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22 setembro, 2012

Capítulo 16


Não fui direto pra casa. Estava me sentindo pesado demais para me deitar e ficar lá a noite toda. Andei pelas ruas sem uma direção certa. Estava confuso com o que sentia. A única certeza que tinha era que gostava muito dela e que não gostaria de me afastar. Mas como eu poderia me aproximar? Eu não tinha uma vida, mal sabia quem era, todos achavam que eu estava morto. Era demais pra mim, imagine pra ela que deveria viver num mundo seguro e feliz.
Ela era forte. Uma adolescente se muda para Londres para viver sozinha, longe de todos que conhece e ama. Com certeza ela não era igual a todas as outras. Mas isso não era desculpa para chegar e dizer: “Olá, meu nome é Caine Ventrue e eu gosto muito de você. Ah, aliás eu sou um vampiro sem memória.” Andei por muito tempo sem saber pra onde ia. Até que começou a amanhecer. Era óbvio que eu estava longe de casa. Então tratei de me localizar e voltar para casa. Esse tempo me fez bem. Decidi que me afastaria dela aos poucos. Não a deixaria sozinha nessa cidade perigosa. Ela era estrangeira e isso dificultava um pouco as coisas pra ela. Então a medida que ela fosse se acostumando ao ritmo da cidade e da escola, conhecendo novas pessoas eu me ausentaria. Não manteria contato, entretanto, em nenhum momento.
Cheguei ao galpão e percebi que já era quase hora dela ir para a escola. Que saudade eu tinha de lá. Vivi muitas coisas boas naquele lugar. Sempre estudei direito, era um bom aluno, mas no time de futebol, não tem como ser sempre correto. Fazia umas besteiras de vez em quando. Lembro que um dia saí com os meus amigos e bebi demais. O Marcus ligou para minha casa avisando que eu dormiria na casa dele. Eu não podia nem falar. No outro dia quando cheguei minha mãe enlouqueceu. Eu estava péssimo de verdade. Foi a maior bronca da minha vida. Ela me tirou o carro por um mês. Precisei ir com ela e voltar da escola todos os dias. É claro que todos me sacanearam, inclusive o Marcus. Foi o mês mais constrangedor da minha vida.
Agora sinto falta dessa proteção, do companheirismo dos meus amigos, da alegria de ter pessoas ao redor. Hoje não tenho mais que lembranças desse tempo que me parece outra vida e se não fosse aquela garota estaria completamente sozinho com meus próprios pensamentos e torturas. A essa altura estava perto do galpão. Apressei o passo, entrei e me ajeitei um pouco. Estava com uma cara de cansaço, não pela caminhada, mas pelo tanto que amadureci nesses últimos dias. Andei rápido até a casa dela, mas ela já tinha saído. Andei até o ponto de ônibus e ela estava subindo em um quando cheguei. Peguei outra rua e fui direto para a escola. Cheguei antes. Ela precisava mudar de ônibus. Aquele demorava muito mais para chegar lá. Ela chegou alguns minutos depois de mim. Encostei-me a uma árvore de frente à escola e fiquei observando seus movimentos. Ela caminhava lentamente, como se estivesse com sono, bocejando algumas vezes. A menina de cabelo ruivo se aproximou e foram ambas para dentro. Tentei ouvir o que elas diziam, mas eram só coisas do dia-a-dia. Esperei um horário, até o sinal tocar. Não fazia sentido ficar ali, mas para onde mais eu iria. Sentia-me entristecido. Em pouco tempo não estaria mais seguindo-a, percebendo seus detalhes, contando seus passos. Era estranho sentir como se fosse arrancado parte de mim. Só me senti assim quando percebi que estava morto para os meus pais. Ela era uma estranha para mim e apesar desse magnetismo, da beleza dela, não deveria ser certo senti-la como uma parte tão importante de mim em tão pouco tempo. Parte da minha família. Resolvi sair de novo para caminhar, ver pessoas diferentes. Na hora que ela saísse já estaria de volta.
Andei devagar, mas quando me dei conta estava num parque. Sentei debaixo duma árvore e fiquei observando as pessoas que estavam lá. Era cedo ainda, mas alguns faziam exercícios, crianças corriam e brincavam com seus cachorros. Tinha um casal jovem também. Observei-os. A garota tinha cabelo escuro curto, olhos castanhos e bastante expressivos. Ela olhava para ele de uma maneira tão sutil e apaixonada que desejei automaticamente que a minha estranha me olhasse daquela forma. Ela sorria casualmente enquanto ele falava e apertava sua mão com delicadeza. Ele, com seu cabelo curto, cacheado, fitava-a com tamanha dedicação e amor que só tinha visto antes nos olhares dos meus pais. Perguntei-me como um casal tão jovem poderia se olhar com tanto respeito e admiração. Imediatamente percebi que era isso que eu sentia por ela. A admirava não pela sua beleza fascinante, mas pela forma como ela me parecia: madura, forte, inteligente, feliz! Respeitava-a com toda minha alma, não a queria que nada a acontecesse que não fosse de sua inteira vontade. Tanto que preferia nunca mais vê-la, a pô-la em perigo a mergulhando na minha vida nômade. Não achava justo comigo que tudo isso tivesse acontecido de forma tão brutal. Não conseguia imaginar nem de longe expô-la a qualquer situação desagradável. E essa era minha afirmação mais incontestável. Não por mim ela sofreria, e faria ainda tudo que estivesse ao meu alcance para que nada perturbasse sua inocente, doce e feliz vida.
O casal continuou caminhando agradavelmente, alheio a tudo que se passava ao redor. Segui-os com o olhar por alguns minutos até que sumissem pelo outro lado do parque. Respirei fundo, com exaspero. Eu nunca teria isso para mim? Nunca poderia ser feliz novamente? Sem meus pais, sem meus amigos, sem um amor? Fiquei pensando nisso por algumas horas ainda. Quando percebi, algumas pessoas já estavam me olhando desconfiadas. Quem passa tanto tempo parado debaixo de uma árvore? Percebi que estava atraindo atenção, uma que eu não queria nem precisava no momento. Tudo que desejava era passar despercebido por todos os lugares enquanto estivesse vivo.
Levantei-me espreguiçando-me. Afinal seria isso que um humano faria apesar de que poderia ficar naquela posição o dia todo sem que sentisse dormência ou dor em nenhuma parte do corpo. Andei devagar de cabeça baixa procurando não chamar atenção. Ainda não estava hora dela sair então tomei uma decisão: iria ver Felicity. Não seria ruim, então, se eu a procurasse para um Olá! Quem sabe eu não conseguiria substituir o que eu sentia pela minha estranha por uma simples lembrança. Começaria não pensando mais nela como minha. Ela não me pertencia de nenhuma forma. Estava apenas em meus pensamentos mais insanos. Caminhei até a loja da Felicity. Pela vitrine a procurei. A vi junto de um rapaz que a olhava com muito carinho. Para minha surpresa ela retribuiu o sorriso com igual intensidade. Eles conversavam no balcão, sorridentes, afetuosos. Afastei-me um pouco para que ela não me visse, mas continuei observando. Seu chefe chegou perto então ela se distanciou do rapaz e fingiu arrumar uma prateleira bagunçada. O rapaz pegou algumas revistas, um pacote de salgadinhos e foi olhar as prateleiras contrárias às de Felicity. O chefe dela falou algo a ela, que assentiu, e em seguida saiu. O rapaz voltou a ela e passou as compras. Eles não tiravam os olhos um do outro e se comunicavam assim, em silêncio. O que acontecia com as pessoas apaixonadas? Elas ficavam com seus pensamentos interligados? Nunca senti isso, nem pela Verônica! Que droga!
O rapaz pagou as compras, pegou a sacola e segurou a mão de Felicity beijando-a com carinho e respeito. Ela sorriu envergonhada e então ele lhe beijou na testa antes de sair, sempre olhando pra trás. Ela ficou com um meio sorriso bobo no rosto, olhando através da vitrine enquanto ele se distanciava alegre. O que eu poderia fazer lá? Atrapalhar esse momento nostálgico dela? Depois do exame que eu dei no café ela bem que poderia nunca mais querer me ver, apesar da sua boa educação não permitir que ela dissesse nada disso. Não me encaixava naquele cenário. Seria só mais alguém que poderia causar problemas a ela. E foi ótimo que isso tivesse acontecido. Se eu não poderia inserir aquela garota na minha vida, teria o direito de fazer isso com Felicity? Ela era tão inocente quanto. Eu seria um canalha se a usasse dessa forma, só para tentar esquecer... e novamente o nome Charlie me veio à mente. Foi bom que tivesse me lembrado dela. Estava na hora de ir à escola. Quando cheguei ainda esperei uns vinte minutos. Logo que tocou ela saiu acompanhada da garota ruiva. Meu coração disparou quando a vi. Que efeito ela teria sobre mim? Como ela era capaz de me fazer sentir como um menino de 15 anos? Eu não tinha muito mais que isso, mas parecia que tinha envelhecido anos nesses últimos dias.
As meninas se abraçaram e se separaram. Ela seguiu para o ponto de ônibus como de costume, mas ainda estava com uma expressão cansada. Será que não teria dormido o suficiente? Será que estava se alimentando mal? Meus pensamentos soaram como se minha mãe estivesse falando comigo. Sorri com a lembrança saudosista. Eu estava aqui, porque não esperava minha mãe sair. Poderia vê-la de longe. Seria arriscado, mas valeria. Eu podia chegar antes dela se me apressasse mais. Minutos depois minha mãe saiu da escola. Fiquei preocupado. Sua expressão sempre sorridente, reconfortante, meiga, parecia tão triste e envelhecida. Havia uma sombra em seu rosto e eu imediatamente quis correr para abraçá-la. Dizer a ela que eu estava bem, que estava vivo e que ela não podia mais ficar tão triste. Sempre tive uma ligação forte com minha mãe. Mais do que a maioria dos garotos. Talvez por ser filho único? Não sei.
Ela entrou no seu carro e seguiu para casa provavelmente. Então andei rapidamente para a casa da minha, digo, da garota. Quando cheguei sua janela ainda estava fechada. Realmente o ônibus não tinha chegado. Esperei durante algum tempo. Ela não aparecia. Convenci-me de que algo estava errado com o ônibus. Ela poderia ter pegado um ônibus errado. Mas não. Eu a vi entrar no ônibus certo. Tentei me acalmar. O que poderia acontecer de errado num caminho tão curto? Absolutamente nada!
Esperei, mas ela não chegou. Fiquei muito preocupado, pois Londres é a cidade mais linda e uma das mais perigosas do mundo. Milhares de coisas começaram a turvar meus pensamentos. Assalto, sequestro, estupro, acidente com o ônibus, atropelamento. Nunca tinha sido tão apologético, pelo contrário, mas quando se tratava dela nada era normal em mim. Tudo era muito exagerado, monstruoso. Precisava encontrá— la e levá— la a salvo para casa. Seria mais fácil protegê— la de mim do que dos outros. Saí caminhando e passei pelo café que ficava próximo a casa dela. Ela estava lá sentada do lado de fora, pensativa. Não acredito que imaginei milhares de horrores enquanto ela estava calmamente sentada no café, lanchando e folheando livros. Senti-me um idiota e sorri para mim mesmo.
Parei e passei para o outro lado da rua. Quando ela saiu e segui— a. Outro cara teve a mesma ideia. Quando ela atravessou a rua e foi atrás dela. Estava mal vestido e não parecia estar bem intencionado. Perto da casa dela ele abordou— a. Eu sabia. Sabia que isso não daria certo. Eu senti que precisava encontrá— la e protegê— la. Esse cara iria se arrepender de ter tocado a minha estranha perfeita.

Nana&Karol 

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