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22 setembro, 2012

Capítulo 15


Passei o resto das minhas férias vagando como um zumbi dentro de casa. Saí uma vez pra comprar comida só para não precisar voltar àquele café. Ele me trazia boas, mas também péssimas recordações. Não parei de pensar nem por um segundo sobre o que aconteceu. Aqueles olhos azuis tão profundos me marcaram como nunca aconteceu. Eu estava apaixonada por um cara que eu não sabia nem o nome e que cometeu um assassinato da forma mais inacreditável possível.
Andei por todo o apartamento naquele domingo e tentei me encontrar ali dentro, mas sabia que não adiantaria. Olhei as paredes brancas, elas não combinavam comigo. Troquei de roupa, saí correndo escada abaixo e procurei uma loja de tintas.
Era bem legal, as paredes eram coloridas tipo uma tela de testes de cores e texturas.
— Olá, eu gostaria de comprar cores variadas de tintas.
— Tem preferência de marca ou tonalidade?
— Não muito. Não conheço muitas marcas, só não quero muito caras nem com cheiro forte. É para o meu apartamento então não quero ter que sair de lá enquanto seca.
— Tudo bem, na parede tem várias cores e no catálogo têm outras que são lançamento, só que são mais caras.
— Fico com as da parede. Eu as faço virarem lançamento.
A moça que me atendia riu com a minha frase e me mostrou os galões. Comprei de várias cores: vermelho, preto, roxo, verde claro, rosa bebê, marrom, azul céu e vários pincéis e rolinhos de diferentes tamanhos. Comprei também uma touca e solvente para tirar a tinta de mim e de onde caísse. A casa de búzios foi pintada pela minha família. Uma parte dela. Quando eu era criança. Ajudei a sujar, mas meus pais não reclamaram. Foi um dos dias mais divertidos da minha vida e lembrá-lo me ajudou a ter mais ânimo.
Voltei para casa, vesti um short e uma camiseta velhos, afastei os móveis e espalhei jornais e revistas pelo chão, abri os galões e comecei a espalhar as tintas pelas paredes fazendo formas geométricas, riscos e manchas.
Misturei algumas cores e formei novas tonalidades. A sala ficou com as cores mais escuras (vermelho, preto e marrom) e a cozinha com as demais cores e junto com as variações entre laranja, lilás e algumas não definidas.
Não mexi muito no quarto porque não podia arrastar os móveis. Limpei a casa, juntei os jornais e joguei no lixo, limpei-me com o solvente e tomei um bom banho. Almocei em casa mesmo e passei o resto do dia vedo TV, arrumando minhas coisas para a escola e falando com as garotas.
— O que você viu?
— Eu não acredito.
— Estou pasma e morta!
— Tem certeza disso?
— Claro que sim. Eu não mentiria para vocês, mas isso é um segredo, óbvio. Não quero ter que voltar ao Brasil para matar vocês esquartejadas.
— Diga-me em que tempo existente em qualquer dimensão que exista no infinito nós contamos seus segredos ou o de uma de nós a outra pessoa.
— Isso mesmo. Fale-nos.
— Tudo bem. Só quis reforçar.
— Não precisa.
— Assim você nos ofende, desconfiando da nossa lealdade.
— Isso mesmo, o que Londres fez na sua cabeça?
— Mil perdões amigas, mas é que foi algo inesperado, inacreditável.
— Entendemos. Nunca pensei que vampiros existissem. Sempre quis conhecer um.
— Qual é Glória você nem sabia que eles existiam.
— É eu sei, mas mesmo assim. Sempre alimentei dentro de mim esse sonho. Ahhhhhhhhhh!
— Vai começar a ladainha.
— Qual é galera vocês querem saber mais ou não?
— Claro que sim conta. Calem as bocas.
— Ele é totalmente perfeito. É alto e forte, tem a voz lindíssima e envolvente, lábios muito fofos e olhos incrivelmente azuis. Aliás, como os de uma professora da escola.
— E você já foi lá?
— Já. Fui ver minha matrícula. Ela perdeu o filho há pouco tempo. Uma pena. Mas voltando ao assunto. Ele é totalmente demais. Eu estou apaixonada por ele e...
— O que? Acho que não entendi bem. Charlotte Camarillo apaixonada?
— Sempre achei que ouviria isso.
— Qual é Julie. A Charlotte nunca gostou de alguém assim. Agora ela se apaixona por um bebedor de sangue.
— Nossa. Não fala assim. Você já pensou como deve estar sendo difícil para ela?
— Desculpa Char. Não quis te ofender nem te magoar.
— Tudo bem, eu sei. Você não falou por mal, mas mesmo assim. Eu fiquei triste porque ainda não tinha me dado conta disso.
— Se ele for perigoso?
— Eu não sei. Não sei qual das lendas é a verdadeira ou se algumas delas é. A única coisa que eu sei é que ele bebe sangue, é mais forte que um humano comum e me olhou com muita dor quando me viu lá olhando ele. Foi real. Ele me olhou como se estivesse se desculpando. Se ele pudesse chorar o teria feito. Eu nem sei se ele pode chorar.
— Mas se pudesse choraria. Com certeza.
— Pode até ser Julie, mas a Anne tem razão. E se ele for perigoso? Eu não tenho garantia de nada perto dele, nem se vou sair viva ou humana de lá. Senti que ele nunca me faria mal, mas isso sou eu. Não tenho como saber se meu sentimento é verdadeiro.
— Oh, eu sinto tanto. Queria estar ai e te ajudar.
— Todas nós queríamos.
— Vamos mudar de assunto.
— Tudo bem. O meu apartamento ficou lindo de morrer.
Continuamos conversando sobre coisas mais animadas. Duas horas depois desligamos quase chorando e a Carly me ligou marcando de passar aqui para me pegar para irmos para a escola. Conversamos um pouco e fui dormir. Já era tarde e tinha que acordar cedo para não me atrasar para o meu primeiro dia.
De manhã acordei disposta. O fuso horário quase não me afetou. Tomei café e me troquei. Esperei mais uns dez minutos e a Carly chegou.
— Olá.
— Olá Sra. Johnson.
— Olá Charlotte. A Carly me falou bem de você. Que bom que estão amigas. Será mais fácil começar.
— Obrigada Sra. Johnson.
Ela nos deixou na esquina e fomos andando até a escola. Conversamos um pouco e entramos logo. Ambas já conheciam os caminhos e fomos direto para a sala de aula. Os alunos eram uns gatos. Os professores super demais e a escola totalmente perfeita. Entramos pela escadaria de pedra e andamos pelos largos corredores até termos que nos separar para irmos para nossas salas. Só nos encontraríamos no quinto horário na aula de história e no almoço. Nas minhas turmas todos me trataram bem e ficaram curiosos para saber sobre o Brasil. Decorei um texto de apresentação do país porque não tinha mais nem o que falar era só sol, mar, calor, gente bonita e quebrar os mitos de que as favelas invadem as ruas e que todos os dias morrem várias pessoas pelas mãos da máfia. Lá nem tem máfia. Tem traficantes, gangues, mas máfia não. Tudo que tem em todos os países. O Brasil está crescendo e pelo menos nas minhas turmas eles teriam que enxergar isso.
No almoço nos encontramos e comentamos sobre a manhã de aulas.
— Nossa Charlotte isso é totalmente demais. Essa escola é o máximo. Os professores são ótimos e os alunos uns gatos. Na minha aula de inglês tem um cara muito lindo. Ele tem um cabelo super descolado loiro com mechas pretas. Não é muito grande a parte loira, mas as mechas pretas vão até o pescoço.
— Esse “não é muito grande” é estilo surfistinha.
— Legal! Continuando, o cabelo estilo surfistinha, os olhos verde-água quase transparentes. Muito legal.
— Isso é um emo!
— Isso não. Ele. E o cara não é emo. Pelo menos ele não se veste assim.
— Mas você não sabe como ele se veste. Estamos de farda.
— Mas mesmo assim. O estilo dele não parece ser emo.
— Tudo bem. Só esse?
— Sim. Ele é mais lindo que todos os outros.
— O meu parceiro de química é um deus grego. Se bem que no Brasil eu tinha um professor de historia que dizia: “O ego desses deuses era tão grande que eles só enxergavam beleza no próprio sexo, logo eram gays”.
— Nunca ouvi essa teoria.
— Os brasileiros são mais criativos. – Ambas riram muito.
— Voltando ao assunto, você não me falou como é seu parceiro de química.
— O cara é loiro, tem olhos cor de mel, uma boca muito chamativa, mais que o apropriado, devia ser proibido ter uma boca daquela. Ele é alto, mas forte. Não musculoso, mais para magro, mas não esquelético. Uma verdadeira sincronia.
— U-a-u. Apaixonei-me.
— Você não estava apaixonada pelo emo da sua classe?
— Em primeiro lugar ele não é emo e em segundo meu coração é grande, sempre cabe mais um.
Rimos muito e voltamos para a sala. O dia foi legal, legal demais. Fui para casa de ônibus no andar de cima porque queria ver tudo do alto. Desci e andei até chegar ao apartamento. Larguei minha bolsa no sofá, fui para o quarto me trocar e voltei. Fiquei lendo algumas revistas, depois peguei alguns livros e fiquei no sofá estudando, relembrei o meu inglês, algumas gírias usadas por lá. Comi algo vendo TV. Fiz meu dever de casa, que era bem pouco e fui dormir.
No outro dia acordei cedo de novo e fui novamente com a Carly. Ela era uma amiga e tanto e seria demais passar esse tempo com ela. Chegamos e como eu estava cansada e ainda pensando muito em trapinho estava com uma cara desanimada.
— Charlotte o que aconteceu você está triste?
— Não imagina, estou cansada apenas Sra. Johnson. Acho que o fuso horário está me afetando um pouco.
— Tudo bem, mas isso passa. É normal. Até mais.
— Até.
Saímos de perto do carro e caminhamos devagar para a escola. Apesar de animadas estávamos com sono.
— Charlotte fale mais sobre o Brasil. Sempre quis conhecer o Rio de Janeiro. Ouço falar muito sobre as escolas de samba. Deve ser tão lindo.
— E é mesmo. Lá faz muito calor. Calor tipo 40° C. Convertendo deve dar uns 104° F.
— Minha nossa. Eu morreria de calor.
— Mas lá tem muitas praias lotadas de gente. Tem muitos garotos bonitos também que vocês iriam adorar. Minha amiga tem um ficante que se chama Júlio e ele faz esse estilo surfistinha.
— O que é ficante?
— Ficante é como um namorado temporário. Eles não têm um compromisso sério e podem ficar, ou melhor, namorar temporariamente ao mesmo tempo com outras pessoas. É mais ou menos assim.
— E o que você falou sobre estilo surfistinha, comenta mais.
— Estilo surfistinha é quando o cara é bronzeado, surfa, usa óculos lupa, bermuda colorida, sandália, o cabelo não muito grande como o do emo,coisas assim.
— Entendi e gostei. Eu adoraria conhecer o Rio.
— Isso porque você nunca viu Búzios. É uma cidade litorânea onde chovem garotos assim.
— Oh meu Deus preciso realmente ir para lá.
Entramos e ela continuou perguntando sobre o Brasil. Falei o que pude detalhadamente. No fim do dia nos despedimos e fui para casa. Fiquei no ponto a espera do ônibus. Subi e sentei-me em um dos bancos vagos no primeiro andar. Desci e fui caminhando para casa. Durante a caminhada fui pensando em tudo o que aconteceu. A curiosidade passava a tomar conta de mim. Eu queria saber o que estava acontecendo, queria saber mais sobre aquele rapaz. Seu nome, quem ele era, mas a pergunta que circulava a minha cabeça era ‘o que tinha acontecido com ele’. Eu sei que devia me afastar, mas só de lembrar do modo como ele me olhava me fazia perceber que ele nunca iria me machucar, pelo menos não de propósito.
Entrei no apartamento e joguei meus livros na mesinha de centro. Fui pro quarto e troquei aquela farda horrenda por uma calça escura e uma blusinha de manga azul e peguei um casaco. Estava com fome, mas não aguentava comer sozinha e muito menos estudar. Ainda por cima com o humor que estava. Resolvi pegar meus livros e ir até o café. La eu poderia comer rodeada de pessoas, estudar e não me sentir tão só.
Cumprimentei algumas pessoas que eu conhecia de vista, pois já frequentavam o café. E falei com alguns dos atendentes. Fiz o meu pedido e me sentei em uma das mesas que ficavam de frente para a janela. Peguei um dos livros e comecei a estudar. Não que não fosse boa na matéria, mas a turma estava mais adiantada e precisava me acostumar com o modo de ensino daqui. Mas o que também não ajudava muito era o fato de que eu não conseguia tirá-lo da cabeça. Apesar de ter a sensação de ser observada durante o tempo que fiquei no café, não percebi ninguém me olhando. Fiz o dever e depois de tomar café juntei minhas coisas e voltei para casa.
Chegando em casa tomei banho e me arrumei para dormir. O primeiro dia de aula até que tinha sido bem cansativo. No dia seguinte acordei cedo e preparei algumas coisas pro café como, torradas, suco, alguns ovos e geléia. Fiz minha higiene e me arrumei. Desci e fiquei esperando a Carly e a mãe no portão do prédio. Quando elas chegaram fomos direto pra escola.
Nada de tão inacreditável aconteceu, eu e a Carly tivemos algumas aulas juntas, almoçamos e fofocamos sobre os meninos que ela me falou outro dia. De acordo com ela o garoto da sua turma estava dando em cima dela. E eu que não sou boba nem nada ia tentar ajudar a minha amiga. No fim das aulas, me despedi e fui até o ponto esperar o ônibus. Subi e fui pra casa. Estava casada demais. Fiz alguma coisa pra comer, me arrumei o fui dormir.

Nana&Karol

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