Saí de lá e caminhei vagarosamente para casa pensando em
tudo que me aconteceu. Encontrei alguém a quem amar e que me correspondia,
felizmente. Charlie era perfeita em todos os sentidos: com tudo de estranho que
ela podia pensar e de todas as formas que poderia me repudiar escolheu me amar.
Jovem, bela e com um futuro brilhante pela frente escolheu amar um cara que
está condenado a uma vida incerta e cheia de amarras. Precisava fazê-la feliz
caso ela quisesse continuar comigo e a cada minuto que pensava que havia a
possibilidade dela me negar sentia uma dor lacerante. Precisava de Charlie como
nunca precisei de ninguém, nem dos meus pais. Ela me fazia respirar, era a
causa da minha alegria e sua ausência me fazia enlouquecer. Cheguei em casa.
Parecia que havia séculos que estivera ali. Subi peguei uma roupa e tomei um
bom banho. Voltei e deitei no meu colchonete. Fiquei pensando em todos os
traços dela: olhos azuis esverdeados tão fascinantes, verdadeiros e ingênuos.
Olhar doce, meigo, infantil, mas sagaz. Formas delicadas e curvas sutis. Mãos
macias e delicadas. Cabelo comprido e sedoso. Havia alguém mais perfeita que a
minha estranha agora conhecida?
Quando confundi o nome de Felicity com Charlie senti algo
diferente. Calma, ânsia, não sei. Sentimentos antagônicos, mas que se
encaixavam dentro de mim quando estava com Charlie. Pensando em Felicity,
precisava encontrá— la, falar com ela e me desculpar pelo tempo que fiquei sem
vê— la. Amanhã cedo iria à loja encontrá— la. Esperei deitado e pensando em
Charlie e em toda a nossa conversa, nos beijos e nos sentimentos que nos
transmitimos essa tarde.
Pela manhã por volta
das nove fui à loja e Felicity estava lá. Vestia um vestido laranja com o
avental e um tênis All Star preto com estrelas brancas e vermelhas.
— Oi Felicity. –Estava encabulado por aparecer depois de
tanto tempo.
— Oi. Pensei que nunca mais te veria novamente. –Ela falou
normalmente, como da primeira vez que nos vimos, mas percebi um pouco de
surpresa e ansiedade na sua voz.
— Pois é, mas não podia sumir depois daquela noite. Foi
tudo muito estranho e queria te explicar o que aconteceu.
— Você não precisa se desculpar nem dar explicações.
— Mas te devo no mínimo um pedido de desculpa.
— Tudo bem. Aceito as desculpas, mas não é preciso mais que
isso.
— Por favor, deixe— me falar.
— Tudo bem. Você vai me dizer que estava confuso por algo e
que encontrou em mim uma pessoa legal com quem sair e conversar, mas percebeu
que estava indo longe e decidiu parar onde estava.
Fiquei assustado com a capacidade dela de ser tão realista
e direta.
— Seria mais ou menos isso. Naquele dia no café encontrei
alguém muito especial para mim. Não era nada planejado, nem esperado. Precisava
falar com ela, mas não tinha o direito de te tratar mal.
— Você não me tratou mal em momento algum Caine. Está se
martirizando por algo sem razão. Só não quero que pense que sou fácil. Saí com
você aquele dia porque te achei legal, mas não faço isso costumeiramente.
— Entendo completamente. Nunca pensaria nada diferente
disso ao seu respeito.
— Melhor assim. Então amigos? – E estendeu a mão em minha
direção. Apertei a mão dela carinhosamente.
— Amigos.
Dei— lhe um abraço e um beijo no rosto com respeito.
— Até qualquer dia por aí.
— Até.
Sai de lá bem mais aliviado. Agora sabia que não havia
feito mal à Felicity. Uma vez pensei que o nome dela poderia não ser apenas
coincidência, que poderia encontrar minha felicidade com ela. Agora sei que
não. Minha felicidade morava num apartamento numa ruazinha tranquila perto
daquele café e se chamava Charlie. Pensando nela passeei por alguns lugares
bonitos. Passei pelo Green Park e decidi levá— la lá. Seria legal namorar
debaixo daquelas árvores. Sentei num daqueles bancos e fiquei sentindo os
cheiros. Árvores, terra, pequenos animais... sangue. Parei por aí. Lembrei— me
que fazia dias que não me alimentava. Seis para ser mais preciso. Não sabia
como iria me alimentar a partir de agora. E não podia por a Charlie em perigo
ficando tanto tempo sem me alimentar perto dela. Pensei em como poderia conseguir
sangue sem matar pessoas e não cheguei a nenhuma conclusão. Fiquei muito
preocupado com isso. Estava chegando a ora de buscar a Charlie. Sai caminhando
devagar até a escola ficava longe, mas já que não me cansava decidi caminhar
para ter mais tempo para pensar. Estava com uma calça azul, camisa preta com
detalhes em vermelho e segurando o casaco da Charlie. Quando cheguei ao ponto
vesti o casaco e fiquei esperando até que ela chegasse. Meia hora depois mais
ou menos ela apontou na esquina. Meu coração disparou. Esperei que ela se
aproximasse e falasse. Parecia um pouco surpresa, mas fora isso não havia nada
diferente só que a cada dia ela ficava mais bela. Aproximou— se de forma que
ficássemos virados na mesma direção com ela na minha frente. Falamos como se
estivesse seguindo— a então a raptei para o parque do qual tinha vindo.
Sentamos debaixo de uma árvore e nos beijamos demoradamente. O beijo dela
estava ainda melhor que ontem e me fez sonhar. Quando conseguimos parar beijei
o pescoço dela e o cheiro do sangue invadiu minhas narinas me fazendo respirar
devagar e mais controladamente. Fechei os olhos e tentei afastar isso da minha
cabeça.
— O que aconteceu?
— Nada. Estou bem.
— Não, você fechou os olhos e está parecendo que sentiu
algum cheiro ruim.
— Não, pelo contrário o cheiro é bom. Bom a ponto de ser
perigoso. – Abri os olhos e quando ela me fitou vi em seu rosto preocupação e
receio.
— Ontem você me disse que seus olhos ficavam brancos por
três motivos. Visões, desejo e... sede. Qual dos três motivos os fez clarearem
agora?
Passei um tempo calado com vergonha de admitir o que estava
me atormentando. Finalmente tive coragem de falar. Ela precisava saber o que
encontraria em mim. Seria difícil para ambos, mas não podia enganá— la.
— Sede.
Ela ficou triste e me olhou com dó. Parecia que ela estava
vendo uma criança chorando na frente dela pela cara que ela fez.
— Sinto muito. Não sei o que fazer para te ajudar. Há algo?
— Não. Nem eu sei o que fazer. Não quero matar mais
ninguém, mas estou há seis dias sem me alimentar. Nem deveria te dizer esse
tipo de coisa. Você não precisa saber mais nada sobre um lado monstro e...
— Cala a boca Caine. Escuta: você não é um monstro é uma
pessoa comum com hábitos alimentares diferentes. Não precisa se sentir culpado
por algo que não fez. Não é culpa sua essa mudança.
— Eu sei, mas não queria que você soubesse sobre isso.
— Seria pior mentir. Se aceite como você é. Não há nada que
possamos fazer para mudar isso.
— Mas ainda assim preciso comer e não sei como.
— Precisávamos encontrar outro vampiro. Assim você teria
com quem conversar e trocar...
— Nem pense nisso. É loucura total. Não sabemos como os
outros se comportam. Eu nunca seria capaz de matar ninguém, nem um animal e, no
entanto eu suguei o sangue de dois homens maiores que eu até a morte. Fique
cego, agi guiado por instintos da primeira vez e por ódio na segunda. E se os
outros vampiros forem piores que eu, mais incontroláveis. Seria suicídio para
você e possivelmente para mim.
— Tudo bem, não quis falar besteira, só pensei numa forma
de te ajudar.
— Ok, mas só de me entender e estar comigo já me ajuda mais
que o necessário. Vamos aproveitar nosso tempo juntos sem falar nessas coisas.
Preocupo— me depois em como vou comer.
Passei as costas da mão pelo seu rosto e segurei seu cabelo
como ela fez comigo, mas mais delicadamente. Puxei— a para mim e a dei um
beijo. Ela correspondeu apaixonadamente e depois ficou abraçada a mim com força
como uma criança com medo do escuro.
— Não estou reclamando, ao contrario, mas porque você está
me abraçando com tanta força?
— Estou com frio. E com fome também. Podemos ir para casa
agora?
— Claro que sim. Pegue seu casaco de volta.
— E você?
— Não sinto frio, nem cansaço e nem esse seu tipo de fome.
Se sentisse frio já teria morrido com a água da minha casa.
— Oh claro. Mas onde você mora agora que saiu de casa.
Ela pegou o casaco e fomos andando até o ponto de ônibus.
— Encontrei um galpão. Uma antiga oficina e moro lá agora.
— Tem onde dormir?
— Se estiver perguntando de cama, não. Não durmo também.
Tenho um colchonete. Gosto de ficar deitado.
— Que legal. Quando era criança e brigava com meus pais
fugia de casa e ficava no quintal. Ligava para minhas amigas e acampávamos nos
fundos.
— Você não tem muito censo de aventura. Quando eu era
criança uma vez fugi de casa de verdade e fui para casa de um amigo. De lá
saímos e fomos para a casa da avó dele eu acho e ficamos lá por dois dias. A
polícia foi que me levou para casa. Minha mãe quase me matou nesse dia e falou
que se fugisse de novo ela me prenderia com correntes no meu quarto e nunca
mais me soltaria. Ela é um pouco exagerada.
Ela riu muito com essa historia. Minha mãe nesse dia estava
descabelada, chorando e com os olhos vermelhos. Da mesma forma que a encontrei
quando voltei para casa quando acordei na cabana.
Pegamos o ônibus e fomos para a casa dela. Subimos
separados e quando entramos Charlie me puxou pela camisa e me beijou. Quando
segurei a cabeça dela ela se abaixou e me largou rindo. Abri os olhos e fiquei
sem ação com a mão no ar enquanto ela ria. Ela se afastou e foi para a cozinha.
— Você é muito apressado. Mal entramos e foi logo me
beijando.
— Mas foi você que me beijou. – fui caminhando e sentei— me
num dos bancos do balcão da cozinha.
— Sabia que é feio pôr a culpa nas damas.
— Ah entendi. Assumo a culpa, mas só se for realmente
minha.
Ela estava próxima do balcão abaixada pegando alguma coisa
embaixo no armário. Quando falei isso ela se levantou e virou para mim
encostando— se ao balcão.
— Não entendi.
Levantei e fui ao encontro dela. Peguei— a no braço e a
levei para a porta. Coloquei— a no chão e a beijei. Encostamo— nos na porta e
continuei a beijando por alguns instantes.
— Agora a culpa foi minha.
— Tudo bem. Você me assustou. Posso comer agora?
— Sim pode. Vai comer o que?
— Sei lá. Macarrão instantâneo.
— Eca.
— Não gosta?
— Não mais.
— Sobre a sua alimentação. Estive pensando...
— Não pense. Já falei que eu me preocupo com isso. Não é
preciso que você perca tempo com esse assunto.
— Não quer nem saber o que pensei?
— Não. Quero que você coma e vá estudar.
— Você está brincando não é?
— Absolutamente.
— Que horror. Nem minha mãe falava assim comigo.
Aproximei— me dela devagar e a olhando insinuativamente.
Parei bem próximo ao seu rosto com as mãos para trás.
— Pareço com a sua mãe mesmo? – Ela me olhou boquiaberta
com cara de criança que quer algo que com certeza será negado.
— Não. Não parece. —
Ela falou e me beijou no rosto.
Ela comeu o macarrão que a mim parecia enjoativo. Depois a
fiz estudar. Ela fez a lição de casa e a ajudei no que ela tinha dúvida. Não
eram muitas, a Charlie era muito inteligente e seu inglês era maravilhoso.
Parecia que havia nascido aqui. Ficamos conversando abraçados por um bom tempo
sobre coisas banais: gostos, sonhos, medos.
— Como disse sempre quis sair do Brasil. Pensei em ir à Paris,
mas acabei optando por Londres.
— Já fui ao Rio.
— Sua mãe comentou quando nos encontramos.
— Eu passei mal com o calor. Fui para o hospital. Saímos
daqui no inverno e chegamos num calor escaldante.
— Isso acontece muito. Sempre gostei mais de frio, mas
nunca tinha saído do país.
— Queria cursar medicina. Genética como meu pai.
Trabalharia com ele.
— Eu quero fazer geologia. Gosto muito.
— Que bom. Seríamos um belo par de profissionais.
— Podemos ser. Você ainda pode estudar.
— Poderia se não tivesse “morrido”. Foi muito triste ver a
notícia da minha morte no jornal, ver minha mãe desmaiar quando me olhou e meu
pai dizer que eu nunca mais voltaria porque estava morto. – A Charlie me
abraçou forte nessa hora.
— Sinto tanto. Queria que sua vida voltasse ao normal.
— Um dia talvez. Voltando ao assunto como são suas amigas?
— São demais. A Glorinha é a mais louca. Tipo ela fica com
vários caras e fala tudo que vem à cabeça. A Julie é a mais romântica e meiga,
tudo e todos para ela é muito fofo. Ela te acha muito fofo também.
— Sério? Não me acho fofo.
— Eu acho. – E me beijou rapidamente. — Bom, a Anne é a mais explosiva. Ela é a mais
durona e reclama dos ataques de fofura da Julie.
— Parecem ser muito legais mesmo. Adoraria conhecê— las.
— Tive uma ideia.
— Qual?
— Espera um pouco.
Ela se levantou correndo do sofá onde estávamos e pegou o
telefone. Discou um numero bem grande e sentou— se no sofá de novo.
— Alô Glória? Oi. Adivinha quem está comigo. É isso mesmo –
Ouvi um grito de onde estava. – Espera um pouco. Vou pôr no viva— voz. Liga
para as garotas.
— Não acredito que ele está aí. Sério?
— Claro que sim. Que ver? Fala alguma coisa Caine?
— Falar o que? – Estava ficando com medo disso tudo já.
— De quem é essa voz?
— É do namorado da Charlie, Anne.
— O que? E vocês nem me avisam não é? Qual o seu nome
mesmo? Shane?
— Sobre o que elas estão falando Charlie?
— Perguntaram seu nome. Garotas vamos exercitar o inglês
não é. Ele não fala português.
— Oh tudo bem.
Esqueci desse detalhe. Como vai Caine. Meu nome é Glória. Meu inglês não é
muito bom porque faltei muitas aulas, mas dá para entender algo.
— Dá para entender muito bem. Prazer em conhecê— la Glória.
Falta uma. A Julie.
— Não falta mais. Tudo bem Caine?
— Tudo e com vocês? – Elas responderam um uníssono.
— Tudo ótimo.
— É verdade que seus olhos mudam de cor?
— Anne que pergunta. Não dava para ser mais discreta não.
— Qual é Julie. É só uma pergunta boba.
— Tudo bem. É verdade sim. Às vezes ficam brancos.
— Que legal. Sempre quis conhecer um... londrino.
— Então vem para cá. Tem vários deles aqui. – Todas riram.
— Bom eu ainda estou na conversa. Poderiam falar comigo
também?
— Char você é sem graça. Prefiro o Caine.
— Qual é Glória, tá dando em cima do namorado da Char?
— Claro que não Julie, que ideia. Nunca faria isso, se
tivesse de fazer teria feito antes com algum que tivesse perto de mim e, no
entanto quem fez isso foi aquela idiota.
— Vamos mudar de assunto não é? Vamos falar de outra coisa
como, por exemplo, fotos.
— Não entendi.
— Eu queria muito ver o Caine. Será que ele sai numa foto.
— Nunca fiz o teste, mas gostaria de tentar. Charlie?
— Tudo bem vamos tentar. Será divertido.
Ela correu no quarto e pegou uma câmera. Sentou no sofá ao
meu lado e tirou uma foto de nós dois juntos. Depois passou para o computador e
mandou para as meninas. Enquanto isso fiquei falando com elas sobre biótipo
masculino daqui. Não era um assunto que me agradava, mas agradava a elas e como
é a primeira impressão que fica decidi deixá— las feliz sobre o meu país.
— Já enviei a foto. – Charlie me olhou e a puxei para dar—
lhe um beijo.
— O que foi isso? Um beijo?
— Não um espirro.
— Tá bom Caine, acredito. Deixa pra lá. Nossa Caine como
você é lindo! Adorei seu cabelo.
— Obrigada Anne.
— Nossa que meigo. Seus olhos são totalmente lindos.
Agradeça a sua mãe.
— Comentei com elas sobre como vocês se pareciam.
— Tudo bem.
— Bom garotas, precisamos desligar. Caine precisa ir agora
e a minha conta de telefone vai explodir.
— Nossa que mão de vaca.
— Sem falar que ela quase expulsou o Caine não é?
— Não é isso. È que já falei a vocês sobre o porquê disso.
— Tudo bem. Então até mais Char, te amo e até logo Caine,
foi um prazer. Fui.
— Tchau Julie. — Falamos juntos.
— Vou embora Também querida. Até mais Caine.
— Até mais Anne.
— E eu também. Fui galera.
Quando ela desligou levantei— me do sofá e ela me olhou
interrogativa. Achei estranho.
— O que foi?
— Onde você está indo?
— Embora. Não foi o que você disse?
— Às vezes você é tão ingênuo Caine.Nana&Karol
Nenhum comentário
Postar um comentário
Muito Obrigada pelo seu comentário!