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12 agosto, 2012

Capítulo 6


Abri os olhos lentamente, pisquei muitas vezes tentando me acostumar com a claridade e vi tudo passar de turvo a perfeitamente claro em poucos instantes. Tentei me levantar, mas minha cabeça parecia pesada demais para se apoiar no meu pescoço e caí. Fechei os olhos e levei a mão à cabeça muito rapidamente para quem acaba de cair numa...cama. Tentei me sentar dessa vez mais cuidadosamente e consegui. Olhei em volta. Vi que estava sentado numa cama. Havia uma cadeira, um criado mudo ao lado com um copo vazio e uma janela trancada com inúmeros cadeados. O quarto era rústico.
Eu estava vestido com a mesma roupa do jantar, mas sem meu relógio e sem a corrente que minha mãe havia me dado no meu último aniversário com um pequeno pingente oval onde estava escrito meu nome. Passei a mão pelo cabelo que estava desgrenhado e levantei da cama. Andei cambaleando um pouco até chegar a uma porta. Abri-a e vi outro cômodo parecido com uma sala. Havia um sofá de canto grande, uma mesa de centro, uma estante com uma TV enorme e vários DVDs e uma bancada que dividia a sala da cozinha. A cozinha tinha um armário, uma geladeira e um fogão de quatro bocas. Desci o batente que separava o quarto do resto da casa. Vi outra porta na lateral e olhei.
Era um banheiro comum e não muito grande. Andei até a porta principal e vi que estava totalmente trancada como a janela do quarto e as do resto da casa. Tinha uns papéis no chão perto da porta. Abaixei-me e peguei eu conseguia ver nitidamente apesar da claridade ainda me incomodar. Não sei por que se a casa estava toda fechada e quase não havia luz dentro dela. Os papéis eram panfletos ofertando guias para trilhas e equipamento para escalada.  O panfleto era datado de treze de março, duas semanas depois do dia da festa e não parecia novo, estava pisado e com marcas de lama. Havia duas semanas ou mais que eu estava fora de casa. Sentei-me no sofá ainda atordoado e tentei organizar minhas ideias para entender o que aconteceu.
A última coisa de que me lembro é de ter ganhado um carro do meu pai como presente pela minha aprovação na faculdade e de estar indo para a casa da Verônica para um jantar. Não me lembrava de ter chegado nem de mais nada, só de acordar naquela cabana. Fui ao banheiro não por necessidade, mas para tentar encontrar um espelho para ver como eu estava. A visão que tive me deixou mais assustado do que qualquer vez em que já estive na vida. Meu cabelo estava totalmente bagunçado —  mas isso eu já esperava — , meus olhos estavam esbranquiçados e alarmados e qualquer vestígio de azul sumira.
Abri a boca num susto e percebi que meus caninos estavam pontiagudos. Afastei-me do espelho atordoado e corri para a porta. Inútil, estava trancada. Passei a mão pelo cabelo e senti algo como uma marca no meu pescoço. Corri de volta para o banheiro e afastei o cabelo da nuca. Havia duas marquinhas vermelho-púrpuras rodeadas com manchinhas num tom de roxo quase nulo. O vermelho era sangue coagulado, pois também estava em todo o meu pescoço. Saí correndo para a porta novamente dessa vez desesperado e esmurrei-a sem esperanças de abrí-la, mas com toda a força que eu consegui reunir. Os trincos e a porta quebraram e voaram pedaços de madeira para longe.
Estava começando a escurecer, mas a luz quase me cegou. Coloquei a mão nos olhos e aos poucos consegui ver que tinha árvores por perto, muitas árvores. Eu corri entre elas sem saber onde estava nem para onde ia chorando compulsivamente. Meu cabelo batia nos meus olhos que eu não queria lembrar que estavam brancos e grudava no meu rosto. Eu passava a mão tentando me livrar dele e corria cada vez mais rápido como se eu pudesse escapar de mim mesmo. Corri e chorei como se isso fosse me fazer voltar ao normal.
Queria ir pra casa e encontrar meus pais que certamente me ajudariam a entender o que aconteceu comigo. Corri mais ainda com essa ideia na cabeça e encontrei uma estrada. Corri pela estrada na esperança de encontrar um carro para pedir carona. Depois de mais ou menos cinco quilômetros correndo —  não me pergunte como, pois nem eu sabia de onde estava vindo toda aquela disposição —  vi uma luz. Era um caminhão. Parei e acenei loucamente para ele. Graças a Deus ele parou.
— Garoto o que você faz aqui sozinho? Está escurecendo.
— Eu não sei. Eu acordei numa cabana e consegui chegar até aqui.
— Mas não tem cabanas, casas nem nada parecido nessa área.
— Eu corri até chegar a essa estrada.
— Mas a única área na qual você poderia ter estado era a reserva e fica a muitos quilômetros daqui.
— Eu não sei onde estava. Só quero sair daqui.
— Tudo bem, vou te dar a lanterna pra você subir no caminhão pelo outro lado. Tem uma parte quebrada e está escuro. Você pode se machucar. – ele pegou uma lanterna e balançou, depois acendeu. E se inclinou para me entregar. —  Oh meu Deus o que...
Ele deixou a lanterna cair e acelerou o caminhão saindo em disparada. Chorei. Por frustração, ódio, medo, desesperança. Lembre-me de como devia estar minha aparência e aceitei o fato de que eu não conseguiria carona, teria que andar. Não me sentia cansado de forma nenhuma. Acho que a corrida me fez bem. Não sentia minha visão turva nem meus olhos doíam. Respirei fundo, senti o cheiro da noite, reconheci odores diferentes: pneu, asfalto, terra, plantas, animais... sangue. A esse pensamento eu salivei como se estivesse diante de um banquete. Assustado eu corri na direção que estava antes de pedir carona. Corri muito. Parava às vezes, mas quando sentia que havia pessoas por perto eu corria novamente por duas razões: primeira que eu os assustaria novamente como fiz com o caminhoneiro. Depois, que cada vez que eu sentia alguém se aproximar eu só conseguia sentir cheiro de... sangue. E não só isso. Eu gostava, salivava e isso me fazia ter medo de mim mesmo. Nessas vagas horas eu corria até não sentir mais vontade de...comer. Só isso me vinha na cabeça. Comer. Mas comer o que se nada me lembrava comida?

***
Eram mais ou menos quatro da manhã quando cheguei à minha casa. Havia um jornal em frente à porta. Peguei e vi que era do dia dezesseis de março, quase três semanas depois do dia que recebi a notícia da faculdade. O último dia que me lembro antes de hoje. Ia tocar a campainha, mas vi minha mãe passando pela sala agarrada a um porta-retrato, vestida numa camisola e envolta num roupão. Achei estranho ela estar acordada àquela hora, pois acordava sempre cedo e deveria estar dormindo para descansar. Olhei melhor e reconheci o porta-retrato. Nele tinha uma foto minha vestido para o baile do ano retrasado. Lembro bem daquela noite. Tinha acabado de fazer dezesseis anos e ia para o baile com a garota mais bonita da escola. Jennifer tinha quinze anos, loira, olhos verdes. Vestia um vestido rosa claro curto com alças bem finas enfeitado com babados que iam de pouco abaixo do busto até o final do vestido, na metade da coxa. Do lado esquerdo, no peito, havia uma linda flor com ramos pendurados e detalhes prateados. Calçava um sapato muito delicado rosa choque que contrastava com o vestido. Seu cabelo estava preso num coque perfeitamente desarrumado onde finas e onduladas mechas caiam sobre sua face angelical. Havia presilhas minúsculas e brilhantes no cabelo. Com uma maquiagem leve seu rosto ficou ainda mais puro. Linda. Estávamos juntos havia um mês e nos dávamos muito bem. Antes dela tive várias namoradas casuais, mas nenhuma era tão legal. Depois do baile continuamos juntos por uns dois meses até que ela viajou para os EUA onde os pais dela iam começar num trabalho novo. Foi ruim no início, mas depois vieram outras e a Verônica...
Saí das minhas lembranças com a memória estranha que tive da Verônica. Na verdade não era estranha, foi a primeira vez que a vi na festa, mas ela me pareceu desconhecida. Olhei para o rosto da minha mãe e vi dor. Uma dor imensa e havia lágrimas. Ela chorava muito e olhava para minha foto. Eu senti uma tristeza imensa quando a vi daquele jeito então bati na janela.
--- Mãe. Mãe olha pra cá. Abre a porta, porque você está chorando? Mãe, mãe.
Eu chamava e ela não ouvia. Continuei chamando até que me vi gritando. Ela levantou a cabeça e parou. Acho que me ouviu. Continuei chamando e batendo. Ela se virou para a janela vagarosamente e me viu ali chamando. Eu sorri para ela.
— Mãe o que aconteceu, preciso falar com você. Por favor, abre a porta. Preciso de você.
— Caine, Caine, meu filho você voltou? Você está vivo? Caine!
Ela chorava copiosamente e gritava com uma expressão mista de dor, dúvida, alívio e alegria. Eu não entendi porque ela perguntou se eu estava vivo. Claro que eu estava. Eu passei um tempo fora, mas não morri. Porque ela perguntou aquilo? Daí eu baixei um pouco a vista e vi no aparador um cartão onde estava escrito:

“É com imensa dor que enviamos nossos pêsames pelo falecimento trágico do seu amado e querido filho, Sr. e Sra. Ventrue. Ele estará eternamente vivo em nossa lembrança.
Família Hanson”

Eu não entendi absolutamente nada. Eu vi minha mãe cair no chão, desmaiada e tive impulso de entrar, mas meu pai desceu correndo as escadas e eu tive receio do que poderia acontecer. Sai da janela e fiquei de um lado onde eu não poderia ser visto.
— Lorenna, Lorenna o que aconteceu? —  e quando a viu no chão correu em sua direção pegando-a a o pondo-a no sofá. —  Lorenna o que houve? Acorda, meu amor, o que aconteceu?
— O Caine, eu o vi, ele estava aqui, na janela. Onde está o Caine? Ele subiu? Ele está no quarto? Responda-me Rich!
— Meu amor o Caine não está aqui. Ele não voltou nem poderá. Ele está morto, querida. Já conversamos sobre isso. Eu sinto muito meu bem, mas o nosso Caine não voltará.
Eles choravam a minha perda, mas eu estava vivo. Como poderia? Decidi ir até porta e tocar a campainha. Eles não podiam pensar que eu estava morto. Tropecei em algo e olhei para trás. Era o jornal que eu tinha pegado para ver a data. Ele estava aberto agora na sessão policial. Eu vi a manchete e quase caí para trás.

“Descoberta a causa da morte do adolescente Caine Ventrue”

            Parei abismado diante do jornal e abaixei incrédulo para pegá-lo. Então meus pais estavam falando a verdade? Eu estava “morto”? Sentei na escadinha da entrada e comecei a ler o jornal:

“O estudante Caine Ventrue de dezessete anos foi encontrado sem vida em seu carro numa estrada localizada próximo a sua casa, na noite de vinte e sete de fevereiro do corrente ano quando voltava de uma recepção na casa da sua namorada, Verônica Malkavian. O carro se chocou com uma árvore à aproximadamente 180 quilômetros por hora e pegou fogo. O corpo foi encontrado entre o carro e a árvore totalmente desfigurado e só foi reconhecido pelos pais do jovem, Richard e Lorenna Ventrue por causa de um relógio e uma corrente que o rapaz usava na noite do acidente. O freio travou e o rapaz perdeu o controle do carro até que na curva bateu o carro. Seus pais declararam...”

Já havia lido o bastante. Eu não me lembrava nem de haver chegado à festa quanto mais de ter voltado e morrido. A única coisa que eu sabia era que mataria meus pais do coração se aparecesse sem respostas depois de tanto tempo. Eles enterraram um corpo e choraram uma morte que não eram meus e eu precisava encontrar uma explicação plausível para tudo isso. Eu não poderia continuar sem uma vida, sem meus pais. Precisava de respostas e a única pessoa que me vinha à mente era Verônica Malkavian.

Nana&Karol

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