Falei com
minha mãe que ficou histérica comigo. Disse que viria até aqui para me buscar,
que eu não ficaria hospitalizada aqui sozinha e tudo mais. Acalmei— a e fiz o
Caine se passar por médico para convencê— la de que estava tudo bem. Ela se
convenceu afinal a lábia dele era ótima. Ele era irresistível em todos os
sentidos. Liguei para as meninas e falamos mais sobre o assunto só que na
íntegra. Tive alta e já em casa fiquei com o Caine rodeada de amor e cuidados.
Conversamos sobre as visões dele e ele conseguiu ver até a parte em que estava
no quarto da Verônica. Cara quando ele disse que perdeu a visão porque ela foi
para cima dele quase enlouqueci. Na verdade ele não disse, mas eu sabia. Ele
deve ter olhado para ela em vez de se concentrar no fato em si e perdeu o foco.
Droga. O sangue me subiu à cabeça e tive vontade de bater nele, mas me contive.
Já havíamos brigado antes e não tinha sido nada bom.
Pela manhã fui
para a escola e lá foi tudo como sempre: legal, divertido e por um momento até
esqueci que tinha certos problemas e o Caine como solução de todos eles.
Prestei bastante atenção às aulas e no final falei com a Lorenna.
— Como está se
sentindo querida?
— Bem. Não
tive problemas. Preciso contar uma novidade. O Caine teve uma visão nova, dessa
vez provocada.
— Não entendi.
— Ele fez
algum esforço para se lembrar e quando tocou a marca da mordida no pescoço
conseguiu se ver num jantar com várias pessoas e depois discutindo com a
Verônica. Ela estava seduzindo ele quando o Caine perdeu a visão. Tenho certeza
que estava focando nela ao invés da situação.
— Mas já foi
alguma coisa. Não se prenda a esse mero detalhe. Quero que diga ao Caine que
esses dias não poderei vê— lo, pois não tenho mais o que inventar para o Rich.
Preciso dar um tempo.
— Tudo bem eu
digo. Estou indo para a parada do ônibus ele já deve estar me esperando. Se me
atrasar é capaz dele vir aqui. Tchau.
— Tchau
querida, mande um beijo para ele.
— Pode deixar.
Encontrei— o
eufórico no ponto. Quando me viu veio rápido na minha direção e me deu um
abraço forte e um beijo. Fiquei tonta com a surpresa.
— Tenho
novidades.
— Conta.
— Em casa,
vamos.
— Ah Caine diz
logo.
— Não seja
precipitada.
Pegamos o
ônibus e ele fez suspense sobre o que era quase me matando de ansiedade. Só
falou quando chegamos em casa. Ele entrou na minha frente e fechou a porta
quando passei. Mandou que sentasse e ficou andando e se mexendo sem parar.
— Trouxe
minhas coisas para cá.
— Que bom! Que
novidade legal. – Coitado, não quis desapontá— lo, mas era só isso? Para que
tanta euforia se ele já estava aqui?
— Não é só
isso. – Parecia ter lido minha mente. Quase ri com a expressão dele. — Consegui outra visão. Sei o que aconteceu
agora.
Gritei subindo
no sofá e pulei em cima dele. Ele me segurou no ar e me rodou várias vezes.
Quando me pôs no chão comecei a pular eufórica e a perguntar descontroladamente
o que houve. Isso sim era uma boa novidade.
— Estava no
banho e fiz o de sempre: pus a mão na marca e me concentrei. Depois vi o jantar
e como se pudesse adiantar a visão fui parar no quarto. Ela arranhou o próprio
pescoço, me mordeu e me fez beber seu sangue acidentalmente. Precisa haver
troca de sangue para a mudança.
— Mas isso não
garante que tenha que ser assim. Ela pode ser apenas uma louca masoquista e
nojenta vampira.
— Mas não foi
só isso. O homem que falei que estava na mesa é pai dela e ele a perguntou se
havia ocorrido troca de sangue. Ela estava nervosa, confusa e quando disse que
sim ele quase explodiu de raiva. Se ela houvesse apenas me mordido não haveria
problema. Senti um formigamento, um incômodo, mas dor e queimação só depois da
troca de sangue. Esse é o segredo. E fora que eu fiz a Felicity esquecer meus
olhos. Só preciso treinar essa parte de esquecer para me alimentar sem machucar
as pessoas.
— Que bom
Caine. Podemos treinar comigo. Você diz algo e tenta me fazer esquecer. Podemos
começar com exercícios simples e depois com coisas mais complicadas e
traumáticas.
— O que você
entende por traumático?
— Não sei.
Como você exemplificaria?
— Isso? – E me
deu um beijo de uns cinco minutos de tirar o fôlego. Quando parou eu estava
ofegante.
— Isso não é
traumático. É prazeroso.
— Preciso ser
mais criativo nessa parte.
Sorrimos e ele
me puxou com um braço só para mais perto como um dançarino de tango: postura
indefectível, olhar sensual e firmeza. Beijou— me apaixonada e euforicamente e
ficamos lá na nossa comemoração particular.
Algum tempo
depois começamos a praticar a parte do esquecimento. Ele me disse que não me
queria, que eu não era a pessoa certa e que queria terminar, depois olhou no
fundo dos meus olhos e disse calmamente:
— Charlie, não
foi isso que você entendeu. Não quis dizer isso, não precisa ser assim. Vamos
ficar juntos tudo bem?
Senti— me
muito estranha. Era como se estivesse voando através das palavras dele e tudo
parecia como se estivesse com eco. Sua voz parecia grave, forte, exigente e
seus olhos me pareceram tirânicos. Ficou tudo vago, distante e de repente nem
sabia mais sobre o que falávamos.
— Tudo bem?
— Tudo bem o
que?
— Ficaremos
juntos.
— Sim eu sei.
Porque está falando isso agora? Podemos começar a testar o esquecimento?
Ele me
levantou e me girou me beijando.
— Já testamos.
Disse que não te queria mais e que iríamos terminar depois disse que era
mentira e que não era isso que queria dizer.
— Então
funcionou bem, pois não lembro essa parte. Só até a hora que estávamos
planejando o teste.
— Agora vou
falar algo e você me responde até quando consegui. Tudo bem?
— Sim.
Sem mais nem
menos ele me empurrou e começou a gritar comigo.
— Vou embora
daqui. Não te suporto mais.
— Tá dá pra
ser mais realista? Assim não vai funcionar.
— E porque
você acha que não estou sendo realista?
— Estamos no
meio do teste.
— Não estamos
testando nada. Estou falando a verdade. Você me sufoca. Enche— me a paciência.
— Tudo bem
está pegando pesado.
— Essa é minha
intenção. – Estava começando a ficar muito real. Ele não desviava os olhos nem
um segundo dos meus e nem eu dos dele. Mas eu não desviava porque seus olhos
pareciam ter certo magnetismo que prendia meu olhar. Era impossível desviar por
mais que estivesse vendo ele me ridicularizar. Estava a ponto de gritar com
ele. Parecia real de verdade e agonizante.
— Não, não é
sua intenção. – Ele se aproximou e me olhou com asco.
— Você é muito
prepotente. É só mais uma garota comum com quem saí. Nada, além disso.
Sabia que
estava fingindo, mas essa certeza foi sendo substituída gradativamente por
dúvida depois desconfiança e logo certeza de que ele falava sério. Ele
continuou gritando comigo e eu estava piamente crente de que não valia nada
para ele. Por vezes alguns flashes tentavam me dizer que era algo além daquilo,
mas não entendia o que. Sabe quando você precisa lembrar algo, mas não sabe o
que é e isso fica martelando sua cabeça como se dissesse “Lembre, lembre!”? Era
assim que me sentia além da agonia crescente e espécie de sufocamento. Levei a
mão à garganta e massageei em meio à minha confusão. Estava realmente
convencida de que ele não me suportava quando ele me olhou mais profundamente e
disse:
— Eu te amo.
Preciso de você e nada disso foi verdade. Foi algo além da realidade. — Também tinha essa impressão, mas porque
motivo isso precisava ser feito? – Estamos bem e ficaremos assim, juntos,
felizes. Amamo— nos e ninguém interferirá.
Senti algo
estranho. A sensação de que precisava lembrar algo sumiu assim como tudo que
estava na minha cabeça. Voltei ao ponto inicial. Ainda me perguntava por que
diabos ele não começava logo esse bendito teste.
— O que
aconteceu?
— Você está me
enrolando. Porque não começa logo esse teste.
Ele me girou
de novo e riu.
— Você fica me
girando e não diz nada. O que houve?
— Falei coisas
mais traumáticas tipo “Você é apenas mais uma”, “Acha que conseguiria me
prender por muito tempo?” e outras e pelo seu olhar funcionou. Estava revoltada
e quase chorando. Desculpa foi necessário.
Senti como se
algo estivesse pesado dentro de mim, como me sentia quando era pequena e minha
mãe brigava comigo por eu ter arrancado as flores dela ou quebrado um de seus
caros e lindos arranjos. Sentia— me assim também quando ficava de castigo ou
quando perdia algo. Senti mais ou menos assim quando o Pietro me traiu e
descobri. Ainda estava me recuperando e respirava com incômodo.
— Por que me
sinto assim?
— Deve ter sido
por causa do que falei. Não foi agradável.
— Mas não me
lembro de nada. Nada mesmo.
— Essa era a
intenção. Nunca diria tudo aquilo se você tivesse que ficar se lembrando
depois, pois nada foi verdade.
— Tudo bem só
não faz de novo. Estou me sentindo mal, triste. Não sei bem porque, mas estou.
— Não se
preocupe. Não vou mais me testar com você.
Ele me abraçou
forte e a sensação de tristeza passou um pouco. Estava mais reconfortada com
seus braços ao meu redor e isso me fez ter a certeza de que tudo ficaria bem
novamente.
Pouco depois
jantei. Ele havia feito uma comida estranha, mas ficou legal. O gosto estava
bom e nem perguntei o que era para não quebrar o encanto.
— Precisamos
fazer compras.
— Sério?
— Sim. Há
quanto tempo não compra comida?
— Só comprei
uma vez desde que cheguei.
— Está
explicado porque sua cozinha está vazia. Se quiser podemos ir agora.
— Não será
perigoso?
— Será
perigoso sair a qualquer hora. Não podemos evitar então...
— Vamos.
Saímos e fomos
ao mercado que fui da oura vez. Era por volta das sete quando chegamos. Pegamos
um carrinho de compras e ele me arrastou junto com o carrinho, pois estava em
pé na parte traseira como uma criança entusiasmada.
— O que você
quer?
— Comida
instantânea, biscoitos, sucos, coisas assim.
— Nada disso.
Precisa comer direito, se estiver com preguiça cozinho para você.
Olhei— o
cautelosamente e senti pena dele. Sua comida era horrenda, mas só pela
disposição dele de me ajudar faria um esforçozinho alguns dias por semana. E
depois sempre poderia comer fora.
— Tudo bem.
Pega macarrão.
— E produtos
de limpeza?
— Calma Caine,
estamos na comida ainda. Pega leite, esses temperos aí parecem legais. Quem
sabe sua comida fica com um gosto diferente.
— Quer dizer
que minha comida é ruim?
— Não. Quero
dizer que não tem gosto de nada que eu conheça.
Rimos muito e
fomos pegando várias coisas. Na sessão de limpeza pegamos produtos que nem
precisávamos muito, mas eram legais e cheirosos então ele, que tinha mania de
limpeza, foi pegando as coisas com a desculpa de que “Poderemos precisar para
limpar isso ou aquilo”. Fomos para o caixa, paguei as compras e pegamos um
táxi. Chegamos em casa por volta das nove e meia então arrumamos tudo. Lá pelas
dez eu estava saindo do banho quando ele chegou ao quarto e falou encabulado.
— Charlie
queria sua opinião para algo.
— O que?
— Acha que
devo sair para me alimentar hoje?
— Está com
fome?
— Sim, mas...
— Vai. Não
será bom passar tanto tempo sem se alimentar. Quanto mais tempo maior a
quantidade que precisará então será mais perigoso para a pessoa.
— Você tem
razão. Não queria precisar disso tudo. Desculpe.
— Não precisa
se desculpar. Desde sempre soube quem você era e nem por isso deixei de gostar
de você. Não te condeno nem te julgo e a partir do momento que fizer isso pode
ir embora. Não te mereço mais.
— Obrigado. Eu
que não mereço alguém como você. Nunca pensei que me apaixonaria tanto por
alguém que não conhecia.
— Mas me
conhece.
— Hoje sim,
mas não naquele dia em que entrou no café. Apaixonei— me por você no momento em
que te vi e será assim por todo o sempre.
Beijamo— nos e
nos abraçamos forte então ele saiu para se alimentar. Só esperava que tudo
desse certo. Seria desastroso se não saísse como o planejado.
Nana&Karol
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