Assim que ele entrou ela desmaiou. Ele ficou irado comigo
por tê— la dito tudo, mas no final entenderia que tinha sido o certo. Quando
ela acordou eles conversaram emocionadamente e me chamaram. Ficou tudo bem
entre nós e quando ela teve que ir ele me beijou apaixonadamente. Estava
agradecido, eu sabia, por tudo ter corrido bem. O beijo foi mais espetacular
que nunca. Ele se superava a cada olhar, a cada toque, a cada sorriso. Ele
começou a falar de algo que não me agradou. No dia anterior uma vampira foi à
casa dele e o propôs um tipo de sociedade. Não disse como nem contra quem, mas
tinha informações importantes sobre a mudança dele e isso o seduziu. Era uma
parte valiosa da parte dele sobre a qual ele não tinha controle por não se lembrar.
Claro que sabia disso tudo, mas não foi isso que me incomodou. Foi o fato de
ela ter usado ele e ele ter se deixado levar. Ele bebeu do sangue dela. Que
nojo! Não do sangue em si, pois já tinha visto o Caine se alimentar e não foi
tão ruim (depois). O nojo era dela. Não a conhecia e não fazia ideia de como
ela era, mas não ia com a cara daquela mulher. E quando Caine começou a falar
dela e sobre ter ficado saciado com o sangue dela mais do que com o dos caras
quase gritei mandando ele ir embora. Será que ele não via que estava me
maltratando dizendo aquilo. Cara que ódio! Ele precisava de apoio, mas eu
também precisava e não encontraríamos isso hoje. Mandei— o ir e quando fechei a
porta comecei a chorar de raiva. Raiva por não poder fazer nada por ele. Nada
para que ele não tivesse se entregado a ela. Ele não fez nenhum pacto nem
acordo, mas o que aconteceu já foi o bastante. Enquanto ele falava senti que
tudo isso mexeu com ele e não agüentei. Vê— lo falando daquela forma me deixou
morta de ciúme. Não sabia o que fazer então liguei para as meninas.
— O que ele fez?
— Isso que eu disse. Alimentou— se dela.
— E de onde veio essa mulher?
— Não sei, nem ele sabe. Ela apareceu propondo sociedade e
como amostra do poder dela deixou ele beber e ele ficou mais que saciado com um
poucquinho de sangue.
— E porque você está tão louca?
— Glória! Ele estava com outra.
— E o que você queria? Que ele se alimentasse de você?
Antes dela.
— Anne não é bem assim.
— Claro que é Char. Ele precisava comer. Há quanto tempo estava
sem se alimentar.
— Uma semana mais ou menos.
— O que? Nem para um vampiro isso é comum.
— Não sei não.
— Olha. Tenha a santa paciência. Se ele tivesse intenção de
te trair ou algo assim não teria falado nada. A maior prova de que ele te ama
foi ele ter dito tudo.
— Será que ele falou tudo?
— Presta atenção. Não procura cabelo em ovo. Ele é sincero
e te ama. Acha que falaríamos alguma mentira?
— Não.
— Então. Espera até amanhã e fala com ele. Pede desculpa
pelo seu ataquezinho de ciúmes e fica do lado dele. Ele te ama e nós também e
não deixaríamos ninguém te fazer mal.
— Obrigada meninas. Amo vocês. Agora preciso dormir.
— Tchau. –Falaram um uníssono e desligamos.
Pensei mais um pouco sobre como estava errada. Elas tinham
razão. Não deveria ter deixado meu ciúme afastar— nos. Amanhã rezaria para ele
aparecer e pediria desculpas. Fiquei deitada na banheira cheia de água morna
por uma hora mais ou menos. Era minha terapia. Tomei um bom banho, vesti uma
roupa confortável e fui dormir bem mais calma. Acordei com o despertador
gritando no meu ouvido. Vesti— me apressada e comi uma fruta. Desci correndo e
encontrei a Carly aflita lá embaixo.
— Foi ao médico?
— O que?
— Você foi ao médico, não passou mal ontem?
— Ah sim. Fui à enfermaria da escola e lá me examinaram.
Ela disse que eu estava com TPM.
— Tem certeza?
— Sim. Nem sei como não já me acostumei.
— Tudo bem.
— Chegaram meninas. Até depois.
— Até mãe.
— Até Sra. Johnson.
Entramos apressadas nos abraçamos e fomos para nossas
aulas. No almoço ela estava ensandecida por causa do emo que estuda na sala
dela. Eles se falaram e estava pintando um clima.
— Você não imagina Charlotte como ele é educado e me trata
bem. Ele falou que meus olhos eram lindos. Lindos são os dele. Que cor é
aquela? E ele disse que minha voz é doce e agradável. Ele é tão fofo!
— Tenho uma amiga no Brasil que acha que todo mundo é fofo.
Seu nome é Julie. Falando em nomes qual o nome dele?
— Andrew. Andrew
Crawford.
— Belo nome. Ele já cortou o cabelo?
— Não. Claro que não. O cabelo dele é lindo. – Nunca diria
ao Caine para cortar o cabelo.
— Não deixe. — Nesse momento o Andrew passou pela nossa
mesa e parou para falar com ela.
— Olá Carly tudo bem?
— Olá Andrew, sim e você?
— Melhor agora. — Ele me olhou interrogativo e eu mesmo me
apresentei estendendo a mão.
— Charlotte Camarillo.
— Prazer, Andrew Crawford. – Falamos o nome dele juntos.
Ele se espantou um pouco então esclareci.
— É que a Carly estava falando de você. – Ela quase
enfartou. Olhou— me quase me matando com uma onda de raios que saiam de seu
olhar furioso.
— Espero que bem. – Ele a olhou e ela desviou seu olhar
irado de mim para olhá— lo desconfiada.
— Bem, muito bem. Não imagina o quanto. Disse até que você
é fofo.
— Sério? Não imaginava que seria assim. Posso te convidar
para sair Carly? Assim você tira a prova sobre essa questão de fofo. Prometo
tentar não quebrar essa imagem se ela for positiva. – Ela estava boquiaberta.
Nem conseguia falar. Respondeu quase sem voz.
— É claro. Sobre sair e sobre tirar a prova.
— Tudo bem. Te pego as sete então?
— Pode ser. Até lá.
— Até. Tchau Charlotte.
Ele se afastou e foi sentar— se com uns amigos. Cara, ele
era muito lindo. Aqueles olhos quase transparentes eram demais. Nunca tinha
visto igual e não era lente. Não usava maquiagem como desconfiei da primeira
vez que ela falou sobre ele, ao contrário. Parecia bem másculo, alto. Andava
como se estivesse desfilando e ao mesmo tempo pronto para uma briga. A Carly se
deu muito bem. Lembrando ela...
— Você é louca?
— O que? Estava tentando te ajudar e acho que deu certo.
— Quase morri de vergonha. Agora tenho que sair com ele.
— Até parece que será um grande sacrifício.
— Obrigada Charlotte.
Ela me abraçou e ficou lá especulando sobre o encontro. Na
saída ela me mostrou Andrew e vi— o entrando no carro dele. Era um Mercedes
Classe GL cobre escuro muito lindo.
— Carly você está podendo muito. Veja só o carro dele.
— Não me importo com o carro só com ele.
— Pois não se importe não, saia a pé e pegue uma gripe ou
pior: uma chuva.
— Não seria o contrário?
— Não. Gripe você cura e uma maquiagem borrada e cabelo
desfeito fica para sempre na memória.
Ela riu tanto que teve que encostar— se à parede para se
acalmar. Lembrei muito da Glória falando assim. A mãe dela chegou e ela já foi
logo contando. Já ia saindo quando alguém me chamou. Era a Lorenna.
— Quase não te pego.
— Desculpa não ter ido falar com você, mas estou um pouco
mal.
— Algum problema querida? O Caine te fez algo?
— Na verdade não, mas senti como se tivesse sido.
— Conta melhor, não entendi bem.
Contei a história por alto e ela me ouviu atentamente.
Pensou por uns instantes antes de falar.
— Charlie veja bem. O Caine está num mundo novo agora. Está
tentando se adaptar a tudo isso e essa mulher apareceu para tocar em duas
coisas que no momento eram muito importantes para ele: lembrar da mudança e
fome. Tenta entender e aceitar. Ele não te traiu nem nada assim. Seu ciúme foi
sem razão, desculpa falar.
— Minhas amigas me disseram o mesmo.
— Que amigas?
— Tenho três amigas no Brasil e são minhas confidentes.
Elas sabem sobre o Caine e eles até já se falaram. – E diante do olhar
assustado dela emendei. – Não se preocupe. Confio nelas mais que em mim mesma
às vezes como ontem. Elas não falarão nada.
Sua expressão se suavizou e ela me aconselhou mais.
— Nunca tinha visto o Caine falar de alguém como ele fala
de você. Seus olhos brilham e ele se emociona. Nem daquela bruxa ele falava
assim.
— Lorenna você pode me falar mais sobre o relacionamento
deles?
— Sim, mas não comenta com ele ok.
— Tudo bem.
— Eles se conheceram numa festa. Ela é mais velha que ele
dois anos. O namoro deles era diferente. Saiam mais pela noite, não conversavam
muito, ela não falava da família e a única vez que ele entrou na casa dela foi
na noite do acidente. Ela era muito bonita e sedutora e acho que usou o Caine,
não sei para que, mas usou. Nunca gostei dela e sempre deixe claro para ele. O
Caine até ficava mal com isso. Nunca a destratei nem nada, mas para mim era
insuportável ficar perto dela. A Verônica o afastou dos amigos, da família e
por pouco não conseguiu afastá— lo dos estudos. Vejo que com você é diferente.
Admirei— te pela sua força no momento em que veio falar comigo, mas achei que
era tudo mentira então...
— Tudo bem. Nunca pensei que ela tivesse feito tudo isso.
— Fez mais. Ele ia comemorar conosco a entrada na
faculdade. Não era para ter ido a essa maldita festa, mas ela o convenceu.
— Que mulher horrível.
— Pois é Charlie, por isso estou te aconselhando a não
jogar tudo para cima. Se realmente achasse que ele tinha errado diria e seria a
primeira a dizer pra pular fora, mas não. Foi um momento de fraqueza e não foi
nada que fizesse mal a vocês.
— Tudo bem. Vou falar com ele e me desculpar.
— Posso te levar para casa? Falo com ele um instantinho e
vou embora. Além do mais disse ao Rich que iria corrigir umas provas para
entregar à coordenação e não demoraria.
— Ok. Vamos?
— Sim.
Fomos para casa e quando subimos ela se sentou. Fiz um chá
para nós e ficamos conversando sobre coisas amenas.
— Quando ele era pequeno o Rich queria que cortasse o
cabelo. Ele devia ter uns 10 anos e disse que não. Foi a primeira vez que
brigaram. Claro que defendi o Caine porque sempre adorei o cabelo dele. Ele
sempre cortava para ficar desse tamanho e usava muito preso. Dizia para ele
soltar que ficava melhor se não seria melhor cortar então ele atendia.
— Eu peguei o elástico dele e ele não prendeu mais desde
então. Amo o cabelo dele e fiz de propósito com o elástico.
— O Rich o ama muito. Estou louca para contar a ele. Nunca
escondi nada do meu marido e só estou fazendo porque é um caso extremo.
— A senhora o ama tanto assim?
— Só não mais que ao Caine, pois amor de mãe é maior que
todos que existem, mas sim. Depois do Caine é a pessoa que mais amo no mundo.
Não sei como teria sido se não estivesse ao lado dele.
Continuamos assim por mais alguns minutos até a campainha
tocar. Meu coração saltou e começou a pulsar tão forte que pensei que fosse
sair do meu peito. Pedi que ela abrisse e assim foi feito. Eles se abraçaram e
se beijaram.
— Oi mãe tudo bem em casa?
— Sim, estamos bem, mas não posso demorar. Disse que
ficaria um pouco mais na escola corrigindo provas. Só passei para dar um abraço
e um beijo.
— Tudo bem. Cuidado na volta. Eu te amo muito.
— Também te amo meu querido. Agora já vou. Até mais. Tchau
Charlie.
— Tchau Lorenna.
Estava sentada no braço do sofá com os pés em cima e
deitada sobre minhas coxas quando me despedi. Ela saiu depois de beijá— lo e
ele fechou a porta. Depois virou— se devagar e me olhou procurando algum sinal
de raiva ou ciúme. Certamente só encontrou um pedido de desculpas. Remorso.
— Senta aqui. – Ele veio cabisbaixo. – Tudo bem com você?
— Sim e com você?
— Tudo. Alguma novidade?
— Não e você?
— Não também. – Nossa. Esse tipo de conversa é de quem não
tem o que falar e eu tinha muito que falar então comecei logo. – Caine me
perdoa. Sei que fui imatura e que deveria ter te apoiado, mas fiquei com muito
ciúme e não me controlei. É que a ideia de te ver com outra mesmo que não
estivesse fazendo nada demais me deixou cega. Queria que você me perdoasse, por
favor.
— Só quero dizer que entendo que você estava com ciúmes.
Também ficaria se estivesse na sua situação e não te condeno. Deixei que você
pensasse para que analisasse bem a situação. Eu te amo e sabe disso. Nunca
ninguém vai nos separar por qualquer motivo que seja a não ser que seja você.
Está livre para escolher o que fazer e como agir.
— Escolho você. E você?
— Precisa mesmo responder?
Saí do meu lugar e abracei— o como nunca tinha feito. Ele
passou seus braços ao meu redor e me senti acolhida, amada, perdoada. Ele
beijou minha cabeça e ficamos abraçados por muito tempo. Chorei um pouco, mas
não dissemos nada. Estava aninhada em seus braços e o apertava a ponto de
sufocá— lo. Estava triste, mas aliviada. Ele acariciava meu cabelo o tempo todo
e brincava com umas mexas. Por mim ficaria ali por toda eternidade. Nem sei
descrever o que se passava dentro de mim, só sei que era muito bom.
Depois de muito tempo ele levantou minha cabeça. Ainda
chorava só que mais calmamente. Ele repetiu o que fiz naquele dia: beijou minha
testa, meus olhos molhados, a ponta do meu nariz e minha boca. Foi tranqüilo.
Ele se inclinou sobre mim e nos deitamos no sofá. Tomei cuidado para não
segurar o cabelo dele. Não queria que aquele episódio se repetisse. Ele era
muito pesado, mas aliviou o peso pondo um braço escorando seu corpo no sofá e outro
abaixo de mim, nas minhas costas assim eu podia respirar. Tentei passar o braço
para cima e me desequilibrei, logo o empurrei sem querer e caí no tapete sobre
ele. Rimos entre beijos, mas não nos desgrudamos. Ele agora com as mãos livre
passou os dedos entre meus cabelos e segurou levemente minha cabeça. Fiz o
mesmo com ele. Ele se sentou de repente, mas cuidadoso sem me largar. Estava
sentada agora sobre minhas pernas entre as dele que estavam abertas. Ouvi uma
música tocando. Era um pouco antiga, mas muito linda. A ouvi pela primeira vez
no Brasil quando um amigo estava escutando na sala de aula. Pedi o fone
emprestado e estava tocando ela. Era Your Guardian Angel de The Red Jumpsuit
Apparatus. Parei de beijá— lo um minuto.
— Está ouvindo? —
Ele abriu os olhos e para variar estavam brancos.
— O que?
— A música.
— Nossa música?
— Não sabia que tínhamos uma música.
— “Nunca deixarei você cair, eu estarei de pé com você
eternamente. Eu estarei lá por você do começo ao fim de tudo”. Você é meu
verdadeiro amor..
Ele me beijou. Ainda não sabia como ele conseguia enxergar
com os olhos brancos. Para mim era algo surreal. Abracei— o forte de novo e ele
me puxou para mais perto. Ficamos lá no chão nos beijando ao som da nossa
música.
Nana&Karol
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