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22 setembro, 2012

Capítulo 18


O tempo que ele passou com ela foi apenas o tempo que demorei a chegar mais perto. Puxei— o pela nuca e joguei— o no chão e soquei seu rosto várias vezes. Ela estava lá, parada e muito assustada. Eu me distraí por um segundo olhando para ela e senti uma coisa pontiaguda furando o meu estomago. O cara enfiou um punhal no meu abdome até o umbigo, me empurrou e correu. Senti uma dor muito grande, mas menor que a do tiro. Ela estava aterrorizada e começou a falar um monte de coisa sem nexo, tipo: “Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus”. “Suas vísceras estão expostas! Eu vou desmaiar”.
Tentei acalmá— la e pedi pra que ela me ajudasse. Eu não estava tão mal assim, na verdade eu estaria bem em minutos, mas tive que apressá— la para poder entrar no apartamento dela. Eu não estava com segundas intenções, mas queria ter certeza de que ela ficaria bem. Ela me ajudou a subir e eu disse que precisava tomar banho. Só não queria que ela visse meu corpo se reconstituindo poderia ser traumatizante. Ela me levou ao quarto, me ajudou a tirar a camisa e quando ela perguntou se eu não queria ajuda para tirar o resto quem ficou atônito fui eu. Não atônito na verdade, mas surpreso pela iniciativa dela. Falei uma das minhas bobagens (teria que parar com isso algum dia) e ela se irritou. Já ia sair do quarto quando a puxei pelo braço e pedi que ficasse. A proximidade me fez quase abraçá— la e beijá— la, mas me contive. Ela já estava assustada, se eu seguisse em frente ela me expulsaria e não teria mais a chance de estar ao lado dela por tanto tempo. Pedi que ela ficasse na porta do banheiro para poder ouvir sua voz. Começamos a falar sobre besteiras e ela falou na minha mãe. Deveria saber que isso aconteceria algum dia. Ela estudava na escola onde cresci e onde minha mãe lecionava. Um dia ela descobriria algo a mais ao meu respeito. Tentei cortar o assunto, mas ela foi mais direta do que o que eu jamais esperei.
— Me desculpe, eu nunca imaginei que a situação fosse essa. Eu só quero entender. Você entende também o que é se apaixonar por alguém que você não conhece e descobrir que esse alguém é totalmente diferente de você no momento?
— É claro que eu entendo. Estou na mesma situação.
Ela me olhou muito assustada, depois confusa e logo feliz. Depois voltou à face original.
— Você não deveria dizer isso em vão. Nunca disse isso a ninguém, nunca me apaixonei por cara nenhum, e quando isso acontece, ele é um vampiro londrino.
— Você não deveria desconfiar tanto dos meus sentimentos.
— Desculpa, mas é que é tudo muito novo para mim. Nunca pensei que fosse me apaixonar tão rápido e ainda mais por um vampiro. Você também precisa entender que até quatro dias atrás eu era mais uma garota comum com uma vida comum. Agora você entrou nela muito intensamente e isso está me enlouquecendo.
— Entendo perfeitamente. Eu sei o que você está passando porque eu passei pelas mesmas coisas. Vi meus pais chorando a minha morte, as pessoas que eu conhecia me abandonarem, minha vida mudar. Matei pessoas e não me orgulho disso. Fiz para me alimentar. Sério, isso é demais para aguentar.
— E aquela garota que te acompanhava no café?
— Felicity? Ela é uma amiga. Uma pessoa legal que apareceu na hora errada na minha vida.
— E eu apareci numa hora errada também?
— Não, absolutamente. Você apareceu em ótima hora. Pode parecer loucura, mas eu precisava de você. De alguém que me entendesse. Você reagiu tão bem a isso tudo.
— Não tão bem. Quando te vi... se alimentando, quase morri. Senti uma dor tão profunda que quase me esmagou.
— Eu sei. Senti a mesma coisa quando fiz a primeira vez.
— E aquela não foi a primeira?
— Não. Foi a segunda.
— Uau. As lendas falam dessas coisas tão brutalmente. Nunca imaginei que fosse assim.
— Pra falar a verdade nem eu.
— Como você se transformou?
— Eu não lembro. É um risco... uma falha... na minha memória.
Nesse momento senti algo estranho. Passei a mão pelo cabelo e pela nuca. Charlie perguntou o que estava havendo, fechei os olhos e sentei na cama. Ela sentou— se ao meu lado preocupada. Vi uma mesa posta muito formalmente e várias pessoas ao redor. Um homem falava e ouvi— o felicitar algo... Esforcei— me mais para lembrar outras coisas. Tinha certeza que se tratava de algo relacionado à minha transformação. Ele dizia...que estava feliz com retorno da amizade das famílias. Quais famílias? Esforcei— me mais e ouvi o resto. O reencontro das famílias Malkavian e Ventrue. Depois daí não vi mais nada. Ouvi só a voz de Charlie me chamando aflita.
— Caine, acorda. Por favor. Acorda.
— O que aconteceu?
— Eu que te pergunto o que houve? Seus olhos estão brancos. Isso é normal?
— Sim, ficam assim quando isso acontece.
— O que acontece?
— Tive uma visão. Outra. Acho que se trata da minha transformação. Quando falo sobre isso ou toco na marca da mordida lembro coisas, eventos falhos, confusos. Vi um homem felicitando por reencontrar minha família. Mas ele só conhecia a mim dos Ventrue. Já havia visto esse homem outra vez falando com a Verônica. Brigando na verdade.
— Quem é Verônica?
— Minha namorada, ou melhor, ex— namorada.
— Não sabia que você tinha namorada.
— Tinha. E tenho certeza que ela está ligada à minha mudança só não sei como.
— E você não a procurou para saber?
— Claro que sim, mas ela se mudou.
— Que idiota.
— Isso mesmo. Mas o fato é que não me lembro e tenho que conviver com isso sem explicações, auxílio, nada. Tenho que conviver comigo mesmo sozinho.
— Não mais. Estou aqui para te ajudar, você já sabe que pode contar comigo.
— Eu não quero te envolver nisso.
— Não adianta mais, você avisou muito tarde. Estou completamente envolvida.
— Por favor, Charlie. Não suporto a ideia de saber que você está em perigo, principalmente se eu significar esse perigo.
— Se você significasse perigo para mim teria me atacado naquela rua escura ou teria me deixado em perigo hoje cedo. Você fez o contrário: salvou— me, então não pense em continuar sozinho sabendo que pode confiar em mim.
— E porque você chorou antes, quando te pedi pra ficar.
— Nada é só que você se machucou por minha causa, não queria parecer mal agradecida, ou que estaria fazendo algo por obrigação. Gosto de você. Muito. Estar ao seu lado não é obrigação, é prazer.
Ela derramou mais lágrimas então não me contive. Abracei— a fortemente e ela retribuiu. Foi a sensação mais maravilhosa do mundo. Mais que olhar seus doces e meigos olhos, mais que vislumbrar sua beleza, mais que um simples toque. Foi magnânimo. Se pudesse ficaria ali por toda a eternidade. Ela se aninhou nos meus braços e senti que podia protegê— la. Ela continuou chorando. Precisava desabafar. Foi tudo muito inesperado e rápido. Necessitava de apoio tanto quanto eu e senti que poderíamos nos apoiar mutuamente daqui para frente.
— Está se sentindo melhor?
— Sim, obrigada. Você deve me achar uma idiota por causa disso.
— Não por isso. Mas preciso me vestir. Não esqueça que estou só de toalha.
Ela ficou encabulada e vermelha, olhou pra mim como se estivesse se desculpando.
— Desculpa, não havia nem percebido. Vou sair pra você se trocar e te espero lá no sofá.
Ela sorriu e saiu do quarto me deixando sozinho. Procurei a minha roupa, mas acabei achando somente a calça. Vesti-me rapidamente e fui ao encontro dela, que estava sentada no sofá.
— Agora eu é que vou me trocar. Essa farda é horrenda.
— Eu gosto dela principalmente em você.
— Tudo bem, você tem mau gosto.
— Não se menospreze tanto. Eu te escolhi essa é a maior prova do meu bom gosto.
Ela sorriu e baixou os olhos. Depois levantou a vista ainda sorrindo e correu para o quarto. Uns dez minutos depois ela apareceu vestindo uma calça moletom bege com uma blusa rosa claro, cabelo preso em um coque com o meu elástico e com um chinelo. Estava deslumbrante como sempre.
— Esse elástico é meu.
— Eu sei assim você tem uma desculpa pra voltar.
— Adoraria, mas preciso te dizer uma coisa. Eu sei que é besteira, mas os brasileiros não são muito bem vistos por aqui.
— Até agora fui muito bem tratada por todos.
— Mas nem todas as pessoas são tão cordiais. Só toquei no assunto porque temos que acertar os horários em que vamos nos ver. Eu não quero sair daqui muito tarde para os seus vizinhos não ficarem falando.
— Tudo bem, mas não quero falar disso agora.
Ela se aproximou do sofá onde eu estava e a puxei para sentar comigo. Estava com uma perna em cima do sofá e a outra no chão e ela se sentou encostada no meu peito.
— Me fale da sua vida antes daqui.
— Não tenho muito que falar. Morava com os meus pais, tenho três melhores amigas que ficaram no Brasil, que inclusive sabem sobre você.
— Sabem o que sobre mim? –Olhei— a assustado e ela correspondeu o meu olhar da mesma forma.
— Tudo o que sabia até o domingo.
— Você não devia ter feito isso. –Fiquei nervoso, levantei— me e olhei de um lado para o outro. Ela ficou lá sentada desculpando— se novamente.
— Nem eu sei bem o que sou. Como você pode contar a alguém sobre mim?
— Eu não fiz por mal. E elas sabem guardar segredo e ninguém acreditaria nelas.
— Mas não se trata disso. Trata— se de eu ter confiado em você.
— Mas você não confiou nada a mim. Eu te vi por acidente.
Ela tinha razão. Eu é que me deixei ver, ela não me devia nada muito menos fidelidade.
— Procura entender: eu vejo um cara mordendo outro até a morte como você acha que eu fiquei. Precisava contar a alguém e elas são mais seguras para se contar um segredo do que um padre.
— Eu que peço desculpa. Passei tanto tempo me escondendo que a ideia de mais alguém saber sobre minha situação me assustou. Se você confia nelas eu confio também. – Pedi sua mão e a puxei para um abraço. Depois abaixei e falei no seu ouvido.
— Você não terminou de falar.
— Senta aqui. Vou te contar tudo. –Sentamos do mesmo jeito de antes. – Tinha um namorado que me traiu com uma garota nova da antiga escola. Nunca mais falei com ele. Aqui conheci a Carly que é ruiva tem olhos, é meio gordinha, usa um óculos muito divertido, nos tornamos amigas desde então. Meus pais são muito divertidos e gostam muito de viajar, apesar de trabalharem muito. Antes de vir pra cá fomos passar as férias em Búzios com minhas amigas. Eu sempre tive o sonho de vir pra cá e quando os contei da minha ideia eles aceitaram numa boa. As meninas ficaram um pouco tristes, mas conversamos sempre que posso.
— Sua vida é muito legal.
— Agora conte sobre você.
— Eu já contei sobre mim.
— Não você contou parcialmente. Quero saber sobre sua vida antes da transformação.
— Eu morava com meus pais, Lorenna e Richard e tinha acabado de ser aprovado na faculdade. Meu pai me deu um carro novo de presente, que ele só me daria nos meus 18 anos. Tinha um amigo chamado Marcus, mas me afastei dele quando conheci a Verônica, minha ex— namorada.
— Por quê?
— O porquê eu não sei, mas o fato é que ela me fez fazer isso. No tempo em que ficamos juntos eu parecia cego e só agia de acordo com as vontades dela. Minha mãe sempre me advertia e agora eu estou vendo que o preço que paguei por não tê— la ouvido foi alto.
— Eu sinto muito.
— Mas eu nem tanto. Se não fosse a minha transformação não teríamos nos encontrado e isso foi a melhor parte de toda essa bagunça na minha vida. Mas agora. – Disse me levantando lentamente. – Eu preciso ir.
— Já?
— Lembra do que eu falei sobre seus vizinhos?
— Lembro, mas...
Eu a silenciei com o meu dedo indicador. E falei ao seu ouvido.
— Onde você pôs a minha camisa? —  Ela hesitou e respirou fundo antes de responder.
— Deve estar no meu quarto. Foi lá que nós a tiramos. Quer ajuda pra procurar?
— Claro que sim. Afinal foi você que a perdeu.
Ela me olhou traiçoeiramente e caminhou devagar para o quarto. Segui— a e começamos a procurar. Três minutos depois a encontramos atrás da cabeceira da cama. Vesti— a e Charlie me olhou duvidosa.
— Você vai realmente sair com essa camisa rasgada e suja de sangue?
— Se eu não tivesse que ir não seria problema. Mas como tenho é a única solução.
— Posso te dar um casaco.
— Ficaria meio estranho sair com um casaco rosa e apertadinho com florezinhas. – Ela me olhou irônica.
— Para o seu governo eu não te daria o meu casaco rosa e sim uma jaqueta vinho.
— O fato de você dizer que não me daria o seu casaco rosa significa que você tem um casaco rosa.
— Qual garota não tem? – Nos dobramos em risadas. Quando conseguimos parar de rir eu finalmente disse.
— Agora eu realmente preciso ir. – ela me olhou meio triste com aqueles doces olhos implorativos.
— Tudo bem, toma a jaqueta. É minha, mas é do time de futebol da escola então é masculina e já que não tem outro jeito... Levo— te até a porta.
Fomos caminhando bem lentamente até a porta. Ela abriu a porta e eu me encostei— me no portal com o pé suspenso.
— Posso voltar amanhã?
— Claro que sim. Porque você não me busca na escola?
— Não posso. Tenho muitas pessoas conhecidas lá, inclusive a minha mãe, lembra?
— Não precisa ser no portão. Podemos nos encontrar no ponto de ônibus.
— Tudo bem então. Vemos— nos amanhã no ponto de ônibus. Até amanhã.
Desencostei— me e me inclinei para dar— lhe um beijo no rosto. Ela se esticou na mesma direção que eu o que fez com que a beijasse no canto da boca.
— Desculpa, eu não quis...
Não deixei que ela terminasse. Olhei— a profundamente nos olhos, puxei— a pela cintura e ela passou seus dedos pelo meu cabelo e segurou— o. Dei— lhe um beijo nos lábios a princípio ferozmente. Foi muito melhor do que aquele primeiro beijo com a Verônica. Deixou— me mais feliz do que passar na faculdade e acelerou mais o meu coração do que andar a 200 km/h no meu carro. Foi supremo, eletrizante, magnífico. Era fogo e eu queria me queimar cada vez mais. Entramos e eu fechei a porta atrás de mim. Sentamos no sofá e continuamos nos beijando. O beijo dela era melhor do que tudo que já provei na minha vida. Eu sabia que precisava ir, mas não conseguia mover um músculo que me ajudasse a levantar e ir embora. Quando paramos para respirar ela estava com o rosto indecifrável: um misto de alegria, surpresa e confusão.
— O que aconteceu foi...
— Magnífico?
— Mais que isso. Foi estupendo.
Ela beijou a minha marca da mordida, dedilhou meu rosto vagarosamente parando na minha boca; olhou— me profundamente como se estivesse declarando todo o seu amor. Estava boquiaberto.
— Seus olhos estão brancos.
— Descobri então uma nova forma para eles ficarem assim.
— Qual?
— Além de sede e das visões, desejo.
Charlie foi se aproximando lentamente me fazendo quase enlouquecer, mas não quis apressar nada. Deixei— a fazer o que quisesse. Ela afastou meu cabelo do rosto, beijou minha testa, meus olhos, a ponta do meu nariz e finalmente meus lábios muito calorosamente. Correspondi da mesma forma, calmamente. Charlie soltou meu cabelo e passou os braços em volta do meu pescoço, se aproximando ainda mais e me abraçando com amor. Segurei— a pela cintura e continuei beijando— a. Ficamos assim por mais alguns minutos, até que tive forças para me afastar do sofá.
— Se continuarmos assim vou acabar não saindo daqui.
— Isso seria bom.
— É, mas realmente tenho que ir Charlie. Encontramos— nos amanhã.
— Tudo bem.
Ela me olhou conformadamente, mas se levantou correndo e se jogou nos meus braços. Segurei— a tirando do chão num abraço e beijando— a novamente. Carreguei a Charlie até a porta e a pus no chão.
— Tchau. – Fechei a porta rapidamente sem deixar que ela respondesse. A última coisa que vi foi seu olhar atônito.
Esperei um segundo e abri a porta. Ela ainda estava parada, mas quando me viu começou a rir.
— Eu te amo mais que tudo nesse mundo. –Sorri amorosamente.
— Eu também te amo. Para sempre.
Pisquei um olho para ela e sai. Fui para casa, tinha muito que pensar essa noite.

Nana&Karol

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