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02 novembro, 2012

Capítulo 30


Contei a ela sobre as visões e ela ficou eufórica como eu. A cara dela quando comecei dizendo que tinha trazido minhas coisas foi de “Nossa sério que grande novidade essa, conta outra”. Foi engraçado. Tivemos uma grande ideia: testar aquilo de fazer o outro esquecer, como fiz com a Felicity, para que eu pudesse me alimentar gradativamente das pessoas e fazê— las esquecer. Todos ficariam bem no final. Deu certo nos treinos, mas não sei se me sairia tão bem na prática, por isso depois das compras que fizemos para o apartamento eu fui me alimentar.
Cheguei a uma boate clandestina, onde ficavam pessoas não muito agradáveis para não dizer marginais e prostitutas de baixo escalão. O meu maior risco seria morrer, mas como não era possível seria fácil. Entrei, sentei no balcão e pedi uma dose de whisky. O barman me olhou como se eu fosse um lixo e me serviu rudemente. Era um cara alto, careca, corpulento, usava uma camiseta branca sem mangas, uma calça jeans e tinha piercings e alargadores pelas orelhas fora a tatuagem em forma de dragão que tinha nas costas subindo pela cabeça e que ia até só ele sabe onde. Olhei o lugar e vi as prostitutas me observando e se alisando vulgarmente. Uma que devia ter uns vinte e cinco anos mais ou menos, olhos castanhos, olhar vulgar, cansado e malicioso, cabelo castanho longo e solto com uma franja avermelhada, bota preta até o joelho, vestia blusa decotada, apertada e curta com desenho de uma rosa que evidenciava seus fartos seios e cintura fina; usava ainda saia curtíssima preta de couro e tinha brincos e tatuagens. Pensei que seria perfeita: ficaria envolvida e era jovem, se recuperaria rapidamente. Ela se aproximou caminhando sensualmente e me olhando desafiadora.
— Está sozinho não é?
— Sim. O que você sugere para mudar isso?
— Sugiro a mim.
— Boa sugestão.
— Quer beber?
— Não, você quer?
— Sim.
— Whisky?
— Perfeito. – Ela virou a dose de uma só vez, mas não se alterou.
— E agora?
— Podemos fazer o que você quiser.
— Vamos sair daqui.
Saímos e fomos para os fundos da boate que dava para uma rua de oficinas. Estava deserto. Na verdade para qualquer outra pessoa seria perigoso estar aqui.
— Você tem grana gato? – Puxei uma nota do bolso e dei a ela que começou a beijar meu pescoço.
— Que marca é essa?
— Um pequeno acidente.
Puxei— a para mais perto para sentir sua pulsação e o cheiro do seu sangue. Meu olfato estava ficando mais apurado com o tempo. Fora o forte cheiro de gasolina, urina e sujeira em geral do lugar havia o dela: perfume adocicado barato, cigarro, bebida e de outros homens. Seu sangue cheirava a álcool, mas das outras vezes foram assim então não seria novidade. Como seria um sangue puro como o da Cha...
Nem terminei o pensamento. Já era difícil o bastante ter que deixá— la lá vulnerável e agora pensar que eu a poria em risco me fez agir mais rapidamente com a mulher.
— Qual o seu nome?
— Angelique.
— Então Angelique vamos direto ao ponto.
— Como você quiser querido.
Puxei— a para mim pela cintura e ela começou a alisar meu peito. Peguei— a pelo cabelo e virei sua cabeça para o lado beijando e mordiscando seu pescoço até que senti minhas presas aparecerem. Finalmente, achei que nunca sentiria nada. Talvez fosse algo que precisasse controlar também. Mordi— a o mais delicadamente que pude e ela reclamou. Comecei a sugar seu sangue enquanto ela me beijava no pescoço. Vi toda essa noite: ela saiu com vários caras, alguns a bateram, outros a trouxeram para esse mesmo lugar.
Vi também o que parecia sua casa. Era um quarto e sala. Havia umas toalhinhas penduradas, uma divisória, uma cama de casal e fotos dela com outra garota parecida com ela. Vi isso através dos seus olhos. Era como se estivesse no corpo dela. A Angelique foi entrando e observando tudo isso. Estava cansada, deprimida e chorava. Olhou a foto e foi para a cama. Ela ficou leve nos meus braços, foi cedendo até que percebi que era hora de parar. Apertei os dois furos que fiz para estancar o sangue e limpei o local com o dorso da mão. Não mordi na veia, pois poderia matá— la. Escolhi um lugar menos perigoso. Ela parou de me beijar e me olhou confusa.
— Seus olhos...
Olhei no fundo dos olhos turvos dela e a encarei. Ela me olhou fixamente nesse momento e permaneceu assim.
— Angelique, o que está vendo? —  Ela me olhou confusa e tonta.
— O que?
— O que você vê em mim?
— Olhos... brancos, sangue.
— Não querida. Você está tonta e iludida. Está cansada, precisa de sossego não é verdade?
— Sim. Você pode me ajudar?
— Sim posso. O que quer que eu faça?
— Liga para minha casa... preciso dormir.
Ela cedia cada vez mais e já não se segurava nas próprias pernas. Estava com seu peso todo apoiado nos meus braços.
— Tenho um número... na blusa... liga para minha irmã. Por favor?
— Claro que sim!
Senti— me comovido com ela. Estava desfalecendo. Nessa situação (ou com uma pessoa normal) era praticamente impossível ouvir sua voz.
Peguei rapidamente o número e a apoiei contra meu peito. Liguei e uma garota atendeu.
— Você conhece Angelique?
— Sim, é minha irmã o que aconteceu?
— Ela precisa de ajuda. Está numa boate...
— Sei qual é. O que houve?
— Está fraca, precisa descansar.
— Você é cliente?
— Sim e não.
— Tudo bem. Vou passar para pegá— la. Não precisa se preocupar.
— Vou ficar com ela até você chegar.
— Tudo bem. É só um minuto.
Segurei— a nos braços e esperei lá até que a irmã dela chegou. Era a garota da foto que ela olhou e eram ainda mais parecidas pessoalmente. Ela estava num táxi e saiu pedindo que ele esperasse.
— Muito obrigada. Nem sei como agradecer.
— Não precisa só cuida dela.
— Muito obrigada.
— Já disse que não precisa. Vai. Ela está precisando de atenção.
A pus no táxi e a irmã dela me deu um abraço de agradecimento. Foram embora e esperei sinceramente que ficasse tudo bem. Segui para casa muito triste. Ela me ajudou e não pude fazer nada por ela. Derramei algumas lágrimas pelo caminho. Quando cheguei era mais ou menos onze e meia e a Charlie estava me esperando. Quando a vi lá, inocente, pura, amorosa e tão companheira pensei na Angelique e em tudo que ela não teve ou perdeu. Foi doloroso vê— la naquele estado. A Charlie correu para me abraçar. Fomos andando abraçados até o sofá e, deitado no colo dela, a Charlie afagava meu cabelo.
— Deu algo errado?
— Mais ou menos.
— Ele morreu?
— Não era ele era uma garota.
— A sim. – Ela ficou desapontada, mas tentou disfarçar e quase conseguiu, mas conhecia seu olhar e o que se passava por trás dele.
— Ela era jovem, mas estava muito fraca. Trabalhou muito hoje.
— O que ela faz?
— Charlie!
— Tudo bem já entendi. Mas o que aconteceu?
— Ela desfaleceu e foi mais fácil fazê— la esquecer. Pediu que eu a ajudasse então liguei para a irmã dela que a buscou na boate.
— Ficou tudo bem porque está tão triste?
— Porque ela me alimentou e não pude fazer nada por ela que precisava tanto.
— Não é bem assim. Você fez o que pôde ela ficará bem.
— Eu vi a casa dela quando a mordi, era bonita, mas ela não combinava muito bem com o cenário: estava triste, deprimida.
— Não podemos resolver todos os problemas de todas as pessoas. A irmã cuidara dela e ficará tudo bem.
Levantei do colo dela e a beijei na testa carinhosamente. Ela me abraçou e a pus no colo como uma pequena criança. Ficamos trocando carinhos até tarde quando ela finalmente dormiu. Levantei— a e a pus na cama carinhosamente. Estava sentado na cama encostado a cabeceira e ela de lado virada para mim encostada em minha barriga. Fazia frio então a cobri com outro lençol e fui tomar um banho. Ela podia não ter percebido, mas estava com cheiro da Angelique. Lembraria dela o suficiente, não era preciso ter o seu cheiro em mim. Como já era de praxe toquei minha marca e tive outra visão. Ficava cada vez mais fácil obtê— las.
Eu estava preso pelas mãos e pés na parede lateral direita do galpão e estava desesperado: gritava muito e sentia uma forte dor de cabeça, o que era estranho, pois ultimamente não sentia dores tão facilmente. A Verônica se aproximava de mim lenta e gradualmente com um alfanje na mão. Vestia um macacão de couro preto com decote bem delineado na frente, usava um bota que ia até a panturrilha e um salto médio quadrado diferente do que ela normalmente usava. Ela me olhava com certo desprezo enquanto fazia ameaças que não conseguia compreender bem. Ela me apontava o alfanje e continuava falando, nesse momento a Brianna chegou, seu olhar era vigoroso e ameaçador me lembrava um lobo pronto para a caça, ela vestia uma calça também de couro, uma blusa branca de mangas e um espartilho vermelho por cima. Elas começaram a discutir e nesse momento a minha visão acabou, não pude ver mais nada. Tentei por várias vezes, mas nada mais me veio. Voltei para a cama e fiquei pensando na visão enquanto via a Charlie dormir.

***

Nossos dias já haviam virado rotina: despedíamo— nos pela manhã e ela ia para a escola. Chegava de tarde e cozinhávamos juntos para ela que comia e fazia as lições. Depois víamos TV, jogávamos algo e namorávamos no sofá. Ela dormia e quase todas – não, todas – as noites dormíamos juntos, quero dizer: ela dormia abraçada a mim e eu ficava acordado vendo— a dormir. Era muito bom viver essa vida de “casados” apesar de continuarmos só como namorados, sem nada a mais. Tê— la ao meu lado já era suficiente para me fazer feliz no momento.
Estava chegando o feriado e como não havia sinais de perseguição da Verônica começamos a planejar o que faríamos para nos divertir e tentar esquecê— la. Planejamos uma pequena viagem para Blackpool. Havia um parque fantástico lá que eu adorava quando era criança. A Charlie ficou louca quando contei então pediu que a levasse. Decidimos que esse seria nossa comemoração – ou parte dela.
— Não vejo a hora de voltar logo.
— Nem eu. Estou ansioso para o feriado.
— Para o feriado ou para o seu aniversário?
— Para ambos.
— Mas hoje é quinta— feira. Teremos quatro dias e meio para comemorar.  Deixe— me ir agora assim o tempo passa mais rápido.
Beijamo— nos e ela se foi. Enquanto a Charlie estava na escola achei melhor dar uma arrumada na sua casa, afinal ela não se preocupava muito com isso. Comecei pela sala onde as almofadas estavam espalhadas pelo tapete. Depois fui para a cozinha onde as coisas estavam piores. Ela havia deixado a louça do café da manhã suja na pia, dizendo que limparia quando voltasse da escola. Como sabia que estaria cansada para isso resolvi fazer em seu lugar afinal não tinha nada que fazer.
Arrumei o seu quarto e o banheiro, pena que isso não durou muito tempo. Quando terminei ainda não havia chegado nem perto da hora em que a Charlie saia da escola. Sentei— me no sofá e comecei a assistir alguns programas que passavam na TV. A campainha tocou achei estranho, pois em todo esse tempo ela não tinha recebido visita. Não podia abrir se fosse um vizinho ou algum conhecido, pois achariam estranho me encontrar lá. Olhei pelo olho mágico e vi alguém que desejava ver a algum tempo. A Charlie me pediu diversas vezes que eu não fizesse nada, mas era impossível vê— la tão perto e ficar imóvel. Ela acabou com minha vida e o pior, mexeu com a única pessoa no mundo que não lhe era permitida, logo ela pagaria um preço à altura do dano que causou.
— Ora, ora veja quem me deu o ar da graça.
— Não seja irônico meu querido eu sei que você não está muito alegre comigo. Mas também sei que você queria muito me ver.
Sua voz me irritava de tal forma que não aguentei: levantei— a pelo pescoço e a empurrei contra a parede ficando bem próximo a ela e falando o mais irônico que consegui.
— Meu amor, como você adivinhou? Estava louco para conversar com você. Queria reforçar um recado: já te disse uma vez e esperava não ter que repetir, mas infelizmente minha querida você me desobedeceu então terei que fazer algo a respeito.
Joguei— a no chão e ela começou a rir. Minha ira cresceu mais ainda com essa atitude então a levantei puxando pelo cabelo e a pus de frente para meu rosto ao pé que ela continuava rindo.
— Do que está rindo?
— Da sua infantilidade.
— Sério? E como você caracteriza sua atitude?
— Como sábia. Agora que eu já sei a sua motivação vou usá— la contra você.
Ela bateu seu antebraço com força no meu braço desviando— se das minhas mãos e pulou sobre o sofá. Seus olhos estavam brancos e suas presas expostas num sorriso muito perigoso. Ela rosnou e franziu o cenho antes de pular sobre mim e me jogar no chão. Agiu tão rapidamente que não tive como reagir: ela cravou suas unhas nos meus deltoides e rasgou minha pele até os meus pulsos. Chiei de dor e senti minha visão mais clara o que significava que os meus olhos estavam brancos. Mordi o lábio e senti gosto de sangue: minhas presas estavam expostas. Ela arranhou meu peito rasgando minha camisa e arrancando minha pele. Nunca imaginei que ela fosse tão forte. Para terminar cravou os dentes no meu pescoço e sugou me fazendo ficar tonto, fraco e finalmente inconsciente.

Nana&Karol

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