O tempo que
ele passou com ela foi apenas o tempo que demorei a chegar mais perto. Puxei— o
pela nuca e joguei— o no chão e soquei seu rosto várias vezes. Ela estava lá,
parada e muito assustada. Eu me distraí por um segundo olhando para ela e senti
uma coisa pontiaguda furando o meu estomago. O cara enfiou um punhal no meu
abdome até o umbigo, me empurrou e correu. Senti uma dor muito grande, mas
menor que a do tiro. Ela estava aterrorizada e começou a falar um monte de
coisa sem nexo, tipo: “Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus”. “Suas vísceras
estão expostas! Eu vou desmaiar”.
Tentei acalmá—
la e pedi pra que ela me ajudasse. Eu não estava tão mal assim, na verdade eu
estaria bem em minutos, mas tive que apressá— la para poder entrar no
apartamento dela. Eu não estava com segundas intenções, mas queria ter certeza
de que ela ficaria bem. Ela me ajudou a subir e eu disse que precisava tomar
banho. Só não queria que ela visse meu corpo se reconstituindo poderia ser
traumatizante. Ela me levou ao quarto, me ajudou a tirar a camisa e quando ela
perguntou se eu não queria ajuda para tirar o resto quem ficou atônito fui eu.
Não atônito na verdade, mas surpreso pela iniciativa dela. Falei uma das minhas
bobagens (teria que parar com isso algum dia) e ela se irritou. Já ia sair do
quarto quando a puxei pelo braço e pedi que ficasse. A proximidade me fez quase
abraçá— la e beijá— la, mas me contive. Ela já estava assustada, se eu seguisse
em frente ela me expulsaria e não teria mais a chance de estar ao lado dela por
tanto tempo. Pedi que ela ficasse na porta do banheiro para poder ouvir sua
voz. Começamos a falar sobre besteiras e ela falou na minha mãe. Deveria saber
que isso aconteceria algum dia. Ela estudava na escola onde cresci e onde minha
mãe lecionava. Um dia ela descobriria algo a mais ao meu respeito. Tentei
cortar o assunto, mas ela foi mais direta do que o que eu jamais esperei.
— Me desculpe,
eu nunca imaginei que a situação fosse essa. Eu só quero entender. Você entende
também o que é se apaixonar por alguém que você não conhece e descobrir que
esse alguém é totalmente diferente de você no momento?
— É claro que
eu entendo. Estou na mesma situação.
Ela me olhou
muito assustada, depois confusa e logo feliz. Depois voltou à face original.
— Você não
deveria dizer isso em vão. Nunca disse isso a ninguém, nunca me apaixonei por
cara nenhum, e quando isso acontece, ele é um vampiro londrino.
— Você não
deveria desconfiar tanto dos meus sentimentos.
— Desculpa,
mas é que é tudo muito novo para mim. Nunca pensei que fosse me apaixonar tão
rápido e ainda mais por um vampiro. Você também precisa entender que até quatro
dias atrás eu era mais uma garota comum com uma vida comum. Agora você entrou
nela muito intensamente e isso está me enlouquecendo.
— Entendo
perfeitamente. Eu sei o que você está passando porque eu passei pelas mesmas
coisas. Vi meus pais chorando a minha morte, as pessoas que eu conhecia me
abandonarem, minha vida mudar. Matei pessoas e não me orgulho disso. Fiz para
me alimentar. Sério, isso é demais para aguentar.
— E aquela
garota que te acompanhava no café?
— Felicity?
Ela é uma amiga. Uma pessoa legal que apareceu na hora errada na minha vida.
— E eu apareci
numa hora errada também?
— Não,
absolutamente. Você apareceu em ótima hora. Pode parecer loucura, mas eu
precisava de você. De alguém que me entendesse. Você reagiu tão bem a isso
tudo.
— Não tão bem.
Quando te vi... se alimentando, quase morri. Senti uma dor tão profunda que
quase me esmagou.
— Eu sei.
Senti a mesma coisa quando fiz a primeira vez.
— E aquela não
foi a primeira?
— Não. Foi a
segunda.
— Uau. As
lendas falam dessas coisas tão brutalmente. Nunca imaginei que fosse assim.
— Pra falar a
verdade nem eu.
— Como você se
transformou?
— Eu não
lembro. É um risco... uma falha... na minha memória.
Nesse momento
senti algo estranho. Passei a mão pelo cabelo e pela nuca. Charlie perguntou o
que estava havendo, fechei os olhos e sentei na cama. Ela sentou— se ao meu
lado preocupada. Vi uma mesa posta muito formalmente e várias pessoas ao redor.
Um homem falava e ouvi— o felicitar algo... Esforcei— me mais para lembrar
outras coisas. Tinha certeza que se tratava de algo relacionado à minha
transformação. Ele dizia...que estava feliz com retorno da amizade das
famílias. Quais famílias? Esforcei— me mais e ouvi o resto. O reencontro das
famílias Malkavian e Ventrue. Depois daí não vi mais nada. Ouvi só a voz de
Charlie me chamando aflita.
— Caine,
acorda. Por favor. Acorda.
— O que
aconteceu?
— Eu que te
pergunto o que houve? Seus olhos estão brancos. Isso é normal?
— Sim, ficam
assim quando isso acontece.
— O que
acontece?
— Tive uma
visão. Outra. Acho que se trata da minha transformação. Quando falo sobre isso
ou toco na marca da mordida lembro coisas, eventos falhos, confusos. Vi um
homem felicitando por reencontrar minha família. Mas ele só conhecia a mim dos
Ventrue. Já havia visto esse homem outra vez falando com a Verônica. Brigando
na verdade.
— Quem é
Verônica?
— Minha
namorada, ou melhor, ex— namorada.
— Não sabia
que você tinha namorada.
— Tinha. E
tenho certeza que ela está ligada à minha mudança só não sei como.
— E você não a
procurou para saber?
— Claro que
sim, mas ela se mudou.
— Que idiota.
— Isso mesmo.
Mas o fato é que não me lembro e tenho que conviver com isso sem explicações,
auxílio, nada. Tenho que conviver comigo mesmo sozinho.
— Não mais.
Estou aqui para te ajudar, você já sabe que pode contar comigo.
— Eu não quero
te envolver nisso.
— Não adianta
mais, você avisou muito tarde. Estou completamente envolvida.
— Por favor,
Charlie. Não suporto a ideia de saber que você está em perigo, principalmente
se eu significar esse perigo.
— Se você
significasse perigo para mim teria me atacado naquela rua escura ou teria me
deixado em perigo hoje cedo. Você fez o contrário: salvou— me, então não pense
em continuar sozinho sabendo que pode confiar em mim.
— E porque
você chorou antes, quando te pedi pra ficar.
— Nada é só
que você se machucou por minha causa, não queria parecer mal agradecida, ou que
estaria fazendo algo por obrigação. Gosto de você. Muito. Estar ao seu lado não
é obrigação, é prazer.
Ela derramou
mais lágrimas então não me contive. Abracei— a fortemente e ela retribuiu. Foi
a sensação mais maravilhosa do mundo. Mais que olhar seus doces e meigos olhos,
mais que vislumbrar sua beleza, mais que um simples toque. Foi magnânimo. Se
pudesse ficaria ali por toda a eternidade. Ela se aninhou nos meus braços e
senti que podia protegê— la. Ela continuou chorando. Precisava desabafar. Foi
tudo muito inesperado e rápido. Necessitava de apoio tanto quanto eu e senti
que poderíamos nos apoiar mutuamente daqui para frente.
— Está se
sentindo melhor?
— Sim,
obrigada. Você deve me achar uma idiota por causa disso.
— Não por
isso. Mas preciso me vestir. Não esqueça que estou só de toalha.
Ela ficou
encabulada e vermelha, olhou pra mim como se estivesse se desculpando.
— Desculpa,
não havia nem percebido. Vou sair pra você se trocar e te espero lá no sofá.
Ela sorriu e
saiu do quarto me deixando sozinho. Procurei a minha roupa, mas acabei achando
somente a calça. Vesti-me rapidamente e fui ao encontro dela, que estava
sentada no sofá.
— Agora eu é
que vou me trocar. Essa farda é horrenda.
— Eu gosto
dela principalmente em você.
— Tudo bem,
você tem mau gosto.
— Não se
menospreze tanto. Eu te escolhi essa é a maior prova do meu bom gosto.
Ela sorriu e
baixou os olhos. Depois levantou a vista ainda sorrindo e correu para o quarto.
Uns dez minutos depois ela apareceu vestindo uma calça moletom bege com uma
blusa rosa claro, cabelo preso em um coque com o meu elástico e com um chinelo.
Estava deslumbrante como sempre.
— Esse
elástico é meu.
— Eu sei assim
você tem uma desculpa pra voltar.
— Adoraria,
mas preciso te dizer uma coisa. Eu sei que é besteira, mas os brasileiros não
são muito bem vistos por aqui.
— Até agora
fui muito bem tratada por todos.
— Mas nem
todas as pessoas são tão cordiais. Só toquei no assunto porque temos que
acertar os horários em que vamos nos ver. Eu não quero sair daqui muito tarde
para os seus vizinhos não ficarem falando.
— Tudo bem,
mas não quero falar disso agora.
Ela se aproximou
do sofá onde eu estava e a puxei para sentar comigo. Estava com uma perna em
cima do sofá e a outra no chão e ela se sentou encostada no meu peito.
— Me fale da
sua vida antes daqui.
— Não tenho
muito que falar. Morava com os meus pais, tenho três melhores amigas que
ficaram no Brasil, que inclusive sabem sobre você.
— Sabem o que
sobre mim? –Olhei— a assustado e ela correspondeu o meu olhar da mesma forma.
— Tudo o que
sabia até o domingo.
— Você não
devia ter feito isso. –Fiquei nervoso, levantei— me e olhei de um lado para o
outro. Ela ficou lá sentada desculpando— se novamente.
— Nem eu sei
bem o que sou. Como você pode contar a alguém sobre mim?
— Eu não fiz
por mal. E elas sabem guardar segredo e ninguém acreditaria nelas.
— Mas não se
trata disso. Trata— se de eu ter confiado em você.
— Mas você não
confiou nada a mim. Eu te vi por acidente.
Ela tinha
razão. Eu é que me deixei ver, ela não me devia nada muito menos fidelidade.
— Procura
entender: eu vejo um cara mordendo outro até a morte como você acha que eu
fiquei. Precisava contar a alguém e elas são mais seguras para se contar um
segredo do que um padre.
— Eu que peço
desculpa. Passei tanto tempo me escondendo que a ideia de mais alguém saber
sobre minha situação me assustou. Se você confia nelas eu confio também. – Pedi
sua mão e a puxei para um abraço. Depois abaixei e falei no seu ouvido.
— Você não
terminou de falar.
— Senta aqui.
Vou te contar tudo. –Sentamos do mesmo jeito de antes. – Tinha um namorado que
me traiu com uma garota nova da antiga escola. Nunca mais falei com ele. Aqui
conheci a Carly que é ruiva tem olhos, é meio gordinha, usa um óculos muito
divertido, nos tornamos amigas desde então. Meus pais são muito divertidos e
gostam muito de viajar, apesar de trabalharem muito. Antes de vir pra cá fomos
passar as férias em Búzios com minhas amigas. Eu sempre tive o sonho de vir pra
cá e quando os contei da minha ideia eles aceitaram numa boa. As meninas
ficaram um pouco tristes, mas conversamos sempre que posso.
— Sua vida é
muito legal.
— Agora conte
sobre você.
— Eu já contei
sobre mim.
— Não você
contou parcialmente. Quero saber sobre sua vida antes da transformação.
— Eu morava
com meus pais, Lorenna e Richard e tinha acabado de ser aprovado na faculdade.
Meu pai me deu um carro novo de presente, que ele só me daria nos meus 18 anos.
Tinha um amigo chamado Marcus, mas me afastei dele quando conheci a Verônica,
minha ex— namorada.
— Por quê?
— O porquê eu
não sei, mas o fato é que ela me fez fazer isso. No tempo em que ficamos juntos
eu parecia cego e só agia de acordo com as vontades dela. Minha mãe sempre me
advertia e agora eu estou vendo que o preço que paguei por não tê— la ouvido
foi alto.
— Eu sinto
muito.
— Mas eu nem
tanto. Se não fosse a minha transformação não teríamos nos encontrado e isso
foi a melhor parte de toda essa bagunça na minha vida. Mas agora. – Disse me
levantando lentamente. – Eu preciso ir.
— Já?
— Lembra do
que eu falei sobre seus vizinhos?
— Lembro,
mas...
Eu a silenciei
com o meu dedo indicador. E falei ao seu ouvido.
— Onde você
pôs a minha camisa? — Ela hesitou e
respirou fundo antes de responder.
— Deve estar
no meu quarto. Foi lá que nós a tiramos. Quer ajuda pra procurar?
— Claro que
sim. Afinal foi você que a perdeu.
Ela me olhou
traiçoeiramente e caminhou devagar para o quarto. Segui— a e começamos a
procurar. Três minutos depois a encontramos atrás da cabeceira da cama. Vesti—
a e Charlie me olhou duvidosa.
— Você vai
realmente sair com essa camisa rasgada e suja de sangue?
— Se eu não
tivesse que ir não seria problema. Mas como tenho é a única solução.
— Posso te dar
um casaco.
— Ficaria meio
estranho sair com um casaco rosa e apertadinho com florezinhas. – Ela me olhou
irônica.
— Para o seu
governo eu não te daria o meu casaco rosa e sim uma jaqueta vinho.
— O fato de
você dizer que não me daria o seu casaco rosa significa que você tem um casaco
rosa.
— Qual garota
não tem? – Nos dobramos em risadas. Quando conseguimos parar de rir eu
finalmente disse.
— Agora eu
realmente preciso ir. – ela me olhou meio triste com aqueles doces olhos
implorativos.
— Tudo bem,
toma a jaqueta. É minha, mas é do time de futebol da escola então é masculina e
já que não tem outro jeito... Levo— te até a porta.
Fomos
caminhando bem lentamente até a porta. Ela abriu a porta e eu me encostei— me
no portal com o pé suspenso.
— Posso voltar
amanhã?
— Claro que
sim. Porque você não me busca na escola?
— Não posso.
Tenho muitas pessoas conhecidas lá, inclusive a minha mãe, lembra?
— Não precisa
ser no portão. Podemos nos encontrar no ponto de ônibus.
— Tudo bem
então. Vemos— nos amanhã no ponto de ônibus. Até amanhã.
Desencostei—
me e me inclinei para dar— lhe um beijo no rosto. Ela se esticou na mesma
direção que eu o que fez com que a beijasse no canto da boca.
— Desculpa, eu
não quis...
Não deixei que
ela terminasse. Olhei— a profundamente nos olhos, puxei— a pela cintura e ela
passou seus dedos pelo meu cabelo e segurou— o. Dei— lhe um beijo nos lábios a
princípio ferozmente. Foi muito melhor do que aquele primeiro beijo com a
Verônica. Deixou— me mais feliz do que passar na faculdade e acelerou mais o
meu coração do que andar a 200 km/h no meu carro. Foi supremo, eletrizante,
magnífico. Era fogo e eu queria me queimar cada vez mais. Entramos e eu fechei
a porta atrás de mim. Sentamos no sofá e continuamos nos beijando. O beijo dela
era melhor do que tudo que já provei na minha vida. Eu sabia que precisava ir,
mas não conseguia mover um músculo que me ajudasse a levantar e ir embora.
Quando paramos para respirar ela estava com o rosto indecifrável: um misto de
alegria, surpresa e confusão.
— O que
aconteceu foi...
— Magnífico?
— Mais que
isso. Foi estupendo.
Ela beijou a
minha marca da mordida, dedilhou meu rosto vagarosamente parando na minha boca;
olhou— me profundamente como se estivesse declarando todo o seu amor. Estava
boquiaberto.
— Seus olhos
estão brancos.
— Descobri
então uma nova forma para eles ficarem assim.
— Qual?
— Além de sede
e das visões, desejo.
Charlie foi se
aproximando lentamente me fazendo quase enlouquecer, mas não quis apressar
nada. Deixei— a fazer o que quisesse. Ela afastou meu cabelo do rosto, beijou
minha testa, meus olhos, a ponta do meu nariz e finalmente meus lábios muito
calorosamente. Correspondi da mesma forma, calmamente. Charlie soltou meu
cabelo e passou os braços em volta do meu pescoço, se aproximando ainda mais e
me abraçando com amor. Segurei— a pela cintura e continuei beijando— a. Ficamos
assim por mais alguns minutos, até que tive forças para me afastar do sofá.
— Se continuarmos
assim vou acabar não saindo daqui.
— Isso seria
bom.
— É, mas
realmente tenho que ir Charlie. Encontramos— nos amanhã.
— Tudo bem.
Ela me olhou
conformadamente, mas se levantou correndo e se jogou nos meus braços. Segurei—
a tirando do chão num abraço e beijando— a novamente. Carreguei a Charlie até a
porta e a pus no chão.
— Tchau. –
Fechei a porta rapidamente sem deixar que ela respondesse. A última coisa que
vi foi seu olhar atônito.
Esperei um
segundo e abri a porta. Ela ainda estava parada, mas quando me viu começou a
rir.
— Eu te amo
mais que tudo nesse mundo. –Sorri amorosamente.
— Eu também te
amo. Para sempre.
Pisquei um
olho para ela e sai. Fui para casa, tinha muito que pensar essa noite.
Nana&Karol
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