Corri
descompassadamente até a casa da Verônica procurando não passar por ruas
movimentadas. Escolhi becos e vielas para não chamar atenção com a minha
aparência e estado. Não me sentia cansado apesar de ter corrido a noite inteira
e ter passado por tantas coisas estranhas, mas me sentia confuso, triste, sem
chão. Meus pais achavam que eu estava morto! A esse pensamento chorei mais
descontroladamente e corri com mais fúria. Cheguei à mansão e encontrei tudo
trancado e escuro.
— Verônica!
Apareça, por favor. Verônica — eu
gritava por ela — Verônica!
Cheguei mais
perto do portão e vi uma plaquinha onde estava escrito:
“Mudamo-nos.
Favor endereçar a correspondência para a caixa postal que segue abaixo...”
Sentei-me em
frente ao portão e continuei chorando. Não sabia mais o que fazer da minha...
morte? Seria isso? Minha mãe desmaiou quando me viu e estava nesse momento se
convencendo que eu nunca mais voltaria porque estava morto.
Essa palavra
me assustava mais que “especial”. Até a Verônica me abandonou. Porque ela se
mudou? Será que quis se livrar da minha lembrança? Levantei e andei por ruas
mais calmas como antes. Entrei numa viela onde ficava o fundo de uma boate.
— Me larga
cara! Eu já falei pra você parar. Se você não tem grana então nada feito.
— Qual é baby,
vamos lá. Depois você nem vai se lembrar do dinheiro.
— Já disse que
não. Sem grana, nada feito.
A prostituta
empurrou o cara que estava totalmente bêbado. Não sei como ela se equilibrou
porque além dele ser alto, gordo e estar babando em cima dela, ela usava uma
bota até o joelho com um salto tão fino que me pareceu impossível de ser usado.
Tinha um cabelo longo e loiro amarrado em um rabo de cavalo e vestia um vestido
preto brilhante como plástico que ia até a metade da coxa, sem alças, aberto
até o umbigo e fechado nessa parte com tiras cruzadas. O cara cambaleou para o
outro lado, mas ainda alcançou o cabelo dela e puxou. Ela voltou-se para ele e
cuspiu em seu rosto. Ele lhe deu um tapa no rosto que a fez cair no chão com a
mão na face dolorida.
— Seu filho
da...
— Ei, para com
isso. Deixe-a em paz.
— Qual é
garoto, vai querer encarar? Vai defender essa vadia?
— Sai daqui
moça. Vai embora, rápido.
— Obrigada
garoto, cuidado. — ela levantou-se e
saiu correndo.
— Você me fez
perdeu uma ótima noite. Vai me pagar caro seu idiota.
Ele veio
cambaleando para cima de mim e me deu um soco, mas eu só inclinei a cabeça para
trás. O homem segurou a mão machucada e me xingou. Veio para cima de mim
novamente dando socou no ar enquanto eu me esquivava até que girei por baixo do
braço estendido dele e dei-lhe um soco no nariz. Aprendi na segunda e última
aula de luta do colégio. Tinha quinze anos e cheguei naquele dia com o nariz
quebrado em casa e minha mão ficou louca quando me viu. Disse que eu nunca mais
poria os pés naquela aula. Foi aí que entrei para o futebol. Ele tombou com a
mão no nariz ensangüentado e recostou-se na parede.
Não sei como
aquilo aconteceu comigo. Olhei para minha mão suja de sangue dele e tudo aquele
sentimento de fome, sede e angustia que senti quando pessoas se aproximavam
voltou só que com mais intensidade, mais forte. Os pêlos do meu copo se
eriçaram, salivei, minha visão ficou mais aguçada, clara e eu o vi cheio de
sangue nas mãos. Ele estava a uns dois metros de distância de mim. Lambi o
sangue dos meus dedos e senti como se estivesse há vários dias sem beber água e
de repente começasse a chuviscar, limpando minha garganta, começando a matar
minha sede.
Mas era só um
chuvisco. Eu queria uma tempestade. Cortei a distância que havia entre nós e vi
a pulsação no pescoço dele. Senti que havia vida ali e eu precisava de vida.
Cravei meus dentes no pescoço dele e senti um sabor inigualável. Era doce,
quente, aveludado, singular. Tinha gosto de álcool, mas isso não me fez parar.
Comecei a “ver” coisas: um casal de idosos, um balcão, uma praia, uma mulher
jovem e bonita, um casamento singelo, mas feliz, uma casa modesta, crianças,
mais pessoas, risos... Era como se eu estivesse vivendo aquilo tudo.
Continuei
sugando e me lambuzando em sangue até que não senti mais nada saindo do corpo.
Retirei meus dentes do pescoço do homem que caiu pálido e desfigurado no chão.
Seu rosto estava contorcido numa expressão de dor e seu pescoço estava em
frangalhos como se um animal feroz o tivesse atacado. Havia sangue ao redor do
ferimento.
Passei a mão
assustado pelo cabelo e senti que estava pastoso. Estava grudado no meu rosto,
no meu pescoço, lambuzado de sangue. Passei a mão pelo rosto e estava na mesma
situação. Rasguei a camisa dele e limpei minha face. Alisei meu cabelo para
trás e amarrei com uma tira de pano. Minha roupa estava suja. Não iria adiantar
nada sair daquele jeito por aí.
Eu parecia uma
besta. Sai correndo tentando me esconder nas sombras e encontrei um galpão
abandonado. Havia alguns garotos, mas entrei fazendo barulho e eles fugiram. O
lugar cheirava a bebida e cigarro e parecia uma antiga oficina. Havia uma porta
quebrada no fundo, manchas de óleo misturado com sujeira no chão, pneus velhos
encostados nos cantos formando bancos, algumas ferramentas avariadas, latas,
plástico e muitas garrafas de cerveja e pontas de cigarro no chão. Tinha uma
escadinha no canto direito que dava para uma porta lá em cima. Passava das
cinco e meia.
Logo
amanheceria e a claridade começou a me incomodar. Fiquei encolhido num canto
tentando entender o que aconteceu. Até chegar lá eu agi com frieza o suficiente
para não ser descoberto, mas agora eu estava entrando em pânico. Bebi sangue,
matei um homem. Não sei o que era pior. Estava transtornado e não tinha ninguém
para me ajudar. Não sentia sono, nem cansaço, nem vontade de ir ao banheiro,
nada; só sentia um vazio dentro de mim.
Comecei a
chorar. Chorei até não ter mais lágrimas. O que eu faria? Para onde iria? Em
quem confiaria se nem em mim mesmo eu poderia confiar? As respostas para essas
perguntas estavam fora do meu alcance.
Fiquei lá
recostado tentando descobrir uma forma de levar minha vida à frente. Amanheceu.
A luz entrava pelas frestas me deixando quase cego. Meus olhos ardiam muito e
estava impossível abri-los. Pus a mão na frente e fiquei de cabeça baixa. Fui
apalpando os lugares para encontrar algo que pudesse me ajudar. Encontrei a
porta que vira antes e a abri. Dava para um lugar mais escuro que era como um
banheiro. O cheiro era péssimo e meu nariz ardeu.
Tirei a mão
dos olhos e tapei o nariz. Olhei em volta havia um vaso sanitário entupido e um
chuveiro pingando sem parar. Havia um espelho quebrado em vários caquinhos pelo
chão. Apanhei um pedaço maior e me olhei mais detalhadamente que na cabana.
Estava deplorável. Meu cabelo sujo de sangue empastado para trás, meu rosto com
manchas avermelhadas já que o sangue não saiu totalmente. Meus olhos não
estavam mais brancos, estavam azuis como sempre foram o que me fez duvidar se
eles realmente tinham mudado alguma hora. Minha camisa era escura, mas ainda
assim era claro que não estava limpa. Tinha manchas de sangue e sujeira da
estrada. Minha calça estava rasgada na barra das pernas. Meu sapato cheio de
lama. Abri o chuveiro e a água caiu forte. Arranquei minhas roupas e entrei
debaixo da água. Tirei o pedaço de pano que prendia meu cabelo e deixei a água
cair sobre mim levando embora aquele sangue que agora me parecia nojento.
Chorei novamente vendo a água vermelha cair no chão sujo até que não houvesse
mais sinal de sangue.
Peguei minha
camisa e a lavei depois me esfreguei com ela. Fiquei lá por mais uns dez
minutos. Saí, vesti a cueca e a calça, calcei os sapatos e deixei a camisa num
canto para secar. Sentei-me do lado de fora, perto da porta do banheiro e
fiquei observando o lugar. Tapei os olhos de forma que só pude ver o que estava
pouco à minha frente e andei até a escada. Subi e abri a porta. Era uma sala,
um escritório. Ou melhor, foi um. Havia uma mesa e dois arquivos aberto e
cheios de papel rasgado, uma cadeira sem encosto e uns objetos no chão: mais
papéis rasgados, uma carteira aberta e vazia, cartuchos de bala e uma jaqueta
num canto.
O chão estava
mais limpo que lá embaixo, mas havia muitas teias de aranha. Não tinha janelas
e decidi que seria o lugar mais limpo e escuro que eu encontraria a essa hora.
Fechei o arquivo, sentei na cadeira e me encostei a ele. Não tinha nada para
fazer a não ser pensar na minha situação. Certamente não era algo agradável
então comecei a ler os papéis que estavam inteiros. Eram faturas de compra e
venda de peças de carros, anotações sobre prováveis fregueses, folhas de um
livro caixa antigo, recortes de notícias de jornal... entendi que a oficina
tinha falido e que fora abandonada passando a ser um esconderijo para jovens
fazerem coisas ilegais. Passei a manhã e a tarde concentrado nos papéis,
tentando juntar pedaços e ler o que dava.
Organizeis algumas coisas nos
arquivos, mas era muita coisa. Quando percebi estava escurecendo. Devia ser por
volta das cinco horas. Decidi descer e observar melhor o lugar já que não
estava me incomodando tanto mais. Fiquei lá, olheis os pneus, movi alguns de
lugar e fiz ficar de um jeito mais confortável. Estava gostando dali. Eu
estaria sozinho de qualquer forma então seria melhor que fosse num lugar onde
estivesse em paz, sem precisar fugir nem esconder meu rosto. Fui ao banheiro,
dei uma olhada e percebi o quão imundo ele era. Precisaria de uma boa limpeza.
Estava lá pensando quando escutei um barulho.
A porta pela
qual entrei que ficava no canto de um grande portão de correr abriu e por ela
entraram quatro pessoas. Duas garotas e dois garotos. Uma das meninas tinha um
cabelo preto curto repicado nas pontas com mechas loiras e usava um vestido
cinza até o joelho. No final formava uma pequena saia de babados com desenhos
geométricos em tom sobre tom de roxo com um casaco preto com correntes e
argolas penduradas, luvas cinza, uma meia calça roxa e botas de combate de
camurça preto.
A outra tinha
o cabelo longo vermelho sangue com mechas pretas e usava uma saia de prega
xadrez vermelha baixa até a metade da coxa com uma corrente pendurada do cós
atrás, meia de arrastão preta, botas cinza dégradé de salto médio até o joelho
com vários adereços circulares prateados, uma blusa azul marinho com estampa de
caveira em branco caída no ombro e que deveria mostrar a barriga. Mas ela
também usava uma blusa apertada branca por baixo da azul e um casaco estilo
esquimó preto.
Ambas usavam
maquiagem escura e tinham piercings espalhados pelas orelhas, narizes e
sobrancelhas. O cara que abraçava a garota de vestido usava uma touca e uma
calça jeans preta caída com um cinto de corrente, uma camiseta do Iron Maiden,
um casaco marrom e botas de cano baixo e largo aberta. O outro tinha um moicano
com mechas em vermelho e laranja parecendo fogo, usava uma camiseta preta comum
com um casaco grosso e também marrom por cima com uma calça azul escuro rasgada
na perna e tênis. Ambos tinham alargadores, piercings nos lábios e no
supercílio e não tinham luvas. Todos traziam em suas mãos garrafas de cerveja e
cigarros. Riam e falavam alto e cambaleavam abraçados. Beijavam-se e lambiam-se
vulgarmente. Não tinham me visto. Ainda.
— Qual é cara.
Você pegou sim a Lizzi. Não vem pra cima de mim com essa.
— Não peguei.
A gente só... saiu.
— Mentira sua
Adrian. Eu te vi com ela, confessa.
— Tá a gente
se pegou na festa da Z. Mas não foi nada demais.
— Qual é não
foi? A garota ta de quatro atrás de você. Faz tudo que você quer.
— Eu não tenho
culpa se ela nunca tinha visto um cara como eu.
— Não se acha
ta, Adrian. Você nem é tudo isso.
— Qual é Sam,
vai me tirar agora?
— Ela tem
razão Adrian, você não é tudo isso que fala.
— Olha cara,
se eu fosse você desistia. Até a Miley!
— Se toca
Noah. Cala a boca.
Eles
continuavam entrando devagar e rindo do cara que se chamava Adrian — o do moicano. Eu fui andando até eles.
— Saiam daqui.
— Olha só o
cara, Noah. Ta querendo zoar cara? Esse lugar é nosso.
— Não, não é.
Esse lugar é meu e vocês vão sair daqui agora.
— Vamos nessa
Adrian, deixe essa cara aí.
— Não vamos a
lugar nenhum. Nós freqüentamos esse lugar desde sempre. Não é esse cara aí que
vai nos tirar daqui.
— Tem certeza
disso?— eu disse ameaçadoramente.
— Vai querer
brigar cara?
— Pára Noah,
vamos nessa. — disse uma das garotas
puxando-o pelo casaco.
— Não, eu
quero ficar e vou ficar, e se esse cara quiser tirar a gente daqui vai ter que
brigar. Somos dois, você é só um. Então vai encarar?
— Eu não quero
brigar, só quero que vocês saiam daqui. Não será difícil encontrar um lugar
para beber e fumar.
— Não vamos
sair daqui cara!
— Se vocês não
vão por bem, vão por mal.
Rodei nos
calcanhares e empurrei os caras que estavam sendo segurados pelas garotas. Eles
caíram se levantaram rapidamente. Correram para cima de mim e tentaram me dar
socos, mas só acertavam o ar. Desviei dos socos com agilidade e peguei nos
braços deles e os empurrei de novo. As garotas choravam e davam gritinhos cada
vez que eu fazia algo com eles, mas não fizeram nada para impedir. Os caras,
caídos no chão as chamaram e elas os ajudaram a se levantar.
— Isso não vai
ficar assim ta cara. Ns vamos voltar.
— Façam como
quiserem, mas já dei meu aviso. Vocês não serão mais pegos de surpresa.
Eles saíram
correndo e eu fiquei lá olhando para a saída. Percebi que a carteira de um
deles tinha caído no chão. Peguei a carteira e abri. Havia uma carteira de
motorista, uma identidade e umas £120. Certamente não sairia e diria: “Ei cara,
quando estava te dando uma surra sua carteira caiu. Vim te devolver”. Então
compraria algo com aquele dinheiro que eu estivesse precisando. E o que eu não
estava precisando. Teria que me virar. Vesti minha camisa que estava seca a
essa altura e saí para dar uma volta. Não me sentia faminto como ontem. Nem
sentia tanto desejo quando sentia pessoas se aproximarem, mas mesmo assim
resolvi não dar chance para que tudo aquilo se repetisse. Andei por ruas menos
movimentadas procurando alguma loja de departamento ou de conveniência onde
pudesse comprar umas coisas. Vi várias. Devia ser perto das sete e muitas
coisas estavam abertas. Entrei em um pequeno brechó onde parecia vender de tudo
até peças para aeronaves. Ri a esse pensamento, mas fui interrompido.
— Olá, em que
posso ajudar?
— Olá quero
comprar, hum, roupas e produtos de higiene.
— Tudo bem,
pode me acompanhar?
— Claro.
A moça que me
atendeu era morena, tinha olhos castanhos escuros, redondos e marcantes, um
belo sorriso, um cabelo curto e usava uma franja de lado. Usava uma camiseta
com o nome da loja, um casaco azul claro por cima, calça jeans, sapato fechado
e um avental. Andava graciosamente. Levou-me até uma sessão onde havia roupas e
me mostrou que do outro lado ficavam os produtos de higiene.
— Obrigada.
Daqui eu me viro, pode deixar.
— De nada,
estou aqui para isso. Se precisar de algo é só me chamar.
— Tudo bem. –
ri para ela de forma amena, mas percebi que ela tremeu rapidamente apesar de
ter retribuído meu sorriso.
Virei-me e ela
saiu apressada. Olhei em um espelho que estava pendurado. Eu não estava em boa
aparência, mas também não estava tão ruim a ponto de assustar a moça. Sorri
tristemente para mim mesmo e percebi que meus dentes estavam muito mais brancos
que o comum (não que já não fossem brancos) e eu parecia assustador sorrindo.
Não exatamente assustador, mas perigoso. Meus olhos se afiavam e em meus dentes
pareciam ter escrito “cuidado” neles. Fiquei pasmo por um segundo, mas voltei
meu pensamento para as compras. Não tinha cartão e só tinha pouco mais de £100
então teria que economizar. Peguei um par de calças jeans, uma marrom-escura e
uma preta, três camisas, uma preta, uma azul clara e uma cáqui e cuecas. Fiz as
contas mentalmente e daria um £105. Soltei a camisa cáqui e fui pegar produtos
de limpeza. Peguei sabonete, sabão e um esfregão. As compras deram £115. Ainda
sobrou £5, mas resolvi guardar caso precisasse depois. Voltei pro galpão,
deixei as compras guardadas no arquivo e fui dar uma volta. Andei pela noite
muito calmamente, agora que eu não sentia frio era melhor para ver as coisas.
Andei a noite toda. Vi um cara vendendo óculos na rua.
— Qual o
preço?
— £10.
— Só tenho £5.
— Problema
seu, vaza.
— Você não
acha melhor £5 que nada? — lembrei-me de
como meu sorriso parecia assustar as pessoas e dei um sorriso de canto de boca
para ele. O cara me olhou confuso.
— É, é sim.
Pode escolher. – peguei o que parecia mais escuro e saí andando com ele no
bolso na camisa. Observei as ruas e a cidade como nunca fizera antes. Sempre
fiquei restrito ao meu círculo e aos meus amigos, protegido pela minha mãe e em
conseqüência pelo meu pai. Nunca havia visto realmente por onde andava, nunca prestei
muita atenção. Sempre sabia para onde ia, sempre andei de carro. Agora eu via
por onde andava, observava as pessoas, o jeito, os cheiros, os lojas, o céu,
todos os detalhes. Quando parei de caminhar deveria ser umas quatro e meia, por
aí. Tinha que voltar antes que amanhecesse. Andei mais rápido. Passei por um
grupo de adolescentes que deviam ter suas mães loucas a essa hora e me bati com
um deles.
— Olha aí
cara, você derrubou minhas coisas.
— Desculpe-me,
não foi minha intenção. Eu pego para você.
Quando me
abaixei para pegar as coisas, vi que se tratava de revistas e gibis. Olhei uma
delas mais atentamente.
— Essas
revistas lhe serão úteis?
— Não. Ia
leva-las para vender em algum lugar, mas não achei ninguém que quisesse.
— Posso ficar
com esta aqui?
— Vá em
frente. Isso agora é só lixo.
— Obrigado e
novamente me desculpe pelo esbarrão.
— Tudo bem.
Corri para o
galpão e subi para o escritório. Sentei na mesma posição de antes e folheei a
revista. Falava sobre criaturas místicas e estranhas, mas o que chamou a
atenção foi a capa onde estava escrito: “Vampiros: Sanguessugas Noturnos”.
Procurei essa parte e quando encontrei comecei a ler atentamente:
“...Vampiros
são criaturas essencialmente noturnas que se alimentam de sangue, seja ele
humano ou não. Esses seres são geralmente impedidos de sair ao sol por causa da
sua pele e olhos sensíveis. Há inúmeras lendas que falam sobre tipos de
vampiros. Em algumas eles formam clãs, em outras comunidades e em outras são
nômades. Em certas lendas eles necessitam de sangue regularmente, em outras
passa-se até uma semana ou mais sem se alimentar. Outra coisa que varia é a
forma de transformação. Pode ser por mordida do vampiro, por simples troca de
sangue ou quando o vampiro suga quase todo o sangue e transfere parte do seu
para a vítima. A vítima pode demorar minutos, dias, ou semanas para mudar
totalmente e pode ser de forma tranqüila ou extremamente dolorosa. E além de
tudo isso, a transformação trás consigo alguns poderes. Talvez não sejam
exatamente poderes, mas seus sentidos e força são aumentados. A audição, visão
e olfato ficam várias vezes mais aguçados (daí a sensibilidade a muita luz,
barulho excessivo e fortes cheiros). Com isso a percepção de sangue (sua fonte
de sobrevivência) fica mais clara podendo-se chegar a sentir o cheiro do sangue
de dentro das pessoas. As lendas são inúmeras e de vários tipo, mas o que todas
elas tem em comum é que sem sangue, os vampiros viram bestas, saem para caçar e
não importa quem apareça em sua frente: eles não verão nada a não ser uma fonte
de alimento. ”
Parei por aí.
Essa revista parecia contar minha vida nas últimas três semanas. Perdi duas
delas, mas agora tinha uma pista do que aconteceu. Comecei a fazer analogias
entre o que li na revista e o que me aconteceu de ontem para hoje. Consegui
quebrar a porta de madeira da cabana que estava trancada, corri até chegar aqui
sem me cansar, ouvi minha mãe e a conversa dela com meu pai dentro de casa,
quando ela não me ouvia, não conseguia abrir os olhos na luz; o cheiro do banheiro
me pareceu ácido injetado no nariz e senti o cheiro das árvores, animais que
estavam longe e do sangue das pessoas fora que vi a veia pulsando no pescoço
daquele homem. Tudo isso sem contar que bebi o sangue dele e foi... estupendo.
Essa revista me descrevia totalmente. A única parte que não me lembrava é da
transformação. Nem um flash, nada. Agora já devia ser de manhã. Estava confuso,
mas ao mesmo tempo aliviado em saber que as coisas estavam ficando mais claras.
Desci e resolvi dar uma limpada no galpão. Como a claridade me incomodava pus o
óculos e melhorou. Fui ao banheiro, lavei-o até ficar aceitável, depois
procurei alguma coisa que me ajudasse com a luz. Achei latas viradas de óleo e
graxa. Abri uma delas com a mão e mistureis os restos. Passei nos pedaços de
vidro que sobraram das janelas e o resto cobri com os plásticos que estavam no
chão. Subi e olhei atentamente. Já tinha organizado os papéis só faltava limpar
o chão. Olhei bem o esfregão que estava na minha mão e olhei o chão. Não teria
mais o que fazer então deixei a preguiça de lado e comecei a faxina. Tirei as
teias de aranha, limpei o arquivo e a mesa e varri o chão. Quando acabei de
limpar tudo já era de tarde. Devia ser umas três, então desci, e olhei bem.
Ainda faltava limpar a parte de baixo. Comecei a limpar perto do banheiro para
que quando entrasse não sujasse tudo. Logo era noite e precisava sair um pouco
para me distrair. Devia ser umas cinco ou seis horas. Tirei a tira de pano do
cabelo e deixei-o livre. Passei a mão tentando desgrenhá-lo um pouco e respirei
fundo. Ouvi um barulho na porta. Eram os garotos da noite anterior. Senti pelo
cheiro, mas eles não estavam sozinhos. Devia haver... eles com... dois outros
garotos. Não havia meninas com eles. Eles entraram e começaram a gritar.
— Ei cara,
onde você está? Aparece!
— Estou aqui,
o que vocês querem, eu disse para não voltarem. Vocês já foram avisados.
— Olha só o
cara. – todos riram sarcasticamente — tá
se achando. Quero ver você encarar nós quatro.
Eles estavam
com paus, tacos e um deles, o que parecia mais velho, portava uma arma. Os
garotos com os paus vieram para cima de mim. Esquivei-me de todos os golpes e
acertei um no nariz como fiz com o gordo no beco, um no estomago e um na curva
da perna, atrás do joelho, tão rapidamente que eles nem puderam me ver
totalmente para se defender. O que estava armado estava atônito. Peguei o que
soquei no nariz que era o que estava menos pior e o segurei com o braço para
trás.
— Solta ele
cara se não eu atiro em você.
— Sério. Você vai
atirar mesmo?
— Tô falando
sério. Larga ele!
— E se eu não
fizer o que você esta pedindo?
— Eu já disse
que atiro.
— Vai em
frente.
Nana&Karol
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