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21 outubro, 2012

Capítulo 25


Fiquei embaraçada quando ele tocou minha cintura. Sabia o que significava, mas não era hora. Não tão rápido. Havia muito pouco tempo que nos conhecíamos e por mais que o amasse era um passo sério que não seria dado precipitadamente. Faltava muito para ser dito e sabido. Ele era incrível, todos o amavam, conhecia bem sua vida, mas não o suficiente, não como achava que era o certo. Não era por ele ser vampiro nem nada, mas faltou— me confiança suficiente inclusive em mim. Ele entendeu prontamente o que quis dizer então continuamos nos beijos e abraços. Ele quis ir embora, porém fiz o que pude para impedir: pedi, resmunguei, argumentei. Ele me beijou então sabia que tinha vencido. Amanhã era sábado e novamente passaríamos um bom tempo juntos.
Ficamos até tarde nesse clima maravilhoso de romance até que dormi no chão no peito dele. Era melhor que qualquer outro lugar que já tinha dormido antes.
Tive um sonho maravilhoso. Estava num lugar fascinante: fazia frio, muito frio, mas eu apenas sabia, não sentia; havia muitas flores numa espécie de campo e ao redor muitas montanhas, um lago muito grande. Estava na beira molhando as mãos quando ouvi alguém me chamar. Levantei e meu vestido champanhe tomara que caia com ondulações da cintura para baixo e com busco com um tecido cruzado entre si balançou sobre mim. Meu cabelo estava preso numa cascata de ondas e estava descalça. Quem me chamou tinha uma voz forte, mas macia e aveludada. Parecia que estava declamando meu nome então não resisti e me virei para olhar para o dono daquela voz maravilhosa. Era ele. Vestia uma calça branca solta e uma camisa tipo uma bata até o quadril da cor do meu vestido. Sorria brilhantemente e seus olhos estavam esbranquiçados. O cabelo caia sobre o ombro como eu adorava e tinha um brilho invejável. Sorri em resposta e corri até ele que me esperou sorrindo. Abraçamo— nos e ele me girou. Pôs— me no chão e me beijou delicadamente. Ficamos lá naquele lugar mágico. Lembrava de lá. Era um país diferente, sim, era a Nova Zelândia. A tinha visto num filme e fiquei fascinada. Conversávamos sobre isso e sobre nós, nosso amor. Ele estava deitado sobre um braço com uma perna dobrada e a outra no chão esticada. Com a mão do braço em que estava deitado acariciava meu rosto, pois estava deitada de frente para ele com as pernas encolhidas uma sobre a outra no chão. Sorríamos um para o outro e por vezes nos beijamos, mas meu encanto foi quebrado.
Acordei com minha mãe me chamando. Droga, hoje não tinha aula, porque me chamar tão cedo? Espera! Não era minha mãe.  Era ele. Assustei— me com tudo isso. Ah tá. Ele estava aqui, devia estar horrível. Queria me esconder. Ele havia trazido café. Então devorei tudo correndo. Nossa que fome, também não almocei ontem. Ao contrário do que muitos pensam amor realmente não enche barriga. Do contrário estaria com indigestão.
Quando o Caine disse que nós iríamos passear apressei— me para sairmos logo. Achava que era cedo, mas já passava das onze. Agora me dava conta de que os vizinhos deveriam estar todos de pé e nos veriam juntos então fiz um plano. Sairia antes e ele me seguiria depois até o café. De lá iríamos ao lugar misterioso. Se ele saísse antes e eu depois daria muito na cara. Todos fazem isso. Estava tudo perfeito até sair e dar de cara com a Márcia Guimarães e o filho dela Daniel, os amigos dos meus pais. Fiquei de todas as cores que se é possível ficar parando no branco. O Caine deve ter ficado super confuso, pois eu mesma fiquei. O que eles faziam aqui?
— Entrem, por favor.
Disse dando tempo para que ele se escondesse. Quando entramos de volta o Caine havia sumido de lá.
— Desejam alguma coisa? Água, café?
— Não, só estávamos de passagem.
— Sentem— se.
As almofadas estavam jogadas pelo chão junto com a minha gravata e meu sapato. Juntei tudo depressa e joguei atrás do balcão da cozinha. Eles se entreolharam numa conversa silenciosa que eu esperava que fosse sobre minha desorganização.
— Como vão seus pais?
— Muito bem, obrigada e a família?
— Muito bem, toma o presente.
— Nossa que lindo muito obrigada. Eu adorei de verdade.
Era um colar com pedras pretas que pareciam ônix. Tinha uma grande no meio e outras pequenas na corrente. Muito lindo, de verdade. Abracei— a em agradecimento e dei— lhe um sorriso deslumbrante.
— Que bom que você gostou, mas agora preciso ir. Quer almoçar conosco?
— Oh, agradeço o convite, mas fica para a próxima. Marquei de almoçar com uma amiga da escola, Carly.
— Carly Johnson?
— Sim. Conhecem— se?
— Sim. O Paulo trabalha com o pai dela. São muito amigos. Está muito bom, mas precisamos ir, até mais querida. —  A Carly me devia essa. Ajudei— a com o Andrew ontem mesmo.
— Até mais Charlotte. —  O Daniel me beijou no rosto carinhosa e rapidamente.
— Vamos descer juntos.
— E a chave? – Oh meu Deus e o Caine?
— Tenho outra chave no criado mudo, acho que não faz mal levar essa.
Eles não entenderam nada, mas tudo bem. Descemos e fui conversando com eles sobre coisas legais da cidade e como tinha me divertido até agora.
— A cidade é maravilhosa. As pessoas são muito boas e está dando tudo certo.
— Que bom querida, fico feliz por você.
— Obrigada Márcia. É bom saber que tenho amigos numa cidade nova.
— Com certeza tem amor. Você é uma menina de ouro. Conte conosco sempre que precisar.
— Isso mesmo Charlotte, estaremos aqui. Eu também, não esqueça.
— Obrigada Daniel. Fico feliz em saber disso. E por favor, me desculpem a bagunça. Ontem cheguei muito mal da escola e fui jogando tudo pelo caminho. Não esperava receber visitas hoje, não que não sejam bem vindos.
— Nós é que nos desculpamos por termos aparecido de repente, sem avisar, mas você está bem mesmo?
— Sim foi só um mal estar. Não se preocupem e apareçam quando quiserem.
— Tudo bem. Até mais.
— Até mais.
Ufa! Quase não consigo disfarçar meu nervosismo. Ainda bem que despistei os dois. O pobre Caine ficaria trancado por pouco. Corri para o café e logo depois ele chegou interrogativo perguntando sobre o Daniel. Ficou com ciúmes então tive que fazê— lo esquecer, pois não agüentaria outra discussão boba como a de antes de ontem.
Pegamos o ônibus e mais que de repente ele se virou para mim e se escondeu no meu pescoço. Tinha visto um amigo no ônibus e precisava se disfarçar. Não precisávamos de um escândalo a essa altura. Fingi um tropeção para que o amigo dele desviasse sua atenção enquanto o Caine saia. Ele foi muito gentil e me segurou, então desci e encontrei o Caine no ponto parado.
— Não precisa agradecer, vamos estou muito curiosa.
— Irá se surpreender.
Caminhamos um pouco e entramos numa rua meio deserta. Havia um galpão enorme no fim da rua então me dei conta do que se tratava: era a casa dele! Pulei no seu pescoço e comecei a gritar. Ele se assustou e me segurou para que não caísse.
— Ah Caine obrigada. Queria tanto conhecer sua casa! Nunca tive coragem de pedir, mas ainda bem que me trouxe aqui. É super fantástico.
— Como você sabe que é minha casa? Poderia ser qualquer lugar da cidade.
— Mas esse lugar é a sua cara.
— Grande, feio e sujo?
— Claro que não! Pode ser grande e sujo, às vezes, mas feio nunca!
— Charlotte! Não sou sujo.
— Era da primeira vez que te vi. As meninas te chamaram de trapinho quando contei a elas sobre você.
— Não costumo andar sujo por aí, onde você me viu e como sabe se era eu mesmo?
— Agora sei mais que nunca. Vi— te de costas, cabelo preso com um pedaço de tecido, camisa azul escuro gasta e uma calça preta rasgada. Andava como um lorde, mas se vestia como um mendigo desculpa a palavra. Estava entrando numa loja.
— Tudo bem. Lembro desse dia. A Felicity trabalha nessa loja. A garota que você viu comigo no café. Foi a primeira vez que estive lá. Precisa comprar uma roupa barata, pois só tinha pouco mais de £100.
— Só um minuto. Você tinha sido transformado, estava sem nada e tinha £100?
— É que não era meu. Uns garotos invadiram o galpão e deixaram a carteira cair. Não iria voltar e devolver depois de ter batido neles.
— E por que bateu?
— Porque eles queriam me bater primeiro. No outro dia voltaram acompanhados e atiraram em mim.
— O que? E como você ficou... deixa pra lá. Do mesmo jeito que naquele dia lá em casa, não foi?
— Sim.
— E onde foi o tiro que mal te pergunte?
— No ombro, entre a clavícula e a escápula.
— Posso ver?
— Não ficou marca.
— Por favor.
— Vamos entrar? Lá te mostro ou quer que tire a roupa no meio da rua?
— Não, tudo bem. – Fomos entrando e fiquei fascinada com o lugar. – E o que você fez com eles?
— Disse que se não fossem embora os mataria.
— Caine isso não se faz. Eles devem ter ficado muito assustados. – Não aguentei segurar o riso. Só de pensar no meu Caine, tão romântico, tão lindo assustando adolescentes... Era hilário, cara.
— E não fiz só isso. Peguei toda a grana deles. Não seria justo que eles invadissem minha casa, atirassem em mim e saíssem ilesos.
— Quanto você conseguiu?
— Umas £400 e somando com o dia anterior umas £500.
— Muito bem meu amor. Só não faz de novo tá.
— Tudo bem, não pretendia antes e nem pretendo agora. Vem quero te mostrar a casa.
Nós subimos e entramos numa salinha que parecia um escritório. Havia arquivos, uma mesa, uma cadeira quebrada e um colchonete.
— Meu quarto e minha cama.
— Muito legal.
— Nem tanto, mas gosto daqui.
Descemos e ele me mostrou o resto. Havia latas e pneus arrumadinhos num canto e o banheiro era pequeno, mas estava limpinho. Tudo estava na verdade.
— Porque as janelas estão pintadas?
— Por que logo quando cheguei não conseguia enxergar no sol. Agora está muito melhor, como antes da mudança.
— Tão rápido assim?
— Sim. Aquela mulher falou que isso seria uma... diferença tipo algo a mais que nos outros, como sentir necessidade de me alimentar mais frequentemente e... andar com humanos.
— O que? Quer dizer que os vampiros não “andam” com humanos?
— Não sei o que ela quis dizer, não faço ideia do que aconteceu fora que ela me paralisou. Fiquei enfeitiçado e sei que não foi algo normal. Uma vez estava com a Felicity e tive uma visão da Verônica com um homem discutindo. Meus olhos ficaram brancos e a Felicity se assustou e começou a fazer perguntas. Olhei para ela e comecei a dizer pausadamente que não era nada e que estava tudo bem até que ela esqueceu o que havia visto.
— Como esqueceu? Assim de repente?
— Sim, apenas assim.
— Nossa Caine, então aquela idiota deve ter razão quando diz que há diferenças em você. Não conheço outros vampiros, mas você a conheceu e pareceu que poderia fazer coisas parecidas com as que ela faz.
— E isso não é muito bom, pois se ela tem uma legião atrás dela e veio pessoalmente me procurar quer dizer que valho muito.
— Não gosto que você pareça algo que está à venda.
— Muito menos eu. Agora vamos acabar com esse assunto. Já falamos demais sobre essa mulher.
— Só mais uma pergunta.
— O que?
— O que você sentia pela Verônica realmente?
— Porque a pergunta?
— Por nada, curiosidade, mas responde. – Olhei implorativa de forma que ele não seria capaz de se negar a responder.
— Tudo bem. Achava que era amor. Atração física, encantamento, novidade sei lá.
— E o amor?
— Hoje sei que não era.
— Como?
— Conheci você e agora sei o que é amar. – ele me beijou carinhosamente na testa e me abraçou.
— Mas vocês... saiam muito. –Não quis realmente saber se eles saiam. Queria saber se eles...saiam.
— Se eu entendi bem o sentido da sua pergunta não. Não “saímos” nenhuma vez em todo o tempo de namoro.
— Por quê?
— Por que ela sempre se esquivava.
— Hum...
— Você quer mesmo falar sobre isso?
— Não. —  Respondi prontamente. Ele era meu agora e ninguém o tiraria de mim nunca mais.
— Preciso te dizer uma coisa: quando estava dormindo ontem saí da cama para um banho. Estava muito quente. Quando toquei minha marca tive outra visão, dessa vez de algo que não aconteceu.
— O que?
— Estava aqui e brigava com a Verônica. Expulsava— a e estávamos irados um com o outro.
— Nossa que horror. Será que é de algo que virá?
— Espero que não.
— Mas você queria tanto saber a verdade.
— Se esse for o preço para tal prefiro não pagar.
Ele me abraçou e subimos. Ficamos deitados no colchonete, eu sobre ele para ficar mais confortável. Estávamos muito bem em meio a beijos e conversas sem noção.
— Sonhei conosco.
— Como foi?
— Lindo. Estávamos num lugar que eu acho que era a Nova Zelândia. Era lindo e você estava maravilhoso.
— Obrigado.
De repente um barulho que eu não ouvi o despertou do nosso pequeno transe.
— O que houve?
— Xii. Tem alguém lá embaixo. Fica aqui e não sai de maneira nenhuma me ouviu. Vou olhar o que ou quem é. Não sai daqui, por favor, me obedece.
— Tudo bem vai logo.
Ele vestiu a camisa, saiu fechando a porta atrás de si e desceu silenciosamente a escada. Grudei meu ouvido num lugar quebrado no vidro do lado do arquivo de modo que fiquei praticamente toda escondida. Ouvia muito mal, mas tentaria até a morte saber o que estava acontecendo lá embaixo.
— Quem está aí?
— Será que não se lembra mais de mim querido?
Cabelo comprido e avermelhado, olhos verdes, salto alto fino, vestido branco sem mangas e apertado, sensual, olhar mortal. Mas será possível que essas mulheres brotavam do chão aqui? De onde elas todas vinham, cara?
— Nem posso acreditar que você teve a coragem de aparecer aqui. Onde esteve todo esse tempo em que precisei de explicações? Você sumiu! Onde foi quando “morri”? Embora! Porque não ficou para explicar minha morte aos meus pais? Porque não me amava. Por favor, vai embora, antes que minha educação seja esquecida.
— Calma querido. Onde está todo o seu amor por mim?
— Morreu junto comigo naquele dia infernal. O que aconteceu comigo? O que você me fez? No que me transformou?
— Você sabe muito bem no que se transformou. –Cara ela falou como se estivesse cuspindo veneno. Eles não citaram nomes, mas pelo visto a mulher lá embaixo era a famosa Verônica.

Nana&Karol 

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