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22 setembro, 2012

Capítulo 17


Como não consegui dormir direito, acordei bem cedo e resolvi ter um café mais elaborado. Noite passada acabei tendo sonhos muito estranhos, o rosto do trapinho me atormentava por toda noite. Mas porque ele não saia da minha cabeça? Será que é assim que as meninas se sentem quando se apaixonam? Odeio ser novata nesse assunto. Agora fico aqui perdida, sem saber o que fazer.
Cozinhei algumas coisas para comer agora e outras para comer quando chegasse da escola. Tomei café e vi que já era hora de começar a me arrumar. Peguei minhas coisas e desci para esperar a Carly. Não demorou muito e ela chegou com a mãe. Ela nos deixou no mesmo lugar de sempre e fomos caminhando até o portão. Conversamos sobre coisas banais e quando o sinal tocou fomos cada uma pra sua aula. Tentei me concentrar nas aulas, mas era um pouco difícil. Uma que não consegui dormir direito e outra que o trapinho continuava a encher minha cabeça. Será que um dia eu ainda iria encontrá-lo? Tudo bem que nunca mais o vi, mas eu sabia que o que eu sentia não era uma simples obsessão. Eu realmente estava gostando dele. E o mais estranho era que agente nem sequer tinha conversando e nem ao menos sabíamos o nome um do outro.
Como a ultima vez que nos vimos ele estava no café resolvi ao invés de voltar pra casa ir lá e ver se o encontrava. Quando saí da escola fui pra casa. Quero dizer, não para casa e sim para o café. Estava com saudades daquela comida e a minha era realmente ruim. Estava na hora de encarar os fatos.
Peguei o ônibus e desci antes. Sentei do lado de fora do café porque estava um friozinho agradável. Pedi um cappuccino grande e umas torradas com geléia, bolos e salgados. Seria mesmo meu jantar então era melhor ser reforçado. Fiquei lá, fiz minha lição, olhei as pessoas passando e o pôr-do-sol lindíssimo. Parecia manchado de sangue. Nunca esperei vê— lo tão caloroso numa cidade como Londres. Parei para observar o sol, se pondo bem lentamente e o seu brilho avermelhado ir aos poucos se tornando cinza.
Foi a minha melhor tarde nesta cidade até agora. Três horas depois decidi ir para casa, pois estava ficando mais frio e queria ir andando. Estava bem perto de casa e a noite pedia para ser vista. Estava próximo de casa quando senti alguém me puxar. Meu coração disparou, meu sangue congelou e minha cabeça rodou. Pensei em um milhão de coisas, pois num lugar que conhecemos qualquer amigo poderia chegar de surpresa e fazer isso, mas não num lugar onde não conhecemos praticamente ninguém.
O puxão me fez virar e encarar um homem mal vestido: calça rasgada, casaco puído, sapatos gastos, um touca com um mau cheiro terrível e mãos muito sujas (isso porque estou sendo muito bondosa. Não quis dizer que ele parecia ter catado lixo nas últimas três semanas, sem lavar as mãos em nenhum momento).
— Me passe a grana.
— Que grana?
— O que vi no café. Você deve ser mais uma dessas filhinhas de papai que...
Ele não teve tempo de terminar. Um outro alguém o puxou pelo pescoço e o derrubou no chão, socou o seu rosto até que o cara puxou uma faca da cintura e enfiou pouco abaixo do esterno e arrastou até o umbigo. O assaltante se levantou e correu e eu fiquei lá desesperada vendo a dor naqueles olhos azuis que eu tanto conhecia.
— Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus.
— Calma. Vai passar.
— Não vai, suas vísceras estão expostas! Eu vou desmaiar.
— Não vai não. Preciso de você e minhas vísceras não estão expostas.
— O que você quer que eu faça?
— Preciso de água, muita água.
— Sei que deveria estar muito agradecida por ter salvo minha vida e tudo mais, mas estou com medo. Não te conheço, não sei se devo te levar pra minha casa.
— É, realmente você deveria estar agradecida, mas entendo sua preocupação. Garanto que não vou te fazer mal. Só preciso da sua ajuda e não vou abusar da sua confiança.
Sem mais conversa ajudei— o a levantar e o coloquei no elevador. Entrei em casa apoiando— o e o coloquei no sofá.
— Bonita a sua casa.
— Nós não deveríamos estar preocupados com a sua recuperação?
— Ah, sim isso mesmo. Posso tomar banho?
— O que? – Fiquei super espantada com a pergunta dele. O cara leva uma facada e pede pra tomar banho. –Você não deveria pedir álcool e gaze?
— Confie em mim, sei o que estou fazendo.
Acompanhei— o até o quarto e ajudei— o a tirar a camisa (ai meu Deus, quase morri com aquela visão! Que barriga sarada. Que braços. Estava rezando pra não ficar só na camisa).
— O banheiro fica ali?
— Sim, mas você não acha melhor tirar logo a calça... E o sapato? – Ele me olhou com descrença, surpresa e certo ar de riso. –Não me olha com essa cara. Estou querendo te ajudar, você não devia esforçar sua barriga.
— Não te olhei de jeito nenhum. É que nunca imaginei que você fosse me mandar tirar a roupa.
— Tudo bem vou sair daqui e você que se vire sozinho, já sabe o caminho.
Apontei para a porta, mas ele me puxou pelo braço e quando virei estava bem próxima dele. Seu toque me fez tremer e os pelos do meu braço se eriçaram. Ele me olhou de um jeito implorativo e não tive coragem nem de me mexer quanto mais de sair de lá.
— Por favor, não me deixe sozinho. Não quero passar por isso de novo. Me ajuda.
— Tudo bem, desculpa. Eu deveria estar te ajudando em agradecimento.
— Não por agradecimento. Não precisa agradecer. Só se você quiser.
Se antes não conseguia nem me mexer agora não estava nem respirando. Derramei uma lágrima e ele ficou atônito.
— O que aconteceu?
— Nada, vamos você precisa se limpar.
Ajudei— o a tirar o sapato e a calça. Ele usava uma cueca boxer preta. Ele entrou na banheira e eu saí do banheiro.
— Você poderia ficar perto da porta do lado de fora? É que eu queria ouvir sua voz.
— Tudo bem, estou sentada na porta.
Fechei a porta, sentei no chão e fiquei ouvindo os barulhos que vinham de dentro do banheiro: a água caindo, ele se molhando e logo depois falando.
— Qual o seu nome?
— Charlotte.
— Inacreditável.
— O que?
— Quando nos vimos no café eu senti que conhecia um nome, mas nunca tinha ouvido falar nele antes: Charlie.
— Mas meu nome não é Charlie.
— Mas é assim que eu gostaria de te chamar.
— E o seu nome?
— Caine. Caine Ventrue.
— Você é filho de Lorenna Ventrue?
— Sim, por quê?
— Ela ensina na escola que eu estudo. Sinto muito pela perda do seu irmão.
— Eu não tenho irmãos, sou filho único.
— Mas ela acabou de perder um filho num acidente e você... – Parei de falar por um segundo e me dei conta de que não estava falando com um humano. Ao menos não um humano comum. – É um vampiro.
Ele abriu a porta. Olhei para cima assustada e encarei— o. Ele estava com o cabelo solto e molhado, enrolado numa toalha e não havia mais sinal de que ele tivesse levado um corte tão profundo.
— Eu não gostaria de falar sobre esse assunto.
— Isso não está certo. Eu passei quatro dias me martirizando por ter visto você mordendo um cara e agora que eu tenho a oportunidade de saber o que realmente aconteceu. Eu não vou desperdiçar.
— Você realmente não entende, acha que é muito fácil estar nessa situação. Como você se sentiria com todas as pessoas que você conhece e ama achando que você está morta? Como se sentiria sabendo que foi abandonada sem nenhuma explicação ou lembrança e descobrindo que precisa matar para viver? Se você soubesse o que é isso certamente não quereria tocar no assunto.
— Me desculpe, eu nunca imaginei que a situação fosse essa. Eu só quero entender. Você entende também o que é se apaixonar por alguém que você não conhece e descobrir que esse alguém é totalmente diferente de você no momento?
— É claro que eu entendo, eu estou na mesma situação.

Nana&Karol

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