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12 setembro, 2012

Capítulo 12


Passava das oito. Subi e peguei a minha melhor roupa. Se bem que não era boa, só era a minha melhor no momento. Calça preta e camisa azul marinho. Não. Usava uma roupa assim no dia que... deixa pra lá. Peguei uma camisa bege, um casaco preto e a calça preta mesmo. Desci correndo e tomei um banho demorado. Penteei meu cabelo cuidadosamente e prendi com um elástico. Vesti-me, tranquei o galpão e fui buscá-la. Não era dez ainda, mas ela estava pronta. Vestia um vestido preto com alças finas e detalhes florais, uma sandália de salto branca, cabelo solto, brincos discretos, maquiagem leve com olhos marcados e batom rosa que ressaltavam ainda mais seus lábios grossos. Para terminar usava um casaquinho branco.
— Você está excepcionalmente linda!
— Obrigada. Você também.
— Seu elogio me fez ganhar a noite. Está pronta para ir?
— Sim, claro. Estava só te esperando.
— Me atrasei?
— Não, imagina. Havia só uns minutos.
— Então vamos.
Seguimos a mesma rua e viramos à direita. Duas quadras a frente havia um café muito bom. Eu ia lá com a Verônica quando... Senti que deveria lembrar algo que não conseguia. Vi um flash muito rápido, como o do banheiro. Era a Verônica brigando com alguém que eu não conhecia. Ou não me recordava. Estavam naquele mesmo lugar de paredes e teto vermelho.
— Caine, o que aconteceu você está bem? – A Felicity me sacudia desesperadamente.
— Estou. Eu tive um flash de memória. Algo que eu havia esquecido, mas está tudo bem.
— Seus olhos estão...brancos! O que está acontecendo, Caine? – Ela parecia horrorizada me olhando. Pisquei duas vezes.
—  O que?
— Agora voltaram ao normal. Estão azuis. Você pode me explicar o que está acontecendo?
— Não está acontecendo nada. Já falei que foi apenas um flash de memória. Não está acontecendo nada, repito.
— Mas eu vi seus olhos mudarem de cor. Isso não acontece naturalmente. Você pode me explicar?
Não sabia o que fazer. Desde o dia em que...me alimentei isso não acontecia. Minha única saída era tentar convencê-la. Olhei-a fixamente e de maneira terna. Dei um meio sorriso e segurei seu braço com uma das mãos. Depois falei calmamente de forma clara e objetiva.
— Felicity, o que você viu não foi nada. Foi apenas um flash. Você se assustou comigo e pensou ter visto algo que realmente não poderia ter acontecido. Eu estou bem. Estamos bem, agora podemos ir?
Ela parecia paralisada ao meu toque. Ela nem sequer mexia seus olhos olhando para mim. Parecia longe, muito distante mesmo, como se estivesse num mundo onde minha voz fosse o único som a ser ouvido. Ela assentiu e eu a larguei. Imediatamente ela saiu do transe.
— Podemos ir agora?
— Claro que sim. Quando você desejar.
Seguimos caminhando normalmente e falando sobre coisas banais, como casais que passavam; lojas, coisas que víamos, como se nada tivesse acontecido. Ela não tocou mais nesse assunto.
Chegamos ao café e sentamo-nos numa mesa perto da janela: ela de frente para mim e eu de frente para a direção da porta.
— Quer pedir agora?
— Sim, pode ser. Quero um cappuccino e bolinhos com cobertura de açúcar refinado.
— Eu quero um café puro.
Só aí lembrei um detalhe que faria toda a diferença: não sabia se poderia ou não comer. Isso me fez chocar comigo mesmo. Porque não a levei para passear, ou para um programa menos “comestível”? Droga! Agora teria que me virar e descobrir no improviso.
— Fale mais de você.
— Falar o que? Não tenho muito a contar.
— Tenho certeza que sim. Agora começa.
— Bom, moro sozinha. Vai fazer um ano mês que vem. Estou conseguindo me virar muito bem sem meus pais. Tenho dezenove anos e faço faculdade de economia.
— Mas e o seu trabalho?
— Eu trabalho todos os horários que não tenho aula. Às vezes pela manhã, mas não frequentemente. Ganho por hora trabalhada por isso meu chefe quase me matou aquele dia.
— Bom. Você mora sozinha ou divide com alguém?
— Divido com uma amiga da faculdade. E você. Onde mora?
— Num galpão.
— Estou falando sério.
— Eu também. Mudei-me há pouco tempo.
— Ok, se você não quiser falar eu entendo. – Ela ficou desapontada. Mas eu estava falando a verdade.
— Eu estou falando sério, mas se você não quiser acreditar eu entendo. – Rimos juntos e os pedidos chegaram. Ela continuou falando sobre a faculdade e os projetos dela, mas eu só conseguia focar em como beberia aquele café. Coloquei um gole da boca e engoli. Tinha um gosto... péssimo. Não era o café, pois sempre o tomei aqui mesmo. Era eu que não sentia gosto de café, apenas de uma coisa muito, muito ruim. Forcei-me a engolir e fiz cara de nojo.
— O que foi o café está ruim?
— Não, só está muito quente. Queimei a língua. Mas estou bem.
— Ok então. Continuando...
Ela estava empolgada comigo ali. E eu com ela. Ela falava e eu buscava evadir-me das perguntas dela sobre mim, o que a fazia desapontar. Foi quando tentava ouvir tudo que ela falava que a vi. Ela entrou graciosamente pela porta e sorriu olhando o lugar. Seu sorriso era deslumbrante, seus olhos verde-escuros, redondos e expressivos denotavam alegria. Ela era deslumbrante. Usava um vestido roxo na metade da coxa, uma bota preta de salto fino até o joelho e um casaco bege. Seu nariz reto e boca volumosa completavam sua face angelical. Seu cabelo estava preso em uma trança francesa que lhe caia pelo colo e ia até pouco abaixo do esterno. A maquiagem era leve e sua boca brilhava. Quando ela me viu sobressaltei-me: parecia que minha alma estava exposta para que ela lesse detalhada e indiscretamente. Devia estar paralisado, pois ela olhou-me confusa. Eu precisava dela ao meu lado. Eu a queria para mim.
— Caine é a segunda vez que eu falo e você não me dá atenção. – Na verdade era a terceira, mas tudo bem. – O que está havendo? Se você não estiver bem podemos ir. – Jamais. Eu não correria o risco de perdê-la de vista nem por um segundo. Desviei o olhar daquela estranha perfeita e olhei para Felicity.
— Não é necessário. Olha Felicity, peço perdão por estar tão distante. Realmente eu queria fazer dessa noite muito agradável, mas estou com alguns problemas. Perdoe-me, por favor.
— Claro que sim Caine. Todo mundo tem problemas. Olha. Eu já terminei. Realmente quero que você fique bem então vou embora.
— Você não precisa ir. Eu estou bem vou melhorar, Charlie. Desculpa Felicity.
— Quem é Charlie?
— Não sei. Não conheço ninguém com esse nome. Veio-me à cabeça e falei sem querer. Desculpa. Mas você não precisa ir. Vou ficar bem.
— Não tudo bem, já tinha terminado mesmo e você precisa pensar. – Eu me levantei para acompanhá-la, pois era o mínimo que podia fazer depois dessa noite desastrosa. – Não precisa me acompanhar. Estou perto de casa.
— Claro que vou te acompanhar. É perigoso lá fora.
— Eu sei bem como é, mas não precisa se preocupar. Vou chegar bem.
— Tem certeza? Absoluta certeza?
— Claro. Já disse que não precisa se preocupar. Até... outro dia.
— Até. Fica bem e novamente desculpe pelo que aconteceu hoje. Foi uma série incontrolável de erros que...
— Tudo bem. Nem sempre estamos nos nossos melhores dias. Bom, tchau.
— Tchau.
Dei-lhe um abraço e um beijo no rosto, mas não desviei os olhos da mesa na qual a garota se sentou. Ela me olhava fixamente então procurei me afastar da Felicity. Levei-a até a porta e voltei. Percebi que a garota me seguiu com o olhar. Senti o olhar profundo dela nas minhas costas. Ao passar senti um cheiro alucinante, doce, rico. Muito bom. Não era nada que vendesse no café. Era sangue. Puro. Sentei no mesmo lugar que ficava de frente para ela, fixei meu olhar em seu rosto calmante e procurei me controlar para pensar sobre o que me aconteceu. Eu tive uma visão nova que poderia ser alguma pista sobre a minha transformação, fiz com que a Felicity esquecesse o momento em que meus olhos mudaram o que, aliás, ainda não sei explicar, não consegui beber o café, mas isso era menor dos meus problemas para o qual eu já tinha uma explicação e para finalizar senti um turbilhão de emoções que nunca havia sentido só em olhar para aquela garota que continuava me encarando. Ela era perfeita. Concentrei-me novamente. Perdi o foco. Era impossível me concentrar em qualquer coisa quando aqueles olhos estavam fixos em mim. Ela se movia graciosamente. Parecia ter um ritmo próprio de fazer as coisas. Ela levantava seu copo delicadamente, piscava com elegância, agia como uma princesa. Senti que a conhecia, senti... não sei. Algo novo, diferente e muito, muito intenso. O garçom trouxe a conta, paguei e continuei lá observando cada milímetro de pele que ela mexia. Ela me encarava como se não houvesse problema algum. Na verdade não havia, mas eu poderia ser um maníaco. E se a seguisse? E se fizesse algo contra ela? Mas não. Meu corpo gritava que eu nunca deveria agir contra ela de nenhuma forma possível. E por isso mesmo eu deveria me afastar. Estava começando a sentir sede, a salivar. Não poderia continuar ali naquele jogo. Ela não era uma peça de xadrez que poderia ser posta para ser destruída. Não. Ela era intocável e perfeita e eu era a última pessoa que deveria se aproximar dela. Senti raiva de mim naquela hora, por não saber nada sobre minha vida. Nada mais que importasse. Senti-me impotente diante dela, diante do mundo. Senti uma fúria imensa crescer dentro de mim e me culpei por ser tão... fraco. Saí de lá apressado e irado. Ela percebeu, pois seu último olhar para mim foi de descrença. Nunca mais a veria então era melhor guardar bem aquele rosto lindo em meu pensamento, pois seria a única coisa que eu teria dela.

Nana&Karol

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