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12 setembro, 2012

Capítulo 11


Vesti um vestido roxo com um casaquinho bege e uma bota preta até o joelho. Fiz uma trança francesa e me maquiei levemente. Estava com um sentimento estranho de que algo aconteceria. Não sei se era empolgação por ter encontrado conhecidos e uma nova amiga aqui ou se era realmente uma premonição. Eu nunca acreditei em premonições nem nada. Não devia ser isso. Um sexto sentido talvez, um desejo, um anseio. Sei lá. Deve ser assim que a gente se sente num novo lugar. Eu estava me sentindo assim então tudo bem.
Desci as pressas e corri para o café. Quando entrei olhei tudo e sorri. Virei-me para ir me sentar no lugar de sempre e foi quando o vi. Era ele não era? Trapinho? Era sim. Aquele cabelo nunca me enganaria. Era ele sim. Fui caminhando automaticamente me sentei atônita. Fiquei olhando-o e ele me encarava também. Estava acompanhado. Devia ser uma namorada. Nossa ele era muito lindo. As meninas morreriam quando eu contasse como ele é perfeito. Olhos azuis profundos, alto porque a garota mesmo sentada era bem menor que ele. O cabelo preto que tanto me chamou atenção era mais lindo ainda na luz. Ficava meio azulado, sei lá. Que olhos. Seu nariz era perfeitamente reto, seus lábios eram médios. Na medida. Contrastaria com os meus volumosos. Ele tinha lindas mãos. Estava segurando um copo de café. A garota falava sem parar e ele nem estava aí. Estava me olhando. Encarando-me. Eu quis sair daqui correndo e abraçá-lo. Não que eu fosse uma garota qualquer que se atira nos braços de qualquer um. Mas ele me pareceu especial. Poderia estar totalmente enganada e quebrar minha cara, mas ele nunca me faria mal. Senti isso quando seus olhos me fitaram de uma forma carinhosa. Senti que por ele poderia me apaixonar. Nunca havia sentido algo assim tão forte, explosivo, envolvente. Foi um choque para mim estar envolta em tantas emoções ao mesmo tempo. Eu pedi automaticamente o de sempre e comecei a comer de forma robótica. Ele me olhava e num momento virou-se para garota. Senti-me traída apesar de nem saber quem eles eram. Eles poderiam ser casados e ter cinco filhos. Eu nem poderia estar olhando-o dessa forma. Será que estava enlouquecendo? Pensei tantas coisas sem nexo. Pensei em tudo que cabia na minha mente naquele momento. Imaginei-me com ele para sempre. Eu precisava saber quem ele era. Todos sentem necessidade de um sentido para viver. Finalmente havia encontrado o meu. Ele falou com a garota, mas não tirava os olhos de mim. Ela pareceu chateada, levantou-se e ele lhe deu um abraço e um beijo no rosto. Afastou-se rapidamente, ainda me olhando e saiu com ela. Fiquei muito desapontada. Queria correr atrás dele. Segui-lo sei lá. Quando ia me levantar ele voltou. Sentei-me mais que rápido e continuei olhando-o. Tentei fazer minha cara mais controlada, mas desviar daquele roso perfeito era impossível para mim. Ele continuou me olhando com cara de raiva, parecia que tinha brigado com a garota e estava pondo a culpa em mim. Não entendi nada. Ele foi ficando com o olhar cada vez mais desapontado e contrariado. Fiquei assustada e desapontada talvez na mesma intensidade que ele quando ele se levantou e saiu quase voando pela porta. Senti que se não fizesse algo nunca mais o veria. Ele desapareceria e não voltaria mais para mim. Precisava me apressar se não perderia minha chance de felicidade. O que estava me acontecendo? Deixei o dinheiro em cima da mesa e saí correndo atrás dele. O cara andava rápido demais e quase não pude alcançá-lo. Ele andou bastante e entrou num bar. Quis entrar, mas não me deixaram. Eu era menor de idade. Droga. Droga. Droga ao cubo. Sai daí logo, preciso te ver. Encostei-me do outro lado da rua. Já passava das 10. Era perigoso estar aqui a essa hora. Era um bar de quinta com gente de sexta. Precisava ir para minha segurança, mas sentia que se fizesse isso estaria deixando-o ir e certamente não me perdoaria por isso. Ouvi um barulho mais alto que o do som. Pessoas gritavam e ele saiu arrastando um cara muito maior que ele.
— Qual é cara para com isso. Para que brigar?
— O que você tem haver com isso seu idiota filho de uma vaca?
— Olha sem ofensas, te fiz um favor tirando você de lá. Agora cala sua boca e dá o fora daqui.
— Como é? Acho que não ouvi bem. Você está me mandando fazer algo? Garotos imbecis como você não me mandam fazer nada, seu moleque.
— Não me insulta. Sabe de uma faz o que quiser da sua vidinha imunda.
— Ninguém me ofende e vira as costas para mim garoto.
Antes que pudesse ficar feliz por vê-lo novamente ou deliciar-me com aquela voz embriagante o cara voou para cima dele. Eles brigaram feio por alguns minutos, mas o meu estranho fez algo que me chocou. Ele jogou o cara contra a parede e o mordeu. Não foi uma mordida tipo “eu vou te morder e você vai parar com isso”. Ele o mordeu de verdade. Ele estava bebendo sangue? Não pude acreditar. Quem bebe sangue é vampiro e vampiros não existem fora do cinema e dos livros. Tive ímpeto de correr, de gritar, de pedir para ele parar, de chorar, de morrer. Qualquer coisa que me tirasse dali. Escolhi a que menos me ajudou. Ele derrubou o homem no chão atrás das lixeiras e virou-se na minha direção. Ele me viu e sua expressão era de surpresa, choque, dor, desculpa, pesar, sofrimento, exatamente nessa ordem. Vi seus olhos olharem minha alma e senti-me protegida, mas não poderia. Ele matou um cara, bebeu seu sangue, escondeu-o no lixo. O que seria capaz de fazer comigo? Senti-me triste. De tudo que eu poderia sentir senti tristeza e comecei a chorar. Ele quase desabou no chão. Seus olhos gritavam me pedindo desculpa. Nesse momento tudo que eu poderia fazer era correr e me esconder. Esconder-me de mim, dele, do mundo. Queria desaparecer e nunca mais voltar.
Cheguei em casa vacilante. Tirei as roupas e fiquei sentada na banheira chorando enquanto a água caia sobre mim. Fiquei assim até o sol começar a nascer e me avisar que outro dia estava começando. Saí da banheira, vesti um roupão e me arrastei até cama. Deitei e chorei novamente. Não sei de onde vieram tantas lágrimas, mas vieram e não as detive. Deixei que elas corressem e levassem embora toda a dor que estava pressionando meu coração.

Nana&Karol

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