Não era nada
bom ficar no meio daquelas pessoas horríveis e mesquinhas enquanto elas
descarregavam todo seu veneno sobre mim. O Pietro tentou me encontrar, mas não
permitiria que ele falasse mais nada. Ele era um idiota, mais um desses que
aparecem sem razão e vão embora sem motivo não deixando nada de muito
importante em nossas vidas. Aquela v**** que estava com ele agora o merecia.
Ambos eram iguais em seu comportamento, aquele ar superior de quem tem o
controle da situação, de quem pode te fazer encolher até virar nada. Tá bom,
talvez eu esteja com muita raiva. Ok, estou sim com muita raiva, mas isso não
os redime das minhas acusações. Parei de me culpar pelo que havia acontecido
afinal eles fizeram porque quiseram e não porque incentivei de alguma forma.
Apesar de não amar o Pietro sempre dei atenção a ele e a nossa amizade, quero
dizer, namoro foi legal até aquele dia. Senti-me traída como qualquer uma se
sentiria no meu lugar afinal dei um montão do meu tempo para ele e nunca pensei
que terminaríamos daquela forma.
A
escola era uma realidade cada dia mais distante para mim. Novamente me sentia
como se não pertencesse àquele mundo onde fui colocada. É claro que amava meus
pais e minhas amigas-irmãs, mas isso não me impedia de sentir falta de algo
mais. Sempre achei que teria um verdadeiro lar em algum outro lugar para mim,
com pessoas que me preencheriam. Com alguém que me completasse. Esse sentimento
sempre me remetia a apenas um lugar: Londres.
Aquela cidade era cheia de sombras
para mim. Sonhava acordada com o dia que chegaria até lá, que sentiria o seu
cheiro, veria as pessoas diferentes das daqui...
— Bom Dia! Nós viemos te buscar,
venha conosco para o nosso planeta.
— O que?
— Agora você prestou atenção não
foi?
— O que eu perdi?
— A metade da aula
— Nossos
papéis de advertência.
— O Carlos
levando uma bronca por estar com os fones de ouvido.
— Ah então não
foi grande coisa.
— Charlotte! –
Falaram em uníssono.
— Estava
brincando.
— Ok. Vamos
sair, ir ao shopping sei lá. Você não me parece muito bem. – Disse-me Julie com
voz meiga e preocupada.
— Não. Vamos
lá pra casa, ou melhor, para o clube. Preciso de um banho frio para esquecer
minha vida.
— Ainda está
preocupada por causa do Pietro? Olha ele não merec....
— Não é isso,
calma Glória. Não estou preocupada com ele, afinal isso é passado.
— E o Michael está aí para provar!
— Não é bem
assim Anne. É que estou meio confusa, mas não sei bem porque. Devo estar
cansada daqui.
— O que? Não
acredito que disse isso. – Falou Glória ultrajada.
— Vocês me
entenderam muito bem, não é isso que estou falando. Adoro vocês e não sei como
teria suportado essas – e abaixando a voz e olhando pelo conto do olho para os
lados— cobras sem a sua ajuda. Não estou
cansada das minhas amigas nem dos meus pais. Só dessas outras pessoas que são
inúteis, dessa vida chata...
— Lá vem ela
com essas crises de identidade. – Falou Julie com voz de criança e beijou no
rosto me abraçando.
— Tá, tudo
bem. Também estou cheia de me lamentar. Vamos nos divertir!
Dei um
gritinho de “uhu” enquanto pegávamos nossas coisas e corríamos para o clube
perto da escola. Lá era muito legal, havia duas piscinas, uma de adulto com
marcadores olímpicos e uma infantil. Eram separadas por uma grade de proteção
por causa das crianças. Vai que algum adulto bobão entra lá e mata alguma
criança sem querer.Vestimos nossos biquinis apesar das meninas não quererem entrar
logo na água.
— Alô mãe? Estou no clube com as meninas.
Estava precisando respiar e me distrair.
— Ainda o
Pietro? – ela me perguntou do outro lado da linha. Será que todo mundo só
conseguia pensar naquele cara quando eu estava querendo esquecê-lo totalmente?
— Não mãe, só
aquele cansaço normal do mundo.
— Ah, entendi.
Mais uma crise de identidade.
— Mãe você
está igual às meninas. Elas me falaram exatamente isso. Você se parece mais com
elas que eu.
— Tudo bem meu
amor, pode ficar e se divertir.
— Obrigada
mãe. Até mais.
— Até meu
anjinho.
Guardei o
celular na bolsa e pulei na piscina. Nadei por algum tempo que para mim
pareceram horas intermináveis de pura sensação de esquecimento. Algo me
preocupava não sabia o quê. Não iria deixar isso me afetar. Talvez estivesse
sentindo que algo ruim iria acontecer. Não a mim, mas a alguém que gosto.
Almocei com as
meninas, brincamos um pouco na água e fomos para casa. Falei com a mamãe e fui
para o quarto tomar um bom banho. Entrei na banheira e relaxei. Não a usava
muito, mas de uns tempos para cá era a minha parte preferida da casa. Coloquei
uma toalha abaixo da nuca e me aconcheguei. Dormi. Não calmamente, mas
confusamente. Sonhei que estava num campo com árvores. Havia uma brisa leve e
refrescante e começava a escurecer. Olhei bem ao redor que me parecia familiar
no sonho. Não, na verdade não escurecia. O sol estava raiando. Era lindo: uma
explosão de cores vívidas e calmantes se espalhava lentamente pelo horizonte me
deixando entorpecida em meio a tanta beleza e suntuosidade. Algo me chamou
atenção e me desviou do sol me tirando do meu estado de calmaria. Um homem, na
verdade um não muito mais velho que eu dava pequenos e lentos passos atrás de
mim, em minha direção. Não consegui ver exatamente seu rosto, pois a luz do sol
resplandecia sobre ele iluminando-o como a um anjo. Sorri para ele em
reconhecimento, mas eu não o conhecia. Ele se aproximou mais e pegou minhas
mãos ainda sorrindo. Sua pele era macia em contato com a minha e com aqueles
simples toque pude ter a certeza de que tudo na minha vida era lindo, simples e
homogêneo. Queria realmente vê-lo, mas não conseguia. A única coisa que via era
o contorno do seu cabelo que caia negro pelos ombros e brilhava como o céu na
noite enfeitado de estrelas. Ele me disse que eu estava linda mesmo sem mexer
os lábios. Era como se ele pensasse para mim e eu ouvisse. Dei uma rápida
olhada para ele que vestia uma camisa de mangas compridas e calça folgada
brancas e depois em mim. Até agora não tinha reparado em mim mesma, mas estava
realmente linda. Com um simples vestido caído sobre mim emoldurando meu corpo e
esvoaçando em torno dos meus tornozelos. Ele me abraçou e passou seus dedos
entre meus cabelos. Afastou-se um pouco e me olhou profundamente. Não vi muito
bem seus olhos, mas senti seu olhar perfurando o meu. Ele se inclinou para mim
ficando na minha frente. Finalmente conseguiria ver seu rosto na sombra que o
meu causaria, mas tudo se esvaiu da mesma forma que começou. O celular estava
tocando e me levantei para atender ainda confusa com o sonho que não estava
conseguindo me lembrar muito bem.
— Alô?
— Oi
Charlotte, é o Michael, tô te atrapalhando?
— Não Michael
imagina pode falar.
— Tudo bem.
Olha, queria te chamar pra sair. Tomar alguma coisa. Pode ser?
— Olha Michael,
eu agradeço, mas é que você sabe o que aconteceu com o Pietro e...
— Como amigos.
Somos amigos agora não é mesmo?
— Sim, claro.
Então tudo bem. Vamos.
— Passo em
meia hora pra te buscar.
— Tudo bem.
Até já.
— Até.
Não sabia o
que fazer. Ele estava sendo tão bonzinho que não tive coragem de negar. Além do
mais eu não ia ficar pensando na morte da bezerra em casa. Ia mais era me
divertir.
— Mãe um amigo
meu me chamou para passear agora de tarde posso ir?
— Quem é?
— O Michael,
que me trouxe pra casa da festa lembra?
— Ah sim. Tudo
bem, mas volta cedo tá.
— Viu, mãe.
Obrigada.
Nem me despedi
direito e ele já estava na porta buzinando. Vesti uma calça jeans, um All Star
e uma camiseta. Ele estava basicamente como eu. Fomos a um boliche. Pedimos um
lanche e ficamos lá conversando sobre a escola, viagens, pessoas que
conhecíamos em comum e outras besteiras. Havia tempo que não me divertia tanto
com alguém que não fosse as minhas amigas. Depois fomos jogar. Eu era toda
desajeitada e quase caí com a bola na mão.
— Te avisei
que não sabia jogar. Estou passando vergonha.
— Que é isso.
Ta vendo aquele cara ali no canto com uma garota? Ela está dando um banho nele.
O cara é horrível. Não sei se você é pior que ele.
— Tudo bem
você me animou muito agora. – Ele riu carinhosamente.
— Tudo bem.
Vou te ajudar. Está vendo esses buracos na bola? Você coloca esses dedos aqui.
Isso mesmo e para jogar você fica desse jeito.
Ele me
mostrava todos os lugares de pôr as mãos e os pés para não cair quando jogasse
a bola. Ele segurou minha cintura e me posicionou corretamente. Senti calor
através da sua mão. Era agradável. Ele era uma pessoa muito boa. Olhei-o para
perguntar a altura do braço para poder jogar na mesma hora em que ele se virava
para me explicar exatamente isso e ficamos frente a frente, com nossos rostos
quase colados por um segundo. Ele desviou o olhar e se distanciou um pouco.
— Desculpa,
não quis te forçar nada...
— Tudo bem,
foi sem querer.
Dei-lhe um
pequeno beijo nos lábios levemente antes de voltar ao jogo. Ele sorriu para mim
e voltou a me ajudar. Foi muito divertido passar aquela tarde com ele. Sem
Pietro, sem as patis da escola, longe de todo mundo.
Já era sete da
noite e pedi para ir embora. Queria jantar em casa com a mamãe e o papai. Ele
me levou alegre. Quando chegamos em casa, antes de descer ele me deu um beijo
rápido.
— Hoje foi
muito divertido Michael, mas não quero que...
— Tudo bem. Já
te disse que somos amigos.
— Obrigada.
Preciso entrar, boa noite.
— Boa noite.
Fui para a
cozinha encontrar a minha mãe. Contei a ela como havia sido a minha tarde e ela
ficou muito feliz por mim. Subi para tomar uma ducha antes do jantar. É
inacreditável como aqui faz calor. Entrei no chuveiro e quando sai me secando
comecei a recordar do sonho. Lembrei daquele desconhecido que me abraçava com
tanto reconhecimento. Senti uma paz dentro de mim e fiquei ainda mais feliz com
o meu dia. Jantei e fui para a cama. Estava exausta.
Nana&Karol
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