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12 setembro, 2012

Capítulo 10


Acordei cedo, terminei de arrumar minhas roupas no armário e ajeitar umas coisas na casa como porta retratos e fotos para que minha família ficasse sempre perto de mim, mandei um e-mail para as garotas e contei tudo detalhadamente: a viagem, o passeio, o café e, lógico, do cara que eu vi. Enquanto me arrumava recebi um e-mail resposta e quando abri quase morri de rir.

“Gente, o que é isso! Eu não acredito que com tanto gato em Londres você se sentiu atraída por um mendigo...”

— Qual é ele não era um mendigo, eu acho.

“...Nossa, o que será que aconteceu pra ele estar desse jeito? Deu pra ver o rosto dele? Era gatinho? Porque ninguém merece além de sujo feio não é? Só era o que faltava. Cuidado pra não ficar rodada como o “vestido da Glorinha”. Um mendigo não néh! E ai quando começam as aulas? Já conheceu alguém além de trapinho? A escola é legal? Responda o mais rápido possível. Qual é o signo de trapinho?
Qual é Julie você é louca? Ela nem deve ter visto o cara como ia saber o signo? Você acha que ela ia chegar e dizer ‘Oi mendigo qual é o seu signo? E a propósito seu nome também’. Claro que não sua louca.
Ei vocês não acham que vão enlouquecer a Char com esse e-mail não? Envia logo...
PS.: aaaaaaaa, quase esqueci. Rolou fight na escola. A Alícia traiu o Pietro com aquele carinha que você ficou na festa.
Qual era o nome dele? Você acha que eu me lembro? Sei lá, você conhece todos os caras da escola. Eu acho que nem a Char lembra quanto mais eu.
PS2.: Te amamos.  ”

E esse era o e-mail. Eu ri por mais uns cinco minutos e saí. Fui para a escola. Eu iria estudar na Cambright High School. Foi muito bem recomendada aos meus pais por uns amigos deles que moravam aqui. Aliás, eu teria que visitá-los como forma de agradecimento. Chequei minha matrícula, peguei meu horário e conheci a escola e suas dependências. Era enorme. Tinha vários blocos. Andei pelos corredores acompanhada da coordenadora e conheci tudo: as salas, a quadra, a piscina, o vestiário, a sala do grêmio e o refeitório.
— Aqui será uma de suas salas. À medida que formos caminhando você verá as outras.
— Obrigada. O que é aquilo ali?
— Aquilo é o memorial. Uma sala destinada às homenagens. Lá estão os troféus, as medalhas das competições e todos os outros títulos conquistados pelos nossos alunos. Tem fotos das turmas desde que a escola foi fundada, dos professores e dos alunos destaque. Há também fotos de alguns alunos que morreram.
— Sinto muito.
— Tudo bem querida. Aquele é um local parecido com um museu interno, onde recordamos o passado da escola.
— Isso é muito interessante.
— Na sua antiga escola tinha algo parecido?
— Não. Nem perto disso.
— Tudo bem. Vamos continuar?
— Sim claro.
Continuamos andando pela escola e conheci a biblioteca gigantesca, os banheiros, a sala dos professores, a sala da direção, a secretaria interna e fui até ao anexo onde ficava o bloco infantil. Tinha uma professora lá que estava preparando umas coisas na sala que ela lecionava. Colava figuras e números nas paredes e pendurava penduricalhos pelo teto.
— Olá professora Lorenna. O que a senhora faz aqui. Deveria estar aproveitando o resto das suas férias.
— Eu sei Sra. McAvoy. Mas a senhora deve saber bem que agora ficar em casa para mim é um martírio. Preciso de algo que me faça esquecer o que aconteceu nem que seja por umas horas.
— Tudo bem Lorenna. Fique a vontade. A propósito, essa é nossa nova aluna Charlotte Marie Camarillo. Ela é brasileira, do Rio de Janeiro e acabou de se mudar para cá.
— Seja bem vinda Charlotte. Eu passei minhas férias no Rio de Janeiro ano passado. Meu filho até passou mal com o calor.
Ela sorriu e nós também. Percebi que a Sr. McAvoy ficou sem graça.
— Tudo bem, agora vamos deixar a Lorenna terminar seus trabalhos em paz e continuar nosso tour, não é Srta. Camarillo?
— Claro Sr. McAvoy.
Continuamos o passeio por mais alguns minutos até que ela me revelou algo que me deixou muito triste. Não sei por que, mas senti parte da dor da Lorenna.
— A senhora Ventrue acabou de perder o filho num acidente de carro. Foi horrível, muito repentino. Então ela passa horas a fio aqui trabalhando para tentar esquecer por alguns momentos o que aconteceu.
— Oh eu sinto muitíssimo. De verdade. Senti como se a conhecesse e sentisse sua dor.
— Você é uma boa garota Charlotte.
Depois do tour comprei meu fardamento: blusa branca manga três quartos, saia no joelho, meia até o joelho, sapato Mary Jane, um verdadeiro horror. Com certeza daria um jeito naquela saia depois.
Já era de tarde então fui naquele café e comi bolo e suco. Doces também. Teria que passar na casa dos amigos da minha família ainda. Peguei o ônibus que a moça do café me indicou e fui até Notting Hill. Achei com muita dificuldade o endereço do casal.
— Olá Charlotte, como foi a viagem?
— Foi muito boa. Passei para agradecer pela indicação.
A casa deles era extraordinária. Pequena, cômoda, mas muito bem decorada. Tinha uma lareira maior que o sofá. Era a única coisa grande na casa. Tudo era pequenininho, arrumadinho, parecia a casa dos hobbits de Senhor dos Anéis. Tinha florezinhas em vasos espalhados, cactozinhos também. As toalhas da sala de jantar, do centro, da mesinha de telefone e as mantas que cobriam o sofá eram bordadas e rendadas com os mesmos desenhos com as mesmas cores. Parecia uma casa de bonecas.
— O Daniel saiu com os amigos. Deve estar chegando. Tome um chá conosco enquanto espera.
— Tudo bem.
Era um casal de meia idade. Ele tinha um cabelo grisalho tipo George Clooney. Ela tinha um cabelo tipo Meryl Streep. Tinham olhos vivos, redondos e podiam se passar por irmãos. Logo que começamos a tomar o chá Daniel chegou. Ele era totalmente lindo. Tinha olhos pretos, redondos como os dos pais. Usava uma calça jeans e uma camisa com um casaco preto por cima. Ainda bem que eu estava bem vestida. O cabelo dele era curto, não tanto, mas era legal.
— Você deve ser a Charlotte não é?
— Isso mesmo. Prazer.
— Prazer.
Ele me deu um abraço e eu quase morri com isso. O perfume dele era excepcional. Muito bom. Quando consegui largá-lo conversamos mais.
— Você vai estudar na Cambright não é?
— Isso mesmo. Vou começar segunda e você estuda?
— Sim, mas não na escola. Faço faculdade de Economia.
— Legal. Pretendo fazer para Geologia.
— Muito bom. Você quer voltar para o Brasil?
— Sim, para trabalhar. Não antes de me formar.
— Muito bom.
Nós conversamos mais e estava ficando tarde. Já passava das cinco então tinha que ir.
— Preciso ir agora. O caminho é longo e vou de ônibus.
— Nada disso, faço questão de te levar.
— Imagina. Não quero dar tanto trabalho.
— Não faz isso. Vamos logo.
Despedi-me deles e desci. O carro do Daniel era um Panamera cobre escuro. Ele perguntou onde era minha casa e me levou muito rápido. Não tanto pela velocidade, mas por conhecer o lugar muito melhor que eu.
— Com quantos anos você veio para cá.
— Aos 15. Hoje tenho 21.
— Uau, não parece.
— E você tem quantos anos?
— 17.
— Uau. Não parece. Achava que você tinha no mínimo 18.
— Me senti bem velha agora
— Imagina. Você é muito linda e jovem. Só falei porque você parece bem madura. Não velha.
— Tudo bem. Chegamos. É naquele prédio ali. Obrigada pela carona. Foi muito legal da sua parte me trazer em casa.
— Foi muito legal passar esse tempo com você.
Ele me deu um beijo no rosto e eu saí acanhada. Entrei correndo e fui até a janela. Ele estava lá, então eu acenei e ele piscou os faróis. Tomei um bom banho e fui dormir. O meu dia foi cansativo e eu precisava de um descanso.

***
No outro dia acordei bem disposta, vesti um short jeans com meia calça preta e blusa azul. Calçava uma bota sem salto. Desci devagar e fui dar uma volta. Falei com alguns vizinhos para me socializar. Conheci mais pontos turísticos e passeei por parques e praças. Tomei um lanche e tirei milhares de fotos.
Na praça havia uma garota falando ao telefone. Tinha olhos castanhos, era meio gordinha, usava um óculos muito divertido e seu cabelo ruivo bem comprido preso num rabo de cavalo. Usava um vestido lilás até a metade da coxa com meias três quartos brancas e sapatilha e falava de como estava ansiosa para começar logo na Cambright. Eu parei perto dela e assim que ela desligou pulei na sua frente empolgada.
— Você vai estudar na Cambright?
— Oh que susto você me deu agora! Sim eu vou estudar lá por quê?
— Desculpe-me pelo susto. Eu sou brasileira e irei começar lá também.
— Que legal! Como você veio parar aqui? Por intercâmbio?
— Não. Meus pais decidiram que seria melhor eu vir depois que eu pedi muito a eles para sair do país.
— Que legal! Que ano você vai cursar?
— O último.
— Eu também! Muito divertido assim nós estudaremos juntas ao menos em algumas aulas.
— Você não me disse seu nome.
— Você nem me deu chance. Meu nome é Carly. Carly Johnson
—  O meu é Charlotte Camarillo. Charlotte Marie Camarillo.
—  Prazer. Você já conhece a cidade?
— Um pouco. Bem pouco na verdade. É sem graça passear sozinha. Você quer me acompanhar?
— Claro será muito divertido mesmo.
Passeamos e conversamos sobre nossas vidas. Ela mora com os pais e com duas irmãs mais novas. Eu falei da minha família e das meninas. Caminhamos mais um pouco e ela pegou o ônibus para ir pra casa. Fui para casa trocar de roupa. Queria comer e o melhor lugar era o café.

Nana&Karol 

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