Quando acordei
estava deitado no chão do galpão. A Verônica me rodeava e falava mansamente.
— Querido,
como está se sentindo?
— Mal, pior
ainda de ter que olhar pra seu rosto.
— Não seja tão
agressivo só quero o seu bem.
— Sério?
— Claro.
— Então se
mata. – Levantei— me meio zonzo e a encarei. Estava com a visão clara. Ela me
pegou pelo pescoço colocando dedo por dedo e apertando gradualmente.
— Meu querido,
não seja intolerante. Não quero precisar te machucar.
Dei— lhe um
tapa no rosto com toda minha força e ela caiu. Levantou— se irada com os olhos
fumegantes de ódio e me jogou contra a parede. Andou até uma sacola que estava
no chão ao mesmo tempo que falava.
— Você não
sabe como me tratar Caine. Está sendo um garoto mau. Suportei— te por meses,
suas manias, seus amigos, sua inútil família e seus gostos infantis. Não está
sabendo ser grato.
— Sua va...
Nem pude
terminar. Ela segurava algo que jogou no chão antes de voar em mim e me morder
novamente arrancando pedaços da minha pele. Tentei lutar contra, mas cada vez
mais ela bebia meu sangue e ficava mais forte. Eu enfraquecia mais e mais até
que desmaiei. Acordei sentindo uma dor lacerante nos pulsos e tornozelos. Abri
os olhos devagar e dei de cara com uma luz nos meus olhos. O sol estava quase
se pondo, mas algumas luzes ainda atravessavam o plástico rasgado da minha
janela.
O sangue
pingava dos meus pulsos e dos tornozelos. Quando consegui olhar estava de
braços e pernas abertas pregado na parede com estacas de metal que não faziam
nada além de me machucar como faria a qualquer pessoa. Ela se aproximou.
— Em breve
nossa amiguinha chegará.
— Que
amiguinha?
— Já se
esqueceu dela Caine? Nunca pensei que meu poder de sedução fosse tão grande.
— Sua
vagabunda! Como se atreve?
— Calma Caine.
Não vamos descer o nível. Nunca te vi xingar antes.
— Perdi muito
tempo então. — Ela pulou em mim e me
bateu tão forte na cabeça que senti como se estivesse sendo jogado contra o
concreto. Desceu e ficou lá caminhando de um lado para o outro enquanto minha
cabeça latejava.
— Hum, ela
está chegando... Com licença.
A Charlie
chegou e desobedecendo minhas ordens de ir embora entrou no galpão. Discutiu
com a Verônica, brigou com ela e acabou sendo levada para o escritório pelo clã
da bruxa depois de ter sido adormecida pelo soco que a fez desmaiar. A Verônica
tinha me mordido de novo. Cada vez que eu começava a me recuperar ela me mordia
novamente.
Já era umas
onze e meia quando ela foi até a sacola de onde tirou as estacas e puxou um
alfanje. Ele tinha a empunhadura verde, uma lâmina larga e curta no fim desta
com dois convexos quase na ponta. Havia umas inscrições na sua lateral, que
parecia representar o clã ao qual ela pertencia. Minha visão estava começando a
se concretizar ela se aproximou apontando o alfanje para mim e diferente do que
interpretei na minha visão ela ameaçava sim, mas não a mim e sim a Brianna.
— Pra que essa
arma? Pretende me matar?
— Jamais. Já
disse que tenho muitos planos pra você.
— E o que vai
fazer com ela?
— Estou
esperando uma convidada. É a...
— Brianna
Comte.
— Como sabe?
Viu algo?
— Nada que te
interesse.
Ela aproximou
a ponta do alfanje no meu peito e como na minha visão a Brianna chegou, mas ela
trouxe consigo algo que eu não tinha percebido: ela tinha nas mãos uma espada
Viking com a empunhadura preta e o guarda com pontas bem afiadas, sua lâmina
era longa e fina, na sua lateral também havia inscrições, mas a dela era
diferente junto com elas havia o desenho de um lince representando
provavelmente o seu clã.
— Começaram a
festa sem mim.
— A Verônica
tem problemas com ansiedade. Disse a ela pra te esperar.
— Verônica e
seus problemas. Eu sei a solução de um deles. Entrega— me o Caine e nos livramos
da ira do seu pai.
— E você acha
que me importo com meu pai?
— Pois
deveria. Ele não ficará nada satisfeito com seus planos, principalmente os que
o envolve, ou melhor, os que não envolvem.
— E você acha
que será tão fácil? Acha que depois de tudo que fiz e tudo que arrisquei vou te
entregar o Caine de bandeja?
— Porque não
experimentam perguntar a minha opinião?
— Porque a sua
opinião é a que menos importa.
— Olha Brianna
é melhor você sair daqui. Essa não é uma luta para bastardos. Estamos falando
de realeza.
— Conhecendo—
me tão bem não deveria me dar um conselho tolo como esse. Sabe que não vou
embora e que vou levar o Caine comigo, nem que eu tenha que cortar a sua cabeça
fora.
Enquanto elas
falavam uma dor na minha cabeça maior que a que estava sentindo me fez fechar
os olhos com força e rosnando. Era uma dor insuportável, incontrolável,
esmagadora. Parecia que minha cabeça ia explodir. No auge dessa dor o meu corpo
começou a formigar e a queimar, mas não havia fogo, era dentro de mim. Minhas
entranhas pareciam estar em brasa, labaredas subiam dos meus pés até minha
cabeça, onde estacionavam.
Nunca havia
sentido nada parecido, qualquer outro ser que passasse por isso já haveria morrido,
mas eu não. E cada vez mais a dor e a queimação aumentavam, até que não aguentei
e comecei a me debater e gritar de dor. Meus pulsos e meus tornozelos queimavam
mais do que minha cabeça, faria tudo para que aquilo passasse até mesmo cortá—
los fora.
— Não queria
que terminasse assim, mas você é prepotente, ambiciosa e maldosa. Não suporto
pessoas assim, logo não as quero perto de mim.
Brianna correu
na direção da Verônica com a Viking a postos e passou na direção do pescoço
dela com uma força que quando cortou o ar a fez girar num movimento rotatório e
parar novamente a postos. Seu cabelo girou ao redor dela como um lençol de
cachos. A Verônica, que havia abaixado, levantou— se girando o alfanje de um
lado ao outro na sua frente como se estivesse cortando água de tão simples e
fácil que pareceu. O tilintar das lâminas se chocando foi ensurdecedor para
mim, além dos meus olhos que queimavam. Elas lutavam girando ao redor de si,
abaixando e pulando uma sobre a outra com as espadas a postos de modo com tanta
técnica que pareciam dois cavaleiros medievais, mas não tão brutalmente.
Estavam mais para duas dançarinas num balé: postura indefectível, expressão
compenetrada e passos corretos e medidos como se tivessem sido coreografados.
À medida que a
meia noite ficava mais próxima meu sangue esquentava cada vez mais e senti
minhas feridas se fechando ao poucos. Tudo doía demais e eu gritava como nunca
imaginei ser capaz. Era ruídos dolorosos, graves e cortantes assim como a luta
delas. No auge do meu desespero consegui abrir os olhos e ver as duas feridas
frente a frente se olhando com um ódio mortal.
— Klanas,
supakuotas! – Disse a Verônica.
—
Klán, fel! – Disse a Brianna.
Ao
mesmo tempo seus clãs apareceram. O da Verônica era composto por Gason, Danon,
Thor, Loren e Onaro que empunhavam Espatas. O da Brianna trazia sete homens e
três mulheres. Elas eram lindas: uma loira com cabelo curto na altura do
queixo, uma morena com cabelo bem curto com franja longa e uma ruiva com o
cabelo na cintura em cachos grandes e bem definidos; eram altas, olhos
expressivos, expressão forte e compenetrada e postura de guerreiras. Entraram
em posição triangular, todos com armas brancas cortantes ou perfurantes. Os
três homens de trás estavam lado a lado e usavam arco e flecha com ponta de
metal, os outros quatro homens empunhavam adagas Sai e as mulheres – que os
lideravam — empunhavam espadas Espata.
Enquanto as
duas corriam uma de frente pra outra e continuavam lutando os outros se
enfrentavam como coadjuvantes. As três mulheres correram em direção a Loren e
Gasel. A loira e a ruiva puseram as mãos na cabeça e gritaram como se
estivessem ouvindo muito barulho então o Loren atacou— as. Ainda assim
desviaram e com um golpe conjunto cortaram a cabeça dele.
Gasel correu
na direção da morena e quando chegou bem próximo teletransportou— se para trás
dela golpeando— a na cabeça. Ela levantou a Espata defendendo— se do golpe. Foi
a luta que mais durou.
Thor atacou três dos homens com as adagas Sai
matando um deles com um golpe no pescoço decepando— lhe a cabeça e o braço. Os
outros dois fatiaram— no com as adagas de forma bem dolorosa, derrubaram— no ao
chão e enfiaram as adagas na região traqueal puxando cada um para um lado com
as duas mãos.
Danon foi
atacado pelos três homens com arco e flecha. As flechas perfuraram seus braços,
abdômen e pernas, mas como estavam muito próximos foi mais fácil atacar os
homens da Brianna cortando os arcos e as cabeças. A ruiva atacou o Danon pelas
costas cortando sua cabeça com muita raiva. Onaro viu, veio correndo em sua
direção e enfiou a Espata nas suas costas virando— a para si. Olhou— a com
raiva, aproximou— a de si, tirou a Espata pelas costas e decepou— lhe a cabeça.
Dois dos homens das adagas correram para cima dele girando as armas ao redor de
si como a Verônica havia feito anteriormente, mas o Onaro foi mais rápido.
Virou— se, conseguiu tomar— lhes as adagas e os matou. A loira e o outro homem
com adagas continuaram brigando com Onaro. Agora só restava eles três, Gasel e
a morena e Verônica e Brianna.
A queimação do
meu corpo chegou a um ponto em que não pude mais respirar. Senti como se meu
pulmão estivesse se contraindo e o meu sangue não circulasse mais. Não tinha
forças para gritar. Fechei os olhos, baixei a cabeça e esperei morrer. De
repente a dor passou. Senti uma onda energética ao meu redor e dentro de mim
tão forte que me fez arfar. Era como se uma massa de ar entrasse nos meus
pulmões me trazendo à vida novamente. Abri os olhos sorrindo, levantei a cabeça
gradativamente e olhei na direção da Verônica. Um ódio cresceu dentro de mim me
deixando mais vivo e com mais vontade de matá— la. A Verônica se aproximou de
mim afastando— me da minha família e dos meus amigos, me transformou e agora
planejava me escravizar. E se já não fosse o bastante atacou a pessoa que mais
me importava no mundo.
— Verônica. –
Minha voz soou tão magistral que todos pararam de lutar gradativamente e me
olharam. Ela me olhou atônita.
— Caine o
que...
Lentamente as
estacas foram se desprendendo da parede e caíram. Desci ereto como se pudesse
voar. Na verdade não sabia mais o que era capaz de fazer.
— Onaro, jis
turi!
Onaro rodou a
espada na sua frente apontando o dorso para mim e atacando— me na direção do
ombro. Desviei passando para suas costas. Ele virou— se me olhando nos olhos e
parando bruscamente: senti sua pressão arterial, sua respiração ofegante e sua
circulação acelerada. Sua artéria carótida estava dilatada e pulsava forte.
Olhei— o profundamente e irado então senti sua pressão arterial cair, seu
coração acelerar a cento e três batimentos por minuto e aumentando, a sua
circulação sanguínea acelerar e ele começou a buscar ar abrindo a boca e pondo
a mão no pescoço. Estava causando sintomas de anafilaxia no Onaro. Antes que
ele caísse segurei— o pelo cabelo e cravei os dentes no seu pescoço sugando o
seu sangue lentamente deliciando— me com todo o poder que o sangue de vampiro
trás.
Não pensava em
nada, nem na Charlie, nem na minha família, nem em ninguém que não fosse eu e
meu acerto de contas com a Verônica. Tudo que me motivava antes pareceu apenas
desculpas para que seguisse minha ira e a matasse. Seria prazeroso vê— la sob
meu julgo, indefesa. Meu ódio crescia e me cegava de tal forma que não
enxergava mais nada além do meu objetivo de vingança.
Quando não
havia mais sangue larguei— o no chão, me virei lentamente e fixei os olhos na
Verônica que estava aterrorizada.
— Eu te disse
que tudo melhoraria. – Ela ria nervosamente.
— Realmente
melhorou e vou te mostrar o quanto.
Olhei— a
profundamente como havia feito com o Onaro. Dessa vez foi mais rápido, não sei
se por causa do meu ódio crescente ou pela prática. Ela levou a mão ao pescoço
arfando até cair no chão. Tentei fazer as coisas bem lentamente para que ela
sentisse mais dor. A Verônica se debateu e gritou até onde seu ar permitiu.
Aproximei— me e levantei— a pelo cabelo e olhei bem no fundo dos seus olhos.
— Querida,
sabe que gostei muito de você? Pena que não soube retribuir, agora pagará pelo
mal que fez contra mim e a Charlie.
Virei sua
cabeça lentamente enquanto ela derramava algumas lágrimas e me olhava
implorativa. Quando me preparei para atacá— la duas vozes me interromperam
gritando em uníssono.
— Caine para agora!
Nana&Karol
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