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12 setembro, 2012

Capítulo 9


Eu não estava me sentindo o super homem, mas eu realmente não achei que ele fosse atirar. Não achei mesmo. Mas ele atirou. E tinha uma boa mira, pois o garoto que eu segurava ocupava quase todo o espaço da minha frente, mas não cobria o ombro e foi aí que ele acertou o tiro. Senti algo furar minha pele e adentrar o músculo que fica entre a clavícula e a escápula. Doeu. Muito, mas eu não caí. Meu corpo girou para o lado, mas continuei segurando o garoto só que agora com mais força, pois a dor que senti descarreguei apertando o braço dele.
— Ai cara, agora está doendo. Me solta, você vai quebrar meu braço. Alguém faz alguma coisa!
— Ah é? Está mesmo doendo e você acha que estou sentindo o que no meu ombro seu idiota?
— Ai meu Deus, o que eu fiz? Estão vendo seus drogados? Eu atirei num cara. Eu vou ser preso, vou morrer na cadeia. A culpa é de vocês.
— Vamos embora, vamos nessa cara. Minha perna tá doendo demais.
— Se ele me largar eu vou. Cara me solta!
— Se eu te soltar vocês virão aqui amanhã e vou ter que matar vocês. Para que esperar mais um dia se posso fazer isso agora mesmo?
— Não faz isso cara, por favor. A gente só tava brincando.
— Sério. Vocês atiraram em mim brincando?
— E você bateu na gente brincando?
— Claro que não. Eu estou falando muito sério. Vou matar vocês.
— Oh cara, por favor. Não faz isso.
— E porque não deveria. Vocês vieram aqui me perturbar, querendo me bater ou me matar e eu deveria soltar vocês? O que eu ganho com isso?
— Paz. Nem eu, nem ninguém que eu conheço vai voltar aqui. Nunca mais se você quiser, mas, por favor, larga a gente.
— É cara. Não voltamos mais. Solta ele.
— Bom, eu solto, mas paz não é tudo. Quero mais uma coisa.
— O que você quiser. Mas diz logo.
— Eu quero todo o dinheiro que estiver com vocês, porque, aliás, vocês atiraram em mim preciso dar um jeito nisso.
— Qual é cara. Eu não posso voltar pra casa liso.
— Ah é? Então dou três escolhas: ou vocês me dão a grana, ou eu chamo a polícia, ou mato vocês. E, sério, a terceira opção está me tentando muito mais.
— Ok, ok. Vamos dar a grana. Me larga e eu te dou.
— Nada disso. Dê-me a arma primeiro.
O garoto meu deu a arma, recolheu o dinheiro de todos eles e me passou. Deixei claro outra vez que nunca mais queria ver a cara deles. Eles concordaram e saíram correndo. Eu não ia matar ninguém, nem chamar a polícia. Muito menos isso. Um morto não liga para a polícia dizendo que invadiram sua casa que na verdade é um galpão abandonado. Não tenho culpa que eles acreditaram em tudo. Seria até cômico se eu não tivesse levado um tiro. Deixei o dinheiro e a arma no chão e fui ao banheiro me arrastando. Devia estar horrível e como morto não poderia ir a um hospital. A bala tinha atravessado meu ombro. Tirei a camisa e olhei no espelho. Havia o mínimo possível de sangue no local e não havia mais o buraco que a bala fez. Olhei atrás e vi que o buraco estava se fechando rapidamente. Todas as fibras iam se ligando e refazendo como antes o meu ombro. Olhei atentamente e esperei.  Quando não havia sinal de ferimento toquei o lugar para me certificar. Estava dolorido, mas nem se compara a antes. Fiquei fascinado com aquilo. Tinha acabado de levar um tiro e não havia nem uma marca disso. Subi eufórico, peguei uma muda de roupa e tomei um banho como não tomava a... duas semanas? Lavei meu cabelo cuidadosamente, esfreguei meu corpo que estava exatamente igual à antes. Não havia nenhum sinal de mudanças como pensei que haveria quando li a revista. Passei a mão pelo pescoço e senti dois furinhos minúsculos.
Tremi ligeiramente àquele toque e vi flashes de um lugar com paredes e teto vermelho. Foi muito, muito rápido. Senti uma imensa angústia, dor, medo. Concentrei-me novamente no meu banho, mas não consegui esquecer aquela sensação durante toda a noite.
Saí do banho, me vesti, recolhi a arma, guardei-a no fundo do arquivo e contei o dinheiro. Havia quase £400. Dessa vez poderia comprar mais roupas e coisas para ajudar a limpar minha...casa. Agora seria minha casa. Voltei àquela loja. Encontrei a mesma moça que havia me ajudado ontem.
— Olá novamente. Vim comprar mais coisas.
— Quer ajuda?
— Não obrigado. Já sei onde fica o que preciso. Só queria agradecer por você ter me ajudado. É a primeira pessoa que faz isso em... algum tempo.
— De nada. Eu fiquei sem graça. Não sei o que dizer.
— Não diga nada.
Dei um meio sorriso, para não assustá-la. Ela sorriu brilhantemente para mim. Senti-me bem, feliz, acolhido. Havia tempo que não me sentia assim. De repente abracei-a. Fui impulsivo, eu sei, mas fiz assim mesmo. Abracei-a forte e a soltei em seguida.
— Desculpe-me, não sei o que me deu. Desculpe.
— Não tudo bem, não precisa se desculpar foi só um... abraço.—  ela foi cortês, mas estava toda vermelha e muito sem graça.
— Não, você está totalmente sem graça. Eu não deveria ter feito isso.
— Já te disse que não há problema. Desencana.
— Felicity aconteceu algo?
— Não, não aconteceu nada Carter. Está tudo bem.
— Seu nome é Felicity?
— Sim por quê?
— Por nada. É diferente e muito bonito.
— Muito obrigada. – e sorriu um sorriso deslumbrante. – Mas acho que você está atrasando suas compras por minha causa.
— Ah ok, já entendi que você está me expulsando e que não me quer ao seu lado.
— Não, olha, não, não foi isso que eu...
— Tudo bem. Foi só uma brincadeira. —  Ri para ela que dessa vez não se assustou. Quem sabe por que sorri mais ternamente.
— Não se faz isso, ta. Fiquei confusa e mais sem graça ainda.
— Por quê? Foi só uma brincadeira.
— Você me deixa assim. – Ficamos nos olhando tensamente por um segundo. —  Sabe uma coisa?
— O que?
— Você não me disse seu nome. Você já sabe muito sobre mim.
— O que eu sei sobre você?
— Meu nome, onde eu trabalho e que sou tímida. O que eu sei sobre você?
— Que meu nome é Caine. Caine Ventrue. E que gosto de abraçar pessoas legais.
— Ok, Caine Ventrue então sou uma pessoa legal?
— É sim e já deveria saber disso.
— Ok, obrigada. Mas vai fazer suas compras. Meu chefe está me olhando com cara de que vai me matar em segundos se eu não sair daqui e for trabalhar. Então vai!
Ela fez sinal com o dedão para as sessões, sorriu novamente e piscou. Senti-me bem com aquilo. Abaixei a cabeça com a mão no peito e segui para as sessões. Peguei mais roupas, mais produtos de limpeza e higiene, uma corrente e cadeado para a porta do galpão e um colchonete. Certo que havia três dias que não dormia, mas gostava de ficar deitado. E no chão ou na mesa não daria para fazer isso muito bem. Passei as compras no caixa e voltei a falar com a Felicity.
— Já fiz minhas compras. Vou embora antes que seu chefe te mate. Eu não gostaria disso.
— Obrigada por se preocupar com a minha morte prematura.
As palavras “morte prematura” me fizeram estremecer. Foquei na despedida novamente.
— Então, até outro dia. Posso te dar um abraço, de novo?
— Claro. Sabendo antes é melhor.
Abracei-a calorosamente, mas dessa vez a sensação foi melhor. Além de o abraço ter sido muito bom, tê-la perto me fez sentir outra coisa. O cheiro do seu sangue. Não foi exatamente sede, mas foi atraente. Eu poderia mesmo sem estar faminto sugar o sangue dela ali mesmo. A ideia não me pareceu ruim por isso larguei-a imediatamente.
— Preciso ir agora. Boa noite. Tchau.
— Boa noite...
Não ouvi o resto da frase. Ela deve ter me achado um louco ou estúpido, mas aquela proximidade foi muito, muito perigosa. Não podia continuar ali sabendo que poderia atacá-la no próximo segundo. Caminhei apressado para casa. Cheguei e fechei o galpão com o cadeado. Para os outros funcionaria perfeitamente. Fui ao banheiro e guardei os produtos de limpeza. Subi correndo e coloquei o resto das compras, no arquivo. Estendi o colchonete no chão agora limpo e deitei-me. Fiquei o resto da noite pensando em quando teria que me alimentar novamente e isso me fez tremer. Quando amanheceu levantei-me mais disposto. Desci a fim de terminar a faxina. Era meu terceiro dia lá. Tinha comprado uma vassoura para facilitar meu trabalho. Joguei solvente no chão para tentar diminuir as manchas.  Esfreguei, joguei água e conseguir diminuí-las. Lavei tudo com sabão e arrumei melhor o que estava espalhado. No fim da tarde estava tudo em ordem. Tirei minha roupa suja e lavei junto com as de ontem. Depois subi e peguei uma roupa limpa. Tomei banho, vesti-me e saí. Pensei em passar na loja para em encontrar Felicity. Quem sabe seu nome não seria apenas coincidência.  Andei vagarosamente aproveitando a noite, o vento e a vista. Cheguei à loja e encontrei-a do lado de fora do balcão de cabeça baixa bastante concentrada anotando algo. Andei bem devagar e sem fazer barulho. Cheguei bem perto do ouvido dela e disse:
— Assim você me mata.
Ela deu um salto e escorregou. Segurei-a com um braço só e ela ficou a centímetros do meu rosto. Ficamos assim parados por um segundo até ela responder.
— Assim você me mata. Eu quase caí aqui Caine!
— Eu não deixaria você cair.
— Ah isso me acalmou muito mais. – ela falava num tom meio ríspido.
— Nossa! O que aconteceu com você?
— Você me deixou falando sozinha ontem e hoje aparece e me dá um baita susto. Como esperava que eu reagisse: ah Caine que legal, eu adoro levar sustos e cair.
— Você não caiu. E quanto a ontem eu... tive problemas. Precisava ir, realmente.
— Agora está mais bem explicado.
— Você poderia me desculpar? Pelas duas coisas, por favor?
— Tudo bem, esquece. Realmente odeio sustos, tenho trauma disso. Então, promete que não faz mais que te desculpo.
Cheguei bem próximo a ela e abaixei para chegar ao seu ouvido.
— Prometo que nunca mais farei nada que te deixe com raiva, nem nada parecido.
Ela estremeceu quando eu falei. Depois deu um meio sorriso e então me afastei.
— Que horas você sai?
— O que?
— Que horas você sai do trabalho?
— Porque a pergunta? Olha se você acha que...
— Não. Você entendeu errado. Quero passear com você, ir a um café ou algo assim. Não precisa se assustar.
— Ok. Eu não quis te ofender, mas é que...
— Se você não quiser ir comigo tudo bem.
— Não é isso. Você é sempre assim?
— Assim como?
— Não deixa ninguém falar.
— Ok desculpe, pode falar, não vou te interromper.
— O problema não é você. Eu fico até mais tarde hoje. Faço as contas dos gastos e lucros da semana. Era isso que fazia quando você quase me matou de susto. Então, hoje eu não posso sair. Quem sabe amanhã, ou outro dia. – Ela esperou que eu respondesse. Olhou-me seriamente, depois interrogativamente e incredulamente até que não aguentou e perguntou:
— Você não vai dizer nada?
— Você queria falar. Eu apenas calei a boca.
— Nossa às vezes você é muito infantil.
— E você é tão direta que chega a ser cruel.
— Será mesmo que nós vamos brigar antes de sair?
Dobrei-me em risadas enquanto ela me olhava estática. Sério, ela não esperava aquilo.
— Você leva as coisas tão a serio Felicity! Fazia tempo que eu não me divertia tanto. Na verdade eu estava precisando rir um pouco. Obrigada.
— De nada. Estou feliz em saber que te faço rir. Estou pensando em entrar pro Cirque Du Soleil.
Parei de rir imediatamente.
— Não quis te ofender é que...
— Você leva as coisas tão a sério Caine!
Rimos juntos e nos olhamos profundamente por algum tempo. Depois passei as costas da minha mão no rosto dela.
— Preciso ir agora. Que horas te busco amanhã?
— Às dez. Até amanhã.
— Ok então até amanhã. – abracei-a e dei-lhe um beijo demorado no rosto. Ambos de olhos fechados. E falei ao seu ouvido. – Obrigado. Você me ajudou muito.
— De nada. Estarei aqui sempre.
Separamo-nos e fui para casa pensativo. Será que estava fazendo certo em sair com ela? Era perigoso, mas me faria bem. Em muito tempo não houve ninguém para me ajudar e agora ela apareceu. Só não queria iludi-la, seria crueldade e a última coisa que eu queria era magoá-la. Ela estava lá, eu apareci e não poderia destruir sua vida sem razão. Com isso na cabeça passei a noite toda pensando. Amanheceu mais rápido do que o que me dei conta, tão absorto que estava em mim mesmo. Resolvi fazer uns testes comigo. Pus meu óculos e fui até a porta. A claridade não estava mais tão forte para mim. Abri a porta. Meus olhos arderam e fechei-os, mas tentei abrir aos poucos. Consegui. Só não podia tirar o óculos, ainda. O sol não me machucou também como dizia na revista. Resolvi dar uma volta. Passeei por alguns bairros e passei na loja onde a Felicity trabalhava.
— Oi.
— Olha só quem apareceu. Você não chegou um pouco cedo não? Eu só saio às 10. Da noite. São 9 da manhã.
— Eu sei, mas tive vontade de te ver. Não posso?
— Claro que pode, mas é que achei estranho. Você sempre vem de noite e...
— Então eu vou embora.
— Não. Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei. Mas tenho que ir mesmo. Só passei para dar um “oi” e um abraço.
Abracei-a e ela ficou vermelha de novo. Dei um beijo rápido em seu rosto e sai sorrindo. Não deveria, mas sorri. Senti novamente o cheiro do sangue e dessa vez foi muito mais tentador. Nossa, foi incrível. Um simples toque. Fui para casa. Esperaria a hora certa de aparecer e sairia para encontrá-la.

Nana&Karol

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