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04 agosto, 2012

Capítulo 4


Subi correndo para o meu quarto, escolhi uma roupa e fui tomar banho. Lavei o cabelo e sequei com a própria toalha. Não iria secar totalmente, mas não daria tempo de esperar. Vesti a roupa e desci. Saí eufórico de casa para conhecer um pouco mais da minha misteriosa e envolvente namorada. Despedi-me rapidamente dos meus pais, algo que me faria arrepender-me amargamente pouco depois. Peguei o carro que já estava do lado de fora e fui ao endereço que eu nunca freqüentei. O máximo que vi foi a entrada. A casa da Verônica ficava dois bairros depois do meu. Estava frio em Londres (nada fora do normal), mas aquela noite parecia diferente. Eu usava um blazer preto e uma camisa azul marinho por baixo que, de certa forma, marcava meu peito e braços definidos por causa dos treinos do time de futebol da escola. Eu era atacante, mas não jogaria na faculdade apesar de fazê-lo muito bem. Eu me dedicaria totalmente à medicina. Para completar minha roupa usava uma calça preta, com sapato social preto. A casa dela ficava num lugar um pouco afastado, tinha um jardim imenso e florido, perfeitamente tratado. O portão era de ferro com um símbolo que eu não identifiquei de lugar nenhum. Havia vários carros parados no estacionamento do jardim. Parei em frente à porta, entreguei a chave ao manobrista e logo a verônica apareceu. Ela usava um vestido preto que alcançava a panturrilha, sem alças com detalhes prateados que brilhavam e pareciam dançar ao redor do seu corpo modelado. Calçava um sapato prata com um salto finíssimo (mais um deles) que eu quase não enxerguei. Seu longo cabelo caia sobre seu colo e costas como uma cascata.
— Você está lindo.
— Se eu estou lindo, você me deixou sem palavras para te definir.
Ela me beijou rapidamente e me levou para dentro da mansão. Havia uma escadaria que levava à gigantesca porta de madeira na qual estava entalhado o mesmo símbolo desconhecido. Dentro da casa era magnífico. Iluminada à meia luz por um lustre imenso de vidro. O símbolo se repetia no chão da sala. Havia um grande espaço no meio e poltronas localizadas de forma circular ao redor da sala que como tudo naquela casa era gigantesca. Havia quadros antigos nas paredes de pessoas trajando roupas de diferentes épocas. Elas se pareciam muito, como membros próximos de uma mesma família. Os quadros estavam dispostos em fila nas paredes laterais da sala e estavam em sequência cronológica da direita para a esquerda de acordo com as vestes. Havia cerca de vinte pessoas distribuídas irregularmente e de certa forma informalmente pela sala, mas que adquiriram uma postura mais rígida quando eu entrei. Pendurei meu casaco e Verônica me conduziu por entre as pessoas até o pai dela. Ele trajava um terno preto que lhe caia tão bem que parecia ter sido feito nele assim como todos os outros homens o que me fez sentir-me inadequado.
— Papai.
Verônica o chamou carinhosa, mas respeitosamente. Ele virou-se e me encarou. Seus olhos redondos verdes e aguçados me pareceram esbranquiçados quando ele me olhou. Fiquei assustado quando vi a cor verde voltar, depois confuso e finalmente esqueci. Mas só me lembraria disso depois. Ele era alto e forte, sua pele era descomunalmente branca —  mas ainda que a da minha mãe o que me parecia humanamente impossível —  cabelo castanho curto, rosto angular de expressões fortes.
— Olá Caine, é um prazer conhecê-lo. Fico feliz em recebê-lo em minha casa.
— Obrigado Sr. Malkavian. Fico igualmente feliz em ser tão bem recepcionado. Sua casa é maravilhosa.
— Agradeço, você é um rapaz muito cortês. Minha filha tem muita sorte de... estar com um rapaz tão qualificado como você. – Ele, assim como Verônica, usava expressões que me confundiam quanto ao significado que elas adquiriam sendo pronunciadas em frases nas quais não cabiam.
— Obrigado senhor.
— Mas vão. Aproveitem a recepção. Não quero prender-lhes a um velho como eu. Divirtam-se.
— Obrigada papai, mas não é uma prisão, é um prazer estar em sua companhia.
— A Verônica tem razão senhor. Sua companhia é muito agradável.
— Oh agradeço, mas não precisam ficar. Mostre o jardim ao Caine, Verônica.
— Tudo bem, até já.
Na verdade era irônico chamá-lo de velho. Ele não aparentava ter mais de 38 anos. Exagerando 40. Mas tendo passado o momento ela me apresentou e cumprimentou algumas pessoas e fomos passear no jardim. Ela me levou a uma área que ficava na lateral da casa. Havia espécies variadas e desconhecidas de flores —  ao menos para mim —  e um banco embaixo de um arco rodeado com ramos.
— Seu pai é um verdadeiro lord. Seus olhos são idênticos. —  E rapidamente tive a impressão que deveria lembrar de algo em relação aos olhos dele.
— Como os seus e os da Sra. Ventrue. Será mais algo em comum? —  e me beijou.
— Esta noite é muito especial. Eu estou muito feliz.
Estávamos de pé. Ela aproximou-se de mim até ficar a dois passos curtos de distância e estendeu lentamente seu braço. Apertou minha nuca com uma mão, enrolou meu cabelo que estava preso com um elástico em sua outra mão e puxou minha cabeça levemente para o lado direito, mas com força e sensualidade suficientes para não me deixar outra escolha se não obedecer. Ela me olhou profunda e calmamente, se inclinou para o meu pescoço e aspirou o cheiro do meu ombro até atrás da minha orelha. Passou a ponta do nariz na altura da minha mandíbula e beijou delicadamente meu pescoço e depois ferozmente meus lábios. Uma onda de calor me invadiu. Senti-me fraco e poderoso, sedento e faminto, mas saciado, tudo ao mesmo tempo. Beijei-a com ferocidade em resposta e a apertei contra mim. Ela continuava correspondendo na mesma intensidade. Senti que não a largaria nunca mais. Depois de algum tempo fomos diminuindo o ritmo e finalmente paramos. Estávamos ofegantes e ela continuava me abraçando com as mãos agarradas ao meu cabelo agora emaranhado. Ela riu junto à minha orelha.
— Nossa Caine! Às vezes você me surpreende.
— Que pena que seja só às vezes. Você me surpreende sempre.
— É melhor irmos. Temos um jantar, lembra?
— Não, eu não lembro —  e a beijei novamente.
— Mas eu lembro por nós dois.
Entramos depois de nos recompormos e seguimos para o salão de jantar ricamente decorado.  A mesa era enorme de madeira avermelhada, talhada bem ao estilo clássico e tinha 22 lugares. Estava posta com louça de porcelana e baixela de prata que continha o mesmo símbolo agora familiar.  Sentei-me ao lado de Verônica que estava ao lado do pai que por sua vez estava na cabeceira. Os convidados na mesma posição formal sentaram-se e o Sr. Malkavian iniciou um pequeno discurso.
— Hoje estamos aqui por um motivo especial. – novamente esta palavra que me persegue desde o dia em que encontrei Verônica. – Estamos, eu e Verônica, apresentando a vocês Caine Ventrue.
Assustei-me com a declaração. Até onde eu sabia a festa já estava marcada. Eu era apenas mais um convidado. —  Caine é filho de uma tradicional família muito próxima a nós Malkavians, mas que estava perdida no tempo. Agora estamos aqui reunidos para celebrar esse reencontro. Um brinde ao reencontro dos Ventrue com os Malkavian. E lembrando que Caine acaba de ser aceito na faculdade. Então um brinde duplo.
Todos brindaram solenemente. Fiquei aliviado por ouvir algo familiar, mas eu não consegui entender o que ele quis dizer com reencontro dos Ventrue com os Malkavian. Eu nunca tinha ouvido falar nos Malkavian antes de conhecer a Verônica e tenho certeza que meus pais me falariam algo se soubessem. Alguém teria que me explicar algo e esse alguém seria a Verônica.
Jantamos demoradamente. Mais do que o que eu esperava. Estava ansioso para falar com a Verônica. Foram servidos pratos que eu não conhecia, apesar de ser apreciador de boa comida, hábito que adquiri com meu pai. O vinho tinha um gosto diferente. Meio acre, não sei. Algo indescritível. Depois todos foram para a sala e me cumprimentaram. Agradeci a todos cordialmente e foi assim até o fim da reunião. Quando as pessoas começaram a ir embora eu chamei a Verônica.
— Precisamos conversar. Eu quero entender tudo que aconteceu hoje à noite, o porquê dessas pessoas terem me tratado como uma realeza e o porquê do seu pai ter falado tudo aquilo.
— Eu já te disse que você é especial.
— Sim disso você não me deixa esquecer, só não entendo porque você sempre fala essas coisas e...
— Calma Caine. Vamos subir ao meu quarto. Podemos falar melhor lá.
— Mas e seu pai? Ele não irá se incomodar?
— Não, tudo bem. Vamos discretamente.
Subimos a larga escada que ficava no centro da sala. Estava coberta com um carpete vermelho limpo ao extremo, viramos à direita e passamos por corredores com mais daqueles quadros lá de baixo, ao mesmo estilo e na mesma ordem cronológica à medida que adentrávamos mais o lugar. Depois de quatro portas entramos em uma branca. O quarto dela era incrível. A porta dentro era vermelho escuro. O carpete era preto e as paredes eram vermelhas como a porta, mas os objetos de decoração eram todos brancos. Tudo, da cama ao lustre. Estava iluminado à meia luz e ela sentou-se na cama.
— O que exatamente te fez agir assim? Nós te damos uma festa e você age como se nunca estivesse estado em uma.
— Muito pelo contrário. Eu fui muito cordial com todas essas pessoas que eu nem sequer vi antes de hoje e esse é exatamente o ponto. Você me falou que havia um jantar e que eu estava convidado, mas isso não aconteceu. O jantar era em minha homenagem. E isso não é o pior. Que papo era aquele que se reuniram novamente as duas famílias. Eu nunca conheci um Malkavian antes de você e seu pai faz um discurso falando que era bom retomar as velhas amizades.
— Vai ver meus antepassados conheciam os seus.
— Eu tenho certeza que você pode me explicar melhor que isso.
— Olha Caine, eu não sei por que você está tão preocupado. Eu não entendo isso. Por favor, para de brigar e reclamar comigo. Eu não tive nada haver com isso tudo, ok. Meu pai ia dar essa festa e eu resolvi te convidar. Só. – Ela se aproximou lentamente de mim. Estava encostado a uma escrivaninha do outro lado do quarto de frente para ela. Ela veio caminhando como da primeira vez que eu a vi. Quase volitando. – Só relaxa um pouco, não precisa fazer todo esse escândalo.
Verônica pousou a mão no meu peito e me olhou culpadamente. Eu esqueci tudo: o jantar, as pessoas restantes lá embaixo, o pai dela, a briga, tudo. Eu só via aquela linda mulher parada na minha frente. Ela me abraçou e sussurrou no meu ouvido “só relaxa” novamente e me beijou delicadamente no pescoço. Ela tirou meu blazer me desencostou da escrivaninha. Colocou-me na cadeira da escrivaninha ainda de frente para ela e tirou o sapato, jogando-os longe, ao lado da cama. Eu só olhava as ações dela. Ela nunca havia feito nada parecido ao contrário sempre me repeliu quando as coisas entre nós ficavam mais... quentes. Hoje agia diferente. Seus olhos estavam perigosos, me cercava como uma leoa cerca uma presa. Até suas mãos estavam em posição de ataque. Ela se aproximou novamente, levantou-me, passou a mão pela minha cintura subindo pelas minhas costas e tirou minha camisa. Estava louco, queria beija-la, abraça-la, a queria, mas ela sempre agia deixando claro que ela é quem estava no controle da situação. Ela soltou o elástico do meu cabelo que se espalhou pela minha nuca, aspirou o cheiro e novamente eu pensei ter visto seus olhos ficarem brancos por um momento. Ela não dizia nada. Apenas me cercava e me deixava mais louco a cada momento. Eu a beijava com ferocidade, mas ela me repelia e continuava seu jogo de gato e rato. Ela me jogou na cama dela e tirou meu cinto. Puxei-a para mim e tirei seu vestido por cima da cabeça. Ela usava um corpete preto maior um pouco que a altura do ísquio. Beijei-a novamente devorando sua boca. Não conseguia pensar tão próximo a ela. Ela agia na mesma ferocidade que eu. Inspirou com força e no alto da minha alienação achei ter ouvido algo próximo a um rosnado. Beijava meu pescoço, meu queixo e minha boca em desordem e nunca abria os olhos. Observava quando podia sua expressão e via uma fera não aquela doce e misteriosa criatura que eu amava – amava? Ela afastou o cabelo da nuca e eu vi que suas unhas fizeram um pequeno arranhão no pescoço. Nem tive tempo de dizer alguma coisa sobre aquilo. Pensei que ela fosse me beijar novamente no pescoço – o que ela estava fazendo esta noite mais que em qualquer outro dia —  mas não. Senti algo perfurar minha pele, algo pontiagudo que inicialmente só me incomodou um pouco. Senti uma queimação no local e fiquei tonto, como se tivesse tomado algum alucinógeno. Senti — me muito, mas muito mal e antes que pudesse reclamar ela me beijou. A dor incomodava, mas a proximidade era tão boa... Beijei seu pescoço em meio aquela confusão e senti gosto de sangue nos meus lábios. Eu estava tonto e quase não consegui enxergar nada, além disso. Só... queimava. Queimava muito, parecia que uma tocha tinha sido cravada no meu pescoço. Estava lá sem conseguir me mexer, com os olhos e a boca abertos tentando respirar ou ao menos encontrar uma explicação lógica para tudo aquilo. Ela saiu de cima de mim e vestiu — se numa velocidade sobre humana e um segundo depois o Sr. Malkavian entrou pelo quarto com os olhos estreitos de fúria.
— Sua louca! O que você fez Verônica Malkavian?
— Pai eu, eu... não.. sei...
— Você o mordeu? Responda!
E ele gritou exalando tanto ódio que mesmo no estado em que me encontrava tremi. Verônica chorava compulsivamente e não conseguia responder com nenhuma frase completa.
— S...sim.
— Você passou o seu sangue? Passou?
— Não sei acho que... sim.
— Você acabou com os meus planos sua... isso não poderia ter acontecido, eu te disse que precisávamos ganhar a confiança dele antes. E nem uma missão idiota você consegue cumprir sua inútil!
— Des..des...cul...pa, pai.
— Não me chame de pai. Você sabia desde o começo que não podia se envolver com ele. Eu te falei que era uma missão. E você falhou até nisso. Quando será que você vai conseguir arcar com as suas responsabilidades Verônica?
— Você nunca falou assim comigo pai.
— E você nunca me decepcionou tanto em toda a sua inútil vida. O que eu faço agora? Ele não estava preparado ainda. O que deu em você para fazer isso?
— Eu não sei pai. Eu agi sem pensar, me deixei levar. Ele estava me questionando sobre seu discurso no jantar e sobre os convidados de honra. Eu não sabia o que fazer.
— E achou que indo pra cama com ele conseguiria fazê-lo esquecer isso?
— Pai não fale assim comigo. Eu fiz tudo que pude. Eu me segurei até o último instante.
— Mas não foi o suficiente.  Eu te falei para não se apaixonar por ele. Seria perigoso demais.
— Mas eu não estou apaixonada. Ele é muito... bonzinho. Passei esse tempo todo encenando nesse circo todo que o senhor armou por objetivos que são só seus. Eu só me deixei levar pela situação. Eu não o amo ouviu? Mas foi mais forte que eu.
— Não fale nesse tom comigo. Você sabe muito bem que eu não serei o único beneficiado com tudo isso sua idiota. Você pode não estar apaixonada, mas cedeu e isso é suficiente para acabar com tudo que passei anos planejando.
Enquanto eles discutiam sobre coisas que não conseguia entender bem eu estava paralisado na cama. Quero dizer, quase isso, pois eu me retorcia de dor. A queimação evoluiu para uma dor terrível e desesperadora. Sentia como se estivesse caindo do monte Everest, batendo em todas as pedras do caminho e em seguida sendo atropelado por um caminhão carregado de toras de madeira tudo isso bem lentamente. Eu estava com os olhos abertos, mas a cada minuto tudo ficava mais turvo. Minhas mãos se retorciam em volta do pescoço e eu me arranhava como se assim pudesse drenar a dor do meu corpo.
— O que faremos com ele?
— Isso é responsabilidade sua. Só não o mate. Precisaremos dele depois. Agora vá e resolva o problema que você me causou. Vamos ver se você conseguirá consertar sua burrada.
— Mas ele não se lembrará de nada?
— Você se lembrou?
— Mas eu pensei...
E saiu batendo a porta do quarto antes que ela pudesse completar a frase. Depois disso a última coisa que eu pude perceber em meio àquela dor toda foi ela se aproximar de mim.

Nana&Karol 

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