Subi correndo
para o meu quarto, escolhi uma roupa e fui tomar banho. Lavei o cabelo e sequei
com a própria toalha. Não iria secar totalmente, mas não daria tempo de
esperar. Vesti a roupa e desci. Saí eufórico de casa para conhecer um pouco
mais da minha misteriosa e envolvente namorada. Despedi-me rapidamente dos meus
pais, algo que me faria arrepender-me amargamente pouco depois. Peguei o carro
que já estava do lado de fora e fui ao endereço que eu nunca freqüentei. O
máximo que vi foi a entrada. A casa da Verônica ficava dois bairros depois do
meu. Estava frio em Londres (nada fora do normal), mas aquela noite parecia
diferente. Eu usava um blazer preto e uma camisa azul marinho por baixo que, de
certa forma, marcava meu peito e braços definidos por causa dos treinos do time
de futebol da escola. Eu era atacante, mas não jogaria na faculdade apesar de
fazê-lo muito bem. Eu me dedicaria totalmente à medicina. Para completar minha
roupa usava uma calça preta, com sapato social preto. A casa dela ficava num
lugar um pouco afastado, tinha um jardim imenso e florido, perfeitamente
tratado. O portão era de ferro com um símbolo que eu não identifiquei de lugar
nenhum. Havia vários carros parados no estacionamento do jardim. Parei em
frente à porta, entreguei a chave ao manobrista e logo a verônica apareceu. Ela
usava um vestido preto que alcançava a panturrilha, sem alças com detalhes
prateados que brilhavam e pareciam dançar ao redor do seu corpo modelado.
Calçava um sapato prata com um salto finíssimo (mais um deles) que eu quase não
enxerguei. Seu longo cabelo caia sobre seu colo e costas como uma cascata.
— Você está
lindo.
— Se eu estou
lindo, você me deixou sem palavras para te definir.
Ela me beijou
rapidamente e me levou para dentro da mansão. Havia uma escadaria que levava à
gigantesca porta de madeira na qual estava entalhado o mesmo símbolo
desconhecido. Dentro da casa era magnífico. Iluminada à meia luz por um lustre
imenso de vidro. O símbolo se repetia no chão da sala. Havia um grande espaço
no meio e poltronas localizadas de forma circular ao redor da sala que como
tudo naquela casa era gigantesca. Havia quadros antigos nas paredes de pessoas
trajando roupas de diferentes épocas. Elas se pareciam muito, como membros
próximos de uma mesma família. Os quadros estavam dispostos em fila nas paredes
laterais da sala e estavam em sequência cronológica da direita para a esquerda
de acordo com as vestes. Havia cerca de vinte pessoas distribuídas
irregularmente e de certa forma informalmente pela sala, mas que adquiriram uma
postura mais rígida quando eu entrei. Pendurei meu casaco e Verônica me
conduziu por entre as pessoas até o pai dela. Ele trajava um terno preto que
lhe caia tão bem que parecia ter sido feito nele assim como todos os outros
homens o que me fez sentir-me inadequado.
— Papai.
Verônica o
chamou carinhosa, mas respeitosamente. Ele virou-se e me encarou. Seus olhos
redondos verdes e aguçados me pareceram esbranquiçados quando ele me olhou.
Fiquei assustado quando vi a cor verde voltar, depois confuso e finalmente
esqueci. Mas só me lembraria disso depois. Ele era alto e forte, sua pele era
descomunalmente branca — mas ainda que a
da minha mãe o que me parecia humanamente impossível — cabelo castanho curto, rosto angular de
expressões fortes.
— Olá Caine, é
um prazer conhecê-lo. Fico feliz em recebê-lo em minha casa.
— Obrigado Sr.
Malkavian. Fico igualmente feliz em ser tão bem recepcionado. Sua casa é
maravilhosa.
— Agradeço,
você é um rapaz muito cortês. Minha filha tem muita sorte de... estar com um
rapaz tão qualificado como você. – Ele, assim como Verônica, usava expressões
que me confundiam quanto ao significado que elas adquiriam sendo pronunciadas
em frases nas quais não cabiam.
— Obrigado
senhor.
— Mas vão.
Aproveitem a recepção. Não quero prender-lhes a um velho como eu. Divirtam-se.
— Obrigada
papai, mas não é uma prisão, é um prazer estar em sua companhia.
— A Verônica
tem razão senhor. Sua companhia é muito agradável.
— Oh agradeço,
mas não precisam ficar. Mostre o jardim ao Caine, Verônica.
— Tudo bem,
até já.
Na verdade era
irônico chamá-lo de velho. Ele não aparentava ter mais de 38 anos. Exagerando
40. Mas tendo passado o momento ela me apresentou e cumprimentou algumas
pessoas e fomos passear no jardim. Ela me levou a uma área que ficava na
lateral da casa. Havia espécies variadas e desconhecidas de flores — ao menos para mim — e um banco embaixo de um arco rodeado com
ramos.
— Seu pai é um
verdadeiro lord. Seus olhos são idênticos. —
E rapidamente tive a impressão que deveria lembrar de algo em relação
aos olhos dele.
— Como os seus
e os da Sra. Ventrue. Será mais algo em comum? — e me beijou.
— Esta noite é muito especial. Eu estou muito feliz.
Estávamos de
pé. Ela aproximou-se de mim até ficar a dois passos curtos de distância e
estendeu lentamente seu braço. Apertou minha nuca com uma mão, enrolou meu cabelo
que estava preso com um elástico em sua outra mão e puxou minha cabeça
levemente para o lado direito, mas com força e sensualidade suficientes para
não me deixar outra escolha se não obedecer. Ela me olhou profunda e
calmamente, se inclinou para o meu pescoço e aspirou o cheiro do meu ombro até
atrás da minha orelha. Passou a ponta do nariz na altura da minha mandíbula e
beijou delicadamente meu pescoço e depois ferozmente meus lábios. Uma onda de
calor me invadiu. Senti-me fraco e poderoso, sedento e faminto, mas saciado,
tudo ao mesmo tempo. Beijei-a com ferocidade em resposta e a apertei contra
mim. Ela continuava correspondendo na mesma intensidade. Senti que não a
largaria nunca mais. Depois de algum tempo fomos diminuindo o ritmo e
finalmente paramos. Estávamos ofegantes e ela continuava me abraçando com as
mãos agarradas ao meu cabelo agora emaranhado. Ela riu junto à minha orelha.
— Nossa Caine!
Às vezes você me surpreende.
— Que pena que
seja só às vezes. Você me surpreende sempre.
— É melhor irmos.
Temos um jantar, lembra?
— Não, eu não
lembro — e a beijei novamente.
— Mas eu
lembro por nós dois.
Entramos
depois de nos recompormos e seguimos para o salão de jantar ricamente
decorado. A mesa era enorme de madeira
avermelhada, talhada bem ao estilo clássico e tinha 22 lugares. Estava posta
com louça de porcelana e baixela de prata que continha o mesmo símbolo agora
familiar. Sentei-me ao lado de Verônica
que estava ao lado do pai que por sua vez estava na cabeceira. Os convidados na
mesma posição formal sentaram-se e o Sr. Malkavian iniciou um pequeno discurso.
— Hoje estamos
aqui por um motivo especial. – novamente esta palavra que me persegue desde o
dia em que encontrei Verônica. – Estamos, eu e Verônica, apresentando a vocês
Caine Ventrue.
Assustei-me
com a declaração. Até onde eu sabia a festa já estava marcada. Eu era apenas
mais um convidado. — Caine é filho de
uma tradicional família muito próxima a nós Malkavians, mas que estava perdida
no tempo. Agora estamos aqui reunidos para celebrar esse reencontro. Um brinde
ao reencontro dos Ventrue com os Malkavian. E lembrando que Caine acaba de ser
aceito na faculdade. Então um brinde duplo.
Todos
brindaram solenemente. Fiquei aliviado por ouvir algo familiar, mas eu não
consegui entender o que ele quis dizer com reencontro dos Ventrue com os
Malkavian. Eu nunca tinha ouvido falar nos Malkavian antes de conhecer a
Verônica e tenho certeza que meus pais me falariam algo se soubessem. Alguém
teria que me explicar algo e esse alguém seria a Verônica.
Jantamos
demoradamente. Mais do que o que eu esperava. Estava ansioso para falar com a
Verônica. Foram servidos pratos que eu não conhecia, apesar de ser apreciador
de boa comida, hábito que adquiri com meu pai. O vinho tinha um gosto
diferente. Meio acre, não sei. Algo indescritível. Depois todos foram para a
sala e me cumprimentaram. Agradeci a todos cordialmente e foi assim até o fim
da reunião. Quando as pessoas começaram a ir embora eu chamei a Verônica.
— Precisamos
conversar. Eu quero entender tudo que aconteceu hoje à noite, o porquê dessas
pessoas terem me tratado como uma realeza e o porquê do seu pai ter falado tudo
aquilo.
— Eu já te
disse que você é especial.
— Sim disso
você não me deixa esquecer, só não entendo porque você sempre fala essas coisas
e...
— Calma Caine.
Vamos subir ao meu quarto. Podemos falar melhor lá.
— Mas e seu
pai? Ele não irá se incomodar?
— Não, tudo
bem. Vamos discretamente.
Subimos a
larga escada que ficava no centro da sala. Estava coberta com um carpete
vermelho limpo ao extremo, viramos à direita e passamos por corredores com mais
daqueles quadros lá de baixo, ao mesmo estilo e na mesma ordem cronológica à
medida que adentrávamos mais o lugar. Depois de quatro portas entramos em uma
branca. O quarto dela era incrível. A porta dentro era vermelho escuro. O
carpete era preto e as paredes eram vermelhas como a porta, mas os objetos de
decoração eram todos brancos. Tudo, da cama ao lustre. Estava iluminado à meia
luz e ela sentou-se na cama.
— O que
exatamente te fez agir assim? Nós te damos uma festa e você age como se nunca
estivesse estado em uma.
— Muito pelo
contrário. Eu fui muito cordial com todas essas pessoas que eu nem sequer vi
antes de hoje e esse é exatamente o ponto. Você me falou que havia um jantar e
que eu estava convidado, mas isso não aconteceu. O jantar era em minha
homenagem. E isso não é o pior. Que papo era aquele que se reuniram novamente
as duas famílias. Eu nunca conheci um Malkavian antes de você e seu pai faz um
discurso falando que era bom retomar as velhas amizades.
— Vai ver meus
antepassados conheciam os seus.
— Eu tenho
certeza que você pode me explicar melhor que isso.
— Olha Caine,
eu não sei por que você está tão preocupado. Eu não entendo isso. Por favor,
para de brigar e reclamar comigo. Eu não tive nada haver com isso tudo, ok. Meu
pai ia dar essa festa e eu resolvi te convidar. Só. – Ela se aproximou
lentamente de mim. Estava encostado a uma escrivaninha do outro lado do quarto
de frente para ela. Ela veio caminhando como da primeira vez que eu a vi. Quase
volitando. – Só relaxa um pouco, não precisa fazer todo esse escândalo.
Verônica
pousou a mão no meu peito e me olhou culpadamente. Eu esqueci tudo: o jantar,
as pessoas restantes lá embaixo, o pai dela, a briga, tudo. Eu só via aquela
linda mulher parada na minha frente. Ela me abraçou e sussurrou no meu ouvido
“só relaxa” novamente e me beijou delicadamente no pescoço. Ela tirou meu
blazer me desencostou da escrivaninha. Colocou-me na cadeira da escrivaninha
ainda de frente para ela e tirou o sapato, jogando-os longe, ao lado da cama.
Eu só olhava as ações dela. Ela nunca havia feito nada parecido ao contrário
sempre me repeliu quando as coisas entre nós ficavam mais... quentes. Hoje agia
diferente. Seus olhos estavam perigosos, me cercava como uma leoa cerca uma
presa. Até suas mãos estavam em posição de ataque. Ela se aproximou novamente,
levantou-me, passou a mão pela minha cintura subindo pelas minhas costas e
tirou minha camisa. Estava louco, queria beija-la, abraça-la, a queria, mas ela
sempre agia deixando claro que ela é quem estava no controle da situação. Ela
soltou o elástico do meu cabelo que se espalhou pela minha nuca, aspirou o
cheiro e novamente eu pensei ter visto seus olhos ficarem brancos por um
momento. Ela não dizia nada. Apenas me cercava e me deixava mais louco a cada
momento. Eu a beijava com ferocidade, mas ela me repelia e continuava seu jogo
de gato e rato. Ela me jogou na cama dela e tirou meu cinto. Puxei-a para mim e
tirei seu vestido por cima da cabeça. Ela usava um corpete preto maior um pouco
que a altura do ísquio. Beijei-a novamente devorando sua boca. Não conseguia
pensar tão próximo a ela. Ela agia na mesma ferocidade que eu. Inspirou com
força e no alto da minha alienação achei ter ouvido algo próximo a um rosnado.
Beijava meu pescoço, meu queixo e minha boca em desordem e nunca abria os
olhos. Observava quando podia sua expressão e via uma fera não aquela doce e
misteriosa criatura que eu amava – amava? Ela afastou o cabelo da nuca e eu vi
que suas unhas fizeram um pequeno arranhão no pescoço. Nem tive tempo de dizer
alguma coisa sobre aquilo. Pensei que ela fosse me beijar novamente no pescoço
– o que ela estava fazendo esta noite mais que em qualquer outro dia — mas não. Senti algo perfurar minha pele, algo
pontiagudo que inicialmente só me incomodou um pouco. Senti uma queimação no
local e fiquei tonto, como se tivesse tomado algum alucinógeno. Senti — me
muito, mas muito mal e antes que pudesse reclamar ela me beijou. A dor
incomodava, mas a proximidade era tão boa... Beijei seu pescoço em meio aquela
confusão e senti gosto de sangue nos meus lábios. Eu estava tonto e quase não
consegui enxergar nada, além disso. Só... queimava. Queimava muito, parecia que
uma tocha tinha sido cravada no meu pescoço. Estava lá sem conseguir me mexer,
com os olhos e a boca abertos tentando respirar ou ao menos encontrar uma
explicação lógica para tudo aquilo. Ela saiu de cima de mim e vestiu — se numa
velocidade sobre humana e um segundo depois o Sr. Malkavian entrou pelo quarto
com os olhos estreitos de fúria.
— Sua louca! O
que você fez Verônica Malkavian?
— Pai eu,
eu... não.. sei...
— Você o
mordeu? Responda!
E ele gritou
exalando tanto ódio que mesmo no estado em que me encontrava tremi. Verônica
chorava compulsivamente e não conseguia responder com nenhuma frase completa.
— S...sim.
— Você passou
o seu sangue? Passou?
— Não sei acho
que... sim.
— Você acabou
com os meus planos sua... isso não poderia ter acontecido, eu te disse que
precisávamos ganhar a confiança dele antes. E nem uma missão idiota você
consegue cumprir sua inútil!
—
Des..des...cul...pa, pai.
— Não me chame
de pai. Você sabia desde o começo que não podia se envolver com ele. Eu te
falei que era uma missão. E você falhou até nisso. Quando será que você vai
conseguir arcar com as suas responsabilidades Verônica?
— Você nunca
falou assim comigo pai.
— E você nunca
me decepcionou tanto em toda a sua inútil vida. O que eu faço agora? Ele não
estava preparado ainda. O que deu em você para fazer isso?
— Eu não sei
pai. Eu agi sem pensar, me deixei levar. Ele estava me questionando sobre seu
discurso no jantar e sobre os convidados de honra. Eu não sabia o que fazer.
— E
achou que indo pra cama com ele conseguiria fazê-lo esquecer isso?
— Pai não fale
assim comigo. Eu fiz tudo que pude. Eu me segurei até o último instante.
— Mas não foi
o suficiente. Eu te falei para não se
apaixonar por ele. Seria perigoso demais.
— Mas eu não
estou apaixonada. Ele é muito... bonzinho. Passei esse tempo todo encenando nesse
circo todo que o senhor armou por objetivos que são só seus. Eu só me deixei
levar pela situação. Eu não o amo ouviu? Mas foi mais forte que eu.
— Não fale
nesse tom comigo. Você sabe muito bem que eu não serei o único beneficiado com
tudo isso sua idiota. Você pode não estar apaixonada, mas cedeu e isso é
suficiente para acabar com tudo que passei anos planejando.
Enquanto eles
discutiam sobre coisas que não conseguia entender bem eu estava paralisado na
cama. Quero dizer, quase isso, pois eu me retorcia de dor. A queimação evoluiu
para uma dor terrível e desesperadora. Sentia como se estivesse caindo do monte
Everest, batendo em todas as pedras do caminho e em seguida sendo atropelado
por um caminhão carregado de toras de madeira tudo isso bem lentamente. Eu
estava com os olhos abertos, mas a cada minuto tudo ficava mais turvo. Minhas
mãos se retorciam em volta do pescoço e eu me arranhava como se assim pudesse
drenar a dor do meu corpo.
— O que
faremos com ele?
— Isso é
responsabilidade sua. Só não o mate. Precisaremos dele depois. Agora vá e
resolva o problema que você me causou. Vamos ver se você conseguirá consertar
sua burrada.
— Mas ele não
se lembrará de nada?
— Você se
lembrou?
— Mas eu
pensei...
E saiu batendo
a porta do quarto antes que ela pudesse completar a frase. Depois disso a
última coisa que eu pude perceber em meio àquela dor toda foi ela se aproximar
de mim.
Nana&Karol
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