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27 julho, 2012

Capítulo 2


Eu era bom. Antes de tudo isso eu era bom. Meus pais são maravilhosos. Eles não mereciam isso. Eles não mereciam minha “morte”. Eu estudava na Cambright High School, tinha muitos amigos, era um bom aluno e estava com tudo preparado para entrar na faculdade. Minha bolsa estava em minhas mãos e foi por causa dela que tudo aconteceu. Tenho uma namorada. Ou melhor, tinha. Nós estávamos juntos havia quase um ano. Verônica Malkavian. Conhecemo-nos numa festa da faculdade na qual o primo do Marcus, meu melhor amigo, estuda.
— Qual é cara, você não pode perder essa festa. Meu primo é o melhor organizador de festas que você vai chegar a conhecer. O cara é demais! E você está pensando em ficar em casa estudando?
— Estou sim, não vejo problema. Olha Marcus, eu preciso fazer uma prova amanhã e ainda não peguei no livro.
— Besteira Caine! Você volta cedo, garanto. Eu sei que você não pode deixar seus livros e sua mamãezinha. Ela morreria com sua ausência...
— Tá, cara, eu vou, mas eu preciso voltar cedo. Amanhã eu acordo mais cedo e estudo antes da prova. Mas tem certeza que é tudo legal nessa festa?
— Cara você se preocupa demais. Parece uma garota. Uma garota não, porque as garotas da faculdade dão de dez a zero nas do colégio. Você vai enlouquecer com elas.
— Quero só ver se essa festa vai ser isso tudo que você está prometendo.
— Vai ser muito melhor meu amigo.
E lá nos fomos. Nunca pensei que depois dessa festa minha vida mudaria tanto. Lá conheci a Verônica. Ela estava vestindo um vestido curto e vermelho-sangue com um grande decote. Seus olhos verdes se destacavam totalmente no meio daquela neblina formada pela sua maquiagem escura. Sua boca era vermelha, da mesma cor do vestido. Seu cabelo era longo e castanho escuro, mas na luz adquiria uma tonalidade avermelhada como mogno. Usava um salto finíssimo que a fazia mais alta ainda. Ela não andava. Ela volitava. Nunca tinha visto uma mulher tão linda como aquela. E o que mais me impressionou não foi a beleza dela. Foi ela ter vindo falar comigo. Sua voz era perfeitamente clara e adocicada quando falou.
— Oi, percebi que você está sozinho e um cara tão lindo não pode permanecer assim. Posso te fazer companhia?
— Na verdade...
— Olha cara, eu estou indo ta. Vou falar com meu primo, cumprimentar umas pessoas, nos vemos depois, – e tão baixo que só eu pude ouvir – cara você se deu bem, aproveita.
— Seu amigo não é muito discreto.
— O que?
— Esquece. Vamos falar de nós. Seus olhos são lindos. São da sua mãe?
Minha mãe tem os olhos azuis profundos. Seu cabelo é castanho, quase loiro, não é muito alta, tem a pele muito clara e é muito amorosa. Ela me trata como se eu fosse uma eterna criança apesar dos meus recém completados dezessete anos. Meu pai tinha olhos verdes, cabelos negros, a pele um tom mais escura que a da minha mãe. Não era tão pálido quanto ela aparentava ser. Herdei exatamente o cabelo negro do meu pai e os olhos expressivos e azuis da minha mãe. Só não sei como ela sabia disso. Cada segundo que ficava ao lado dela me sentia mais atraído.
— É, são sim. Você é a garota mais linda daqui. – Ok eu realmente não devia ter dito isso. Logo depois me senti o cara mais retardado da festa.
— Eu sou a mulher mais linda daqui. Mas obrigada. Valeu a tentativa.
Ela me retificou e sorriu. Um sorriso branco como uma nuvem num dia claro. Surpreendentemente branco.
— Desculpe. Eu só gostaria de saber o que levou uma mulher como você a vir falar com um cara como eu.
— Você é... interessante. –Ela falou depois de um momento —  Gostei de você. Eu te vi.
Ok, eu não entendi o sentido de “vi”, mas estava pouco me importando. Estava enlouquecendo com ela ali tão próxima.
— Aqui está muito barulhento. Se você quiser podemos sair e ir para um lugar mais tranqüilo.
— Pensei que teria que te convidar.
Fomos para o jardim, num lugar onde tinham tantas plantas que até parecia uma floresta. Havia um banco de madeira. Sentamos lá.
— Até agora eu não sei o seu nome.
— Meu nome é Verônica Malkavian, Caine.
— Como você sabe o meu nome?
— Eu ouvi seu amigo dizer.
— Mas ele não disse.
— Isso realmente importa? –Não, não importava mesmo.
— Não. Você estuda aqui?
— Não. Eu sou amiga do Robert.
— Não conheço.
— Não tem problema. Você estuda aqui?
—  Não, eu...
E antes que eu a respondesse ela me beijou. Não sei se a conversa estava tão chata que ela quis fechar minha boca de alguma forma ou se fez de propósito, mas foi o melhor beijo da minha vida. E eu não tinha poucas experiências, ao contrário. Já tive várias namoradas, algumas sérias, outras nem tanto, mas esse beijo foi incomparável. Eu senti uma energia explodir dentro de mim. Senti meu sangue ferver abaixo da minha pele e podia ouvir meu coração bater. Foi algo surreal. Não conseguia falar depois que o beijo acabou. Parei de sentir tudo isso, mas eu não queria.
— Foi inacreditável.
— É? Só inacreditável?
— Foi mais que isso, mas eu não conheço palavras para definir esse momento, foi... uma explosão, foi surreal.
— Agora sim, eu estou mais satisfeita com a definição.
E ela me beijou de novo me fazendo sentir tudo aquilo novamente. Nós trocamos telefone e eu passei o resto do meu tempo pensando nela. Verônica nunca falou sobre família. A única coisa que soube é que ela tinha um pai que ela admirava como a uma entidade suprema. Mas nunca fomos apresentados. Ela ia pouco à minha casa e sempre tentava me convencer de que precisava sair de lá, largar minha vida dependente. Dizia que eu precisava amadurecer e fazer minhas próprias escolhas. Só que eu já fazia minhas próprias escolhas. Na verdade ela não queria que eu me libertasse de coisa alguma. Sua intenção era que eu passasse a depender de outra coisa, ou melhor, de outra pessoa...
— Você é muito especial Caine.
— Mesmo? De que forma?—  eu sempre a respondia e a beijava em seguida. Eu estava apaixonado por ela. Verônica era algo indispensável na minha vida desde aquela noite.
— De todas as formas possíveis. E você nem imagina o quanto.
— Eu te amo, sabia?
— Você me diz isso sempre, Caine. Eu também gosto muito de você.
Ela sempre me dizia que eu era especial, mas nunca me dizia como. E ela nunca me disse “eu te amo”. Mas eu não percebia isso. Não percebia nada ao lado dela. Afastei-me dos meus amigos e da minha família, mas ela queria mais.
— Você passa tanto tempo com seus amigos. Você precisa conhecer gente nova. Ver outras caras.
— Mas gosto dos meus amigos. Não vejo problema algum neles.
— Você precisa viver novas experiências, crescer. Eu tenho 19 anos. Você tem 17. Você não percebeu que estamos cada dia mais parecidos? Você só precisa freqüentar os mesmos lugares que eu e encontrar as mesmas pessoas.
— O que você pretende com isso?
— Nos aproximar mais.
— Estou começando a gostar disso. Você nunca falou assim antes. Sempre pareceu na defensiva.
— É que estávamos nos conhecendo. Precisava saber quem você realmente era.
— Você fala coisas confusas, às vezes sem nexo. Eu não entendo. Parece que você pensa coisas que não quer dizer. Ou não pode dizer e solta fios para eu desvendar...
— Bem que falei que estávamos cada dia mais parecidos.
E ela sempre escapava das minhas perguntas me beijando, pois sabia que perdia a noção da vida quando fazia isso. Eu só queria ter descoberto as intenções dela um dia mais cedo.
Estava na reta final das provas escolares. Minha bolsa na faculdade estava pra ser aceita e eu estava totalmente apreensivo. Minha mãe me dava muita força e era nela que me refugiava quando estava fora de mim de tão nervoso. Ela sempre sabia o que me dizer e como me acalmar, mesmo quando eu achava que tudo ia dar errado.
— Caine, querido, você é demais. Você sabe que está preparado para tudo isso e que tudo vai dar certo.
— Mas mãe, eu estava tão nervoso na hora da entrevista. Eu não sabia o que fazer quando o entrevistador me perguntou por que eu queria entrar na faculdade.
— Eu tenho certeza que você se saiu muito bem. Além do mais é um ótimo aluno. Você é especial meu filho e eu te amo por isso. Você é tão bondoso e sincero; tenho certeza que tudo isso contará a favor.
— A Verônica sempre me diz isso. Que eu sou especial, não que eu vou entrar pra faculdade. Na verdade ela acha isso tudo uma bobagem.
— Nunca escondi de você que eu não gosto dessa garota. Ela me parece sombria e misteriosa. Em minha opinião ela não fala o que sente nem o que pensa. Parece-me mais como um personagem. E nunca te apoia nas suas decisões, ela te impõe vontades dela.
— Mãe eu te amo, mas eu amo a Verônica. Eu não gosto quando você fala assim dela.
— Será mesmo que você a ama? Eu acho que tudo isso é só uma paixonite adolescente.
— Não mãe, eu sei bem o que sinto. Quando estou com a Verônica eu me sinto vivo, renovado. Eu sinto sangue correndo nas minhas veias.
— Meu Deus! Nunca imaginei que fosse tão forte. Só não acho que isso seja bom para você.
— Não se preocupe mãe. Eu continuo o mesmo.
— Será que continua mesmo?
Duas semanas depois da entrevista recebi a resposta: tinha sido admitido na faculdade. Ia cursar medicina. Queria ser cirurgião neurologista. Fiquei tão feliz que pensei que fosse explodir.
— Está vendo Caine. Eu te falei que tudo ia dar certo.
— Sua mãe tinha razão. Você será um ótimo médico meu filho.
— Obrigado pai, vocês não imaginam como estou feliz.
— Que bom que tudo deu certo, Caine. Isso merece uma comemoração. Hoje à noite meu pai dará uma festa. Seria uma ótima oportunidade de apresentá-los.
— Eu acho que o Caine deveria comemorar com os amigos e a família dele.
— Eu concordo Sra. Ventrue, mas ele pode fazer isso amanhã. É só um jantar e além do mais seria ótimo para o Caine conhecer meu pai.
— É mãe, é só uma noite. Não haverá problema. Amanhã comemoramos a vontade. E depois eu não conheço o Sr. Malkavian, será bom encontrar meu sogro.
— Eu ainda discordo, mas a vitória é sua. Escolha como quer comemorar.
— Por isso que eu te amo mãe.
— Filho, quero te dar algo de presente.
— Você sabe que não precisa pai.
— Claro que precisa. Meu único filho entrou para a faculdade. Merece algo. Achei que seu carro estava um pouco fora de moda e resolvi trocar. Só daria no seu aniversário de dezoito, mas pensei bem e vi que a ocasião merecia uma comemoração especial. — Novamente essa palavra.
— Mas pai, meu carro só tem um ano.
— Quase dois. E isso não importa. Deixe-me ter uma desculpa para te dar um presente que quero dar.
Nós vivíamos bem. Meu pai era cientista. Ele estava trabalhando num projeto novo. Trabalhava com mutações genéticas em animais. Minha mãe era professora da Cambright High School. Ela não precisaria trabalhar se não quisesse, mas adora crianças e odeia monotonia. Não deixaria seu trabalho por nada nesse mundo. Morávamos num triplex. No térreo ficava a garagem com o meu carro, o da minha mãe e do meu pai, ao lado uma sala de estar, uma sala de jogos, a sala de TV e um banheiro social. No primeiro andar havia um lavabo, a cozinha, a sala de jantar e o escritório do meu pai que mais parecia um mini laboratório super equipado. No segundo andar ficavam as cinco suítes: uma dos meus pais, a minha e as de hóspedes.
— Mas você nem sabia se eu iria passar.
— É claro que eu sabia. Confio em você.
— Ah pai obrigada.
— Você merece Caine, mas vamos logo ver esse carro que já estou ansioso.
Fomos ver o carro. Já estava na garagem. Os olhos da minha mãe estavam aguçados de curiosidade exatamente como os meus. A Verônica estava sem expressão como era geralmente. Ela só esboçava reação quando eu fazia alguma pergunta que ela não queria responder.
— É perfeito pai. Demais!
 O carro era um 911 Turbo S Cabriolet Grafite. Lindo. O carro perfeito. Compacto e rápido. São 315 km por hora. Antes eu tinha um Citroën C5 prata que era maior, mais alto. Estável, mas sem tanta velocidade (exigências da minha mãe). Gosto de correr, sentir o vento cortando a pele do meu rosto, meu cabelo longo voando. Certo que com o frio o carro teria que estar quase sempre fechado, mas estávamos no verão então não haveria problemas.
— Agora você pode ir para a festa com um carro decente. Estou muito orgulhoso de você meu filho.
— Obrigado pai, espero poder corresponder sempre às suas expectativas.
— Você já o faz Caine.
— Bom, eu odeio atrapalhar, mas preciso ir. O jantar será em menos de três horas e preciso me arrumar.
— Eu te levo lá fora.
— Obrigada, até mais Sr. e Sra. Ventrue.
— Até mais Verônica.
— Até. Cuide bem do Caine logo mais.
— Pai, eu não sou mais criança. Eu é que devo cuidar da Verônica.
— Que seja, que seja.
— Que horas será o jantar?
— Às nove.
— Bom, até as nove.
— Até. Não se atrase, Caine. É importante para mim. Para nós dois.
— Está bem, não se preocupe.
E nos beijamos demoradamente. Eu ainda sentia tudo aquilo que senti da primeira vez só que cada vez mais intenso. A cada dia que nos aproximávamos eu me sentia mais apaixonado. Era aterrador. Ela se foi e eu voltei para a garagem para contemplar meu carro novo. Entrei nele, senti o cheiro de carro novo. Passei a mão no painel, peguei no volante, deslizei o dedo sobre a superfície e decidi dar uma volta para experimentar. Mesmo com o frio abri o carro. Avisei meus pais que iria sair e sob as recomendações de cuidado da minha mãe subi a rua que levava à estrada. Acelerei aos poucos e cada vez mais. Corri, mas senti que voava. O vento, os aromas, a vista. Empolguei-me tanto que perdi a hora. Quando vi já eram sete e meia. Precisava voltar, eu tinha uma festa para ir. Estava atrasado para acabar com a minha vida.

Nana&Karol

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