entrou no café. Apaixonei— me por você no momento em que te vi e será assim por todo o sempre.
Beijamo— nos e nos abraçamos forte então ele saiu para se alimentar. Só esperava que tudo desse certo. Seria desastroso se não saísse como o planejado.

Nana&Karol

Capítulo 28


Não a deixei falar mais nada. Saí correndo e fui ao hospital o mais rápido que pude. Cheguei e a vi lá deitada. Ela chorou despedaçando meu coração. Abracei— a com amor e me desculpei. Como sempre bondosa e altruísta acenou negativamente insinuando que não precisa me desculpar. Quando prometi ir atrás da Verônica ela insistiu veemente que não. Deixei para resolvermos quando ela pudesse falar.
— Queridos, preciso ir agora, está tarde. Amanhã volto para te visitar Charlie. Se precisarem de algo me liguem. Pode me acompanhar Caine?
— Claro. – Logo que saímos do quarto ela começou a falar.
— Caine, acho que é melhor você ficar com isso. – Ela me ofereceu um pequeno bolo de dinheiro.
— Não posso aceitar mãe.
— Aí tem umas £300 vai dar para você passar um bom tempo.
— Não posso viver de mesada.
— E se você estivesse em casa ia viver de que?
— Mãe...
— Caine toma meu celular e se precisar me liga no outro número. Vou mandar algumas roupas suas que ficaram em casa para o galpão. Não quero mais discussões sobre esse assunto, até mais.
Quando minha mãe foi embora e fiquei lá com ela, entre carinhos, beijos, abraços e atenções das quais ela precisava. Pela manhã antes dela acordar saí e comprei uma flor para ela. Quando voltei estava acordada e podia falar. Discutimos sobre a Verônica, mas ficou tudo bem. Agora ela teria que explicar à mãe o que aconteceu.
— Mãe, preciso contar uma coisa. Sofri um pequeno acidente... Não mãe não quebrei nada. Estava atravessando a rua em frente a um parque e não vi uma bicicleta. O garoto bateu em mim, mas nem cai, apenas bati num poste... Sim, estou no hospital em observação e saio ainda hoje... Para que mãe? Não vou pagar esse mico. – Escutei um grito de “Agora!” – Doutor ela quer falar com você. – E sussurrando tapando o fone – Fala alguma coisa. Fala logo se não ela vem até aqui. Rápido Caine. – Peguei o telefone desnorteado. Não sabia o que dizer.
— Alô? Sim Sra. Camarillo ela está bem. Meu nome? Dr. John Simpson. Ela sofreu algumas escoriações no braço esquerdo na altura do deltóide, nas pernas perto do joelho e no pescoço. Disse que bateu no poste quando caiu. Está bem, alguns curativos um analgésico se por acaso ela sentir dor e tudo voltará ao normal. De nada Sra. Camarillo ao seu dispor. Ela quer falar com você.
— Está satisfeita mãe? Estou indo para casa... Sim vou comprar o remédio e ficar em casa descansando. Amanhã estarei nova em folha e irei para a escola normalmente. Não quero perder aula por causa de um arranhãozinho bobo... Também te amo mãe e se precisar de algo ligo tudo bem? Até mais. Nossa ela ficou louca. Disse que se não a deixasse falar com o medico responsável ela viria aqui ou mandaria os Guimarães virem me ver que loucura!
— Tem noção de que menti para sua mãe?
— Se saiu muito bem por sinal.
— Charlotte!
— O que preferia? Que eu contasse que sua ex— namorada vampira quase me esganou?
— Claro que não.
— Então relaxa. Vou contar às meninas. A elas posso falar a verdade.
— Tudo bem.
Sabia que ela estava louca para contar a elas. Só não falou antes porque não podia falar. Ligou falou com uma de cada vez, cruzaram a linha e ela pôs no viva voz.
— Alô meninas?
— Sim, estamos aqui.
— Falem em inglês. Estou ligando do hospital.
— O que?
— O que houve?
— A ex— namorada do Caine me atacou. Quase me esganou.
— O que? De onde ela surgiu? Das trevas?
— Pode— se dizer que sim.
— Caine?
— Sim. De onde ela veio?
— Apareceu na minha casa dizendo que queria voltar e que eu tinha sido selecionado para ficar ao lado do clã dela.
— O que? Que louca.
— Por que justo você foi selecionado?
— Segundo ela por causa das minhas visões.
— Visões?
— Sim. Tenho algumas visões de passado e futuro e descobri ontem que de presente também.
— Foi isso que nos salvou.
— Como são essas visões?
— As tenho de repente, mas principalmente quando toco a marca da mordida que me transformou. São flashes claros e bem reais de coisas que aconteceram, vão acontecer ou estão ocorrendo no momento. A Verônica quer usar esse dom numa disputa com outro clã liderado por uma vampira qual o nome dela mesmo?
— Brianna Comte.
— Isso. Brianna Comte.
— Nossa parece nome de guerra.
— Como assim?
— Nada esquece.
— Sim, elas disputam algo e querem me usar como oráculo. Não vou servir de bola de cristal para ninguém.
— Isso mesmo Caine, manda as duas para...
— Bom gente. Precisamos ir não é mesmo Glorinha?
— É gente, desculpa. E você precisa descansar Char. Depois nos falamos.
— Até mais Caine.
— Até Julie, até Anne.
— Até. Beijos Char.
Desligaram e logo em seguida o médico de verdade entrou.
—  Bom Srtª. Camarillo analisei seus exames, mas não houve nada de grave. Queria conversar sobre o que aconteceu. Como tudo ocorreu?
— O Caine me deixou em casa e foi embora. Jantei e estava vendo TV quando a campainha tocou. Abri e um homem entrou querendo assaltar minha casa. Disse que sabia que eu era estrangeira pelo sotaque e que estrangeiros não são bem— vindos. Disse que não daria nada então ele me agarrou pelo pescoço. Caí no chão e comecei a tossir e gritar então ele saiu correndo do apartamento assustado eu acho.
— Quando estava perto de casa vi que não estava com minha chave. Voltei para procurar e a porta estava aberta. Entrei e a vi no chão.
— Você quer dar queixa, precisa que chame a polícia aqui?
— Não! Não precisa. Meus pais ficariam loucos no Brasil. Não é preciso. Qualquer coisa entro em contato com a polícia.
— Tudo bem. Você está de alta. Esse remédio é para dor de garganta. É um spray e vai adormecer sua garganta caso sinta ardência ou dor.
— Obrigada.
— Cuide— se.
— Estou pronta para ir. Vamos?
— Vai vestida assim? – Ela se olhou e sorriu encabulada. Estava com um camisolão de hospital.
— Preciso me trocar não é?
— Sim, seria melhor. Te espero no corredor.
— Tudo bem.
Alguns minutos depois ela saiu vestida com a roupa que estava ontem: uma calça folgada e uma blusa de mangas leve. Peguei meu casaco e vesti nela.
— Está melhor. Sentia— me melhor em sair com o camisolão.
Rimos e saímos andando. Chamei um táxi e fomos para o apartamento dela. Ela pediu que eu esperasse, foi ao quarto e se trocou. Esperei sentado no sofá e quando ela voltou trouxe um lençol se sentou ao meu lado com as pernas em cima do assento e se encolheu em meu peito nos enrolando com o lençol e segurando minha camisa. Começou a derramar algumas lágrimas.
— Você está bem?
— Sim só estou assustada. Amanhã tenho aula, mas não queria me separar de você.
—  Eu sei que será difícil se acostumar, mas ficará tudo bem. Não vou te deixar. Você irá com a Carly para a escola como sempre e te pegarei na parada do ônibus. Não é bom que saia muito.
— Não pretendo. Se você ficar aqui comigo não terei porque sair.
— Tudo bem. Ficarei, mas temos que nos cuidar para que ninguém me veja. Não será bom você manter um homem na sua casa.
— Não será bom para quem?
Ela riu maliciosamente e me beijou. Ficamos assim por algum tempo e conversamos sobre coisas amenas, nada que envolvesse a Verônica ou a Brianna. A mãe dela ligou novamente.
— Estou bem mamãe. Também te amo e sei que só quer meu bem, mas não precisa tanto desespero, falou com o Dr. Stuart e... O que? Sim claro Dr. Simpson, e está tudo bem... Sim já comprei o remédio. Estou deitada na cama... Sim, estou bem para ir ao colégio não se preocupe. Até mais. Manda um beijo para o papai. Ok. Tchau.
— Tudo bem?
— Sim. Ei, quando teremos um feriado?
— Em breve. Terá a sexta— feira Santa e a segunda de Páscoa.
— Então terei quatro dias de folga?
— Teoricamente sim.
— Por que teoricamente?
— Acha que te deixarei ter folga justo no dia do meu aniversário?
— O que? Quando?
— Na sexta— feira.
— Porque não me disse antes?
— Não havia necessidade. Disse agora, pois estou pensando na minha comemoração.
— Sério? E como você pretende comemorar?
— Prefere que eu diga ou que eu mostre?
— Fica ao seu critério.
Puxei— a para mais perto e a beijei que respondeu da mesma forma apaixonada. Beijávamo— nos cada vez mais e mais apaixonadamente. Agi faminto quase devorando seus lábios. Ela parou de repente.
— Há quanto tempo você não se alimenta?
— O que? – Não era um assunto muito agradável naquele momento.
— Há quanto tempo?
— Não sei, uns quatro eu acho.
— Não está na hora?
— Sim, mas não sei onde arranjar alimento.
— O que faremos?
— O que eu farei? Não sei, só não quero que se preocupe com isso.
— Como não me preocupar?
— Só deixe para lá.
— Tive uma ideia.
— Lá vem você com suas idéias.
— Sério escuta. Você precisa matar para se alimentar?
— Não sei nunca testei. As vezes que bebi foi todo o sangue então não sei se se eu deixar sangue as pessoas ficarão vivas.
— Quer tentar...
— Não! Que ideia é essa?
— Espera, não terminei. Não ia dizer para você me morder. Ia dizer para você tentar ver algo da sua mudança. Concentre— se, talvez funcione. Se fosse algo tão variável assim e independente da sua vontade aquela nojenta não quereria te recrutar.
— Você tem razão deve ser algo que possa controlar com prática.
— Então tenta.
Toquei a marca e não aconteceu nada então comecei a me esforçar para me lembrar do que fiz depois que saí de casa. Minhas lembranças me levavam para uma rua e só. Não passava daí.
— Não dá, não lembro.
— Calma Caine. Foco!
Toquei a marca de novo e fiquei tentando me lembrar, me esforçando. Não vinha nada, não lembrava nada até que quando estava para desistir vi flashes de um jantar, com várias pessoas ao redor da mesa em um brinde. Tirei a mão e perdi a visão.
— Eu vi! Havia uma mesa com várias pessoas. Reconheci a Verônica e vi um homem aparentemente jovem à cabeceira da mesa puxando um brinde. Todos me olhavam. Foi muito real.
— Com certeza. Seus olhos estão brancos. Quer tentar de novo?
— Sim claro.
Pus a mão no pescoço e fiz mais força focando no que tinha acabado de ver. Tudo passava como um filme mudo e meio rápido, mas as coisas eram bem claras, não havia margem para dúvidas. Vi a mim e a Verônica subindo uma escadaria e indo para um lugar... um quarto. Era o quarto que havia visto antes nos outros flashes, todo vermelho. Discuti com a Verônica e ela se aproximou envolvente. Beijamo— nos e acabamos na cama com ela de lingerie sobre mim. Droga! Perdi a visão.
— Perdi de novo.
— O que você viu. – Estava sem jeito de contar. – Conta Caine seja lá o que foi.
— Nós estávamos num quarto discutindo. O quarto que vi das outras vezes. Ela veio para cima de mim...
— E te mordeu?
— Isso ainda não.
— Mas você disse que não...
— Não até aquela noite. Não sei o que houve naquele dia. Nem sabia que as coisas tinham chegado até aquele ponto.
— Tá, não quero falar sobre isso. O que mais importante que isso você viu?
— Nada.
— Para onde estava olhando?
O que? Como ela sabia? Mulheres são terríveis quando querem ser. Fiquei desconcertado, mas tentei esconder minha vergonha.
— Para lugar nenhum.
— Mentira. Precisa ver sua cara. Estava olhando para ela.
— Charlie para.
— Tudo bem não vou brigar com você por causa dela dessa vez. Ela já se meteu demais onde não devia.
— Também acho.
— Você não tem que achar nada.
— Como você quiser.
Abracei— a e ela ainda estava irritada. Falei ao seu ouvido.
— Só acho o que você quiser.
Ela riu e ficamos lá tentando ver mais alguma coisa, mas nada. Ela foi dormir tarde apesar dos meus apelos. Pela manhã deu trabalho para levantar como eu já dei muitas vezes à minha mãe.
— Charlie acorda. A escola.
— Só mais um pouco Caine que saco.
— Não, acorda. Você disse isso há dez minutos. Vamos, anda.
— Que chateação. – Ela se levantou com raiva e bateu a porta do banheiro quando entrou. Fui para a porta do banheiro e falei mais alto para que ela pudesse ouvir.
— Você sabe que precisa ir.
— Sei, mas estou com sono.
— A culpa é sua. Te disse para ir dormir, mas preferiu ficar conversando.
— Tá Caine. A culpa é minha. – Ela falou meio irônica, meio chateada.
— Seu café está pronto.
— Não estou com fome.
— Sabe que precisa comer. Não queimei tudo para agora ter que jogar fora. Vai ter que comer.
Ela saiu do banheiro ainda irritada e quando chegou à cozinha começou a rir descontroladamente. Está certo que queimei o pão e o café parecia horrível, mas não precisava humilhar. Fiz cara de decepção fingida e ela ficou pesarosa.
— Desculpa Caine, mas não pude controlar.
— Tudo bem, quer se desculpar?
— Sim.
— Come então.
— Quero me desculpar, não me auto— flagelar.
Rimos juntos, mas ela acabou comendo o máximo que aquele horror permitiu. Beijamo— nos e ela se foi com a Carly. Passei o dia sem fazer nada de um lado para o outro, vendo TV, fazendo algo para comer para quando ela voltasse e decidi tentar mais algo sobre as visões. Fui tomar um banho e quando toquei a marca dessa vez foi mais fácil. Vi o jantar e tentei focar no quarto. Foi como um filme que é adiantado por capítulos. De repente nos vi no quarto. Beijávamo— nos e ela estava me seduzindo. Beijava meu pescoço faminta e quando menos esperei senti algo incômodo, dolorido. Ela me fez beijar seu pescoço e senti gosto de sangue: ela havia cortado sua nuca e quando senti o sangue na minha boca as coisas pioraram. A mordida queimava muito e no auge da dor e da minha loucura o homem da cabeceira da mesa entrou brigando com ela que tinha se vestido muito rapidamente, mesmo para uma vampira. Foquei nos lábios deles como pude para tentar ler o que eles diziam. Era uma discussão... Sobre algo ser cedo... Ele perguntou se houve troca de sangue. Era isso! Precisava haver troca de sangue para a mudança. Tirei a mão do pescoço e dei um grito de alegria. Contive— me na mesma hora. Saí do banho, me vesti e fiquei consternado. Estava eufórico, louco para contar a ela o que descobri afinal a ideia foi sua. Faltava quase duas horas para ela sair e não agüentava ficar preso entre aquelas paredes. Decidi que precisava de roupas, logo fui para casa buscá— las. Quando arrumei tudo fui para a parada de ônibus esperá— la.

Nana&Karol