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02 novembro, 2012

Capítulo 29


Falei com minha mãe que ficou histérica comigo. Disse que viria até aqui para me buscar, que eu não ficaria hospitalizada aqui sozinha e tudo mais. Acalmei— a e fiz o Caine se passar por médico para convencê— la de que estava tudo bem. Ela se convenceu afinal a lábia dele era ótima. Ele era irresistível em todos os sentidos. Liguei para as meninas e falamos mais sobre o assunto só que na íntegra. Tive alta e já em casa fiquei com o Caine rodeada de amor e cuidados. Conversamos sobre as visões dele e ele conseguiu ver até a parte em que estava no quarto da Verônica. Cara quando ele disse que perdeu a visão porque ela foi para cima dele quase enlouqueci. Na verdade ele não disse, mas eu sabia. Ele deve ter olhado para ela em vez de se concentrar no fato em si e perdeu o foco. Droga. O sangue me subiu à cabeça e tive vontade de bater nele, mas me contive. Já havíamos brigado antes e não tinha sido nada bom.
Pela manhã fui para a escola e lá foi tudo como sempre: legal, divertido e por um momento até esqueci que tinha certos problemas e o Caine como solução de todos eles. Prestei bastante atenção às aulas e no final falei com a Lorenna.
— Como está se sentindo querida?
— Bem. Não tive problemas. Preciso contar uma novidade. O Caine teve uma visão nova, dessa vez provocada.
— Não entendi.
— Ele fez algum esforço para se lembrar e quando tocou a marca da mordida no pescoço conseguiu se ver num jantar com várias pessoas e depois discutindo com a Verônica. Ela estava seduzindo ele quando o Caine perdeu a visão. Tenho certeza que estava focando nela ao invés da situação.
— Mas já foi alguma coisa. Não se prenda a esse mero detalhe. Quero que diga ao Caine que esses dias não poderei vê— lo, pois não tenho mais o que inventar para o Rich. Preciso dar um tempo.
— Tudo bem eu digo. Estou indo para a parada do ônibus ele já deve estar me esperando. Se me atrasar é capaz dele vir aqui. Tchau.
— Tchau querida, mande um beijo para ele.
— Pode deixar.
Encontrei— o eufórico no ponto. Quando me viu veio rápido na minha direção e me deu um abraço forte e um beijo. Fiquei tonta com a surpresa.
— Tenho novidades.
— Conta.
— Em casa, vamos.
— Ah Caine diz logo.
— Não seja precipitada.
Pegamos o ônibus e ele fez suspense sobre o que era quase me matando de ansiedade. Só falou quando chegamos em casa. Ele entrou na minha frente e fechou a porta quando passei. Mandou que sentasse e ficou andando e se mexendo sem parar.
— Trouxe minhas coisas para cá.
— Que bom! Que novidade legal. – Coitado, não quis desapontá— lo, mas era só isso? Para que tanta euforia se ele já estava aqui?
— Não é só isso. – Parecia ter lido minha mente. Quase ri com a expressão dele. —  Consegui outra visão. Sei o que aconteceu agora.
Gritei subindo no sofá e pulei em cima dele. Ele me segurou no ar e me rodou várias vezes. Quando me pôs no chão comecei a pular eufórica e a perguntar descontroladamente o que houve. Isso sim era uma boa novidade.
— Estava no banho e fiz o de sempre: pus a mão na marca e me concentrei. Depois vi o jantar e como se pudesse adiantar a visão fui parar no quarto. Ela arranhou o próprio pescoço, me mordeu e me fez beber seu sangue acidentalmente. Precisa haver troca de sangue para a mudança.
— Mas isso não garante que tenha que ser assim. Ela pode ser apenas uma louca masoquista e nojenta vampira.
— Mas não foi só isso. O homem que falei que estava na mesa é pai dela e ele a perguntou se havia ocorrido troca de sangue. Ela estava nervosa, confusa e quando disse que sim ele quase explodiu de raiva. Se ela houvesse apenas me mordido não haveria problema. Senti um formigamento, um incômodo, mas dor e queimação só depois da troca de sangue. Esse é o segredo. E fora que eu fiz a Felicity esquecer meus olhos. Só preciso treinar essa parte de esquecer para me alimentar sem machucar as pessoas.
— Que bom Caine. Podemos treinar comigo. Você diz algo e tenta me fazer esquecer. Podemos começar com exercícios simples e depois com coisas mais complicadas e traumáticas.
— O que você entende por traumático?
— Não sei. Como você exemplificaria?
— Isso? – E me deu um beijo de uns cinco minutos de tirar o fôlego. Quando parou eu estava ofegante.
— Isso não é traumático. É prazeroso.
— Preciso ser mais criativo nessa parte.
Sorrimos e ele me puxou com um braço só para mais perto como um dançarino de tango: postura indefectível, olhar sensual e firmeza. Beijou— me apaixonada e euforicamente e ficamos lá na nossa comemoração particular.
Algum tempo depois começamos a praticar a parte do esquecimento. Ele me disse que não me queria, que eu não era a pessoa certa e que queria terminar, depois olhou no fundo dos meus olhos e disse calmamente:
— Charlie, não foi isso que você entendeu. Não quis dizer isso, não precisa ser assim. Vamos ficar juntos tudo bem?
Senti— me muito estranha. Era como se estivesse voando através das palavras dele e tudo parecia como se estivesse com eco. Sua voz parecia grave, forte, exigente e seus olhos me pareceram tirânicos. Ficou tudo vago, distante e de repente nem sabia mais sobre o que falávamos.
— Tudo bem?
— Tudo bem o que?
— Ficaremos juntos.
— Sim eu sei. Porque está falando isso agora? Podemos começar a testar o esquecimento?
Ele me levantou e me girou me beijando.
— Já testamos. Disse que não te queria mais e que iríamos terminar depois disse que era mentira e que não era isso que queria dizer.
— Então funcionou bem, pois não lembro essa parte. Só até a hora que estávamos planejando o teste.
— Agora vou falar algo e você me responde até quando consegui. Tudo bem?
— Sim.
Sem mais nem menos ele me empurrou e começou a gritar comigo.
— Vou embora daqui. Não te suporto mais.
— Tá dá pra ser mais realista? Assim não vai funcionar.
— E porque você acha que não estou sendo realista?
— Estamos no meio do teste.
— Não estamos testando nada. Estou falando a verdade. Você me sufoca. Enche— me a paciência.
— Tudo bem está pegando pesado.
— Essa é minha intenção. – Estava começando a ficar muito real. Ele não desviava os olhos nem um segundo dos meus e nem eu dos dele. Mas eu não desviava porque seus olhos pareciam ter certo magnetismo que prendia meu olhar. Era impossível desviar por mais que estivesse vendo ele me ridicularizar. Estava a ponto de gritar com ele. Parecia real de verdade e agonizante.
— Não, não é sua intenção. – Ele se aproximou e me olhou com asco.
— Você é muito prepotente. É só mais uma garota comum com quem saí. Nada, além disso.
Sabia que estava fingindo, mas essa certeza foi sendo substituída gradativamente por dúvida depois desconfiança e logo certeza de que ele falava sério. Ele continuou gritando comigo e eu estava piamente crente de que não valia nada para ele. Por vezes alguns flashes tentavam me dizer que era algo além daquilo, mas não entendia o que. Sabe quando você precisa lembrar algo, mas não sabe o que é e isso fica martelando sua cabeça como se dissesse “Lembre, lembre!”? Era assim que me sentia além da agonia crescente e espécie de sufocamento. Levei a mão à garganta e massageei em meio à minha confusão. Estava realmente convencida de que ele não me suportava quando ele me olhou mais profundamente e disse:
— Eu te amo. Preciso de você e nada disso foi verdade. Foi algo além da realidade. —  Também tinha essa impressão, mas porque motivo isso precisava ser feito? – Estamos bem e ficaremos assim, juntos, felizes. Amamo— nos e ninguém interferirá.
Senti algo estranho. A sensação de que precisava lembrar algo sumiu assim como tudo que estava na minha cabeça. Voltei ao ponto inicial. Ainda me perguntava por que diabos ele não começava logo esse bendito teste.
— O que aconteceu?
— Você está me enrolando. Porque não começa logo esse teste.
Ele me girou de novo e riu.
— Você fica me girando e não diz nada. O que houve?
— Falei coisas mais traumáticas tipo “Você é apenas mais uma”, “Acha que conseguiria me prender por muito tempo?” e outras e pelo seu olhar funcionou. Estava revoltada e quase chorando. Desculpa foi necessário.
Senti como se algo estivesse pesado dentro de mim, como me sentia quando era pequena e minha mãe brigava comigo por eu ter arrancado as flores dela ou quebrado um de seus caros e lindos arranjos. Sentia— me assim também quando ficava de castigo ou quando perdia algo. Senti mais ou menos assim quando o Pietro me traiu e descobri. Ainda estava me recuperando e respirava com incômodo.
— Por que me sinto assim?
— Deve ter sido por causa do que falei. Não foi agradável.
— Mas não me lembro de nada. Nada mesmo.
— Essa era a intenção. Nunca diria tudo aquilo se você tivesse que ficar se lembrando depois, pois nada foi verdade.
— Tudo bem só não faz de novo. Estou me sentindo mal, triste. Não sei bem porque, mas estou.
— Não se preocupe. Não vou mais me testar com você.
Ele me abraçou forte e a sensação de tristeza passou um pouco. Estava mais reconfortada com seus braços ao meu redor e isso me fez ter a certeza de que tudo ficaria bem novamente.
Pouco depois jantei. Ele havia feito uma comida estranha, mas ficou legal. O gosto estava bom e nem perguntei o que era para não quebrar o encanto.
— Precisamos fazer compras.
— Sério?
— Sim. Há quanto tempo não compra comida?
— Só comprei uma vez desde que cheguei.
— Está explicado porque sua cozinha está vazia. Se quiser podemos ir agora.
— Não será perigoso?
— Será perigoso sair a qualquer hora. Não podemos evitar então...
— Vamos.
Saímos e fomos ao mercado que fui da oura vez. Era por volta das sete quando chegamos. Pegamos um carrinho de compras e ele me arrastou junto com o carrinho, pois estava em pé na parte traseira como uma criança entusiasmada.
— O que você quer?
— Comida instantânea, biscoitos, sucos, coisas assim.
— Nada disso. Precisa comer direito, se estiver com preguiça cozinho para você.
Olhei— o cautelosamente e senti pena dele. Sua comida era horrenda, mas só pela disposição dele de me ajudar faria um esforçozinho alguns dias por semana. E depois sempre poderia comer fora.
— Tudo bem. Pega macarrão.
— E produtos de limpeza?
— Calma Caine, estamos na comida ainda. Pega leite, esses temperos aí parecem legais. Quem sabe sua comida fica com um gosto diferente.
— Quer dizer que minha comida é ruim?
— Não. Quero dizer que não tem gosto de nada que eu conheça.
Rimos muito e fomos pegando várias coisas. Na sessão de limpeza pegamos produtos que nem precisávamos muito, mas eram legais e cheirosos então ele, que tinha mania de limpeza, foi pegando as coisas com a desculpa de que “Poderemos precisar para limpar isso ou aquilo”. Fomos para o caixa, paguei as compras e pegamos um táxi. Chegamos em casa por volta das nove e meia então arrumamos tudo. Lá pelas dez eu estava saindo do banho quando ele chegou ao quarto e falou encabulado.
— Charlie queria sua opinião para algo.
— O que?
— Acha que devo sair para me alimentar hoje?
— Está com fome?
— Sim, mas...
— Vai. Não será bom passar tanto tempo sem se alimentar. Quanto mais tempo maior a quantidade que precisará então será mais perigoso para a pessoa.
— Você tem razão. Não queria precisar disso tudo. Desculpe.
— Não precisa se desculpar. Desde sempre soube quem você era e nem por isso deixei de gostar de você. Não te condeno nem te julgo e a partir do momento que fizer isso pode ir embora. Não te mereço mais.
— Obrigado. Eu que não mereço alguém como você. Nunca pensei que me apaixonaria tanto por alguém que não conhecia.
— Mas me conhece.
— Hoje sim, mas não naquele dia em que entrou no café. Apaixonei— me por você no momento em que te vi e será assim por todo o sempre.
Beijamo— nos e nos abraçamos forte então ele saiu para se alimentar. Só esperava que tudo desse certo. Seria desastroso se não saísse como o planejado.

Nana&Karol

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