Abri os olhos
lentamente, pisquei muitas vezes tentando me acostumar com a claridade e vi
tudo passar de turvo a perfeitamente claro em poucos instantes. Tentei me
levantar, mas minha cabeça parecia pesada demais para se apoiar no meu pescoço
e caí. Fechei os olhos e levei a mão à cabeça muito rapidamente para quem acaba
de cair numa...cama. Tentei me sentar dessa vez mais cuidadosamente e consegui.
Olhei em volta. Vi que estava sentado numa cama. Havia uma cadeira, um criado
mudo ao lado com um copo vazio e uma janela trancada com inúmeros cadeados. O
quarto era rústico.
Eu estava
vestido com a mesma roupa do jantar, mas sem meu relógio e sem a corrente que
minha mãe havia me dado no meu último aniversário com um pequeno pingente oval
onde estava escrito meu nome. Passei a mão pelo cabelo que estava desgrenhado e
levantei da cama. Andei cambaleando um pouco até chegar a uma porta. Abri-a e
vi outro cômodo parecido com uma sala. Havia um sofá de canto grande, uma mesa
de centro, uma estante com uma TV enorme e vários DVDs e uma bancada que
dividia a sala da cozinha. A cozinha tinha um armário, uma geladeira e um fogão
de quatro bocas. Desci o batente que separava o quarto do resto da casa. Vi
outra porta na lateral e olhei.
Era um
banheiro comum e não muito grande. Andei até a porta principal e vi que estava
totalmente trancada como a janela do quarto e as do resto da casa. Tinha uns
papéis no chão perto da porta. Abaixei-me e peguei eu conseguia ver nitidamente
apesar da claridade ainda me incomodar. Não sei por que se a casa estava toda
fechada e quase não havia luz dentro dela. Os papéis eram panfletos ofertando
guias para trilhas e equipamento para escalada.
O panfleto era datado de treze de março, duas semanas depois do dia da
festa e não parecia novo, estava pisado e com marcas de lama. Havia duas
semanas ou mais que eu estava fora de casa. Sentei-me no sofá ainda atordoado e
tentei organizar minhas ideias para entender o que aconteceu.
A última coisa
de que me lembro é de ter ganhado um carro do meu pai como presente pela minha
aprovação na faculdade e de estar indo para a casa da Verônica para um jantar.
Não me lembrava de ter chegado nem de mais nada, só de acordar naquela cabana.
Fui ao banheiro não por necessidade, mas para tentar encontrar um espelho para
ver como eu estava. A visão que tive me deixou mais assustado do que qualquer
vez em que já estive na vida. Meu cabelo estava totalmente bagunçado — mas isso eu já esperava — , meus olhos
estavam esbranquiçados e alarmados e qualquer vestígio de azul sumira.
Abri a boca
num susto e percebi que meus caninos estavam pontiagudos. Afastei-me do espelho
atordoado e corri para a porta. Inútil, estava trancada. Passei a mão pelo
cabelo e senti algo como uma marca no meu pescoço. Corri de volta para o banheiro
e afastei o cabelo da nuca. Havia duas marquinhas vermelho-púrpuras rodeadas
com manchinhas num tom de roxo quase nulo. O vermelho era sangue coagulado,
pois também estava em todo o meu pescoço. Saí correndo para a porta novamente
dessa vez desesperado e esmurrei-a sem esperanças de abrí-la, mas com toda a
força que eu consegui reunir. Os trincos e a porta quebraram e voaram pedaços
de madeira para longe.
Estava
começando a escurecer, mas a luz quase me cegou. Coloquei a mão nos olhos e aos
poucos consegui ver que tinha árvores por perto, muitas árvores. Eu corri entre
elas sem saber onde estava nem para onde ia chorando compulsivamente. Meu
cabelo batia nos meus olhos que eu não queria lembrar que estavam brancos e
grudava no meu rosto. Eu passava a mão tentando me livrar dele e corria cada
vez mais rápido como se eu pudesse escapar de mim mesmo. Corri e chorei como se
isso fosse me fazer voltar ao normal.
Queria ir pra
casa e encontrar meus pais que certamente me ajudariam a entender o que
aconteceu comigo. Corri mais ainda com essa ideia na cabeça e encontrei uma
estrada. Corri pela estrada na esperança de encontrar um carro para pedir
carona. Depois de mais ou menos cinco quilômetros correndo — não me pergunte como, pois nem eu sabia de
onde estava vindo toda aquela disposição —
vi uma luz. Era um caminhão. Parei e acenei loucamente para ele. Graças
a Deus ele parou.
— Garoto o que
você faz aqui sozinho? Está escurecendo.
— Eu não sei.
Eu acordei numa cabana e consegui chegar até aqui.
— Mas não tem
cabanas, casas nem nada parecido nessa área.
— Eu corri até
chegar a essa estrada.
— Mas a única
área na qual você poderia ter estado era a reserva e fica a muitos quilômetros
daqui.
— Eu não sei
onde estava. Só quero sair daqui.
— Tudo bem,
vou te dar a lanterna pra você subir no caminhão pelo outro lado. Tem uma parte
quebrada e está escuro. Você pode se machucar. – ele pegou uma lanterna e
balançou, depois acendeu. E se inclinou para me entregar. — Oh meu Deus o que...
Ele deixou a
lanterna cair e acelerou o caminhão saindo em disparada. Chorei. Por
frustração, ódio, medo, desesperança. Lembre-me de como devia estar minha
aparência e aceitei o fato de que eu não conseguiria carona, teria que andar.
Não me sentia cansado de forma nenhuma. Acho que a corrida me fez bem. Não
sentia minha visão turva nem meus olhos doíam. Respirei fundo, senti o cheiro
da noite, reconheci odores diferentes: pneu, asfalto, terra, plantas,
animais... sangue. A esse pensamento eu salivei como se estivesse diante de um
banquete. Assustado eu corri na direção que estava antes de pedir carona. Corri
muito. Parava às vezes, mas quando sentia que havia pessoas por perto eu corria
novamente por duas razões: primeira que eu os assustaria novamente como fiz com
o caminhoneiro. Depois, que cada vez que eu sentia alguém se aproximar eu só
conseguia sentir cheiro de... sangue. E não só isso. Eu gostava, salivava e
isso me fazia ter medo de mim mesmo. Nessas vagas horas eu corria até não
sentir mais vontade de...comer. Só isso me vinha na cabeça. Comer. Mas comer o
que se nada me lembrava comida?
***
Eram mais ou
menos quatro da manhã quando cheguei à minha casa. Havia um jornal em frente à
porta. Peguei e vi que era do dia dezesseis de março, quase três semanas depois
do dia que recebi a notícia da faculdade. O último dia que me lembro antes de
hoje. Ia tocar a campainha, mas vi minha mãe passando pela sala agarrada a um
porta-retrato, vestida numa camisola e envolta num roupão. Achei estranho ela
estar acordada àquela hora, pois acordava sempre cedo e deveria estar dormindo
para descansar. Olhei melhor e reconheci o porta-retrato. Nele tinha uma foto
minha vestido para o baile do ano retrasado. Lembro bem daquela noite. Tinha
acabado de fazer dezesseis anos e ia para o baile com a garota mais bonita da
escola. Jennifer tinha quinze anos, loira, olhos verdes. Vestia um vestido rosa
claro curto com alças bem finas enfeitado com babados que iam de pouco abaixo
do busto até o final do vestido, na metade da coxa. Do lado esquerdo, no peito,
havia uma linda flor com ramos pendurados e detalhes prateados. Calçava um
sapato muito delicado rosa choque que contrastava com o vestido. Seu cabelo
estava preso num coque perfeitamente desarrumado onde finas e onduladas mechas
caiam sobre sua face angelical. Havia presilhas minúsculas e brilhantes no
cabelo. Com uma maquiagem leve seu rosto ficou ainda mais puro. Linda.
Estávamos juntos havia um mês e nos dávamos muito bem. Antes dela tive várias
namoradas casuais, mas nenhuma era tão legal. Depois do baile continuamos
juntos por uns dois meses até que ela viajou para os EUA onde os pais dela iam
começar num trabalho novo. Foi ruim no início, mas depois vieram outras e a
Verônica...
Saí das minhas
lembranças com a memória estranha que tive da Verônica. Na verdade não era
estranha, foi a primeira vez que a vi na festa, mas ela me pareceu
desconhecida. Olhei para o rosto da minha mãe e vi dor. Uma dor imensa e havia
lágrimas. Ela chorava muito e olhava para minha foto. Eu senti uma tristeza
imensa quando a vi daquele jeito então bati na janela.
--- Mãe. Mãe
olha pra cá. Abre a porta, porque você está chorando? Mãe, mãe.
Eu chamava e
ela não ouvia. Continuei chamando até que me vi gritando. Ela levantou a cabeça
e parou. Acho que me ouviu. Continuei chamando e batendo. Ela se virou para a
janela vagarosamente e me viu ali chamando. Eu sorri para ela.
— Mãe o que
aconteceu, preciso falar com você. Por favor, abre a porta. Preciso de você.
— Caine,
Caine, meu filho você voltou? Você está vivo? Caine!
Ela chorava
copiosamente e gritava com uma expressão mista de dor, dúvida, alívio e
alegria. Eu não entendi porque ela perguntou se eu estava vivo. Claro que eu
estava. Eu passei um tempo fora, mas não morri. Porque ela perguntou aquilo?
Daí eu baixei um pouco a vista e vi no aparador um cartão onde estava escrito:
“É
com imensa dor que enviamos nossos pêsames pelo falecimento trágico do seu
amado e querido filho, Sr. e Sra. Ventrue. Ele estará eternamente vivo em nossa
lembrança.
Família
Hanson”
Eu não entendi
absolutamente nada. Eu vi minha mãe cair no chão, desmaiada e tive impulso de
entrar, mas meu pai desceu correndo as escadas e eu tive receio do que poderia
acontecer. Sai da janela e fiquei de um lado onde eu não poderia ser visto.
— Lorenna,
Lorenna o que aconteceu? — e quando a
viu no chão correu em sua direção pegando-a a o pondo-a no sofá. — Lorenna o que houve? Acorda, meu amor, o que
aconteceu?
— O Caine, eu
o vi, ele estava aqui, na janela. Onde está o Caine? Ele subiu? Ele está no
quarto? Responda-me Rich!
— Meu amor o
Caine não está aqui. Ele não voltou nem poderá. Ele está morto, querida. Já
conversamos sobre isso. Eu sinto muito meu bem, mas o nosso Caine não voltará.
Eles choravam
a minha perda, mas eu estava vivo. Como poderia? Decidi ir até porta e tocar a
campainha. Eles não podiam pensar que eu estava morto. Tropecei em algo e olhei
para trás. Era o jornal que eu tinha pegado para ver a data. Ele estava aberto
agora na sessão policial. Eu vi a manchete e quase caí para trás.
“Descoberta
a causa da morte do adolescente Caine Ventrue”
Parei
abismado diante do jornal e abaixei incrédulo para pegá-lo. Então meus pais
estavam falando a verdade? Eu estava “morto”? Sentei na escadinha da entrada e
comecei a ler o jornal:
“O estudante
Caine Ventrue de dezessete anos foi encontrado sem vida em seu carro numa
estrada localizada próximo a sua casa, na noite de vinte e sete de fevereiro do
corrente ano quando voltava de uma recepção na casa da sua namorada, Verônica
Malkavian. O carro se chocou com uma árvore à aproximadamente 180 quilômetros
por hora e pegou fogo. O corpo foi encontrado entre o carro e a árvore
totalmente desfigurado e só foi reconhecido pelos pais do jovem, Richard e
Lorenna Ventrue por causa de um relógio e uma corrente que o rapaz usava na
noite do acidente. O freio travou e o rapaz perdeu o controle do carro até que
na curva bateu o carro. Seus pais declararam...”
Já havia lido
o bastante. Eu não me lembrava nem de haver chegado à festa quanto mais de ter
voltado e morrido. A única coisa que eu sabia era que mataria meus pais do
coração se aparecesse sem respostas depois de tanto tempo. Eles enterraram um
corpo e choraram uma morte que não eram meus e eu precisava encontrar uma
explicação plausível para tudo isso. Eu não poderia continuar sem uma vida, sem
meus pais. Precisava de respostas e a única pessoa que me vinha à mente era
Verônica Malkavian.
Nana&Karol
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