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12 outubro, 2012

Capítulo 21


Claro que desliguei antes que elas falassem mais algo comprometedor, basta aquilo da traição. Coitado do Caine achou que eu estava o expulsando. Na verdade estava tentando me livrar das garotas. Elas que me perdoem, mas já tenho tão pouco tempo para vê— lo que preciso aproveitar ao máximo.
— Às vezes você é tão ingênuo Caine.
Levantei e caminhei na direção dele que estava bestificado. Segurei no cabelo dele lentamente enrolando— o na minha mão. Ele estava boquiaberto e me olhando tentadoramente. Beijei— o com amor e ele correspondeu da mesma forma. Pôs uma mão no meu cabelo e outra na cintura e me levantou me levando para o sofá. Sentou— se comigo no colo e se inclinou para trás quase se deitando. Ainda estávamos nos beijando e continuamos assim por um bom tempo. Era muito bom se sentir amada daquela forma porque ele expressava seu amor constantemente falando coisas doces e românticas ao meu ouvido entre os beijos.
— Eu te amo.
— Eu também te amo.
E outras coisas como “você é a pessoa mais importante da minha vida”, “nunca imaginei que pudesse amar tanto alguém” e “não iremos nos separar nunca mais”.
Estava louca com todas essas declarações. Nunca as tinha ouvido de quem quer que fosse. Pelo menos não nessa situação ou de alguém que significasse tanto (nem algo perto disso) para mim. Sem querer meu braço escorregou do encosto e acabei puxando o cabelo dele. Sua cabeça inclinou— se para trás e ele fez algo estranho: abriu os olhos e a boca. Seus olhos estavam brancos quase totalmente e seus caninos apareceram quando ele emitiu um som parecido com um arfar de um animal tipo um grande gato com raiva.
Assustei— me um pouco e me afastei ligeiramente soltando seu cabelo. Ele imediatamente voltou a cabeça para o mesmo lugar de antes e seus olhos voltaram ao azul que tanto amava.
— Me desculpe. Não fiz por mal.
— Não tem problema. – Baixei os olhos, mas os voltei para ele de novo.
— Você ficou com medo.
— Não – falei prontamente – só um pouco... assustada.
— Me perdoe, por favor foi sem querer, não queria ter te assustado.
— Não há problema já falei. É que isso nunca me aconteceu antes.
— Nem comigo. Na verdade você é a primeira garota que beijo depois da transformação.
— E quanto tempo faz isso mesmo?
— Não muito, um mês mais ou menos.
— Muito tempo. – Ele riu com minha piada sarcástica e ciumenta.
— Garanto que você não está sem alguém há mais tempo. Você é perfeita.
— Você tem razão quanto ao namoro. Terminei há pouco com meu ex.
— Ele deveria ser um idiota.
— E era realmente.
— Garante que não ficou chateada com minha reação nem nada parecido?
— Só se você sorrir para mim.
— O que?
— Quero ver seus dentes.
— Charlie...
— Por favor!
— O que você me pede que eu não faça?
Ele baixou os olhos e sorriu. Peguei no seu queixo e levantei. Ele estava de olhos fechados, com receio de me encarar. Seu sorriso estava deslumbrante: dentes corretíssimos e brancos com dois caninos salientes e pontiagudos. A muitos assustaria, mas a mim me pareceu mais uma visão celeste. Provavelmente os anjos não têm presas, mas se tivessem teriam o rosto dele.
Beijei seus olhos e ele os abriu.
— O que achou? Muito assustador?
— Não, definitivamente. Como suas presas crescem?
— Não sei bem é irregular. Não as senti crescerem durante as alimentações, mas vi a marca no homem naquele dia que você me viu. Estava muito transtornado para pensar em dentes e normalmente eles nunca apareceram. Não é algo que possa controlar por enquanto como os olhos. Não sei por que eles apareceram agora.
— Será que foi por minha causa?
— Claro que não. Se fosse assim teria sido em todas as vezes que nos beijamos e não foram poucas. Só foi hoje quando você puxou meu cabelo. Posso ter sentido como algum tipo de ameaça. É a única explicação.
— Então pareço uma ameaça?
— Não imagina o quanto...
Ele me puxou para mais perto e nos beijamos. Senti seus dentes afiados sobre minha língua e aos poucos eles foram se contraindo.
— Abre a boca rápido.
— O que?
— Rápido.
Ele abriu a boca e ainda deu tempo de ver os dentes dele voltando ao lugar. Era muito interessante.
— Você sentiu isso?
— O que?
— Seus dentes. Eles se contraíram foi muito legal.
— Charlie não sou um boneco de testes.
— Desculpa meu amor é que estamos tentando saber como as coisas funcionam com você. Nada melhor que observar. – Abracei— o carinhosamente e muito apertado. – Só estou querendo te ajudar.
— Obrigado. Amo— te por isso também. Quando todos me odiariam ou me taxariam você me ajuda.
— Então. Sei outra forma de te ajudar.
— Sério? Qual?
— Estudando as transformações na sua respiração.
— Como?
— Quanto tempo você consegue me beijar sem expirar?
— Não faço ideia. Só testando.
Beijamo— nos novamente e ficamos assim por algum tempo antes dele ir embora.
— Sério? Tem certeza?
— Claro. Lembra o que te falei? Preciso ir.
— Não me importo com o que os outros vão dizer.
— Mas me importo por você.
Levei— o até a porta e lembrei algo que poderia ser importante.
— Caine.
— O que?
— Posso falar com sua mãe?
— Falar o que?
— Sobre você.
— Não acho que seria uma boa ideia. Acho que ela ainda não superou muito bem.
— Mas ela não precisa superar nada. Ela é sua mãe e você está vivo. Acha certo que ela ainda chore sua não morte?
— Charlie não é bem assim. Não sou mais um humano, é como se tivesse morrido.
— Mas ela não acharia isso se soubesse que você não morreu naquele acidente.
— Por favor, não insiste. Ela deve estar começando a superar agora, não queira mexer numa ferida que está cicatrizando.
— Essa ferida nem deveria ter sido aberta.
— Tudo bem. Olha preciso ir. Não faz nada, apenas deixa como está. Meus pais ficarão bem em breve e eu continuarei vivendo do jeito que der.
— Tudo bem. Até amanhã.
— Até amanhã.
Despedimo— nos com um beijo, mas nem pensar que isso ficaria assim. Amanhã falaria com Lorenna. Ela me acharia uma louca, mas o filho dela estava vivo e fosse em que condições fossem ela o aceitaria com certeza. Arrumei umas coisas para o dia seguinte. Entre elas estava a foto de nós dois juntos. Seria bastante útil como prova. Dormi pensando em como faria essa loucura. Como diria a uma mãe que o filho amado dela não havia morrido e sim se tornado um ser sobre— humano?
Como sempre a Carly foi me buscar e chegamos até cedo à escola. Estava muito ansiosa para falar com a Sra. Ventrue e nada me impediria.
— Carly, preciso ir à secretaria ver umas coisas de pagamento.
— Ok. Vai lá nos vemos na aula.
— Tudo bem.
Não queria mentir para a Carly, mas precisava falar com Lorenna. Saí do prédio onde ficava minha sala e fui ao anexo onde ela dava aulas ao infantil. Encontrei— a sentada na sala corrigindo tarefas e não havia quase ninguém na sala, exceto três crianças que saíram quando entrei.
— Sra. Ventrue posso falar com a senhora.
— Claro. Estou lembrando de você. Veio aqui com a Sra. McAvoy nas férias não foi?
— Sim. A senhora tem uma boa memória.
— Obrigada, mas o que a trás aqui?
— Queria falar sobre seu filho, sei que deve ser doloroso tocar no assunto, mas é muito importante.
— O que você sabe sobre meu filho. Nem morava aqui quando tudo aconteceu.
— Sei mais do que a senhora pensa.
— Então fale.
— Vai parecer loucura e possivelmente não acreditará em mim. Ele nem queria que eu viesse, mas achei melhor...
— O que você disse? A que está se referindo? Quem te disse para não vir?
Droga! Falei demais. Não era para ser assim. Fiquei muito nervosa e desatei a falar. O Caine iria me trucidar.
— Só um momento preciso organizar minhas idéias. –Ela aguardou com um olhar ansioso. Respirei fundo e continuei mais tranquilamente. – Calma, Charlie. Sra. Ventrue naquela noite em que o Caine saiu para a casa da Verônica aconteceu algo que não estava nos planos.
— Claro que aconteceu. Meu filho morreu e isso com certeza não estava nos planos. Agora como você sabe disso tudo, quem é você garota?
— Calma Sra. Ventrue. Deixe— me continuar. Não foi o acidente que não estava nos planos. Aquele acidente não aconteceu. Pelo menos não com ele dentro do carro.
A essa altura ela estava chorando, querendo me matar e sem conseguir falar. Ele disse que seria assim, mas seria melhor que ela sofresse agora e ficasse bem depois.
— Eu...reconheci...o corpo dele.
— Tem certeza disso?
— Eram os objetos dele.
— Mas era o corpo dele?
— Eu não sei. —  A cada minuto ela ficava mais confusa e chorava mais.
— Sei que deve me achar louca, mas precisava vir aqui. Estava num café quando vi alguém que me prendeu a atenção. Aqueles olhos eram inesquecíveis. Os seus olhos.
Ela pôs a mão no rosto e desatou a soluçar. Não conseguia se controlar então tive que falar mais alto que o choro copioso dela.
— Saí dali atrás dele que parecia estar com raiva. O segui até um bar e vi que ele saiu de lá arrastando um homem que havia brigado lá dentro. O que vou dizer agora parece assustador. Quero que a senhora escute e tente interpretar com naturalidade. Vai parecer mentira, mas não é. É a pura verdade. Ele arrastou o cara e eles brigaram. E ele mordeu o homem.
Ela levantou a vista surpresa. Ainda chorava, mas aqueles olhos azuis que tanto conhecia de outro lugar denotavam choque, descrença.
— Ele não apenas mordeu. Ele... sugou o sangue dele.
Ela se levantou furiosa. Olhou— me como se eu tivesse cuspido no rosto dela ou pior, na memória do seu filho.
— Sai daqui. Agora! Sua louca. Como você tem coragem de chegar até mim e dizer uma barbaridade dessas. Meu filho morreu. Você não tem o direito de manchar a honra dele. Como parei para te ouvir? Sai daqui agora.
Ela pronunciou cada palavra como se estivesse cuspindo fogo, veneno. Senti— me tão incapaz e idiota naquele momento que não conseguia dizer nada. Não iria desistir, mas por agora precisava sair dali antes que me jogasse no chão e começasse a chorar.
Saí calada e fui para o banheiro chorar. A última coisa que vi foi seus olhos manchados de ira. Pareceram— me tão perigosos tão avassaladores que me intimidou. Não assisti a primeira aula. Chorei durante todo o tempo e quando consegui me recuperar fui para a segunda. Assisti e tentei prestar atenção a todas as aulas, mas me pareceu muito complicado compreender tudo que era dito. No almoço a Carly perguntou o que tinha acontecido, disfarcei disse que estava doente e ela não perguntou mais. Nas aulas seguintes pensei em como falaria com a Lorenna novamente. No fim da aula iria até ela e mostraria a foto de nós dois. Queria ver se ela não pararia para me ouvir. Graças a Deus que o Caine só me veria pela noite porque não estava em condições de encará— lo de jeito nenhum. Quando o sinal bateu procurei a Carly e me despedi dela. Disse que precisava ir que não estava bem. Ela me disse para procurar um médico e prometi que o faria o mais rápido possível. Corri em direção ao anexo e encontrei a Lorenna saindo com livros na mão. Ela foi em direção ao carro e quando cheguei estava esbaforida.
— Você novamente. Não se cansa de me atormentar com essa historia. Já me magoei o suficiente, vai embora antes que transforme isso num caso de coordenação.
Enquanto ela falava punha a mão na bolsa em busca da foto. Quando ela acabou de falar estava me olhando interrogativa como “Você está esperando o que para ir embora e não voltar mais sua insana?”. Quando li o olhar dela olhei— a como se dissesse “Nada. Só queria te mostrar isso.” No meio dessa conversa silenciosa levantei a foto para que ela pudesse vê— la. Seu queixo caiu e ela ficou de todas as cores que se podia ficar parando no verde. Encostou— se ao carro.
— Que brincadeira sem graça é essa? O que você pretende com isso tudo?
— Que você me escute.
Entramos no carro dela e quando nos acomodamos comecei a falar novamente sem parar.
— O que falei não tem nada de insano. Achei que estava louca naquele dia e passei o resto das férias em casa me martirizando e achando que a culpa era minha. Na verdade a culpa não foi de nenhum dos dois. Ele foi transformado nisso sem querer. Sem nem ao menos ter sido explicado de nada. Naquele dia que a senhora o viu ele nem sabia o que era. Ele soube que morreu da mesma forma que a senhora: de supetão. Imagina o que sentiu quando se viu morto para todos e sem explicações. Foi difícil para ele também. Ele te ama e me disse para não vir aqui, mas não poderia deixar que a senhora sofresse inutilmente. O Caine não morreu. Ele me salvou de um assalto e foi assim que nos aproximamos.
Ela estava com o olhar vago, as lágrimas escorriam numa cadeia que aumentava sem parar. Não soluçava nem se mexia, olhava para a janela e até pensei que ela fosse paralisar.
— Como você sabe disso tudo?
— Acabei de falar. Conheci o Caine. Ele me contou parte da história e decidi contra a vontade dele vir aqui.
— Prove. Prove tudo isso.
— Te mostrei a foto.
— Uma foto não prova nada. Pode ser montagem. Se não pode provar nada sai do meu carro e vai embora. Nunca mais se aproxime de mim e nunca mais toque no nome do meu filho. Se você desobedecer a essas regras chamo a polícia e você volta para o seu país expulsa daqui para nunca mais voltar me entendeu sua louca?
— Acontece que posso provar Sra. Ventrue. Posso provar agora se a senhora quiser.
Ela me olhou descrente. A ira que vi mais cedo escorria junto com as lágrimas a ponto de ferir.
— Como?
— Ele vai para minha casa hoje. Se a senhora quiser me acompanhar poderá vê— lo com seus próprios olhos.
— E se isso tudo for uma armação? E se você quiser me fazer algo?
— Sra. Ventrue entendo sua dor e sua confusão, mas não sou nenhuma marginal. Qual o interesse em te fazer algo? Tenho vários professores poderia fazer algo a eles. Não estou querendo te fazer mal. Quando a senhora o ver entenderá que só quis seu bem.
— Onde você mora?
Quase gritei de alegria. Abri um sorriso diante da expressão dura dela e dei meu endereço. Fomos até lá e a levei para o meu apartamento. Ela entrou olhando todos os detalhes como minha mãe fez quando levei o idiota do Pietro lá em casa a primeira vez. Todas as mães são iguais, independente de onde morem. Elas querem estar no controle da situação sempre. Convidei— a sentar.
— A senhora precisa de algo, uma água, café, qualquer coisa?
— Uma água, por favor, e nada mais que isso.
Cada palavra que ela proferia me feria profundamente. Parecia rasgar minha pele. Ela estava com ódio de mim e nem sei por que ela tinha decidido vir. Talvez um resquício de esperança ainda sobrasse nela. Trouxe a água e um lenço. Ela bebeu e ficou calada olhando a janela. Onde estava ele? Esperava que ele viesse logo. Ele sempre chegava cedo. Sabia quando eu saia da escola. Será que não voltaria? Será que ele ficou com raiva de ter falado sobre a mãe dele. Por favor, Caine, por favor, aparece. Preciso que você venha mais que nunca.
Após uma meia hora mais ou menos ela se levantou. Fiquei surpresa. Só esperava que ela não fosse embora.
— Vou embora. Você está me enrolando. Desiste garota, essa mentira não vai te levar a lugar nenhum. Não espere que te de uma recompensa por nada que você tenha dito. Você me magoou profundamente e isso não sairá da minha memória facilmente. Lembre bem o que eu disse: nunca mais se aproxime de mim nem para dar bom dia, nem se você me ver precisando de ajuda. Some da minha vida ou vou fazer da sua um verdadeiro inferno.
Não tinha nem ação. Como da outra vez só tive vontade de chorar, de correr e me esconder debaixo da cama. Nessa hora estava sentada nas cadeiras do balcão da cozinha e ela no sofá. Já de pé para sair ela caminhou até a porta e a abriu. Nossa, cara, juro que quase desmaiei. Quando ela abriu a porta o Caine estava de cabeça baixa para tocar a campainha. Ele levantou os olhos e ambos se viram. Não precisava nem ver a expressão dela para saber o que transmitia, era só olhar a dele. Seus olhos estavam pasmos, agudos, surpresos, temerosos, sem foco, tristes e dolorosos. Certamente os dela estariam assim com um acréscimo de alegria.

Nana&Karol

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