Páginas

12 setembro, 2012

Capítulo 14


Saí cego de ódio de mim mesmo por ter sido incapaz de me segurar lá. Se tivesse me controlado poderia ter desfrutado da companhia dela por mais algum tempo antes de um adeus. Estava louco. Cada vez que pensava que poderia estar lá, guardando cada detalhe simplório para qualquer um, mas importantíssimo para mim, minha raiva aumentava. Passei pela frente de um bar de quinta e entrei. Não iria beber nem nada, mas queria ouvir algo mais barulhento que meu próprio pensamento me julgando. Sentei no balcão e pedi uma cerveja. Fiquei olhando-a e pensando na minha vida até então. Ainda me perguntava como consegui fazer a Felicity esquecer meus olhos. Nem sei como ela não correu, pois eu ficava assustador com os olhos brancos. Ela é uma garota muito corajosa e a admiro por isso, só que não poderia levar essa historia adiante. Amanhã teria que ir à loja e dizer que nós não poderíamos nos ver novamente. Não seria tanto pelo que aconteceu e sim por causa dela. Daquela garota. Ela mexeu comigo instantânea e profundamente e eu não conseguiria pensar em mais ninguém que não fosse ela. Charlie. Esse nome novamente. De onde o conhecia? Só sabia que quando o lembrava me acalmava. De repente começou uma briga.
— Cara me ajuda aqui. Esses loucos vão destruir o meu bar.
Tive dúvidas se ele estaria falando comigo mesmo, mas minha dúvida acabou quando ele me puxou pela camisa. Dois caras, um gordo, alto, barbudo e com cara de bêbado e o outro forte, mais baixo uns cinco centímetros com barba cerrada, brigavam por um motivo que devia ser bem idiota. O dono do bar que também era muito corpulento agarrou o gordo pelo pescoço e eu agarrei o fortão virando o braço dele para trás.
— Tira ele daqui vai. Leva ele lá pra fora.
Arrastei-o para fora ouvindo ele me xingar aos gritos. Joguei-o na parede.
— Qual é cara para com isso. Para que brigar?
— O que você tem haver com isso seu idiota filho de uma vaca?
— Olha sem ofensas, te fiz um favor tirando você de lá. Agora cala sua boca e dá o fora daqui.
— Como é? Acho que não ouvi bem. Você está me mandando fazer algo. Garotos imbecis como você não me mandam fazer nada, seu moleque.
— Não me insulta. Sabe de uma faz o que quiser da sua vidinha imunda.
— Ninguém me ofende e vira as costas para mim garoto.
O cara me puxou pela camisa, mas eu girei por baixo do braço dele. Dei-lhe um empurrão que o fez cair sobre umas latas de lixo que ficava na esquina perto de um poste que estava sem luz. Ele levantou-se cambaleando e dessa vez eu não hesitei nem pensei sobre muita coisa. Peguei-o pelo pescoço e o empurrei na parede. Cravei meus dentes no seu pescoço e dessa vez não deixei que o sangue caísse muito. Foi mais fácil hoje, pois parecia que minha fúria era uma ótima professora que me ensinava perfeitamente como agir. Ele foi desfalecendo enquanto eu via imagens da sua vida assim como vi do cara naquele beco.
Havia pessoas, bares, muitas bebidas e, o que mais me impressionou, uma morte. O cara havia matado uma mulher, uma prostituta pelo visto. Eu queria saber mais sobre aquilo então continuei bebendo e vi a mulher numa cama, depois se levantou e apontou uma arma para ele. Ele a rendeu e atirou no seu peito, depois limpou a arma e alguns objetos rapidamente, vestiu-se e saiu correndo deixado-a quase morta lá. Vi depois um julgamento, uma cela e muitos homens abusando uns dos outros. E ele era um dos que abusavam. Larguei-o enojado depois que não senti nada mais sair enquanto sugava. Reparei no pescoço dele: não estava tão destroçado como o outro, havia apenas dois furos largos e marcas pequenas de dentes ao redor e não havia muito sangue espalhado. Passei a mão pelo meu rosto. Estava limpo, só estava sujo até o queixo.  Coloquei-o atrás das latas e quando me virei a vi.
Se eu pudesse evaporar teria acontecido ali mesmo. Ela estava na esquina do outro lado da rua e seus olhos estavam apavorados. Será que ela tinha visto tudo? Será que tudo mesmo? Fiquei lá parado sendo metralhado por perguntas da minha consciência enquanto ela me olhava descrente. Pelo seu olhar percebi que estava enojada, amedrontada e confusa como eu havia ficado da primeira vez. Ela chorou. Derramou duas lágrimas inicialmente. Depois um turbilhão delas. Olhava-me com tristeza. Não havia medo mais. Só havia pesar. Dor. Ela pôs a mão na boca, limpou as lágrimas e saiu correndo. Eu queria ir atrás dela, correr, abraçá-la, me desculpar, chorar com ela e prometer que aquilo nunca mais aconteceria. Prometer que iríamos ficar juntos para sempre, fazê-la esquecer tudo aquilo como fiz com a Felicity. Se eu pudesse chorar teria chorado, se tivesse forças pra gritar teria gritado, se pudesse voltar no tempo e não tê-la decepcionado eu teria feito e  se pudesse não ter morrido não estaria aqui hoje fazendo-a sofrer.  Quando consegui fazer minhas pernas se moverem caminhei a passos de tartaruga para casa. Andei como se estivesse uma bola de ferro acorrentada ao meu tornozelo. Cheguei e me joguei no colchonete. Fiquei lá pensando em tudo e em nada durante horas, dias.

***

Quando tive ânimo para me levantar vi que havia se passado quatro dias. Tomei um bom banho. Não precisava disso, mas queria me livrar do cheiro daquele homem. Olhei a rua. Resolvi sair para ver gente. Para respirar um ar diferente. Andei por Notting Hill, entrei em algumas livrarias, comprei um livro de auto-ajuda. Caminhei mais entrando por várias ruas. Quando me dei conta percebi que estava em frente a um dos últimos lugares em que deveria estar no mundo: a Cambright High School.
Quis fugir, pois minha mãe trabalhava lá, alguns dos meus antigos amigos estudavam lá, meus professores. Não queria que ninguém visse um morto caminhando pela rua. Quis muito fugir, mas não pude. Era horário de saída, muitos alunos estavam do lado de fora, mas nenhum deles me importava. Quero dizer, um deles me importava. Na verdade era a única pessoa que me importava no momento: minha estranha perfeita. Ela usava o fardamento feminino da escola: saia um pouco acima do joelho (ela deve ter modificado, pelo que me lembre elas iam até o joelho), camisa branca de botão manga três quartos, gravata, blazer, meia e sapato Mary Jane. Estava linda como sempre. Parecia estar triste, cabisbaixa. Será que seria por causa do ocorrido há quatro dias? Procurei não ser visto por ninguém. Ela despediu-se de algumas pessoas, andou até uma parada de ônibus e pegou o terceiro que apareceu. Quando ela entrou no ônibus e passou para o andar superior rapidamente entrei atrás e fui para o fundo. Sei bem que foi arriscado, mas eu precisava saber algo mais sobre ela. Cinco paradas depois ela desceu e caminhou entrando em algumas ruas até chegar à dela. Segui-a de longe e muito sorrateiramente. Ela entrou num prédio e demorou uns instantes para aparecer novamente. Olhei em todas as janelas para tentar encontrá-la e a vi finalmente entrando pela porta de uma casa no terceiro andar. Era um bom apartamento. E pelo visto estava vazio quando ela entrou. Ela largou a bolsa num sofá e caminhou até uma porta. Demorou um pouco e voltou com outra roupa. Sentou-se no sofá e ligou a televisão. Fiquei lá observando até anoitecer. Ela passeava pela casa, lia revistas, fez a lição de casa, estudou um pouco e comeu vendo TV. Depois entrou na mesma porta de quando chegou e não saiu mais. Só assim eu fui embora. Estava longe de casa e precisava ir. Fui andando para pensar. Minha estranha perfeita era muito linda. Cada movimento dela me encantava, me fascinava e se eu pudesse nunca mais sairia do lado dela. Certamente eu estaria lá amanhã novamente e depois e depois e depois... Se eu pudesse vê-la e senti-la já seria algo. Já seria muito. Eu teria motivo para viver a partir de agora.
Voltei para casa e me deitei novamente. Senti- me feliz mesmo com tudo, pois sabia onde ela morava, onde estudava e o que fazia. Conhecia sua rotina. Só precisava saber seu nome. Charlie. Minha consciência sussurrava esse nome para mim ininterruptas vezes. Será que seria o nome dela? Mas como eu poderia saber? Deveria ser algo diferente disso. Como eu gostaria de dormir! Ao menos o tempo passaria sem que eu sentisse. Pela manhã desci e tomei um bom banho. Lavei meu cabelo, gostava de fazê-lo. Vesti-me com uma calça bege, uma camisa preta e sai caminhando devagar até a Cambright. Conhecia muito bem os horários e a rotina daquela escola na qual passei toda a minha vida letiva. Cheguei meia hora antes de o sinal bater, apoiei-me numa árvore e esperei-a. Fiquei testando meus ouvidos e percebi que poderia ouvir conversas a até mais ou menos cinco metros de distância. Estava empolgado com isso quando a vi se aproximar. Ela vinha conversando monotonamente com uma garota ruiva.
— Fale mais sobre o Brasil. Sempre quis conhecer o Rio de Janeiro. Ouço falar muito sobre as escolas de samba. Deve ser tão lindo.
— E é mesmo. Lá faz muito calor. Calor tipo 40° C. Convertendo deve dar uns 104° F
— Minha nossa. Eu morreria de calor.
— Mas lá tem muitas praias lotadas de gente. Tem muitos garotos bonitos também que vocês iriam adorar. Minha amiga tem um ficante que se chama Júlio e ele faz esse estilo surfistinha.
— O que é ficante?
— Ficante é como um namorado temporário. Eles não têm um compromisso sério e podem ficar, ou melhor, namorar temporariamente ao mesmo tempo com outras pessoas. É mais ou menos assim.
— E o que você falou sobre estilo surfistinha, comenta mais.
— Estilo surfistinha é quando o cara é bronzeado, surfa, usa óculos lupa, bermuda colorida, sandália, cabelo não muito grande como o do emo, coisas assim.
— Entendi e gostei. Eu adoraria conhecer o Rio.
— Isso porque você nunca viu Búzios. É uma cidade litorânea onde chovem garotos assim.
— Oh meu Deus preciso realmente ir para lá.
Elas riram e foram para dentro. É inacreditável. Ela é brasileira do Rio de Janeiro. Eu já fui ao Rio com meus pais assistir o desfile das escolas de samba. No primeiro dia na praia passei muito mal e fui para o hospital. O sol estava muito quente. Também pudera: sai do inverno inglês para o verão brasileiro, não sei como não morri.
Esperei até o fim das aulas. Ela saiu com a garota e se despediram novamente. Ela seguiu para o ponto de ônibus. Como eu já sabia o caminho da casa dela fui andando. A vi chegar. Caminhava devagar para casa como se o mundo pudesse esperar por ela. Estava triste, com o olhar longe, como acho que deveriam estar seus pensamentos. Entrou, então atravessei a rua para ver melhor sua janela. Ela jogou os livros em algum lugar e sumiu. Deve ter ido para a cozinha ou quarto, não sei. Esperei. Então ela apareceu rapidamente vestindo uma calça, uma blusa e um casaco. Estava linda, mas nunca me acostumaria com a beleza dela. Não que ela fosse uma super modelo, mas seus traços eram perfeitamente harmônicos e naturais, sua pele deslumbrante. Combinaria perfeitamente em contato com a minha. Ela desceu com alguns materiais na mão e andou até o café. Fiquei do outro lado observando enquanto ela estudava. Ela murmurava coisas enquanto lia. O que será que estudava? Qual sua matéria preferida. O que será que a interessava? Talvez eu nunca soubesse, apesar de desejar estar sempre ao lado dela. Não adiantaria ficar me martirizando com isso. Ainda estava cedo, não seria perigoso voltar a essa hora. Então dei as costas e saí.

Nana&Karol 

Nenhum comentário

Postar um comentário

Muito Obrigada pelo seu comentário!