Acordei cedo,
terminei de arrumar minhas roupas no armário e ajeitar umas coisas na casa como
porta retratos e fotos para que minha família ficasse sempre perto de mim,
mandei um e-mail para as garotas e contei tudo detalhadamente: a viagem, o
passeio, o café e, lógico, do cara que eu vi. Enquanto me arrumava recebi um
e-mail resposta e quando abri quase morri de rir.
“Gente,
o que é isso! Eu não acredito que com tanto gato em Londres você se sentiu
atraída por um mendigo...”
— Qual é ele
não era um mendigo, eu acho.
“...Nossa,
o que será que aconteceu pra ele estar desse jeito? Deu pra ver o rosto dele?
Era gatinho? Porque ninguém merece além de sujo feio não é? Só era o que
faltava. Cuidado pra não ficar rodada como o “vestido da Glorinha”. Um mendigo
não néh! E ai quando começam as aulas? Já conheceu alguém além de trapinho? A
escola é legal? Responda o mais rápido possível. Qual é o signo de trapinho?
Qual
é Julie você é louca? Ela nem deve ter visto o cara como ia saber o signo? Você
acha que ela ia chegar e dizer ‘Oi mendigo qual é o seu signo? E a propósito seu
nome também’. Claro que não sua louca.
Ei
vocês não acham que vão enlouquecer a Char com esse e-mail não? Envia logo...
PS.:
aaaaaaaa, quase esqueci. Rolou fight na escola. A Alícia traiu o Pietro com
aquele carinha que você ficou na festa.
Qual
era o nome dele? Você acha que eu me lembro? Sei lá, você conhece todos os
caras da escola. Eu acho que nem a Char lembra quanto mais eu.
PS2.:
Te amamos. ”
E esse era o
e-mail. Eu ri por mais uns cinco minutos e saí. Fui para a escola. Eu iria
estudar na Cambright High School. Foi muito bem recomendada aos meus pais por
uns amigos deles que moravam aqui. Aliás, eu teria que visitá-los como forma de
agradecimento. Chequei minha matrícula, peguei meu horário e conheci a escola e
suas dependências. Era enorme. Tinha vários blocos. Andei pelos corredores
acompanhada da coordenadora e conheci tudo: as salas, a quadra, a piscina, o
vestiário, a sala do grêmio e o refeitório.
— Aqui será
uma de suas salas. À medida que formos caminhando você verá as outras.
— Obrigada. O
que é aquilo ali?
— Aquilo é o
memorial. Uma sala destinada às homenagens. Lá estão os troféus, as medalhas
das competições e todos os outros títulos conquistados pelos nossos alunos. Tem
fotos das turmas desde que a escola foi fundada, dos professores e dos alunos
destaque. Há também fotos de alguns alunos que morreram.
— Sinto muito.
— Tudo bem
querida. Aquele é um local parecido com um museu interno, onde recordamos o
passado da escola.
— Isso é muito
interessante.
— Na sua
antiga escola tinha algo parecido?
— Não. Nem
perto disso.
— Tudo bem.
Vamos continuar?
— Sim claro.
Continuamos
andando pela escola e conheci a biblioteca gigantesca, os banheiros, a sala dos
professores, a sala da direção, a secretaria interna e fui até ao anexo onde
ficava o bloco infantil. Tinha uma professora lá que estava preparando umas
coisas na sala que ela lecionava. Colava figuras e números nas paredes e
pendurava penduricalhos pelo teto.
— Olá
professora Lorenna. O que a senhora faz aqui. Deveria estar aproveitando o resto
das suas férias.
— Eu sei Sra.
McAvoy. Mas a senhora deve saber bem que agora ficar em casa para mim é um
martírio. Preciso de algo que me faça esquecer o que aconteceu nem que seja por
umas horas.
— Tudo bem
Lorenna. Fique a vontade. A propósito, essa é nossa nova aluna Charlotte Marie
Camarillo. Ela é brasileira, do Rio de Janeiro e acabou de se mudar para cá.
— Seja bem
vinda Charlotte. Eu passei minhas férias no Rio de Janeiro ano passado. Meu
filho até passou mal com o calor.
Ela sorriu e
nós também. Percebi que a Sr. McAvoy ficou sem graça.
— Tudo bem,
agora vamos deixar a Lorenna terminar seus trabalhos em paz e continuar nosso
tour, não é Srta. Camarillo?
— Claro Sr.
McAvoy.
Continuamos o
passeio por mais alguns minutos até que ela me revelou algo que me deixou muito
triste. Não sei por que, mas senti parte da dor da Lorenna.
— A senhora
Ventrue acabou de perder o filho num acidente de carro. Foi horrível, muito
repentino. Então ela passa horas a fio aqui trabalhando para tentar esquecer
por alguns momentos o que aconteceu.
— Oh eu sinto
muitíssimo. De verdade. Senti como se a conhecesse e sentisse sua dor.
— Você é uma
boa garota Charlotte.
Depois do tour
comprei meu fardamento: blusa branca manga três quartos, saia no joelho, meia
até o joelho, sapato Mary Jane, um verdadeiro horror. Com certeza daria um
jeito naquela saia depois.
Já era de
tarde então fui naquele café e comi bolo e suco. Doces também. Teria que passar
na casa dos amigos da minha família ainda. Peguei o ônibus que a moça do café
me indicou e fui até Notting Hill. Achei com muita dificuldade o endereço do
casal.
— Olá
Charlotte, como foi a viagem?
— Foi muito
boa. Passei para agradecer pela indicação.
A casa deles
era extraordinária. Pequena, cômoda, mas muito bem decorada. Tinha uma lareira
maior que o sofá. Era a única coisa grande na casa. Tudo era pequenininho,
arrumadinho, parecia a casa dos hobbits de Senhor dos Anéis. Tinha florezinhas
em vasos espalhados, cactozinhos também. As toalhas da sala de jantar, do
centro, da mesinha de telefone e as mantas que cobriam o sofá eram bordadas e
rendadas com os mesmos desenhos com as mesmas cores. Parecia uma casa de
bonecas.
— O Daniel
saiu com os amigos. Deve estar chegando. Tome um chá conosco enquanto espera.
— Tudo bem.
Era um casal
de meia idade. Ele tinha um cabelo grisalho tipo George Clooney. Ela tinha um
cabelo tipo Meryl Streep. Tinham olhos vivos, redondos e podiam se passar por
irmãos. Logo que começamos a tomar o chá Daniel chegou. Ele era totalmente
lindo. Tinha olhos pretos, redondos como os dos pais. Usava uma calça jeans e
uma camisa com um casaco preto por cima. Ainda bem que eu estava bem vestida. O
cabelo dele era curto, não tanto, mas era legal.
— Você deve
ser a Charlotte não é?
— Isso mesmo.
Prazer.
— Prazer.
Ele me deu um
abraço e eu quase morri com isso. O perfume dele era excepcional. Muito bom.
Quando consegui largá-lo conversamos mais.
— Você vai
estudar na Cambright não é?
— Isso mesmo.
Vou começar segunda e você estuda?
— Sim, mas não
na escola. Faço faculdade de Economia.
— Legal.
Pretendo fazer para Geologia.
— Muito bom.
Você quer voltar para o Brasil?
— Sim, para
trabalhar. Não antes de me formar.
— Muito bom.
Nós
conversamos mais e estava ficando tarde. Já passava das cinco então tinha que
ir.
— Preciso ir
agora. O caminho é longo e vou de ônibus.
— Nada disso,
faço questão de te levar.
— Imagina. Não
quero dar tanto trabalho.
— Não faz
isso. Vamos logo.
Despedi-me
deles e desci. O carro do Daniel era um Panamera cobre escuro. Ele perguntou
onde era minha casa e me levou muito rápido. Não tanto pela velocidade, mas por
conhecer o lugar muito melhor que eu.
— Com quantos
anos você veio para cá.
— Aos 15. Hoje
tenho 21.
— Uau, não
parece.
— E você tem
quantos anos?
— 17.
— Uau. Não
parece. Achava que você tinha no mínimo 18.
— Me senti bem
velha agora
— Imagina.
Você é muito linda e jovem. Só falei porque você parece bem madura. Não velha.
— Tudo bem.
Chegamos. É naquele prédio ali. Obrigada pela carona. Foi muito legal da sua
parte me trazer em casa.
— Foi muito
legal passar esse tempo com você.
Ele me deu um
beijo no rosto e eu saí acanhada. Entrei correndo e fui até a janela. Ele
estava lá, então eu acenei e ele piscou os faróis. Tomei um bom banho e fui
dormir. O meu dia foi cansativo e eu precisava de um descanso.
***
No outro dia
acordei bem disposta, vesti um short jeans com meia calça preta e blusa azul.
Calçava uma bota sem salto. Desci devagar e fui dar uma volta. Falei com alguns
vizinhos para me socializar. Conheci mais pontos turísticos e passeei por
parques e praças. Tomei um lanche e tirei milhares de fotos.
Na praça havia
uma garota falando ao telefone. Tinha olhos castanhos, era meio gordinha, usava
um óculos muito divertido e seu cabelo ruivo bem comprido preso num rabo de
cavalo. Usava um vestido lilás até a metade da coxa com meias três quartos
brancas e sapatilha e falava de como estava ansiosa para começar logo na
Cambright. Eu parei perto dela e assim que ela desligou pulei na sua frente
empolgada.
— Você vai
estudar na Cambright?
— Oh que susto
você me deu agora! Sim eu vou estudar lá por quê?
— Desculpe-me
pelo susto. Eu sou brasileira e irei começar lá também.
— Que legal!
Como você veio parar aqui? Por intercâmbio?
— Não. Meus
pais decidiram que seria melhor eu vir depois que eu pedi muito a eles para
sair do país.
— Que legal!
Que ano você vai cursar?
— O último.
— Eu também!
Muito divertido assim nós estudaremos juntas ao menos em algumas aulas.
— Você não me
disse seu nome.
— Você nem me
deu chance. Meu nome é Carly. Carly Johnson
— O meu é Charlotte Camarillo. Charlotte Marie
Camarillo.
— Prazer. Você já conhece a cidade?
— Um pouco.
Bem pouco na verdade. É sem graça passear sozinha. Você quer me acompanhar?
— Claro será
muito divertido mesmo.
Passeamos e
conversamos sobre nossas vidas. Ela mora com os pais e com duas irmãs mais
novas. Eu falei da minha família e das meninas. Caminhamos mais um pouco e ela
pegou o ônibus para ir pra casa. Fui para casa trocar de roupa. Queria comer e
o melhor lugar era o café.
Nana&Karol
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