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04 agosto, 2012

Capítulo 3


Não era nada bom ficar no meio daquelas pessoas horríveis e mesquinhas enquanto elas descarregavam todo seu veneno sobre mim. O Pietro tentou me encontrar, mas não permitiria que ele falasse mais nada. Ele era um idiota, mais um desses que aparecem sem razão e vão embora sem motivo não deixando nada de muito importante em nossas vidas. Aquela v**** que estava com ele agora o merecia. Ambos eram iguais em seu comportamento, aquele ar superior de quem tem o controle da situação, de quem pode te fazer encolher até virar nada. Tá bom, talvez eu esteja com muita raiva. Ok, estou sim com muita raiva, mas isso não os redime das minhas acusações. Parei de me culpar pelo que havia acontecido afinal eles fizeram porque quiseram e não porque incentivei de alguma forma. Apesar de não amar o Pietro sempre dei atenção a ele e a nossa amizade, quero dizer, namoro foi legal até aquele dia. Senti-me traída como qualquer uma se sentiria no meu lugar afinal dei um montão do meu tempo para ele e nunca pensei que terminaríamos daquela forma.
            A escola era uma realidade cada dia mais distante para mim. Novamente me sentia como se não pertencesse àquele mundo onde fui colocada. É claro que amava meus pais e minhas amigas-irmãs, mas isso não me impedia de sentir falta de algo mais. Sempre achei que teria um verdadeiro lar em algum outro lugar para mim, com pessoas que me preencheriam. Com alguém que me completasse. Esse sentimento sempre me remetia a apenas um lugar: Londres.
            Aquela cidade era cheia de sombras para mim. Sonhava acordada com o dia que chegaria até lá, que sentiria o seu cheiro, veria as pessoas diferentes das daqui...
            — Bom Dia! Nós viemos te buscar, venha conosco para o nosso planeta.
            — O que?
            — Agora você prestou atenção não foi?
            — O que eu perdi?
            — A metade da aula
— Nossos papéis de advertência.
— O Carlos levando uma bronca por estar com os fones de ouvido.
— Ah então não foi grande coisa.
— Charlotte! – Falaram em uníssono.
— Estava brincando.
— Ok. Vamos sair, ir ao shopping sei lá. Você não me parece muito bem. – Disse-me Julie com voz meiga e preocupada.
— Não. Vamos lá pra casa, ou melhor, para o clube. Preciso de um banho frio para esquecer minha vida.
— Ainda está preocupada por causa do Pietro? Olha ele não merec....
— Não é isso, calma Glória. Não estou preocupada com ele, afinal isso é passado.
—  E o Michael está aí para provar!
— Não é bem assim Anne. É que estou meio confusa, mas não sei bem porque. Devo estar cansada daqui.
— O que? Não acredito que disse isso. – Falou Glória ultrajada.
— Vocês me entenderam muito bem, não é isso que estou falando. Adoro vocês e não sei como teria suportado essas – e abaixando a voz e olhando pelo conto do olho para os lados—  cobras sem a sua ajuda. Não estou cansada das minhas amigas nem dos meus pais. Só dessas outras pessoas que são inúteis, dessa vida chata...
— Lá vem ela com essas crises de identidade. – Falou Julie com voz de criança e beijou no rosto me abraçando.
— Tá, tudo bem. Também estou cheia de me lamentar. Vamos nos divertir!
Dei um gritinho de “uhu” enquanto pegávamos nossas coisas e corríamos para o clube perto da escola. Lá era muito legal, havia duas piscinas, uma de adulto com marcadores olímpicos e uma infantil. Eram separadas por uma grade de proteção por causa das crianças. Vai que algum adulto bobão entra lá e mata alguma criança sem querer.Vestimos nossos biquinis apesar das meninas não quererem entrar logo na água.
—  Alô mãe? Estou no clube com as meninas. Estava precisando respiar e me distrair.
— Ainda o Pietro? – ela me perguntou do outro lado da linha. Será que todo mundo só conseguia pensar naquele cara quando eu estava querendo esquecê-lo totalmente?
— Não mãe, só aquele cansaço normal do mundo.
— Ah, entendi. Mais uma crise de identidade.
— Mãe você está igual às meninas. Elas me falaram exatamente isso. Você se parece mais com elas que eu.
— Tudo bem meu amor, pode ficar e se divertir.
— Obrigada mãe. Até mais.
— Até meu anjinho.
Guardei o celular na bolsa e pulei na piscina. Nadei por algum tempo que para mim pareceram horas intermináveis de pura sensação de esquecimento. Algo me preocupava não sabia o quê. Não iria deixar isso me afetar. Talvez estivesse sentindo que algo ruim iria acontecer. Não a mim, mas a alguém que gosto.
Almocei com as meninas, brincamos um pouco na água e fomos para casa. Falei com a mamãe e fui para o quarto tomar um bom banho. Entrei na banheira e relaxei. Não a usava muito, mas de uns tempos para cá era a minha parte preferida da casa. Coloquei uma toalha abaixo da nuca e me aconcheguei. Dormi. Não calmamente, mas confusamente. Sonhei que estava num campo com árvores. Havia uma brisa leve e refrescante e começava a escurecer. Olhei bem ao redor que me parecia familiar no sonho. Não, na verdade não escurecia. O sol estava raiando. Era lindo: uma explosão de cores vívidas e calmantes se espalhava lentamente pelo horizonte me deixando entorpecida em meio a tanta beleza e suntuosidade. Algo me chamou atenção e me desviou do sol me tirando do meu estado de calmaria. Um homem, na verdade um não muito mais velho que eu dava pequenos e lentos passos atrás de mim, em minha direção. Não consegui ver exatamente seu rosto, pois a luz do sol resplandecia sobre ele iluminando-o como a um anjo. Sorri para ele em reconhecimento, mas eu não o conhecia. Ele se aproximou mais e pegou minhas mãos ainda sorrindo. Sua pele era macia em contato com a minha e com aqueles simples toque pude ter a certeza de que tudo na minha vida era lindo, simples e homogêneo. Queria realmente vê-lo, mas não conseguia. A única coisa que via era o contorno do seu cabelo que caia negro pelos ombros e brilhava como o céu na noite enfeitado de estrelas. Ele me disse que eu estava linda mesmo sem mexer os lábios. Era como se ele pensasse para mim e eu ouvisse. Dei uma rápida olhada para ele que vestia uma camisa de mangas compridas e calça folgada brancas e depois em mim. Até agora não tinha reparado em mim mesma, mas estava realmente linda. Com um simples vestido caído sobre mim emoldurando meu corpo e esvoaçando em torno dos meus tornozelos. Ele me abraçou e passou seus dedos entre meus cabelos. Afastou-se um pouco e me olhou profundamente. Não vi muito bem seus olhos, mas senti seu olhar perfurando o meu. Ele se inclinou para mim ficando na minha frente. Finalmente conseguiria ver seu rosto na sombra que o meu causaria, mas tudo se esvaiu da mesma forma que começou. O celular estava tocando e me levantei para atender ainda confusa com o sonho que não estava conseguindo me lembrar muito bem.
— Alô?
— Oi Charlotte, é o Michael, tô te atrapalhando?
— Não Michael imagina pode falar.
— Tudo bem. Olha, queria te chamar pra sair. Tomar alguma coisa. Pode ser?
— Olha Michael, eu agradeço, mas é que você sabe o que aconteceu com o Pietro e...
— Como amigos. Somos amigos agora não é mesmo?
— Sim, claro. Então tudo bem. Vamos.
— Passo em meia hora pra te buscar.
— Tudo bem. Até já.
— Até.
Não sabia o que fazer. Ele estava sendo tão bonzinho que não tive coragem de negar. Além do mais eu não ia ficar pensando na morte da bezerra em casa. Ia mais era me divertir.
— Mãe um amigo meu me chamou para passear agora de tarde posso ir?
— Quem é?
— O Michael, que me trouxe pra casa da festa lembra?
— Ah sim. Tudo bem, mas volta cedo tá.
— Viu, mãe. Obrigada.
Nem me despedi direito e ele já estava na porta buzinando. Vesti uma calça jeans, um All Star e uma camiseta. Ele estava basicamente como eu. Fomos a um boliche. Pedimos um lanche e ficamos lá conversando sobre a escola, viagens, pessoas que conhecíamos em comum e outras besteiras. Havia tempo que não me divertia tanto com alguém que não fosse as minhas amigas. Depois fomos jogar. Eu era toda desajeitada e quase caí com a bola na mão.
— Te avisei que não sabia jogar. Estou passando vergonha.
— Que é isso. Ta vendo aquele cara ali no canto com uma garota? Ela está dando um banho nele. O cara é horrível. Não sei se você é pior que ele.
— Tudo bem você me animou muito agora. – Ele riu carinhosamente.
— Tudo bem. Vou te ajudar. Está vendo esses buracos na bola? Você coloca esses dedos aqui. Isso mesmo e para jogar você fica desse jeito.
Ele me mostrava todos os lugares de pôr as mãos e os pés para não cair quando jogasse a bola. Ele segurou minha cintura e me posicionou corretamente. Senti calor através da sua mão. Era agradável. Ele era uma pessoa muito boa. Olhei-o para perguntar a altura do braço para poder jogar na mesma hora em que ele se virava para me explicar exatamente isso e ficamos frente a frente, com nossos rostos quase colados por um segundo. Ele desviou o olhar e se distanciou um pouco.
— Desculpa, não quis te forçar nada...
— Tudo bem, foi sem querer.
Dei-lhe um pequeno beijo nos lábios levemente antes de voltar ao jogo. Ele sorriu para mim e voltou a me ajudar. Foi muito divertido passar aquela tarde com ele. Sem Pietro, sem as patis da escola, longe de todo mundo.
Já era sete da noite e pedi para ir embora. Queria jantar em casa com a mamãe e o papai. Ele me levou alegre. Quando chegamos em casa, antes de descer ele me deu um beijo rápido.
— Hoje foi muito divertido Michael, mas não quero que...
— Tudo bem. Já te disse que somos amigos.
— Obrigada. Preciso entrar, boa noite.
— Boa noite.
Fui para a cozinha encontrar a minha mãe. Contei a ela como havia sido a minha tarde e ela ficou muito feliz por mim. Subi para tomar uma ducha antes do jantar. É inacreditável como aqui faz calor. Entrei no chuveiro e quando sai me secando comecei a recordar do sonho. Lembrei daquele desconhecido que me abraçava com tanto reconhecimento. Senti uma paz dentro de mim e fiquei ainda mais feliz com o meu dia. Jantei e fui para a cama. Estava exausta.

Nana&Karol

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