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20 agosto, 2012

Capítulo 7



Corri descompassadamente até a casa da Verônica procurando não passar por ruas movimentadas. Escolhi becos e vielas para não chamar atenção com a minha aparência e estado. Não me sentia cansado apesar de ter corrido a noite inteira e ter passado por tantas coisas estranhas, mas me sentia confuso, triste, sem chão. Meus pais achavam que eu estava morto! A esse pensamento chorei mais descontroladamente e corri com mais fúria. Cheguei à mansão e encontrei tudo trancado e escuro.
— Verônica! Apareça, por favor. Verônica —  eu gritava por ela —  Verônica!
Cheguei mais perto do portão e vi uma plaquinha onde estava escrito:

“Mudamo-nos. Favor endereçar a correspondência para a caixa postal que segue abaixo...”

Sentei-me em frente ao portão e continuei chorando. Não sabia mais o que fazer da minha... morte? Seria isso? Minha mãe desmaiou quando me viu e estava nesse momento se convencendo que eu nunca mais voltaria porque estava morto. 
Essa palavra me assustava mais que “especial”. Até a Verônica me abandonou. Porque ela se mudou? Será que quis se livrar da minha lembrança? Levantei e andei por ruas mais calmas como antes. Entrei numa viela onde ficava o fundo de uma boate.
— Me larga cara! Eu já falei pra você parar. Se você não tem grana então nada feito.
— Qual é baby, vamos lá. Depois você nem vai se lembrar do dinheiro.
— Já disse que não. Sem grana, nada feito.
A prostituta empurrou o cara que estava totalmente bêbado. Não sei como ela se equilibrou porque além dele ser alto, gordo e estar babando em cima dela, ela usava uma bota até o joelho com um salto tão fino que me pareceu impossível de ser usado. Tinha um cabelo longo e loiro amarrado em um rabo de cavalo e vestia um vestido preto brilhante como plástico que ia até a metade da coxa, sem alças, aberto até o umbigo e fechado nessa parte com tiras cruzadas. O cara cambaleou para o outro lado, mas ainda alcançou o cabelo dela e puxou. Ela voltou-se para ele e cuspiu em seu rosto. Ele lhe deu um tapa no rosto que a fez cair no chão com a mão na face dolorida.
— Seu filho da...
— Ei, para com isso. Deixe-a em paz.
— Qual é garoto, vai querer encarar? Vai defender essa vadia?
— Sai daqui moça. Vai embora, rápido.
— Obrigada garoto, cuidado. —  ela levantou-se e saiu correndo.
— Você me fez perdeu uma ótima noite. Vai me pagar caro seu idiota.
Ele veio cambaleando para cima de mim e me deu um soco, mas eu só inclinei a cabeça para trás. O homem segurou a mão machucada e me xingou. Veio para cima de mim novamente dando socou no ar enquanto eu me esquivava até que girei por baixo do braço estendido dele e dei-lhe um soco no nariz. Aprendi na segunda e última aula de luta do colégio. Tinha quinze anos e cheguei naquele dia com o nariz quebrado em casa e minha mão ficou louca quando me viu. Disse que eu nunca mais poria os pés naquela aula. Foi aí que entrei para o futebol. Ele tombou com a mão no nariz ensangüentado e recostou-se na parede.
Não sei como aquilo aconteceu comigo. Olhei para minha mão suja de sangue dele e tudo aquele sentimento de fome, sede e angustia que senti quando pessoas se aproximavam voltou só que com mais intensidade, mais forte. Os pêlos do meu copo se eriçaram, salivei, minha visão ficou mais aguçada, clara e eu o vi cheio de sangue nas mãos. Ele estava a uns dois metros de distância de mim. Lambi o sangue dos meus dedos e senti como se estivesse há vários dias sem beber água e de repente começasse a chuviscar, limpando minha garganta, começando a matar minha sede.
Mas era só um chuvisco. Eu queria uma tempestade. Cortei a distância que havia entre nós e vi a pulsação no pescoço dele. Senti que havia vida ali e eu precisava de vida. Cravei meus dentes no pescoço dele e senti um sabor inigualável. Era doce, quente, aveludado, singular. Tinha gosto de álcool, mas isso não me fez parar. Comecei a “ver” coisas: um casal de idosos, um balcão, uma praia, uma mulher jovem e bonita, um casamento singelo, mas feliz, uma casa modesta, crianças, mais pessoas, risos... Era como se eu estivesse vivendo aquilo tudo.
Continuei sugando e me lambuzando em sangue até que não senti mais nada saindo do corpo. Retirei meus dentes do pescoço do homem que caiu pálido e desfigurado no chão. Seu rosto estava contorcido numa expressão de dor e seu pescoço estava em frangalhos como se um animal feroz o tivesse atacado. Havia sangue ao redor do ferimento.
Passei a mão assustado pelo cabelo e senti que estava pastoso. Estava grudado no meu rosto, no meu pescoço, lambuzado de sangue. Passei a mão pelo rosto e estava na mesma situação. Rasguei a camisa dele e limpei minha face. Alisei meu cabelo para trás e amarrei com uma tira de pano. Minha roupa estava suja. Não iria adiantar nada sair daquele jeito por aí.
Eu parecia uma besta. Sai correndo tentando me esconder nas sombras e encontrei um galpão abandonado. Havia alguns garotos, mas entrei fazendo barulho e eles fugiram. O lugar cheirava a bebida e cigarro e parecia uma antiga oficina. Havia uma porta quebrada no fundo, manchas de óleo misturado com sujeira no chão, pneus velhos encostados nos cantos formando bancos, algumas ferramentas avariadas, latas, plástico e muitas garrafas de cerveja e pontas de cigarro no chão. Tinha uma escadinha no canto direito que dava para uma porta lá em cima. Passava das cinco e meia.
Logo amanheceria e a claridade começou a me incomodar. Fiquei encolhido num canto tentando entender o que aconteceu. Até chegar lá eu agi com frieza o suficiente para não ser descoberto, mas agora eu estava entrando em pânico. Bebi sangue, matei um homem. Não sei o que era pior. Estava transtornado e não tinha ninguém para me ajudar. Não sentia sono, nem cansaço, nem vontade de ir ao banheiro, nada; só sentia um vazio dentro de mim.
Comecei a chorar. Chorei até não ter mais lágrimas. O que eu faria? Para onde iria? Em quem confiaria se nem em mim mesmo eu poderia confiar? As respostas para essas perguntas estavam fora do meu alcance.
Fiquei lá recostado tentando descobrir uma forma de levar minha vida à frente. Amanheceu. A luz entrava pelas frestas me deixando quase cego. Meus olhos ardiam muito e estava impossível abri-los. Pus a mão na frente e fiquei de cabeça baixa. Fui apalpando os lugares para encontrar algo que pudesse me ajudar. Encontrei a porta que vira antes e a abri. Dava para um lugar mais escuro que era como um banheiro. O cheiro era péssimo e meu nariz ardeu.
Tirei a mão dos olhos e tapei o nariz. Olhei em volta havia um vaso sanitário entupido e um chuveiro pingando sem parar. Havia um espelho quebrado em vários caquinhos pelo chão. Apanhei um pedaço maior e me olhei mais detalhadamente que na cabana. Estava deplorável. Meu cabelo sujo de sangue empastado para trás, meu rosto com manchas avermelhadas já que o sangue não saiu totalmente. Meus olhos não estavam mais brancos, estavam azuis como sempre foram o que me fez duvidar se eles realmente tinham mudado alguma hora. Minha camisa era escura, mas ainda assim era claro que não estava limpa. Tinha manchas de sangue e sujeira da estrada. Minha calça estava rasgada na barra das pernas. Meu sapato cheio de lama. Abri o chuveiro e a água caiu forte. Arranquei minhas roupas e entrei debaixo da água. Tirei o pedaço de pano que prendia meu cabelo e deixei a água cair sobre mim levando embora aquele sangue que agora me parecia nojento. Chorei novamente vendo a água vermelha cair no chão sujo até que não houvesse mais sinal de sangue.
Peguei minha camisa e a lavei depois me esfreguei com ela. Fiquei lá por mais uns dez minutos. Saí, vesti a cueca e a calça, calcei os sapatos e deixei a camisa num canto para secar. Sentei-me do lado de fora, perto da porta do banheiro e fiquei observando o lugar. Tapei os olhos de forma que só pude ver o que estava pouco à minha frente e andei até a escada. Subi e abri a porta. Era uma sala, um escritório. Ou melhor, foi um. Havia uma mesa e dois arquivos aberto e cheios de papel rasgado, uma cadeira sem encosto e uns objetos no chão: mais papéis rasgados, uma carteira aberta e vazia, cartuchos de bala e uma jaqueta num canto.
O chão estava mais limpo que lá embaixo, mas havia muitas teias de aranha. Não tinha janelas e decidi que seria o lugar mais limpo e escuro que eu encontraria a essa hora. Fechei o arquivo, sentei na cadeira e me encostei a ele. Não tinha nada para fazer a não ser pensar na minha situação. Certamente não era algo agradável então comecei a ler os papéis que estavam inteiros. Eram faturas de compra e venda de peças de carros, anotações sobre prováveis fregueses, folhas de um livro caixa antigo, recortes de notícias de jornal... entendi que a oficina tinha falido e que fora abandonada passando a ser um esconderijo para jovens fazerem coisas ilegais. Passei a manhã e a tarde concentrado nos papéis, tentando juntar pedaços e ler o que dava.
            Organizeis algumas coisas nos arquivos, mas era muita coisa. Quando percebi estava escurecendo. Devia ser por volta das cinco horas. Decidi descer e observar melhor o lugar já que não estava me incomodando tanto mais. Fiquei lá, olheis os pneus, movi alguns de lugar e fiz ficar de um jeito mais confortável. Estava gostando dali. Eu estaria sozinho de qualquer forma então seria melhor que fosse num lugar onde estivesse em paz, sem precisar fugir nem esconder meu rosto. Fui ao banheiro, dei uma olhada e percebi o quão imundo ele era. Precisaria de uma boa limpeza. Estava lá pensando quando escutei um barulho.
A porta pela qual entrei que ficava no canto de um grande portão de correr abriu e por ela entraram quatro pessoas. Duas garotas e dois garotos. Uma das meninas tinha um cabelo preto curto repicado nas pontas com mechas loiras e usava um vestido cinza até o joelho. No final formava uma pequena saia de babados com desenhos geométricos em tom sobre tom de roxo com um casaco preto com correntes e argolas penduradas, luvas cinza, uma meia calça roxa e botas de combate de camurça preto.
A outra tinha o cabelo longo vermelho sangue com mechas pretas e usava uma saia de prega xadrez vermelha baixa até a metade da coxa com uma corrente pendurada do cós atrás, meia de arrastão preta, botas cinza dégradé de salto médio até o joelho com vários adereços circulares prateados, uma blusa azul marinho com estampa de caveira em branco caída no ombro e que deveria mostrar a barriga. Mas ela também usava uma blusa apertada branca por baixo da azul e um casaco estilo esquimó preto.
Ambas usavam maquiagem escura e tinham piercings espalhados pelas orelhas, narizes e sobrancelhas. O cara que abraçava a garota de vestido usava uma touca e uma calça jeans preta caída com um cinto de corrente, uma camiseta do Iron Maiden, um casaco marrom e botas de cano baixo e largo aberta. O outro tinha um moicano com mechas em vermelho e laranja parecendo fogo, usava uma camiseta preta comum com um casaco grosso e também marrom por cima com uma calça azul escuro rasgada na perna e tênis. Ambos tinham alargadores, piercings nos lábios e no supercílio e não tinham luvas. Todos traziam em suas mãos garrafas de cerveja e cigarros. Riam e falavam alto e cambaleavam abraçados. Beijavam-se e lambiam-se vulgarmente. Não tinham me visto. Ainda.
— Qual é cara. Você pegou sim a Lizzi. Não vem pra cima de mim com essa.
— Não peguei. A gente só... saiu.
— Mentira sua Adrian. Eu te vi com ela, confessa.
— Tá a gente se pegou na festa da Z. Mas não foi nada demais.
— Qual é não foi? A garota ta de quatro atrás de você. Faz tudo que você quer.
— Eu não tenho culpa se ela nunca tinha visto um cara como eu.
— Não se acha ta, Adrian. Você nem é tudo isso.
— Qual é Sam, vai me tirar agora?
— Ela tem razão Adrian, você não é tudo isso que fala.
— Olha cara, se eu fosse você desistia. Até a Miley!
— Se toca Noah. Cala a boca.
Eles continuavam entrando devagar e rindo do cara que se chamava Adrian —  o do moicano. Eu fui andando até eles.
— Saiam daqui.
— Olha só o cara, Noah. Ta querendo zoar cara? Esse lugar é nosso.
— Não, não é. Esse lugar é meu e vocês vão sair daqui agora.
— Vamos nessa Adrian, deixe essa cara aí.
— Não vamos a lugar nenhum. Nós freqüentamos esse lugar desde sempre. Não é esse cara aí que vai nos tirar daqui.
— Tem certeza disso?—  eu disse ameaçadoramente.
— Vai querer brigar cara?
— Pára Noah, vamos nessa. —  disse uma das garotas puxando-o pelo casaco.
— Não, eu quero ficar e vou ficar, e se esse cara quiser tirar a gente daqui vai ter que brigar. Somos dois, você é só um. Então vai encarar?
— Eu não quero brigar, só quero que vocês saiam daqui. Não será difícil encontrar um lugar para beber e fumar.
— Não vamos sair daqui cara!
— Se vocês não vão por bem, vão por mal.
Rodei nos calcanhares e empurrei os caras que estavam sendo segurados pelas garotas. Eles caíram se levantaram rapidamente. Correram para cima de mim e tentaram me dar socos, mas só acertavam o ar. Desviei dos socos com agilidade e peguei nos braços deles e os empurrei de novo. As garotas choravam e davam gritinhos cada vez que eu fazia algo com eles, mas não fizeram nada para impedir. Os caras, caídos no chão as chamaram e elas os ajudaram a se levantar.
— Isso não vai ficar assim ta cara. Ns vamos voltar.
— Façam como quiserem, mas já dei meu aviso. Vocês não serão mais pegos de surpresa.
Eles saíram correndo e eu fiquei lá olhando para a saída. Percebi que a carteira de um deles tinha caído no chão. Peguei a carteira e abri. Havia uma carteira de motorista, uma identidade e umas £120. Certamente não sairia e diria: “Ei cara, quando estava te dando uma surra sua carteira caiu. Vim te devolver”. Então compraria algo com aquele dinheiro que eu estivesse precisando. E o que eu não estava precisando. Teria que me virar. Vesti minha camisa que estava seca a essa altura e saí para dar uma volta. Não me sentia faminto como ontem. Nem sentia tanto desejo quando sentia pessoas se aproximarem, mas mesmo assim resolvi não dar chance para que tudo aquilo se repetisse. Andei por ruas menos movimentadas procurando alguma loja de departamento ou de conveniência onde pudesse comprar umas coisas. Vi várias. Devia ser perto das sete e muitas coisas estavam abertas. Entrei em um pequeno brechó onde parecia vender de tudo até peças para aeronaves. Ri a esse pensamento, mas fui interrompido.
— Olá, em que posso ajudar?
— Olá quero comprar, hum, roupas e produtos de higiene.
— Tudo bem, pode me acompanhar?
— Claro.
A moça que me atendeu era morena, tinha olhos castanhos escuros, redondos e marcantes, um belo sorriso, um cabelo curto e usava uma franja de lado. Usava uma camiseta com o nome da loja, um casaco azul claro por cima, calça jeans, sapato fechado e um avental. Andava graciosamente. Levou-me até uma sessão onde havia roupas e me mostrou que do outro lado ficavam os produtos de higiene.
— Obrigada. Daqui eu me viro, pode deixar.
— De nada, estou aqui para isso. Se precisar de algo é só me chamar.
— Tudo bem. – ri para ela de forma amena, mas percebi que ela tremeu rapidamente apesar de ter retribuído meu sorriso.
Virei-me e ela saiu apressada. Olhei em um espelho que estava pendurado. Eu não estava em boa aparência, mas também não estava tão ruim a ponto de assustar a moça. Sorri tristemente para mim mesmo e percebi que meus dentes estavam muito mais brancos que o comum (não que já não fossem brancos) e eu parecia assustador sorrindo. Não exatamente assustador, mas perigoso. Meus olhos se afiavam e em meus dentes pareciam ter escrito “cuidado” neles. Fiquei pasmo por um segundo, mas voltei meu pensamento para as compras. Não tinha cartão e só tinha pouco mais de £100 então teria que economizar. Peguei um par de calças jeans, uma marrom-escura e uma preta, três camisas, uma preta, uma azul clara e uma cáqui e cuecas. Fiz as contas mentalmente e daria um £105. Soltei a camisa cáqui e fui pegar produtos de limpeza. Peguei sabonete, sabão e um esfregão. As compras deram £115. Ainda sobrou £5, mas resolvi guardar caso precisasse depois. Voltei pro galpão, deixei as compras guardadas no arquivo e fui dar uma volta. Andei pela noite muito calmamente, agora que eu não sentia frio era melhor para ver as coisas. Andei a noite toda. Vi um cara vendendo óculos na rua.
— Qual o preço?
— £10.
— Só tenho £5.
— Problema seu, vaza.
— Você não acha melhor £5 que nada? —  lembrei-me de como meu sorriso parecia assustar as pessoas e dei um sorriso de canto de boca para ele. O cara me olhou confuso.
— É, é sim. Pode escolher. – peguei o que parecia mais escuro e saí andando com ele no bolso na camisa. Observei as ruas e a cidade como nunca fizera antes. Sempre fiquei restrito ao meu círculo e aos meus amigos, protegido pela minha mãe e em conseqüência pelo meu pai. Nunca havia visto realmente por onde andava, nunca prestei muita atenção. Sempre sabia para onde ia, sempre andei de carro. Agora eu via por onde andava, observava as pessoas, o jeito, os cheiros, os lojas, o céu, todos os detalhes. Quando parei de caminhar deveria ser umas quatro e meia, por aí. Tinha que voltar antes que amanhecesse. Andei mais rápido. Passei por um grupo de adolescentes que deviam ter suas mães loucas a essa hora e me bati com um deles.
— Olha aí cara, você derrubou minhas coisas.
— Desculpe-me, não foi minha intenção. Eu pego para você.
Quando me abaixei para pegar as coisas, vi que se tratava de revistas e gibis. Olhei uma delas mais atentamente.
— Essas revistas lhe serão úteis?
— Não. Ia leva-las para vender em algum lugar, mas não achei ninguém que quisesse.
— Posso ficar com esta aqui?
— Vá em frente. Isso agora é só lixo.
— Obrigado e novamente me desculpe pelo esbarrão.
— Tudo bem.
Corri para o galpão e subi para o escritório. Sentei na mesma posição de antes e folheei a revista. Falava sobre criaturas místicas e estranhas, mas o que chamou a atenção foi a capa onde estava escrito: “Vampiros: Sanguessugas Noturnos”. Procurei essa parte e quando encontrei comecei a ler atentamente:

“...Vampiros são criaturas essencialmente noturnas que se alimentam de sangue, seja ele humano ou não. Esses seres são geralmente impedidos de sair ao sol por causa da sua pele e olhos sensíveis. Há inúmeras lendas que falam sobre tipos de vampiros. Em algumas eles formam clãs, em outras comunidades e em outras são nômades. Em certas lendas eles necessitam de sangue regularmente, em outras passa-se até uma semana ou mais sem se alimentar. Outra coisa que varia é a forma de transformação. Pode ser por mordida do vampiro, por simples troca de sangue ou quando o vampiro suga quase todo o sangue e transfere parte do seu para a vítima. A vítima pode demorar minutos, dias, ou semanas para mudar totalmente e pode ser de forma tranqüila ou extremamente dolorosa. E além de tudo isso, a transformação trás consigo alguns poderes. Talvez não sejam exatamente poderes, mas seus sentidos e força são aumentados. A audição, visão e olfato ficam várias vezes mais aguçados (daí a sensibilidade a muita luz, barulho excessivo e fortes cheiros). Com isso a percepção de sangue (sua fonte de sobrevivência) fica mais clara podendo-se chegar a sentir o cheiro do sangue de dentro das pessoas. As lendas são inúmeras e de vários tipo, mas o que todas elas tem em comum é que sem sangue, os vampiros viram bestas, saem para caçar e não importa quem apareça em sua frente: eles não verão nada a não ser uma fonte de alimento. ”

Parei por aí. Essa revista parecia contar minha vida nas últimas três semanas. Perdi duas delas, mas agora tinha uma pista do que aconteceu. Comecei a fazer analogias entre o que li na revista e o que me aconteceu de ontem para hoje. Consegui quebrar a porta de madeira da cabana que estava trancada, corri até chegar aqui sem me cansar, ouvi minha mãe e a conversa dela com meu pai dentro de casa, quando ela não me ouvia, não conseguia abrir os olhos na luz; o cheiro do banheiro me pareceu ácido injetado no nariz e senti o cheiro das árvores, animais que estavam longe e do sangue das pessoas fora que vi a veia pulsando no pescoço daquele homem. Tudo isso sem contar que bebi o sangue dele e foi... estupendo. Essa revista me descrevia totalmente. A única parte que não me lembrava é da transformação. Nem um flash, nada. Agora já devia ser de manhã. Estava confuso, mas ao mesmo tempo aliviado em saber que as coisas estavam ficando mais claras. Desci e resolvi dar uma limpada no galpão. Como a claridade me incomodava pus o óculos e melhorou. Fui ao banheiro, lavei-o até ficar aceitável, depois procurei alguma coisa que me ajudasse com a luz. Achei latas viradas de óleo e graxa. Abri uma delas com a mão e mistureis os restos. Passei nos pedaços de vidro que sobraram das janelas e o resto cobri com os plásticos que estavam no chão. Subi e olhei atentamente. Já tinha organizado os papéis só faltava limpar o chão. Olhei bem o esfregão que estava na minha mão e olhei o chão. Não teria mais o que fazer então deixei a preguiça de lado e comecei a faxina. Tirei as teias de aranha, limpei o arquivo e a mesa e varri o chão. Quando acabei de limpar tudo já era de tarde. Devia ser umas três, então desci, e olhei bem. Ainda faltava limpar a parte de baixo. Comecei a limpar perto do banheiro para que quando entrasse não sujasse tudo. Logo era noite e precisava sair um pouco para me distrair. Devia ser umas cinco ou seis horas. Tirei a tira de pano do cabelo e deixei-o livre. Passei a mão tentando desgrenhá-lo um pouco e respirei fundo. Ouvi um barulho na porta. Eram os garotos da noite anterior. Senti pelo cheiro, mas eles não estavam sozinhos. Devia haver... eles com... dois outros garotos. Não havia meninas com eles. Eles entraram e começaram a gritar.
— Ei cara, onde você está? Aparece!
— Estou aqui, o que vocês querem, eu disse para não voltarem. Vocês já foram avisados.
— Olha só o cara. – todos riram sarcasticamente —  tá se achando. Quero ver você encarar nós quatro.
Eles estavam com paus, tacos e um deles, o que parecia mais velho, portava uma arma. Os garotos com os paus vieram para cima de mim. Esquivei-me de todos os golpes e acertei um no nariz como fiz com o gordo no beco, um no estomago e um na curva da perna, atrás do joelho, tão rapidamente que eles nem puderam me ver totalmente para se defender. O que estava armado estava atônito. Peguei o que soquei no nariz que era o que estava menos pior e o segurei com o braço para trás.
— Solta ele cara se não eu atiro em você.
— Sério. Você vai atirar mesmo?
— Tô falando sério. Larga ele!
— E se eu não fizer o que você esta pedindo?
— Eu já disse que atiro.
— Vai em frente. 

Nana&Karol

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