Passava das
oito. Subi e peguei a minha melhor roupa. Se bem que não era boa, só era a
minha melhor no momento. Calça preta e camisa azul marinho. Não. Usava uma
roupa assim no dia que... deixa pra lá. Peguei uma camisa bege, um casaco preto
e a calça preta mesmo. Desci correndo e tomei um banho demorado. Penteei meu
cabelo cuidadosamente e prendi com um elástico. Vesti-me, tranquei o galpão e
fui buscá-la. Não era dez ainda, mas ela estava pronta. Vestia um vestido preto
com alças finas e detalhes florais, uma sandália de salto branca, cabelo solto,
brincos discretos, maquiagem leve com olhos marcados e batom rosa que
ressaltavam ainda mais seus lábios grossos. Para terminar usava um casaquinho
branco.
— Você está
excepcionalmente linda!
— Obrigada.
Você também.
— Seu elogio
me fez ganhar a noite. Está pronta para ir?
— Sim, claro.
Estava só te esperando.
— Me atrasei?
— Não,
imagina. Havia só uns minutos.
— Então vamos.
Seguimos a
mesma rua e viramos à direita. Duas quadras a frente havia um café muito bom.
Eu ia lá com a Verônica quando... Senti que deveria lembrar algo que não
conseguia. Vi um flash muito rápido, como o do banheiro. Era a Verônica
brigando com alguém que eu não conhecia. Ou não me recordava. Estavam naquele
mesmo lugar de paredes e teto vermelho.
— Caine, o que
aconteceu você está bem? – A Felicity me sacudia desesperadamente.
— Estou. Eu
tive um flash de memória. Algo que eu havia esquecido, mas está tudo bem.
— Seus olhos
estão...brancos! O que está acontecendo, Caine? – Ela parecia horrorizada me
olhando. Pisquei duas vezes.
— O que?
— Agora
voltaram ao normal. Estão azuis. Você pode me explicar o que está acontecendo?
— Não está
acontecendo nada. Já falei que foi apenas um flash de memória. Não está
acontecendo nada, repito.
— Mas eu vi
seus olhos mudarem de cor. Isso não acontece naturalmente. Você pode me
explicar?
Não sabia o
que fazer. Desde o dia em que...me alimentei isso não acontecia. Minha única
saída era tentar convencê-la. Olhei-a fixamente e de maneira terna. Dei um meio
sorriso e segurei seu braço com uma das mãos. Depois falei calmamente de forma
clara e objetiva.
— Felicity, o
que você viu não foi nada. Foi apenas um flash. Você se assustou comigo e
pensou ter visto algo que realmente não poderia ter acontecido. Eu estou bem.
Estamos bem, agora podemos ir?
Ela parecia
paralisada ao meu toque. Ela nem sequer mexia seus olhos olhando para mim.
Parecia longe, muito distante mesmo, como se estivesse num mundo onde minha voz
fosse o único som a ser ouvido. Ela assentiu e eu a larguei. Imediatamente ela
saiu do transe.
— Podemos ir
agora?
— Claro que
sim. Quando você desejar.
Seguimos
caminhando normalmente e falando sobre coisas banais, como casais que passavam;
lojas, coisas que víamos, como se nada tivesse acontecido. Ela não tocou mais
nesse assunto.
Chegamos ao
café e sentamo-nos numa mesa perto da janela: ela de frente para mim e eu de
frente para a direção da porta.
— Quer pedir
agora?
— Sim, pode
ser. Quero um cappuccino e bolinhos com cobertura de açúcar refinado.
— Eu quero um
café puro.
Só aí lembrei
um detalhe que faria toda a diferença: não sabia se poderia ou não comer. Isso
me fez chocar comigo mesmo. Porque não a levei para passear, ou para um
programa menos “comestível”? Droga! Agora teria que me virar e descobrir no
improviso.
— Fale mais de
você.
— Falar o que?
Não tenho muito a contar.
— Tenho
certeza que sim. Agora começa.
— Bom, moro
sozinha. Vai fazer um ano mês que vem. Estou conseguindo me virar muito bem sem
meus pais. Tenho dezenove anos e faço faculdade de economia.
— Mas e o seu
trabalho?
— Eu trabalho
todos os horários que não tenho aula. Às vezes pela manhã, mas não
frequentemente. Ganho por hora trabalhada por isso meu chefe quase me matou
aquele dia.
— Bom. Você
mora sozinha ou divide com alguém?
— Divido com
uma amiga da faculdade. E você. Onde mora?
— Num galpão.
— Estou
falando sério.
— Eu também.
Mudei-me há pouco tempo.
— Ok, se você
não quiser falar eu entendo. – Ela ficou desapontada. Mas eu estava falando a
verdade.
— Eu estou
falando sério, mas se você não quiser acreditar eu entendo. – Rimos juntos e os
pedidos chegaram. Ela continuou falando sobre a faculdade e os projetos dela,
mas eu só conseguia focar em como beberia aquele café. Coloquei um gole da boca
e engoli. Tinha um gosto... péssimo. Não era o café, pois sempre o tomei aqui
mesmo. Era eu que não sentia gosto de café, apenas de uma coisa muito, muito
ruim. Forcei-me a engolir e fiz cara de nojo.
— O que foi o
café está ruim?
— Não, só está
muito quente. Queimei a língua. Mas estou bem.
— Ok então.
Continuando...
Ela estava
empolgada comigo ali. E eu com ela. Ela falava e eu buscava evadir-me das
perguntas dela sobre mim, o que a fazia desapontar. Foi quando tentava ouvir
tudo que ela falava que a vi. Ela entrou graciosamente pela porta e sorriu
olhando o lugar. Seu sorriso era deslumbrante, seus olhos verde-escuros,
redondos e expressivos denotavam alegria. Ela era deslumbrante. Usava um
vestido roxo na metade da coxa, uma bota preta de salto fino até o joelho e um
casaco bege. Seu nariz reto e boca volumosa completavam sua face angelical. Seu
cabelo estava preso em uma trança francesa que lhe caia pelo colo e ia até
pouco abaixo do esterno. A maquiagem era leve e sua boca brilhava. Quando ela
me viu sobressaltei-me: parecia que minha alma estava exposta para que ela
lesse detalhada e indiscretamente. Devia estar paralisado, pois ela olhou-me
confusa. Eu precisava dela ao meu lado. Eu a queria para mim.
— Caine é a
segunda vez que eu falo e você não me dá atenção. – Na verdade era a terceira,
mas tudo bem. – O que está havendo? Se você não estiver bem podemos ir. –
Jamais. Eu não correria o risco de perdê-la de vista nem por um segundo.
Desviei o olhar daquela estranha perfeita e olhei para Felicity.
— Não é necessário.
Olha Felicity, peço perdão por estar tão distante. Realmente eu queria fazer
dessa noite muito agradável, mas estou com alguns problemas. Perdoe-me, por
favor.
— Claro que
sim Caine. Todo mundo tem problemas. Olha. Eu já terminei. Realmente quero que
você fique bem então vou embora.
— Você não
precisa ir. Eu estou bem vou melhorar, Charlie. Desculpa Felicity.
— Quem é
Charlie?
— Não sei. Não
conheço ninguém com esse nome. Veio-me à cabeça e falei sem querer. Desculpa.
Mas você não precisa ir. Vou ficar bem.
— Não tudo
bem, já tinha terminado mesmo e você precisa pensar. – Eu me levantei para acompanhá-la,
pois era o mínimo que podia fazer depois dessa noite desastrosa. – Não precisa
me acompanhar. Estou perto de casa.
— Claro que
vou te acompanhar. É perigoso lá fora.
— Eu sei bem
como é, mas não precisa se preocupar. Vou chegar bem.
— Tem certeza?
Absoluta certeza?
— Claro. Já
disse que não precisa se preocupar. Até... outro dia.
— Até. Fica
bem e novamente desculpe pelo que aconteceu hoje. Foi uma série incontrolável
de erros que...
— Tudo bem.
Nem sempre estamos nos nossos melhores dias. Bom, tchau.
— Tchau.
Dei-lhe um
abraço e um beijo no rosto, mas não desviei os olhos da mesa na qual a garota
se sentou. Ela me olhava fixamente então procurei me afastar da Felicity.
Levei-a até a porta e voltei. Percebi que a garota me seguiu com o olhar. Senti
o olhar profundo dela nas minhas costas. Ao passar senti um cheiro alucinante,
doce, rico. Muito bom. Não era nada que vendesse no café. Era sangue. Puro.
Sentei no mesmo lugar que ficava de frente para ela, fixei meu olhar em seu
rosto calmante e procurei me controlar para pensar sobre o que me aconteceu. Eu
tive uma visão nova que poderia ser alguma pista sobre a minha transformação,
fiz com que a Felicity esquecesse o momento em que meus olhos mudaram o que,
aliás, ainda não sei explicar, não consegui beber o café, mas isso era menor
dos meus problemas para o qual eu já tinha uma explicação e para finalizar
senti um turbilhão de emoções que nunca havia sentido só em olhar para aquela
garota que continuava me encarando. Ela era perfeita. Concentrei-me novamente.
Perdi o foco. Era impossível me concentrar em qualquer coisa quando aqueles
olhos estavam fixos em mim. Ela se movia graciosamente. Parecia ter um ritmo
próprio de fazer as coisas. Ela levantava seu copo delicadamente, piscava com
elegância, agia como uma princesa. Senti que a conhecia, senti... não sei. Algo
novo, diferente e muito, muito intenso. O garçom trouxe a conta, paguei e
continuei lá observando cada milímetro de pele que ela mexia. Ela me encarava
como se não houvesse problema algum. Na verdade não havia, mas eu poderia ser
um maníaco. E se a seguisse? E se fizesse algo contra ela? Mas não. Meu corpo
gritava que eu nunca deveria agir contra ela de nenhuma forma possível.
E por isso mesmo eu deveria me afastar. Estava começando a sentir sede, a
salivar. Não poderia continuar ali naquele jogo. Ela não era uma peça de xadrez
que poderia ser posta para ser destruída. Não. Ela era intocável e perfeita e
eu era a última pessoa que deveria se aproximar dela. Senti raiva de mim
naquela hora, por não saber nada sobre minha vida. Nada mais que importasse.
Senti-me impotente diante dela, diante do mundo. Senti uma fúria imensa crescer
dentro de mim e me culpei por ser tão... fraco. Saí de lá apressado e irado.
Ela percebeu, pois seu último olhar para mim foi de descrença. Nunca mais a
veria então era melhor guardar bem aquele rosto lindo em meu pensamento, pois
seria a única coisa que eu teria dela.
Nana&Karol
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