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12 outubro, 2012

Capítulo 24


Saí de lá muito triste com a atitude dela, nunca imaginei que ela pudesse me tratar daquele jeito. A única coisa que me deixou feliz foi o ciúme dela. Cheguei em casa cabisbaixo e juro que se aquela mulher aparecesse a expulsaria da pior forma possível. Subi e peguei uma roupa, tomei um banho e enquanto isso pensava no que aconteceu. Estava muito feliz por ela ter me desobedecido e ido falar com minha mãe. Com a ajuda dela seria muito mais fácil suportar tudo isso principalmente se a Charlie desistisse de mim e essa ideia me pareceu insuportável. Vesti uma calça folgada e me deitei no colchonete.
Fiquei pensando se ia a casa dela ou não amanhã. Na verdade estava sem coragem de vê— la acabar com tudo. Pela manhã já não aguentava mais pensar nisso então decidi limpar o galpão que já estava muito sujo. Arrumei o arquivo com minhas roupas, lavei o banheiro e ajeitei as “janelas”. O sol já não me fazia mal, mas o escuro era mais confortável. Varri o galpão bem lentamente e quando me dei conta já era tarde. Teria que enfrentá— la alguma hora então seria melhor que fosse logo.
Arrumei— me e fui até a casa dela. Minha mãe estava lá, falou rapidamente comigo, pois precisava ir embora por causa do meu pai e nos deixou sozinhos para o embate. Estava exagerando, mas era assim que me sentia.
— Senta aqui. – Andei até ela como quem anda para a forca. – Tudo bem com você?
— Sim e com você?
— Tudo. Alguma novidade?
— Não e você?
— Não também.
A partir daí ela começou a falar de como estava errada e deveria ter me apoiado e me pediu perdão. Se meu coração estava contraído de pavor do que poderia acontecer aqui agora estava expandido de tal forma que mal cabia no meu peito. Não era minha vontade perguntar, mas precisava deixá— la livre para escolher então pedi que escolhesse de que lado ficar. Não vou dizer que esperava o contrário, ninguém nunca espera, mas quase pulei de alegria quando ela disse que me escolhia. Abraçou— me como uma criança que procura abrigo nos pais quando se machuca, e fiz o máximo para corresponder. Fiz carinho no seu cabelo e beijei sua cabeça por muito tempo, mas não aguentava ficar ao seu lado sem beijá— la. Levantei sua cabeça e ela ainda estava chorando. Vi que ela estava sofrendo tanto ou mais que eu. Já havia sentido se não amor – e acredito que não era – algo bem parecido pela Verônica então já imaginava como fosse. A Charlie não; era a primeira vez que se apaixonava e se já era difícil para mim imagina para ela. Inclinei— me sobre ela e ficamos deitados nos beijando. Não sei o que ela tentou fazer, mas conseguiu nos derrubar do sofá. Ficamos no chão rindo, ela deitada sobre mim e nos beijando entre os risos. Sentei de modo que ela ficasse sentada sobre suas pernas entre as minhas abertas. Não seria muito bom se ela continuasse sobre mim.
De repente ela parou e me perguntou se eu tinha ouvido uma música. Já a tinha ouvido. Alguém que não me lembro me deu um cd com várias músicas misturadas e entre elas estava essa. Disse que seria a nossa música e sussurrei um trecho para ela que gostou da ideia. Sua expressão estava tão fantástica, tão fascinante que a beijei novamente puxando— a para mais perto. Havia um ano mais ou menos que não ficava tão próximo de uma garota assim. Meu namoro com a Verônica era muito estranho. Apesar de termos ficado tanto tempo juntos e ela ser mais velha nunca me permitiu ir mais além. Ela nunca nem me apresentou a sua família! Sempre que as coisas começavam a passar do ponto ela fugia de mim. Agora a Charlie, quem eu tanto amo, tão próxima... Não sei se hoje conseguiria ir embora.
Ela ainda estava de farda e de repente puxou a gravata. Um botão abriu e vi seu ombro à mostra. Já havia visto antes, mas nunca me pareceu tão tentador. Ela passou a mão pelo meu cabelo e me arrepiei. Beijei seu pescoço e pus a mão na sua cintura sob a camisa. Ela se afastou e me olhou confusa e um pouco assustada.
— Caine!
— Desculpa Charlie, é que...
— Tudo bem, não precisa explicar, eu entendi, só não...
— Ok. Passei dos limites, desculpa. – Foi um verdadeiro balde de água fria, mas entendi que tinha ido além do que ela imaginou. A atitude dela me lembrou a Verônica.
— Não fica chateado?
— Claro que não meu amor. Não quero forçar nada. Eu que não deveria ter ido tão longe antes de você permitir.
— Eu te amo sabia?
— É, acho que você já disse isso.
Ela me bateu e me abraçou. Ficamos lá entre beijos e risadas sobre coisas meio sem noção e não vimos a hora passar. Quando me dei conta já passava da meia noite. A Charlie estava sonolenta, mas nunca daria o braço a torcer. Ficaria acordada para sempre se pudesse ao contrário de mim que daria tudo por uma noite de sono.
— Meu amor preciso ir.
— Já, está cedo.
— Cedo para amanhã? Conheço essa história. Você vai me pedir para ficar, me olhar como uma criança abandonada e não vou ter como negar.
— Se você já conhece a história porque não fica de uma vez.
Nem ela conseguiu segurar o riso com isso. Estávamos abraçados no chão, no tapete e quando tentei me levantar ela segurou meu braço firme.
— Por favor, fica só hoje. Estava com saudades de você. Sei que foi apenas um dia, mas em pensar que poderia te perder de alguma forma e por culpa minha quase morri. Falei com sua mãe e com as meninas. Elas me mostraram delicadamente o quanto fui idiota e não quero continuar sendo.
— Você não foi nem está sendo idiota. Eu te amo Charlotte e isso não vai mudar seja lá o que faça. Se hoje você tivesse dito que nunca mais queria me ver sairia por aquela porta e nunca mais apareceria. Deixaria você viver sua vida e não te atrapalharia, mas só Deus sabe como conseguiria fazer isso. Se não consegui me controlar foi por culpa minha e não sua. Não se sinta idiota nem nada assim.
— Ajudaria se você ficasse.
— Quantas vezes você vai conseguir o que quer comigo?
— Quantas você permitir.
— Então serão todas as vezes.
Beijei— a apaixonadamente. Novamente ela tinha me vencido. Só fiquei porque amanhã era sábado e planejava levá— la para passear. Teríamos que dar um jeito de eu sair sem que ninguém me visse. Para mim não seria difícil, mas a Charlie se entrega quando faz algo errado. Fica nervosa e embaraçada como ela ficou quando trouxe minha mãe aqui. Era só rezar para que ela não encontrasse ninguém nos corredores do prédio amanhã.
Continuamos assim até que ela dormiu nos meus braços. Até que conseguiu segurar muito. Já passava da uma da manhã então peguei— a no colo e a coloquei na cama. Amanhã ela daria um jeito na roupa. Com certeza não gostaria que a trocasse então a cobri e fiquei lá olhando— a dormir. Parecia um anjinho deitado numa nuvem. Seu cabelo caia sobre o pescoço numa onda e seu braço estava sob o travesseiro como se estivesse querendo dizer “É meu e ninguém tem o direito de tocar”. Dormia serena, respirava tranquilamente. Foi a melhor visão que já tive dela até então. Minha estranha perfeita agora era tão familiar que fazia parte de mim. Sem me fosse tirada seria tirada minha alma, pois a reencontrei na Charlie. Amava— a mais que tudo em minha vida, mais que a mim mesmo. De hoje em diante a protegeria com minha vida e a amaria com mais intensidade que qualquer uma já foi amada no mundo.
Decidi tomar uma ducha rápida. Ela não acordaria mesmo. Saí do lado dela, prendi o cabelo, fui para o banheiro. Quando comecei a me molhar com água fria passei a mão pelo pescoço e toquei a marca. Senti como se estivesse voando e me vi discutindo com alguém na minha casa. Estava escuro, mas num lance de luz vi um rosto que, infelizmente, me era familiar: Verônica Malkavian. Falávamos alto e eu gritava e a expulsava de lá. Ela vestia branco como raramente o fazia. De repente voltei a mim e me vi no banheiro da Charlie. Foi rápido e assustador. Não consegui entender o que aconteceu. Saí do banho, me enxuguei e voltei para o lado dela na cama. Queria ficar com a Charlie, mas tomei cuidado para não acordá— la. Só precisa ficar próximo a alguém que me desse segurança e encontrava isso nela. Foi uma situação que esperava que não acontecesse.

***

Pela manhã fui à cozinha. Já era tarde e não a acordei antes por causa da hora que ela foi dormir. Fiz café e peguei cereal e biscoitos. Era a única coisa que tinha ali. Como ela conseguia viver sem comer? Coloquei numa bandeja e levei ao quarto. Ela estava virada para a parede. Sentei na beirada da cama e falei ao seu ouvido.
— Charlie, meu amor, a escola.
— Hoje é domingo mãe.
— Hoje é sábado. – Ela levantou a mão como se estivesse pedindo um tempo e acabou tocando meu peito. Abriu os olhos e levantou— se assustada.
— O que... – Olhou— me surpresa.
— O que passou pela sua cabeça? – Ela passou a mão pelo cabelo numa atitude cansada.
— Que a minha mãe estivesse me acordando para a escola.
— Já é a segunda vez que me compara com sua mãe. Estou com medo de estar parecendo muito feminino. Fiz café para você.
— Que maravilha estou morrendo de fome e você não parece nada com minha mãe posse te garantir isso. – Ela me olhou de uma forma diferente do habitual, mais madura.
— Você dormiu feito uma pedra.
— A culpa é sua.
Pus a bandeja na cama e ela começou a devorar tudo.
— Minha?
— Sim, você que me deixou acordada.
— Foi você que me pediu para ficar.
— Quis dizer que com você do meu lado fica quase impossível pensar em algo que não seja você, muito menos em dormir.
Sorrimos juntos nos olhando maliciosamente então quando ela acabou peguei a bandeja e levei de volta para a cozinha. Voltei e ela estava deitada de novo.
— Nunca imaginei que fosse tão preguiçosa.
— A preguiça é uma virtude.
— Quem te disse isso?
— Ninguém, aprendi na prática.
— Precisa se trocar, hoje é sábado quero te levar para um lugar.
— Onde?
— Surpresa. Você saberá quando chegar lá.
— Então vou tomar banho. Ou você quer ir primeiro?
— Não pode ir te espero.
Ela se levantou com o cabelo todo assanhado, olhou— me travessa e correu para o banheiro quando lhe lancei um olhar aguçado. Tirei a camisa e quando ela saiu fui tomar banho. Quando saí ela estava vestida numa calça jeans com tênis All Star azul e uma camisa verde. Secava o cabelo.
— Estou com pressa, se troca rápido.
— Por quê?
— Além de estar ansiosa para ir nesse tal lugar quero aproveitar que ainda é cedo para que os vizinhos não nos vejam.
— Quanto pra você é cedo? Porque já são quase 11h30.
— O que? E porque você não me disse logo? Precisamos ir rápido.
Ela largou o secador, pegou minha camisa e jogou em cima de mim. Vesti— me o mais rápido que pude.
— E agora?
— Vou olhar.
— Deixe que eu olho. Não tem ninguém.
— E se alguém nos vir.
— Agora você se preocupa com isso.
— Cala a boca. – Ela falou rindo. —  Vou sair e te espero no café.
— Ok. —  Ela abriu a porta devagar e ficou branca quando saiu.
— Bom dia Charlotte. Ia tocar a campanhia nesse minuto.
— Bom dia, Sra. Guimarães que bom te ver. Daniel como vai?
Que droga! Era tudo que não poderia ter acontecido. Quem visita as pessoas sem avisar?
— Tudo bem, estava de saída?
— Na verdade sim.
— Não tem problema querida, é só um minutinho, só viemos te trazer esse presente.
— Entrem, por favor. —  Saí em disparada para o quarto enquanto ela os trazia para dentro.
— Desejam alguma coisa? Água, café?
— Não, só estávamos de passagem.
— Sentem— se.
— Como vão seus pais?
— Muito bem, obrigada e a família?
— Muito bem, toma o presente.
— Nossa que lindo muito obrigada. Eu adorei de verdade.
— Que bom que você gostou, mas agora preciso ir. Quer almoçar conosco?
— Oh, agradeço o convite, mas fica para a próxima. Marquei de almoçar com uma amiga da escola, Carly.
— Carly Johnson?
— Sim. Conhecem— se?
— Sim. O Paulo trabalha com o pai dela. São muito amigos. Está muito bom, mas precisamos ir, até mais querida.
— Até mais Charlotte. —  O que foi aquilo? Ele a beijou? Quem é esse cara afinal?
— Vamos descer juntos.
— E a chave? – Nem acreditei que ficaria preso aqui.
— Tenho outra chave no criado mudo, acho que não faz mal levar essa. – ela falou mais alto para que eu pudesse ouvir. Esperei uns 10 minutos e saí atrás dela no café. Ela estava aflita roendo as unhas.
— Oh, meu amor me perdoa, achou a chave?
— E como eu teria chegado até aqui? Quem eram aquelas pessoas e porque aquele cara te beijou?
— A Márcia e o Paulo são amigos da minha mãe e o Daniel é filho deles. E ele me deu um beijo no rosto o que tem demais? E outra como você sabe disso, estava espiando?
— Não! Não tenho culpa de ter ouvido, não controlo meus ouvidos e tem demais que eu não gostei dele ter se aproximado de você.
— Caine, as pessoas vão continuar se aproximando de mim e não é porque estamos juntas que vou impedi— las de fazer isso. Você não corre nenhum risco te garanto.
— Tudo bem, desculpa é que a situação me deixou louco. Quem imaginaria visitas a essa hora? – Acabamos rindo da situação, ela me beijou rapidamente e me abraçou para que fossemos logo. Pegamos o ônibus que parava mais próximo ao galpão.
— Nunca peguei esse ônibus.
— E nem deve fazê— lo sozinha, quero dizer, sem mim.
— Por quê?
— Porque leva a uma área um pouco perigosa.
— E o que vamos fazer lá?
Nem consegui responder, o ônibus parou e vi alguém muito familiar subindo: meu amigo Marcus. Sabia que corria o risco de encontrar pessoas conhecidas, mas não esperava que fosse tão rápido. Ele vestia uma calça jeans clara com uma camisa cinza e um casaco preto. Virei a cabeça para Charlie e enterrei meu rosto no seu pescoço.
— O que está acontecendo?
— O meu melhor amigo acabou de subir para o ônibus.
— O que? E agora?
— Coloca o seu cabelo na minha frente. E finge me beijar.
Ela puxou seu cabelo para o lado para que pudesse me esconder. Beijou— me de verdade, mas discretamente e ficamos assim até o nosso ponto.
— Nosso ponto é o próximo, como iremos fazer para que ele não nos veja?
— Fica atento. – Ela se levantou e quando estava chegando próximo a ele fingiu tropeçar para que ele a segurasse.
— Cuidado garota, você pode se machucar sério.
— Muito obrigada, nem sei como te agradecer.
— Não precisa só toma cuidado da próxima vez.
— Tudo bem, tchau. —  A essa altura já a esperava do lado de fora.
— Tudo bem?
— Sim.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer, vamos estou muito curiosa.
— Irá se surpreender.

Nana&Karol

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